Imanência e transcendência não são noções que apresentam contornos precisos senão quando definidas em termos de um atletismo do pensamento. J.-M. Salanskis, num artigode grande interesse para nós, intitulado "Deleuze, a transcendência e slogans", propõe pensar a natureza da relação entre o transcendente e imanente e constata que, ao invés de dois termos de um debate que atravessaria a história da filosofia, a própria relação é “sintomática de uma recaída consubstancial ao filosofar” 248. Não é que a filosofia se deixe levar por essa
discussão, mas é antes “o esforço de imanência que não pode deixar de tropeçar no seu sedimento ou exaustão interna, a transcendência”. Essa análise do ato de pensar, como esforço de imanência, evidencia-se em concordância com o pensamento do próprio Deleuze quando este tematiza o plano de imanência como um corte do caos, sendo o caos não uma “mistura ao acaso” ou uma “ausência de determinações”, mas antes uma “velocidade infinita”, puro movimento para além das coordenadas meramente espacio-temporais, pela qual uma determinação "não aparece sem que outra já tenha desaparecido e que uma não aparece como evanescente sem que a outra desapareça como esboço. O caos caotiza e desfaz no infinito toda consistência. O problema da filosofia é aquele de adquirir uma consistência sem perder o infinito" 249. Em outras palavras, o importante, no caso da filosofia (pois arte e ciência
também implicam outros modos de se relacionar com o caos, através do “afeto” e da “função”, do “plano de composição” e do “plano de referência”, respectivamente), não é tanto lançar-se no caos, mas dele retornar com um bloco consistente, ou seja, traçar o plano de imanência. Nisso consiste o esforço de imanência de que fala Salanskis, um esforço, seguindo o vocabulário deleuziano, propriamente atlético. O plano de imanência é sempre um ato de instauração filosófica. O que é instaurado por ele, digamos ainda mais uma vez, é uma Imagem do pensamento e uma matéria do Ser, ou seja, uma seleção de velocidades infinitas de tal maneira que as determinações esboçadas sobre sua superfície não se dissolvam e possam ganhar consistência entre elas, desenhando “tematizações infinitamente rápidas de variações inseparáveis” 250, ou seja, os conceitos.
Além da caracterização do plano de imanência e dos conceitos por Salanskis, nós poderíamos dizer ainda que, não remetendo mais a uma interioridade subjetiva, nem a
248 SALANSKIS, 2008, p. 10.
249 DELEUZE & GUATTARI, 1991, p. 45. 250 SALANSKIS, op. cit., p. 9.
uma adequação objetiva, o conceito resulta de uma operação precisa, de um construtivismo que concebe o pensamento como força em relação em um meio de exterioridade ou uma multiplicidade: o caos como "meio de todos os meios" 251. A imagem do pensamento não é mais uma representação determinada por um “imperativo moral”, próprio ao modelo dogmático em filosofia, mas uma força material a seguir as conexões crescentes de um plano não-fragmentário, aberto em um meio de exterioridade. Corta-se o caos, ou seja, instala-se numa diferença de potencial, entre “duas ordens de grandeza” ou “duas escalas de realidade disparatadas” 252 (tensão), instaura-se um plano (intuição) e povoa-se esse plano com
conceitos (intensidades). Por isso, a filosofia é um atletismo do pensamento, uma geologia de planos instaurados e uma geografia de conceitos criados por cada filósofo, e não uma sucessão de sistemas compreendidos numa interioridade histórica e reflexiva. Os planos se recortam, as fronteiras se deslocam, se misturam ou se desfazem. Há comunicações transversais entre planos e eles são de tal maneira “folheados”, se “superpondo” em cada filosofia particular, mesmo “furados”, deixando subir um "nevoeiro" de uma folha a outra, que o caos ameaça retornar e dissolver a consistência do plano no qual o filósofo se instalou253.
Isso dito, qual seria o lugar da transcendência segundo a reflexão de Salanskis, dado que ela foi afirmada insistentemente na história da filosofia, ou antes que ela tornou possível algo como uma história, ao invés de uma geografia, como se houvesse uma depuração contínua de uma transcendência jamais suficientemente pura? Os conceitos são dinamismos de consistência sobre um plano de imanência, porém como esses dinamismos se ramificam, seja por divergência, seja por convergência, os planos não permanecem jamais nos limites de um conceito de tal maneira que “os planos se pluralizam sobre o fundo de um plano absoluto, figura do fora correspondendo aos caos em sua captura filosófica” 254. De todo
modo, o ato de filosofar não pode se dar senão na imanência como seu elemento ou terra,
251 DELEUZE & GUATTARI, 1980, p. 385.
252 Cf. DELEUZE, 2002, p. 121. O aporte fundamental de Simondon para o pensamento de Deleuze está menos em torno de uma suposta ontologia da diferença, do que em torno da concepção de “disparação”. Colocar o princípio de individuação na própria operação de individuar consiste em fazer dele um princípio "realmente genético", a resolução de um problema (em termos de individuação física, biológica ou psico-social), mas precisamente através disso ele é abolido enquanto problema principial e, do pré-individual ao trans-individual, com o "metaestável" e a "disparação", é o problema prático da performance instauradora que está em jogo. A performance especulativa, remetendo esse princípio a um indivíduo que está se fazendo e não mais já feito (ontologia clássica), mantém os direitos do absoluto ao definí-lo de maneira imanente e temporal como o que se tece e se enriquece continuamente a cada nova relação (restauração ontológica). A performance instauradora, ao contrário, ao colocar o princípio na própria operação, implica o risco de toda experiência (pode-se falhar, não se terminar, etc.) e a condição precária do ser instaurado (que não contradiz, porém, seu esplendor de monumento). 253"... o filósofo que o traçou [o plano] corre freqüentemente o risco de ser o primeiro a se perder" (DELEUZE & GUATTARI, 1991, p. 52).
“toda filosofia seria em si conquista de uma imanência” 255, ou seja, conquista consistente de
um bloco de forças. Entretanto, observa Salanskis, podemos constatar uma tendência quase “irrepreensível” de todo ato de pensar em compensar o esforço dessa conquista atlética por um dativo que faz a imanência imanente a alguma coisa: o dativo inevitável como esgotamento que se segue a um esforço propriamente atlético. Com efeito, o termo colocado após o dativo aparece sempre em posição de transcendência, a imanência sendo sempre imanente a alguma coisa (Consciência, Sujeito, Deus, Natureza, etc.).
Portanto, o problema não é aquele de uma alternativa entre imanência e transcendência, entre diferença e representação, que costuma embalar o gosto da deleuzologia pelas dicotomias demasiado simples, mas aquele do efeito de um esforço atlético sem o qual o pensamento não poderia jamais pensar. Assim, é o esforço em imanência, que não conquista seu plano sem criar ao mesmo tempo um “sedimento” como “esgotamento interno” que, através da performance especulativa, será projetado rumo ao alto. Parando a horizontalidade rizomática que faz alastrar o pensamento através de conexões de singularidades, de prolongamentos de vizinhanças, essa projeção especulativa e verticalizante erige a transcendência que, dessa maneira, faz sombra sobre a instauração do plano, como um guarda-sol, ou compreende a terra como um momento dessa elevação (unificação, totalização, universalização).
Mas são as conclusões que Salanskis disso tira que nos interessam mais e nos permitem acrescentar algumas considerações. Primeiramente, ainda que a inexorabilidade do dativo permita a reintrodução das formas de transcendência no imanentismo, o ato de pensar nada perdeu de sua natureza, quer dizer, de sua necessidade em ser conquista de uma imanência, ainda que seja para atribuí-la em seguida a uma transcendência. Assim, filósofos que parecem não se preocupar em nada com o imanentismo não chegaram a projetar seu princípio senão a partir de uma instauração efetiva. "Platão dizia que era preciso contemplar as Ideias, mas foi preciso antes que ele criasse o conceito de Ideia" 256. A especulação platônica é tanto mais eficaz quanto mais efetiva é sua instauração. A dualidade entre performance especulativa e performance instauradora, entre problema prático e problema principial, não tem nada a ver com a oposição entre teoria e prática. De certo modo, toda performance de pensamento ou funcionamento da máquina de pensar é ao mesmo tempo teórica e prática. Porém, ela é instauradora quando faz obra, imprime um grau de existência ao ser instaurado, enfim, é uma experiência. Ao contrário, ela é especulativa quando essa
255 SALANSKIS, 2008, p. 10.
própria experiência é convertida em tela para a projeção seja de um princípio ou de clichês. “Devemos reconhecer que, na textura das filosofias efetivas, transcendência e imanência intervêm como momentos, mas nada perdemos daquilo que liga uma à boa incandescência do pensamento filosófico e a outra a seu sufocamento” 257.
Em segundo lugar, não se trata de buscar justificações para “a estimação diferencial da imanência e da transcendência”, porque o ato de pensar já está inscrito em um movimento de conquista de uma imanência. Orientar-se no pensamento é precisamente aceder a esse “atletismo de imanência”. Fazer o movimento (“bouge!”) é suficiente para se compreender que é “aquele da imanência e, para se desviar da transcendência, não mais se preocupar com ela senão na medida em que se a reconhece como a forma típica do fracasso”. De onde Salanskis conclui: “Um elemento envolvido na concepção deleuziana é que construir um plano de imanência é preconizá-lo de maneira irresistível”. Assim, é forçoso pensar que o movimento de imanência é aquele que apaga a “distinção entre descrever e ser, de um lado, descrever e justificar, de outro, enfim, entre descrever e prescrever”. Seu objetivo é aquele de demonstrar que Deleuze nada faz senão prescrever a imanência à “sua maneira”. As prescrições de imanência deleuzianas seriam “slogans” que “recomendam o A” (a imanência) como o termo positivo de uma distinção “inventada por Deleuze contra o B” (transcendência). O problema de Salanskis é aqui menos o de abrir um fosso entre a imanência e a transcendência e desqualificar a primeira lá onde Deleuze a recomenda, que o de mostrar que não há distância entre a prescrição deleuziana e o “próprio jogo da transcendência” 258. Não
haveria pensamento senão prescritivo, portanto, moral, dogmático, recognitivo, não restando nada a fazer a não ser o estabelecimento de um distinção entre duas maneiras de prescrever: seja através de slogans numa filosofia da imanência, seja através do jogo da transcendência. Nessa discussão, reconhece ele, cada lado tem seus próprios critérios. Assim, o que torna os slogans de imanência “melhores” seria, para Deleuze, a própria imanência. Com efeito, para ele:
O elemento paródico [nos slogans] basta para se entender que seus slogans não são senão estabilizações provisórias da experiência de um agir na busca da abertura, e não devem ser seguidos senão na medida em que e porquanto sua rigidificação não implica a recaída no fechamento 259.
Dito de outra maneira, fazer rizoma, mas não ao ponto de fazer brotar raízes que possam nos fixar a um solo, fazer o plano de imanência, mas não pretender que ele seja o
257SALANSKIS, 2008, p. 11. 258 Ibidem, p. 12.
único e se torne O plano. Esse O em maiúsculo atesta a queda no dativo e a incapacidade de manter o ato de pensar em seu atletismo 260. Com efeito, “você tem escolha entre a transcendência e o caos...” O objetivo maior de Salanskis consiste em mostrar que o próprio Deleuze não teve escolha e que seus slogans de imanência nada são senão sua maneira de “pretender” fazer de seu plano O único. O Dehors e o acontecimento, com sua intrusão no pensamento, seriam a nova maneira de fazer transcendência. No ato criador, não se mergulha no caos sem se deixar os estados de coisas ou as situações vividas para alcançar o puro acontecimento – inseparável, entretanto, desses estados e situações porque neles ele se atualiza. Assim, criar um conceito exige uma contra-efetuação: a intrusão força o pensamento a se lançar alhures. Dessa maneira, o Dehors é, para Salanskis, uma forma de transcendência por “descentramento” e não mais por “fuga vertical”. Essa seria a contribuição deleuziana: a única.
Contudo, Salanskis está convencido de que não há verdadeiramente uma contribuição mesmo nesse ponto, de tal modo que as afinidades com o que é criticado, a transcendência, superariam as possíveis inovações.
Se se ater a essa perspectiva [de uma oposição entre transcendência como descentramento horizontal e transcendência como fuga vertical], é preciso ainda assim conceder que o fora deleuziano, como a transcendência em seu conceito clássico, é princípio de descentramento em relação a tudo – a todo item de focalização concebível – princípio de descentramento absoluto como a transcendência é princípio de escapatória, „passagem para além‟ absoluta: o que constitui uma afinidade não neglicenciável.261
Haveria, então, em Deleuze, uma única prescrição: Bouge! Ela é a mais justa e irreprochável injunção pois ela “não excederia o princípio de imanência, nem faria apelo a um suplemento impossível em relação a si, e se confundiria em cada caso com o gesto, a invenção, retornando do caos para destronar a opinião” 262.
Finalmente, para o autor, um tal princípio trai a imanência ao exigir certos mundos possíveis ao invés de outros, “ele obriga então a se permanecer na suspensão geral do ser, de considerar sua variação seguindo uma dimensão inencontrável que é a dimensão de acolhimento dos mundos paralelos” 263. Ora, essa dimensão é, “por definição”, ortogonal a
toda dimensão de mundo e para um pensamento da imanência que nos orienta a nos
260 "(...) é porque cada plano de imanência, parece, não pode pretender ser único, O plano, senão reconstituindo o caos que deveria conjurar" (DELEUZE & GUATTARI, 1991, p. 52).
261 SALANSKIS, 2008, p. 14. 262 Ibidem, p. 14.
mantermos na superfície do plano para escapar à ortogonalidade transcendente, o fato de nos “recomendar” essa superfície e nela permanecer como condição para o ato de pensar implica necessariamente uma ortogonalidade na eleição dessa superfície ao invés de uma outra. Salanskis se antecipa a uma possível objeção que lança mão justamente do bergsonismo de Deleuze, aquela que diz que não se trata, nessa superfície, de uma dimensão possível em relação a outros mundos, mas do virtual como aquilo que coexiste em todas as dimensões do real. “Mas o virtual de tipo bergsoniano, como versão do possível, justifica a prescrição? Que sentido há em se impor o que já está lá? O de acrescentar à pressão do virtual uma declaração de seu „dever se efetivar‟?” 264.
O que obceca Salanskis é uma dicotomia radical: a relação entre “esse „sofrimento da transcendência‟ que afeta o pensamento de Deleuze” e “sua maneira de ser soberano, de nos iluminar de alegria intelectual”. O autor encerra o artigo sem resolver a dicotomia, mas ao contrário, levando-a a seu limite, se indagando se não haveria, em Deleuze, um puro "amor do pensamento" e se a agonística esboçada no artigo não seria a "condição de ódio" desse amor, "ou então se os dois aspectos são estrangeiros um ao outro" 265.
Somente após essa longa reconstituição de certos aspectos da crítica que Salanskis endereça a Deleuze, é que podemos, não resolver o problema dessa dicotomia radical, mas sugerir as condições que sua colocação pressupõe. Acreditamos que essas condições implicam o equívoco fatal no qual se enveredam tanto adeptos quanto críticos de Deleuze, tal como já sugerimos acima. Para Salanskis, o problema é de conceber como um pensamento da imanência e da alegria pode se evidenciar, ele também, prescritivo, normativo, sem que possamos distingui-lo profundamente da doença da transcendência que ele recusa radicalmente. A agonística no artigo de Salanskis é, sobretudo, sintoma da relação daqueles que, embrenhados no pensamento deleuziano, não podem seguir suas veredas ressequidas sem ter o sentimento de aceitar uma prescrição. Quantos deleuzianos não esbravejam “faça rizoma!”, “é preciso criar”, “resistir”, “devir-animal”, etc., sem saber efetuar os movimentos que esses conceitos implicam de outro modo que não seja aquele da prescrição, uma repetição sem diferença (mas isso é ainda um slogan...). O labirinto com curvas era dito aquele da dialética com as amarras do movimento do negativo. Não saímos de Hegel quando o criticamos, como lembra M. Hardt 266. No entanto, o mais terrível dos labirintos é aquele no qual nos introduzimos ao ler Deleuze: o da linha reta. Não saímos jamais de Deleuze quando
264 SALANSKIS, 2008, p. 15. 265 Ibidem, p. 18.
o amamos, ao nos lançarmos com seu pensamento horizontalmente, fazendo alastrar o rizoma, seguindo um contágio que se faz mais em torno da fascinação pelos slogans da imanência do que por movimentos de pensamento efetivos.
Contudo, se os slogans da imanência encontram uma fonte na simples fascinação lexical e no proselitismo que dela decorre, eles remetem a um problema mais profundo que buscamos enfrentar com esta pesquisa. Certamente, a filosofia de Deleuze retoma em grande parte a sintomatologia nietzschiana que faz do filósofo um médico da civilização. Porém, Deleuze e Nietzsche estariam preocupados em tratar a civilização com um novo tipo de prescrições, ou seja, slogans que não mais mobilizam princípios imutáveis, mas fazem uso de palavras modestas, “profanas, por assim dizer”, como afirma Salanskis, como na série de slogans/imperativos que fecha o texto Rizoma: “seja a Pantera cor-de-rosa”, “Faça a linha, jamais o ponto!”, “Faça mapas, jamais fotos ou desenhos”, “Não seja uno nem múltiplo, seja multiplicidade!”, etc 267? O que haveria de comum nessas “recomendações”
seria a afirmação a Vida como fonte sagrada, imanente e movente da experiência, como princípio virtual puro em relação ao qual a atualidade do vivido e do vivente seriam mistos impuros? A “pop‟ filosofia” não pode ser, desde então, senão um pensamento do poder soft, do capitalismo contemporâneo, da sociedade de belas almas típica das democracias de mercado onde criadores e publicitários parecem se confundir com seus slogans de imanência?
Ao evidenciar a relação entretida entre prescrições, repressão e verticalidade no seio do problema principial da metafísica clássica cujo elemento é a transcendência, Salanskis habilmente associa slogans, abertura e horizontalidade em torno do problema principial tal como ele se manifesta nas novas ontologias.
Ainda que renegando todo uso filosófico da transcendência, Deleuze concebe a filosofia como retomada metafísica do ser, como alquimia metafísica de um devir. De modo que ele não pode deixar de convocar a uma 'conversão metafísica': como o apelo que ele lança não saberia se retirar atrás de uma transcendência que seu pensamento teria feito falar, ele repousa sobre a 'brutalidade ordinária' do slogan268.
Assim, em oposição ao "universal imóvel e fixo", aos "enrijecimentos" e "fechamento" própria à performance especulativa clássica, Salanskis detecta em Deleuze "estabilizações provisórias da experiência" e sua "busca pela abertura" próprias a uma performance especulativa renovada, ou seja, apta a restaurar a transcendência através do
267 DELEUZE & GUATTARI, 1980, p. 36. 268 SALANSKIS, 2008, p. 17.
descentramento e da horizontalidade rizomáticas de que o Fora, como dimensão ortogonal a toda dimensão de mundo, é o nome. Não à toa Salanskis, que lê o Fora do ponto de vista do Aberto, remete ao virtual bergsoniano para dar conta dessa transcendência que brota da própria imanência por descentramento absoluto. Não é difícil reconhecer aqui os caracteres do que designamos como restauração da ontologia ou do problema principial. Vimos que ela recebe diversos nomes quando associada ao pensamento de Deleuze: o cântico do Um-Virtual em Badiou, a Imanência como novo nome do Absoluto em Rancière, o Fora como transcendência horizontal em Salanskis. Tais críticos falam menos do pensamento de Deleuze do que de um certo deleuzismo, constituído em torno da vulgata publicitária em que consiste o verdadeiro slogan da imanência, a "outra ontologia" ou “Ontologia do Virtual”, para a qual seu bergsonismo foi convocado a ser uma “entrée en matière” 269.
No entanto, se retomamos a crítica de Salanskis é porque ela nos parece útil e perspicaz. De um lado, ela permite exibir o mecanismo que move o proselitismo certamente presente na recepção de Deleuze (mas qual criador pode escapar a isso?). De outro, ela é exemplar a respeito de uma leitura que neutraliza o problema prático da filosofia deleuziano afim de retomar seus conceitos no interior do problema principial. Enfim, abole a performance instauradora e faz do pensamento deleuziano um exemplo de performance especulativa apta a renovar a ontologia e manter todos os seus direitos. Mas há ainda um último elemento na leitura de Salanskis que nos parece importante, pois ele torna possível os outros dois. É também o ponto que mais se aproxima do problema prático da instauração filosófica. Trata-se da idéia segundo a qual há em Deleuze "uma filosofia da filosofia". Para ela, o filosofar consiste em afrontar o caos e conquistar a imanência através de um plano. Mais ainda, filosofar consiste num singular atletismo que se traduz pelo esforço de imanência: o corte no caos. Porém, esse esforço produz uma exaustão interna que forma uma sedimentação, contra a qual o ato de filosofar não cessa de tropeçar. Com os slogans e a