2. GENEL BİLGİLER 1 Dirsek Eklemi Anatomis
2.4. Ekstrakorporeal Şok Dalga Tedavisi (EŞDT)
O recurso às receitas culinárias no ambiente de trabalho pode ser considerado uma das práticas que implicam maior mobilização das empregadas investigadas. Todas elas sabem cozinhar sem o apoio de receitas e a escolha em se orientar por um livro ou por um caderno de receitas parece ser mais uma disposição relacionada à culinária. O interesse pela culinária possivelmente foi construído em suas vidas em virtude da ocupação que exercem. Cozinhar bem, nesse caso, inscreve-se como uma das qualidades profissionais. Além disso, pode-se afirmar que a aprendizagem ou o desenvolvimento das artimanhas da cozinha se deu, em todos os casos, nos ambientes de trabalho.
O uso de receitas na família empregadora de Graça é o menos recorrente de todas as famílias pesquisadas. Nas ocasiões em que o recurso às receitas é feito, ele é conduzido por T. Segundo o relato da patroa, quando ela deseja que algum prato diferente seja preparado, recorre a uma receita, lê e explica oralmente para Graça os procedimentos. De fato, Graça é a única empregada investigada que não recorre às receitas culinárias presentes na casa da família empregadora. Ela diz ter aprendido a cozinhar seguindo as orientações orais das patroas. É também a única que, no seu trabalho atual, não escolhe o cardápio que será preparado para o almoço. Sua patroa, diariamente, diz o que ela deve cozinhar. Nesse caso, a postura de T. parece contribuir para a não busca de receitas. Em outras palavras, a falta de autonomia que Graça vivencia nesse aspecto dificulta uma postura mais ativa em relação à busca por conhecimentos culinários.
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(...) as listas (de coisas a fazer ou dizer, de coisas a levar em viagens, de coisas a comprar) são freqüentemente meios de fixar as ações futuras, os programas de ação, os planos. As listas de compras, por exemplo, estabelecem às vezes programas de deslocamento e se constituem, assim, de planos cujo princípio organizador apresentado é materialmente e objetivamente presente, o que os torna mais aptos a regular a ação, mais duráveis, mais completos e mais formais. Elas permitem também ganhar tempo, economizar seus passos e não esquecer (Tradução sob minha responsabilidade).
Suely também diz ter aprendido a cozinhar trabalhando em casas de família. Como começou a trabalhar cedo, aos 10 anos, desconhecia grande parte dos conhecimentos culinários. Foram suas patroas que a ensinaram, explicando oralmente e mostrando como cada alimento deveria ser preparado. Para ela, o fato de repetir a tarefa diariamente fez com que a aprendizagem não tenha sido difícil. Essas são suas palavras a esse respeito:
S: Cozinhar foi aos poucos...vendo nas famílias que eu trabalhava...um ensina... o outro ensina...aí fui pegando...pegando o jeito...porque a gente também tem que começar a fazer cedo...aí fui pegando pra fazer e aprendi...nessas casas que eu trabalhei eles falava...é assim que faz...é assim...aí eu fui pegando o jeito, né... (Entrevista 1 – 14/11/2007)
Diferentemente de Graça, para o preparo de pratos mais sofisticados, Suely recorre eventualmente às receitas escritas e tal procedimento é encarado com tranqüilidade por ela. No caso da família empregadora atual, há uma grande diversidade de livros, livretos e rótulos de produtos que contêm receitas culinárias. Alguns livretos são suplementos do jornal Estado de Minas assinado pela família, alguns rótulos de alimentos foram guardados pela própria Suely (o que é relatado por ela e também por sua patroa) e alguns livros são antigos e parecem ter sido adquiridos há muitos anos, talvez no início do casamento dos patrões. É interessante notar que ela diz utilizar receitas até que consiga saber de cor (sem apoio na escrita) os procedimentos necessários para determinado prato. Suely também afirma selecionar apenas receitas que são consideradas por ela como pouco complicadas.
Em entrevista com Sr. I., ele relembra que, quando Suely começou a trabalhar na residência da família, disse não saber cozinhar. Talvez, segundo ele, por modéstia ou porque seu repertório de cozinha era pequeno para quem estava entrando em um outro meio social. Frente a essa situação, o patrão diz que ela sempre recorreu às receitas culinárias. Atualmente sua comida agrada a todos na casa. O sucesso da receita de um bolo de laranja já chegou aos amigos do casal, que após degustar o bolo, pediu a receita. O patrão requisitou que ela anotasse a receita, o que foi feito. É interessante notar que a intensidade do recurso às receitas no ambiente de trabalho descrita pelo patrão é maior do que a freqüência atribuída pela própria empregada a essa prática.
Nazira também faz uso de receitas no seu trabalho na casa de W. e M. Aliás, o recurso às receitas culinárias foi uma estratégia utilizada por ela ainda no seu primeiro trabalho como doméstica para encarar as tensões relacionadas à necessidade de cozinhar de uma maneira
diferente daquela conhecida até então. Assim, mesmo com poucas habilidades de leitura, ela se apoiou nas receitas culinárias para realizar da forma esperada pelos patrões a tarefa de cozinheira.
P: Você lembra algumas outras situações difíceis...igual essa da chavinha159? N: Ah... cozinhar...cozinhar pra mim foi difícil porque eu cozinhava só pra nós lá em casa mesmo...só aquelas coisas da roça...aí eu não sabia cozinhar muito...mas lá tinha caderno de receita...e eu sabia ler um pouquinho...eu sei ler um pouquinho...aí eu conseguia...eu consegui bem mesmo...lá na casa da Júlia...tinha receita...
P: Então você corria no caderno...pra te ajudar?
N: É...e eu aprendi...lá na Júlia eu cozinhava direitinho...aí eu fui aprendendo com as receitas...lá tinha caderno de receitas...e ela falava...ó Nazira...hoje você vai fazer isso...lê aqui...aí com pouco tempo eu aprendi...é igual na casa da M....eu tinha muita dificuldade pra começar a cozinhar...o dia que ela me ligou...ela falou assim...e você...você sabe cozinhar? E eu falei assim...sei o básico...comida básica...um arroz...feijão...uma carne...batata frita...um bife...uma salada...assim eu sei...
P: Na M. também...de vez em quando você olhava caderno de receita?
N: Olho...até hoje eu olho...porque também é muito difícil guardar uma receita de cabeça...aí quando tem uma coisa diferente...tem que olhar...olho sim... P: Ela anota as receitas?
N: Ela que anota...sempre anotou... P: E de onde que ela pega?
N: Olha ela pega/ hoje ela pega mais no computador...eu não sei de onde ela pega não...parente dela...as irmãs dela...cunhada...dá pra ela muita receita também...e ela lê jornal...acha uma receita que agrada...vai e tira...aí me mostra...depois ela passa pro caderno... (Entrevista 2 – 30/11/2007)
Ao me mostrar os cadernos e livros de receitas da casa de sua família empregadora, Nazira relatou que às vezes empresta algum deles para uma amiga sua que, segundo ela, trabalha como doméstica para uma família “muito exigente”. É interessante perceber como ela vê esse aspecto da presença da escrita na casa de seus patrões. Diz que os patrões organizam os materiais escritos sobre culinária porque sabem que elas (as empregadas) não “sabem muito das coisas” e precisam de alguma forma de apoio. No seu ponto de vista, assim como Suely, precisa ler quem não tem conhecimentos, quem ainda não aprendeu como fazer de cor. Ela não percebe essa forma de organização como algo específico das pessoas desse meio social e cultural.
N: (...) peguei receita aqui da M. e levei...passei pra Mônica...porque...nossa ela ficava assim...lá é assim e assim...e eu falo...ah lá no meu não é dos piores não...e ela fala...lá no meu o homem é exigente demais...faz a comida o homem não quer...faz outra coisa o homem não quer...aí eu fiquei com dó dela...peguei
e levei...aí deixei um domingo inteirinho com ela lá...de noite ela levou pra mim...é assim... (Entrevista 2 – 30/11/2007)
De fato, a organização de materiais escritos sobre culinária, além de explicitar um certo tipo de relação que essa família tem com a cultura escrita doméstica, evidencia a intenção de M. de que esses materiais sejam úteis para o desempenho de Nazira na cozinha. Esse propósito da patroa é demonstrado quando ela relata que se empenhou no cuidado com a caligrafia ao redigir as receitas para que a empregada não encontrasse dificuldades na leitura.
Se no caso de Nazira a habilidade para ler pôde ser desenvolvida com a leitura das receitas, o mesmo não pode ser dito sobre a prática da escrita delas. Nazira raramente escreve uma receita e, quando o faz, é por meio da cópia. Ela não consegue, por exemplo, acompanhar uma receita ditada na televisão e registrá-la por meio da escrita. Quando leva alguma receita para sua casa, pede que sua neta copie no caderno.
É importante dizer que o acesso às receitas culinárias em nenhum dos casos aconteceu por meio da família de origem. Dessa forma, assim como Suely e Nazira, Cleonice recorreu e ainda recorre às receitas culinárias escritas da casa dos patrões como auxílio no preparo de alguns pratos. Aliás, ela diz ter aprendido grande parte dos seus conhecimentos culinários acompanhando receitas escritas. Além de se apoiar no caderno de culinária e também nos vários livros de culinária presentes na casa da família empregadora, a empregada anota receitas de programas culinários, lê receitas publicadas em jornais presentes na casa dos patrões e em rótulos de produtos. Assim como no caso de Suely, o recurso à receita ocorre até o momento em que se aprende a fazer de cor determinado prato.
P: Como que você aprendeu a cozinhar?
C: Como? No início eu ia no chute...arroz e feijão...aquela coisa de pobre...a mãe manda você fazer arroz, feijão, angu...queima aqui...queima ali...mas aprender a fazer alguma coisinha diferente...por exemplo fricassê...lasanha...foi acompanhando mais com receita... (Entrevista 5 – 09/11/2007)
Uma informação interessante é que o fato de essa família empregadora ser partidária do vegetarianismo fez com que Cleonice ficasse insegura das suas habilidades na cozinha e buscasse com bastante intensidade as receitas culinárias. Além disso, a responsabilidade pela escolha do cardápio motivou-a a buscar os livros de receitas em momentos nos quais está sem idéia do quê preparar para determinada refeição. Sobre esse último aspecto, a própria patroa encoraja o recurso aos livros. Os trechos abaixo expõem esses dois aspectos observados:
C: (...) quando eu fui trabalhar com o S. e a A....é aquele negócio de vegetariano...aí eu fiquei insegura demais...uma cenoura assada...já fiz aqui...outro dia mesmo eu fiz uma salada de feijão que tinha em um livro aí...mas eles não gostaram não...tem um livro aqui que tem só macarrão...tem um que eu já usei muito...acho que ta na parte de lá...esse aqui tem muita salada...(...)
P: E fica por conta de você, né Cleonice? Escolher o cardápio?
C: Hãrran... Às vezes eu falo assim...A....dá uma idéia pro almoço? Ela fala assim...Cleonice...olha as receitas...eu não tô afim de pensar não... (Entrevista 5 – 09/11/2007)
Enfim, vale dizer que a relação com as receitas culinárias das empregadas pode ser comparada ao caso dos operários pesquisados por Lahire (1993). O pesquisador relata que os profissionais pesquisados por ele só eram levados a ler e a escrever, no ambiente da fábrica, em raras ocasiões. O uso de planos de montagem e de fichas estava relacionado a uma prática de principiante. O operário experiente não precisa ler esses materiais, porque reconhece, por exemplo, qual aparelho será montado, apenas observando quais peças soltas foram entregues a ele (p.117). A escrita estaria, então, relacionada aos operários iniciantes que, por não terem o trabalho incorporado, precisariam recorrer às informações escritas disponíveis. Nas palavras do autor:
L’écrit, dans ce cas, est clairement associé aux débutants qui, par manque de repères pratiques, peuvent avoir besoin d’indices écrits leur rappelant ou leur indiquant ce qu’ils n’ont pas encore totalement incorporé. Plus cela, dans nombreux entretiens point une critique de lúsage du plan: "regarder le plan, dit un ouvrier, c’est ne pas travailler et, de plus, ne pas faire l’effort de s’en souvenir". L’écrit est donc pensé comme pouvant détruire ou affaiblir les capacités (valorisées) à memoriser. Dans cette perspective, le pla, l’écrit ne sont que des aides extérieures, des béquilles pour la memoire défaillante des novices, qui ne possèdent pas le travail à l’interieur, qui n’ont pas le plan "inscrit" en mémoire, et, en fait, por ceux qui n’ont plas incorporé le mode de montage (LAHIRE, 1993, p.117)160.
As leituras que os ferroviários franceses analisados por Seibel (1993) são parecidas com as dos operários descritas por Lahire (1993). Esses profissionais utilizam a leitura principalmente
160 A escrita, nesse caso, é claramente associada aos iniciantes que, por falta de referência prática, podem ter
necessidade de indicações escritas para lhes lembrar ou indicar o que eles correm o risco de esquecer ou aquilo que não foi ainda totalmente incorporado. Mais que isso, em numerosas entrevistas aparece uma crítica ao uso do plano: “observar o plano, disse um operário, é não trabalhar e, além disso, não fazer o esforço de se lembrar”. O escrito é então pensado como podendo destruir ou enfraquecer as capacidades de memorizar. Nessa perspectiva, o plano, o escrito são apenas ajudas exteriores, muletas para a memória enfraquecida dos novatos, que não possuem o trabalho no interior, que não tem o plano inscrito na memória e, de fato, para aqueles que não têm incorporado o modo de montagem (Tradução sob minha responsabilidade).
para substituir a falta de experiência. Depois de incorporado o modo de realizar determinado procedimento, não há mais necessidade de leitura.
No caso das domésticas pesquisadas por mim, uma situação parecida se observa, na medida em que o recurso às receitas culinárias foi mais intenso no momento de inserção no emprego doméstico. Como foi descrito anteriormente, ainda neste tópico, foram as situações de exigência para cozinhar para pessoas de outro meio social e cultural que mobilizaram as empregadas a recorrerem às receitas escritas. A partir do momento que elas aprendem a fazer determinados pratos solicitados pela família, diminuem a intensidade da busca por receitas. No entanto, vale ressaltar que embora menos intensas, as leituras de receitas continuam presentes em todos os casos. A interpretação que pode ser dada para esse fato é o desejo e a preocupação constantes em agradarem os membros da família empregadora. Como já foi dito, cozinhar bem, e aqui se inclui o saber culinário diversificado, faz parte dos conhecimentos profissionais valorizados nessa ocupação.