3. SANAT VE DOĞA
3.5 Ekolojik Sanat
“poderiam atender aos segmentos pobres da população que normalmente são marginalizados”206. No
Brasil, na década de 1970, o arquiteto Vitor Lotufo, realizou experiências com geodésicas para construção de habitações buscando a economia de meios, como veremos no último capítulo.
Nos anos 1960, também uma ‘nova mulher’ estaria surgindo a partir do Feminismo207 que reivindicou igualdade entre os gêneros208. Dois trabalhos são considerados “grandes clássicos”209 daquele período e exemplares do olhar feminino: Primavera Silenciosa, de 1962, de Rachel Carson, e Morte e vida das grandes cidades, de 1961, de Jane Jacobs, ambos contra o “establishment” elaborados por “mulheres brancas, de meia idade e da classe média”210.
O livro “Morte e vida das grandes cidades” é considerado uma “referência fundamental para a crítica à cidade moderna”211. Segundo C.Jencks, é intenção da autora que os urbanistas se
debruçassem sobre “assuntos fora da média como segurança das ruas e as oportunidades de trabalho”
para um maior entendimento dos “processos subjacentes, ‘reais’ de uma cidade”212. Para J.Montaner, o
“ativismo contestatório, ecologista e comunitário” (decorrente da “visão cultural de esquerda”213 de J.Jacobs e seus argumentos em que “contrapõe a vitalidade dos bairros tradicionais com a das metrópoles norte-americanas nas quais foram aplicados os princípios da Carta de Atenas”214), foram amplamente assumidos pela “cultura urbana das décadas de 1960 e 1970”215.
O livro “Primavera Silenciosa” é considerado o marco inicial do Ecologismo e da revolução
ambiental216, por sua repercussão, que foi além do meio acadêmico e apontou os impactos do uso de
206 O inchaço da cidade de Lima e a ocupação das terras devolutas as Barriadas nos arredores de Lima, levou arquitetos a atuarem como consultores para ajudar os ‘grileiros’ a construir com maior eficácia e com saneamento básico, como John Turner e William Mangin. Cf. FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da
Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p.351.
207 O feminismo dos anos 1960 questionava “as diferenças de papéis entre homens e mulheres na sociedade”. O feminismo questiona o papel secular da mulher como “guardiã da família” para cumprir novos papéis no mercado de trabalho. Cf. ZAPPA, R.; SOTO, E.;Eles só queiram mudar o mundo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 215.
208 Como o movimento “Women´s Lib”, em defesa da igualdade entre os gêneros. Cf. PAES, Maria Helena Simões. A década de 60: Rebeldia, contestação e
repressão política. São Paulo: Editora Ática, 1997, p.23.
209 Para Marwick não é possível compreender a Revolução cultural dos anos sessenta sem observar a massa de outros movimentos além dos contraculurais. Como exemplo cita manifestações de “mulheres brancas, de meia idade e da classe média” como Carson e Jacobs. Cf. MARWICK, Arthur. The Cultural
Revolution of the long Sixties: voices of reaction, protest, and permeation. The International History Rewiew, vol. 27, n. 4 dez.2005 pp.780-806.
210 Ibidem.
211 MONTANER, Josep Maria. Arquitetura e Crítica. Barcelona: Gustavo Gilli, 2007, p. 93-94. 212 JENCKS, Charles. Movimentos Modernos em Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1985, p. 333. 213 MONTANER, op. cit., p. 93-94.
214 MONTANER, Josep Maria. Depois do movimento moderno: arquitetura da segunda metade do século XX. Barcelona: Gustavo Gilli, 2009, p. 82. 215 Id. Arquitetura e Crítica. Barcelona: Gustavo Gilli, 2007, p. 93-94.
216 PELICIONI, Andréa Focesi. Trajetória dos Movimentos ambientalistas. In. Curso de Gestão Ambiental. Arlindo Philippi Jr, Marcelo de A.Roméro e Gilda C.Bruna editores, Babueri: Manole, 2004, p. 439-440.
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pesticidas na agricultura217. O Ecologismo218, que propõe uma alternativa à sociedade industrial tecnocrática, é formado por amplo espectro de ativistas ou “sujeitos ecológicos”219– cientistas, amantes da natureza, pacifistas, beats220 (como o poeta Gary Snyder221: zen budista e ativista ecológico que criou o conceito “deep ecologism”) - e os hippies. Conforme análise de I. Carvalho, o Ecologismo tem “filiação contracultural direta” e possui um complexo de contravalores que se “caracteriza pelo questionamento do status quo das sociedades desenvolvidas, pela crítica aos valores da modernidade ocidental e pela busca de um novo mote de organizar a vida individual e coletiva”222. O Ecologismo, assim,defende ações para diminuir o impacto destrutivo das sociedades, através de mudanças na política, economia e cultura, visando uma forma alternativa de relacionamento com a natureza.223 A
Conferência da Biosfera, em setembro de 1968224, discutiu esses temas, em 1972, em Estocolmo, a I
Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, “oficializou o surgimento de uma
preocupação internacional sobre esses problemas”225.
Em janeiro de 1972, ocorreu o importante simpósio “The Universitas Project”, organizado por
Emílio Ambasz, então curador do Museu de Arte Moderna de Nova York226, uma das primeiras iniciativas para discutir a relação entre arquitetura e ecologia. Entre os participantes arquitetos, críticos, filósofos e escritores, entre outros: C. Alexander, P. Eiseman, R.Meier, D.S.Brown, K.Frampton, J.Baudrillard, H.Lefebvre, M. Foucault, A. Touraine, G.Dorfles, U.Eco, T.Maldonado e O.Paz. A arquiteta F.Scott analisou a importância do encontro:
217 O livro ampliou os debates sobre meio ambiente que saem do âmbito acadêmico contribuindo para a conscientização da sociedade sobre os danos das atividades humanas ao meio ambiente. Escrito em linguagem clara e acessível, foca a degradação do meio ambiente pelo uso do D.D.T., responsável pela destruição da fauna, matando pássaros em larga escala. O livro também foi especialmente importante para a ecologia social que “nasceu a partir do momento
em que a reflexão ecológica deixou de se ocupar apenas do estudo do mundo natural para abarcar também os múltiplos aspectos da relação entre os homens e o meio ambiente".Cf. LAGO, Antônio; PÁDUA, José Augusto.O que é ecologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, p.14.
218 Ecologismo segundo definição de Herculano (1996, p. 92) “um conjunto nem sempre homogênneo, de ideário – crenças e valores- e de atitudes práticas
vivido por associações civis, por pessoas físicas e também por organismos estatais na defesa do meio ambiente e na busca da qualidade de vida humana em harmonia com a natureza” . In. CARVALHO, Isabel C. M. A invenção ecológica: narrativas e trajetórias da educaçãoambiental no Brasil. Porto Alegre: UFRGS
Editora, 2ª ed. 2002, p. 17.
219 CARVALHO, op. cit. p. 57 (grifo nosso). 220 LAGO, op. cit. p.10.
221 Gary Snyder (1930- ) nasceu em São Francisco, Califórnia. Estudou línguas orientais na Universidade de Berkeley nos anos cinquenta. Poeta, Zen Budista e ativista ambiental, foi membro fundador do movimento Deep Ecologism (Ecologia Profunda). Participou do movimento San Francisco Be-In. Foi ganhador do prêmio Pulitzer de 1974. Ele é mundialmente conhecido como a personagem Japhy Ryder no livro Os vagabundos iluminados (Dharma Bums) de Jack Kerouac.
222 CARVALHO op. cit., p. 57 (grifo nosso). 223 LAGO; PÁDUA, op. cit., p.85.
224 Trata-se da Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para Conferência da Biosfera, pela Organização das Nações Unidas (ONU), através do órgão da Educação, Ciência e Cultura (Unesco) para avaliar os problemas do meio ambiente global. Cf. PELICIONI, Andréa Focesi. Trajetória
dos Movimentos ambientalistas. In. Curso de Gestão Ambiental. Arlindo Philippi Jr, Marcelo de A.Roméro e Gilda C.Bruna editores, Babueri: Manole, 2004, p.
442-443. 225 Ibidem, p. 92.
226 O simpósito foi co-patrocinado pela Liga de Arquitetura de Nova York, Departamento de Arquitetura e Desing do MoMa e Fundação Graham de Estudos Avançados e Instituto de Estudos de Arquitetura e urbanismo. Lista completa dos participantes: Christopher Alexander, Jean Baudrillard, Gillo Dorfles, Umberto Eco, Peter Eiseman, Hans Magnus Enzensberger, Michel Foucaut, Roman Jakobson, Erich Jantsch, Martin Pawley, Octavio Paz, Anatol Papport, Jivan Tabibian, Alain Touraine, Rexford Guy Tugwell, Gyorgy Kepes, Arnold Kramish, Henri Lefebvre, Tomas Maldonado, Richard Meier, George Nelson, Hasan Ozbekhan e Germen Gvishiani. Cf. THE UNIVERSITAS PROJECT, New York.Museum of Modern Art press realease, no. 116B, October 19, 1971, disponível em http://www.moma.org acesso em 21/06/2012.
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“[...] Perguntas surgiram a respeito do encontro da disciplina com as novas tecnologias e os discursos científicos, bem como os discursos da política e técnicas de ecologia, poder, e ameaças ambientais, novos movimentos sociais e revolucionários, o militarismo, o legado do marxismo, e paradigmas teóricos contestatórios. É neste sentido que se pode ler o simpósio não só através das ambições de seu organizador, mas como um outro momento chave em que a arquitetura e o design foram confrontados com a perspectiva de
forjar respostas políticas e teóricas para a mudança social e tecnológica.”227
H.Marcuse, falando aos estudantes ligados ao movimento ecológico da Califórnia, em 1977, analisou:
“O próprio movimento ecológico revela-se em última análise como um movimento político e psicológico de libertação. É político porque confronta o poder combinado do grande capital, cujos interesses são ameaçados por esse movimento. É psicológico porque (e isto é um ponto muito importante) a pacificação da natureza exterior, a proteção do meio ambiente, também pacificará a natureza interior dos homens e das mulheres. Um ambientalismo bem-
sucedido subordinará, dentro dos indivíduos, a energia destrutiva à emergencia erótica.”228
8- Ant Farm, Clean Air Pod, Berkeley, 1970. Fonte:SCOTT, 2010, p.210
227 SCOTT, Felicity D. Architecture or techno-utopia: politics after modernism. Massachusetts: MIT Press, 2010, p.97 228 MARCUSE, Herbert. Herbert Marcuse: a grande recusa hoje. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 152.
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Em abril de 1970, integrantes do grupo Ant Farm, que se autodenominavam arquitetos da contracultura, promoveram o “Air Emergency” [Fig.8], uma espécie de “happening”, no Campus da Universidade da Califórnia, em Berkeley, como parte integrante do evento “Dia da Terra” que discutiu a questão ambiental. O grupo, formado pelos arquitetos Doug Michels, Chip Lord, Curtis Schreir e outros, construiu uma grande membrada inflável, de plástico transparente, onde participantes circulavam com máscaras anti-gás. Foi um irreverente protesto contra a violenta repressão policial ao movimento estudantil que ocorrera naquela Universidade, no ano anterior229, e, uma forma de inserir a disciplina de
arquitetura nas discussões do emergente Ecologismo. O Ant Farm objetivava a “reconstrução radical
da disciplina” através da busca de potenciais “soluções estéticas das novas tecnologias”. 230
Ao final da década de 1970, o movimento ecológico se consolida, com temas como: desenvolvimento sustentável, educação ambiental, agricultura orgânica, economia energética e especialmente, construções sustentáveis para uma “Arquitetura Verde”, que surgiram nos anos 1960 e 1970. No Brasil, os arquitetos paulistas Vitor Lotufo e Luis Antonio Pintanga do Amparo estavam inseridos nas discussões desses temas, como veremos no último capítulo.
A década de 1960 foi, então, um período de “revisões radicais”231 para a arquitetura e
urbanismo internacionais com uma grande “diversidade de posições”, que apresenta desde propostas
de alta tecnologia, até propostas a favor de uma “arquitetura alternativa e ecológica”232 fruto do interesse
“pela cultura e pela arquitetura anônimas”233; uma visão de mundo coerente com a História Nova, que levou ao resgate da arquitetura vernacular: “anônima, espontânea e ingênua”, uma arquitetura sem “pedigree”, de “um mundo não familiar”como foi apresentado na exposição “Arquitetura sem arquitetos”,
do MoMa 1964-65, organizada por B.Rudofsky.234 Para J.Montaner os livros de J.Jacobs, B.Rudofsky e
H.Lefebvre “animaram os movimentos populares, alternativos e ecológicos que começaram a surgir nos
anos setenta”235. No Brasil, a partir de 1958, Lina Bo seguia pesquisa semelhante, como veremos no capítulo 3.
Ainda para J.Montaner236, a chegada do homem à Lua, em 1969, gerou uma tendência de busca pela alta tecnologia nos países industrialmente mais avançados. K.Frampton, que corrobora a
229 Os protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã que ocorreram em 1969, na Praça Lower Sproul, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, foram duramente reprimidos pelas forças policiais que lançaram gás lacrimogêneo de helicópeteros sobre os estudantes. Cf. SCOTT, Felicity D. Architecture or
techno-utopia: politics after modernism. Massachusetts: MIT Press, 2010, p.97.
230 SCOTT, op. cit., p.180.
231 MONTANER, Josep Maria. Depois do movimento moderno: arquitetura da segunda metade do século XX. Barcelona: Gustavo Gilli, 2009, p. 127. 232 Ibidem, p. 111.
233 Ibidem, p.138.
234 RUDOFSKY, Bernard. “Arquitetura without architects: a short introdutction to non-pedigreed architecture. Albuquerque: University of New México Press,1964. 235 MONTANER op. cit., p. 128.
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