A transdisciplinaridade, a partir da definição de Nicolescu (2008), possui três princípios: o da complexidade, dos níveis de realidade e o da lógica do terceiro incluído. Esses princípios, segundo o autor, determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. Procuraremos discorrer sobre esses três pilares para posteriormente discutirmos os conceitos de disciplina, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, e finalmente, associarmos o modelo da tetraktys de Pitágoras aos conceitos de disciplina, pluri, inter e transdisciplinaridade e relacionar esse modelo aos níveis de realidade propostos por Nicolescu (2008).
2.1- Complexidade
Edgar Morin, um dos pensadores mais expressivo dessa corrente, associa a complexidade à imagem de um tapete. Como o termo complexus em latim significa o que é tecido junto, o tapete é o produto da junção de diferentes fios. Num primeiro momento, por ser um produto acabado e apresentar uma unidade o tapete pode ser visto como um todo e assim ser mais do que cada fio isoladamente. Neste caso, o todo é mais do que as partes.
Num segundo momento, cada fio isoladamente tem as suas qualidades inibidas pelo conjunto total da tapeçaria. No seu conjunto, o tapete impõe, digamos assim, a cada fio, uma condição específica, impedindo que cada fio se apresente com todas as suas possibilidades. Se tomarmos o fio fora do contexto do tapete, a parte é mais do que o todo.
Num terceiro momento, a criação do tapete não é linear, pois cada fio já anuncia o conjunto final, assim como a idéia do conjunto final determina a aplicação de cada fio. Mas como tudo isso está em processo, o fio pode influenciar o conjunto, assim como o conjunto determina uma aplicação específica para cada fio, num movimento dialógico e recursivo - por isso não
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linear -, o que leva à idéia de que o todo é mais e menos que a soma das partes.
Najmanovick afirma que
os enfoques complexos caracterizados pelo pensar em termos de interações não lineares nos dão a possibilidade de sair do círculo vicioso e habilitar um pensamento fluído, capaz de adotar diversas configurações sem deixar de ter a rigidez do cristal e sem desvanecer-se como fumaça (Najmanovick, 2008, pg. 4).
A autora associa o pensamento complexo ao conceito de rede, em que a idéia de dinamismo e fluidez evoca um contínuo crescer, transformar e reconfigurar, formando um tecido com uma trama vital em contínuo vir a ser. Por isso a complexidade pode também ser associada ao conceito de ecologia, em que há uma interdependência entre vários elementos sem que haja uma supremacia de um sobre o outro. Se tomarmos a selva africana como exemplo, o leão, rei das selvas, depende do ar, da água, da luz e de outros animais “inferiores” para se alimentar. Sem isso o rei não tem trono nem vida. Logo, há uma interdependência entre as diferentes existências, formando um conjunto complexo de relações.
Ora, se olharmos ao nosso entorno perceberemos que tudo está relacionado com tudo, como nos fala a teoria do caos. As coisas não estão isoladas e desconectadas das demais. A complexidade mostra que a realidade é complexa e que o seu isolamento promovido pela ciência a partir do século 16 resultou na fragmentação do próprio sujeito, que dirige o seu olhar para a parte ou para o todo, mas se esquece de perceber a reciprocidade entre ambas. Assim, a teoria da complexidade nos convida a olhar a realidade em seu aspecto ecológico, buscando a relação entre as coisas e o seu sentido.
A complexidade pressupõe alguns princípios importantes, como o hologramático, o da dialógica e o da recursividade. O princípio hologramático foi discutido no capítulo anterior e elucida a idéia de que o todo se reflete nas partes, assim como a parte reflete o todo. Esse princípio mostra a interdependência entre as coisas e os seres e favorece uma visão sistêmica da realidade, sem que haja, no entanto, uma supremacia do todo sobre as partes ou vice-versa.
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A dialógica trabalha com a complementação dos antagonismos e contradições. Diferente da dialética, em que a síntese representa uma superação e, nesse sentido, uma supressão da tese e da antítese, a dialógica procura abarcar as polarizações sem eliminá-las. Na lira, a tensão entre o arco e a corda produz o som, que sob o ponto-de-vista da dialética representa a superação da tensão entre a corda e o arco. Dialogicamente, no entanto, o som ou a música depende da tensão entre o arco e a corda, o que significa que o som é a complementação do antagonismo entre a corda e o arco. Assim, ainda que na dialógica haja superação, não há a eliminação dos antagonismos que sustentam a superação. Por isso, a visão dialógica é cíclica e não temporal como a dialética. Na concepção dialética o arco deixou de ser arco e a corda deixou de ser corda para serem lira. Na dialógica, o arco continua a ser arco e a corda a ser corda, e a lira será sempre dependente da tensão entre o arco e a corda. A dialógica é simultânea, enquanto a dialética é linear. O conceito de dialógica será aprofundado ao longo dessa pesquisa, principalmente a partir da concepção de níveis de realidade e da lógica do terceiro incluído.
O princípio da recursividade mostra que o efeito age sobre a causa, de modo que o sujeito, por exemplo, é produto e produtor da sociedade ao mesmo tempo. Não há, portanto, uma independência da causa sobre o seu efeito, uma vez que o efeito atua sobre a causa. Esse princípio é aprofundado e associado ao movimento da tetraktys no capítulo IV, pois na tetraktys há o movimento do 1 ao 4 e também o do 4 ao 1, e nos permitirá visualizar algumas possibilidades de avaliação dos processos de aprendizagem a partir do princípio da recursividade.