Não é, porém, apenas na realidade dita objetiva que se inscrevem os vazios e lacunas. Como afirma Paolone, em Hilarotragoedia o reconhecimento do descontínuo mina, igualmente, a “fittizia graniticità dell’ego”58. A estratégia operativa de Manganelli consiste em fazer coincidir o pseudotratado e o itinerário catabático, eludindo a linearidade do eu do narrador por meio de uma visão policêntrica, e do eu do leitor por meio das divagações. O sujeito manganelliano é um sujeito cindido: uma pluralidade “degli io confederati e rissosi” reunidos sob um “nome e cognome” e que “possono subitamente dipartirsi”59. Postula-se, pois, a identidade como uma expectativa, não como um dado de fato; e a idéia de sujeito como um resultado do esforço para reduzir ao uno os “nostri nomina e numina interiori”60.
A literatura manganelliana demonstra, pois, preferência pelos estados psíquicos que manifestam essa cisão do sujeito. Faz-se literatura da noite61, privilegiando o onírico e os estados em que a pretensa clareza da razão cede lugar ao obscuro e ao não inteligível. Não é
56
MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.110.
57
“na verdade, a única via segura é o golpe preciso nas cartas, nos dados, na jogatina das tavernas: a exatidão do acaso.” (MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.97.)
58
“fictícia graniticidade do ego” (PAOLONE. Il cavaliere immaginale, p.68.)
59
[...] uma pluralidade de “eus confederados e briguentos” reunidos sob um “nome e sobrenome” e que “podem subitamente partir-se” (MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.53 e 55.)
60
“nossos nomina e numina interiores”. As palavras nomina e numina aparecem em latim na edição italiana (Cf. MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.58). Nilson Moulin opta por traduzi-las, na edição brasileira, como “nossas denominações e numinosidades interiores” (Cf. MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.78.)
61
casual que uma das figuras de retórica mais comuns no texto manganelliano seja o oxímoro, em que se evidencia a recíproca alteridade de opostos conjugados. Pode-se afirmar, como o faz Paolone, que o oxímoro é a meta da “aventura retórica hilarotrágica”62, pois, à medida que o tratado vai se aproximando do Hades, desfazem-se progressivamente os princípios metafísicos que tudo dispõem sob a rígida distinção de ser e não ser. O movimento catabático hilarotrágico é uma precipitação entelequial rumo à indistinção originária, que se expressa por uma “simmetrizzazione dell’immaginazione linguistica”63. Isso significa que, por meio de aliterações e anominações, Hilarotragoedia cria uma tensão ao antilogismo no processo de constituição de sentido pelo leitor. São procedimentos que sugerem sentidos formados pelo tratamento do assimétrico como se fosse simétrico, e o inverso de qualquer relação como idêntico à relação64. Esse mecanismo é o mesmo que permite ao narrador de Hilarotragoedia fazer coincidir o hadestinado com o próprio Hades: “Sei il dannato; e, insieme, il demonio: il diavolaccio cornuto e caudato, buffo e puerile”65 .
O oxímoro manganelliano põe novamente em pauta a linguagem de que se constitui a
Hilarotragoedia, que, ao invés da interpretação exata, oferece a obscuridade, a
impossibilidade de se decidir entre os possíveis significados do texto. Para Manganelli, não é a clareza e tampouco sua falta o que permite considerar um texto como literário. No entanto, ele afirma que a literatura é “una condizione in cui il linguaggio è attivo per l’appunto in grazia di ciò che è, per la sua mostruosa e numinosa polimorfia”66. Desobrigada da exigência metafísica de corresponder inequivocamente ao ser (supostamente) unívoco, a linguagem se revela sinuosa e esquiva; algo que não é e não quer ser claro. Explicar, diz Manganelli, é curvar a linguagem de modo a fazê-la dizer pouco ou mesmo uma só coisa. A clareza que se
62
PAOLONE. Il cavaliere immaginale, p.75.
63
“simetrização da imaginação lingüística” (PAOLONE. Il cavaliere immaginale, p.75.)
64
Cf. MATTE BLANCO. L’inconscio come insiemi infiniti, p.44. Apud PAOLONE. Il cavaliere immaginale, p.90.
65
“Você é o danado; e, ao mesmo tempo, o demônio: o diabo com chifres e de rabo pontudo, burlesco e pueril” (MANGANELLI. Hilarotragoedia, p.79.)
66
“uma condição em que a linguagem está ativa justamente por aquilo que é, pela sua monstruosa e numinosa polimorfia” (MANGANELLI. Il rumore sottile della prosa, p.42.)
atribui à linguagem em seu uso pragmático resulta, portanto, da tentativa de reduzi-la a algo credível: “facciamo finta di dir cose su cui tutti siamo d’accordo, e che tutti sanno che cosa voglion dire”67. A literatura, ao contrário, deve restituir à linguagem sua enigmaticidade68 e fazer ecoar o “rumor sutil da prosa”69.
Essa idéia de literatura como rumor – um dos pilares mais importantes da concepção manganelliana – se aproxima do “estado utópico” com que Roland Barthes descreve uma língua “desnaturada” que é um “não-sentido que faria ouvir ao longe um sentido”70. Irrealiza- se o “aparelho semântico” e forma-se “uma imensa trama sonora” em que o significante, a matéria da linguagem, se expõe sem que isso implique a exclusão dogmática do sentido: “rumorejante, confiada ao significante por um movimento inaudito, desconhecido de nossos discursos racionais, nem por isso a língua deixaria um horizonte do sentido: o sentido, indiviso, impenetrável, inominável, seria no entanto posto longe como uma miragem”71.
A literatura de artifício e a poética da mentira manganellianas se expressam como uma tagarelice ou uma condenação a falar sem ter nada a dizer. Podem ser lidas não só como uma “experiência do rumor”72, mas também como uma concretização de algo que Barthes designa como um “balbucio”:
A palavra falada é irreversível, tal é a sua fatalidade. Não se pode retomar o que foi dito, a não ser que se aumente: corrigir é, nesse caso, estranhamente acrescentar. Ao falar, não posso usar borracha, apagar, anular; tudo que posso fazer é dizer “anulo, apago, retifico”, ou seja, falar mais.73
Não obstante as mudanças que ocorrem em suas obras literárias subseqüentes, essa percepção que Manganelli desenvolveu sobre a linguagem parece não sofrer alterações. A “anulação por acréscimo” é postulada como a única maneira possível de se relacionar com
67
“fazemos de conta que dizemos coisas sobre as quais todos estamos de acordo e que todos sabem o que elas querem dizer” (MANGANELLI. Il rumore sottile della prosa, p.40.)
68
Cf. PAOLONE. Il cavaliere immaginale, p.76.
69
MANGANELLI. Il rumore sottile della prosa, p.131.
70
BARTHES. O rumor da língua, p.96.
71
BARTHES. O rumor da língua, p.95.
72
BARTHES. O rumor da língua, p.96.
73
uma realidade concebida como irredutivelmente múltipla. Isso que, sem ser explicitamente tematizado, alicerça Hilarotragoedia se transforma, em seguida, no ponto de partida e tema central de Nuovo commento. Nesse livro, a linguagem é apresentada como condição de existência do próprio universo e do acesso a ele, como discutido no capítulo seguinte.