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Diversas linhas da psicologia estudam os sentimentos que envolvem a experiência da maternagem. Autores que estudam o ciclio gravídico puerperal sob a ótica da psicodinâmica Bortoletti e cols. (1996) e Maldonado (1997), afirmam que, ao lado da adolescência e do climatério, a gravidez além de solidificar a identidade feminina também representa o auge da maturação sexual da mulher, pois é repleta de transformações hormonais que modificam seu corpo, suas relações interpessoais e seus papéis sociais.
A partir da psicologia junguiana há autores que consideram a maternidade um fenômeno simbólico a partir do qual se manifestam bases profundas do psiquismo humano. A partir da relação materno-filial é possível observar “cada pólo — mãe e filho — surgindo para o outro e agindo sobre o outro como um arquétipo” (Waiblinger, 1992, p.19).
Neumann (2006) oferece valiosas contribuições ao tema, a partir de estudos sobre o arquétipo da Grande Mãe enquanto “imagem interior na psique humana” (Neumann, 1991, p. 19), inscrita em outro arquétipo mais amplo e primordial chamado Feminino. Diversas manifestações simbólicas remetem ao arquétipo da Grande Mãe, revelando suas facetas dependendo do contexto psicológico e cultural.
A expressão simbólica desse fenômeno psíquico são as figuras e as imagens da Grande Deusa, reproduzidas nas criações artísticas e nos mitos da humanidade. O aparecimento desse arquétipo, assim como seu efeito, podem ser observados ao longo de toda a história da humanidade, porquanto estão presentes nos rituais, nos mitos e nos símbolos desde os primórdios do homem, e igualmente nos sonhos, nas fantasias e nas realizações criativas de indivíduos enfermos e sadios do nosso tempo. (Neumann, 1991, p. 19)
De acordo com o autor, a dependência biológica do bebê incita o desenvolvimento psiquíco da mulher no aspecto individual, a partir do desenvolvimento de habilidades como
“nutrir e proteger, manter aquecido e carregar no colo” (Neumann, 2006, p.40), e no aspecto coletivo consolidando a persona maternal, papel social relacionado à figura da mãe, núcleo fundante da convivência familiar e social desde o nascimento do ser humano até suas relações adultas.
Há dois importantes princípios relacionados ao arquétipo da Grande Mãe que atuam sobre o psiquismo humano, regulando-o de modo estrutural e dinâmico. Em termos estruturais, em sua origem ou nos primeiros anos de vida, o psiquismo humano constitui-se por uma unidade indiferenciada regida pelo caráter elementar, que se refere a habilidades como conter, proteger e alimentar. A intensa ligação entre mãe e filho relaciona-se a este princípio, já que
Seus atributos são o “maternal”, simplesmente a mágica autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar de transformação mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis; o secreto, o oculto, o abissal, o mundo dos mortos, o devorador, o sedutor e venenoso, o apavorante e fatal. (Neumann, 2006, p. 92)
No entanto, como toda experiência profunda e arquetípica, o caráter elementar contém em seu bojo dimensões complementares que vão desde a proteção, a estagnação, a fascinação, o pavor, a vida e a morte. É o caráter de transformação que permite que o fluxo de energia psíquica prossiga, promovendo a diferenciação e a estruturação da consciência e a formação do ego, e tornando-se responsável também pela conexão entre o ego e as instâncias criativas do self ao longo de toda a vida, como fonte de espiritualidade, renovação e criação. Neste sentido, Waiblinger (1992) recorda que basta o contato da consciência com aspectos protetores e férteis da natureza do arquétipo do Feminino, e “o princípio criativo desperta novamente, torna-se cada vez mais perceptível, mais brilhante e atuante do que nunca.” (p.51).
Na compreensão de Neumann (2006), ao vivenciar em seu desenvolvimento biopsicológico experiências como a menstruação, a gestação, o parto e a amamentação, a mulher vivencia intimamente o princípio de transformação, desenvolvendo a habilidade de atuar como instrumento da transformação do outro, do bebê ou daquele de quem cuida.
Não é unânime a compreensão apresentada pelo autor, tampouco a crença de que as habilidades da maternagem estejam diretamente relacionadas às estruturas arquetípicas da
Grande Mãe. Ainda que o potencial da mulher à maternidade sob o enfoque biológico e anatômico seja uma verdade, também “a amamentação no seio e os gritos do recém- nascido estão longe de provocar em todas as mães as mesmas atitudes.” (Badinter, 1985, p.16). Sob o prisma antropológico, a autora defende que a relação materno-filial reúne ampla gama de possibilidades e que os valores de cada sociedade regulam os aspectos da maternidade que são culturalmente aceitos e aqueles que devem ser execrados.
O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não existe. As diferentes maneiras de expressar o amor materno vão do mais ao menos, passando pelo nada, ou o quase nada. Convictos de que a boa mãe é uma realidade entre outras, partimos à procura das diferentes faces da maternidade, mesmo as que hoje são rejeitadas, provavelmente porque nos amedrontam. (Badinter, 1985, p.23)
Neste sentido, é possível abrir espaço para a constatação de que há mulheres que querem ser mães, outras que não tem esse desejo. Há ainda aquelas que diante da maternidade encontram prazer no cuidado cotidiano das crianças, e aquelas que se sentem profundamente exaustas e deprimidas. O que dizer então, da existência de uma miscelânea de sentimentos ambivalentes revezando-se dentro de uma mesma pessoa?
De acordo com Badinter (1985) houve uma importante mudança no comportamento da sociedade em relação ao cuidado das crianças nos países da Europa entre os séculos XIX e XX. Na época, o difícil acesso a práticas contraceptivas acarretava um grande número de gestações indesejadas. Após o parto as mulheres pobres voltavam ao trabalho, e as ricas aos prazeres da corte. Com isso, geralmente as crianças fossem ricas ou pobres eram entregues aos cuidados de amas mercenárias que, vivendo em condições precárias quanto a higiene, alimentação e afeto, contribuíam para espantosos índices de mortalidade infantil. Havia certo pessimismo social quanto ao dispêndio de tempo e de recursos financeiros na criação de bebês, tornando a gravidez um inconveniente incômodo. No entanto, a partir daquele período, importantes mudanças sócio-culturais aconteciam no ocidente, e pouco a pouco o comportamento de atenção e cuidados das mulheres em prol de seus filhos, foi incentivado.
A pesquisa da historiadora Carvalho (2008) sobre cultura material descreveu que a crescente migração de famílias da área rural e a formação dos grandes centros urbanos a partir do século XIX contribuiu para que pensadores e dirigentes políticos compreendessem
que cuidar da saúde e da educação da população desde a infância, favoreceria aos cidadãos uma vida adulta mais saudável e produtiva, contribuindo para o enriquecimento do Estado. Deste modo, acreditando que os cuidados maternos preservariam os bebês das condições insalubres da maternagem terceirizada, foram lançados livros e campanhas que enalteciam a mulher em seu talento para a maternidade. De acordo com a historiadora Tupy (2003) e reiterado por Badinter (1985) a mudança nas mentalidades não foi rápida nem unânime. Alguns grupos de mulheres da aristocracia e da burguesia entre os séculos XIX e XX aderiram rapidamente aos ideais de maternagem, tanto por ambições intelectuais como por gratificação pessoal, já que encontravam nessa atividade uma maneira de serem valorizadas socialmente, e com isso ganhar maior autonomia e importância dentro do núcleo familiar. Por se tratarem de pessoas cultas e donas de inquietante curiosidade, seus costumes eram divulgados por meio de revistas, livros e artes, sendo gradativamente copiados pelas camadas mais populares.
Ainda que a sociedade tenha se tornado cada vez mais atenta às suas aspirações e desejos, e a vida familiar passasse a ser compreendida como fruto da união consensual do casal, Carvalho (2008) indica que naquele período prevalecia a divisão assimétrica de funções, em que o controle financeiro da casa era atribuído aos homens, e os afazeres domésticos e o cuidados dos filhos às mulheres. A elas era imposto o talento de manter o clima de aconchego do lar e o bem estar de todos os seus membros. Tantas eram suas atribuições que se tornou comum recorrer à ajuda de profissionais especializados em saúde, o que acabou por transformar a figura materna em “interlocutora, sua assistente, sua enfermeira e sua executiva” (Badinter, 1985, p.210).
Analisando as perspectivas mais recentes, a revisão bibliográfica realizada por Bertolini (2002), psicanalista interessada no estudo das relações entre a mulher e o trabalho no século XXI, e a psicóloga junguiana Almeida (2007), que estudou as relações entre o homem e a paternidade, também apontam significativas mudanças sociais, sobretudo nas relações familiares, a partir da década de 1970. O controle da natalidade, a abertura do mercado de trabalho, o acesso à formação universitária e o casamento consensual foram efetivas possibilidades da mulher decidir como e quando expressar seus potenciais, permitindo a ela e ao homem reverem seus papéis dentro e fora da família, inclusive na educação e nos cuidados dos filhos. O estudo de Bertolini (2002) aponta importante ampliação dos papéis
femininos, em que as mulheres além de conservarem os cuidados afetivos da família e da rotina casa, também passaram a abarcar papéis de provedoras e autoridade, outrora exercidos exclusivamente pelos homens. Interessante o apontamento realizado no artigo de Galiás (2001) acerca do papel da mulher no resgate dos potenciais femininos na sociedade atual, ainda mais se considerarmos que até o tempos atuais ainda há fortes resquícios de valores da família tradicional burguesa do início do século XX. Mesmo as mulheres que nos tempos atuais buscam desenvolvimento pessoal e profissional, tanto se sentem mais realizadas e satisfeitas, como também se sentem culpadas por não dedicarem tempo integral aos cuidados dos filhos (Bertolini, 2002).
A partir da perspectiva pós-junguiana, Samuels (1992) acrescenta uma relevante discussão acerca do estudo da psicologia de gêneros, criticando as perspectivas que tendem a atrelar à biologia humana, a fatores hormonais ou herança genética, diferenças comportamentais entre homens e mulheres, como por exemplo, a dominação masculina nos campos sociais, científicos e político. Ainda que se concorde que homens e mulheres apresentem diferenças fisiológicas e que há algo de perene na experiência da humanidade frente ao feminino e ao masculino, não é possível afirmar que o comportamento de crianças e adultos sejam regulados apenas por diferenças estruturais biológicas e psicológicas. Pois ambos os sexos no desenvolvimento de suas personalidades apresentam semelhantes interesse por seus corpos e pelo “fenômeno da diferença” (Samuels, 1992, p.123).
Se habilidades humanas como a agressividade, a razão e a reflexão são possibilidades universais, acessíveis aos homens e às mulheres, que podem vivenciá-las em graus variados, são as influências do ambiente sócio-cultural e as questões psíquicas pessoais que devem ser enfocadas no entendimento de como acontecem as relações pessoais e coletivas frente as diferenças. Ou seja, haverá significados específicos para cada indivíduo desenvolver-se como homem ou mulher, de modo mais submisso, altruísta ou agressivo.
Tais considerações reiteram a importância da presente pesquisa compreender as experiências do grupo de cuidadoras de modo singular, e revelar as matizes que coloriam as relações daquelas mulheres com as habilidades (biológicas, sócio-culturais e psíquicas) da maternagem.