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2.1. KURAMSAL ÇERÇEVE

2.1.13. Eğitim Örgütlerinde Güven

Há uma multiplicidade no ser tomado como tal, decorrente da presença e conformação da matéria inteligível pensada como alteridade primeira, que representa a condição para a existência do Noûs como hipóstase distinta. O Noûs plotiniano diferencia-se do Noûs aristotélico em função deste último ser pensado como uma inteligência pura cujo ato consiste na contemplação de si mesmo, único inteligível objeto de sua contemplação. Para Plotino, o Noûs

não se mantém nessa dualidade inicial de inteligência e inteligível que, mesmo concebida em sua identidade, não abrange a complexidade ínsita ao ser e intelecto divinos. Essa dualidade básica desdobra-se em uma tríade de ser-vida-pensamento156 e nos gêneros (ge/nh) do mundo inteligível, simultaneamente princípios de suas espécies e de toda a multiplicidade ideal. A compreensão dessa unidade múltipla em toda a sua complexidade, assim como da articulação de sua unidade interna e concomitante multiplicidade requer a análise dos gêneros do ser, que representam a condição para a simultânea unidade e multiplicidade do Noûs, e também para o exercício da atividade pensante, tanto a dele mesmo quanto a da alma que o busca. Na justificação dessa unimultiplicidade, a alteridade como gênero desempenha um papel fundamental.

Em função de sua importância, Plotino dedicou um grande tratado ao tema dos gêneros, posteriormente divido em uma trilogia por Porfírio: o VI 1 (42), VI 2 (43) e o VI 3 (44). O primeiro tratado estabelece uma crítica das categorias de Aristóteles e dos estoicos e seu escopo principal consiste em mostrar que as categorias aristotélicas não são gêneros157 e muito menos do inteligível; o segundo apresenta os gêneros do mundo inteligível e o terceiro discute as categorias do mundo sensível, reduzindo a lista de Aristóteles para apenas cinco categorias. Charrue (1993, p. 206) afirma que o tratado VI 2 (43) deve ser considerado um verdadeiro comentário ao Sofista, embora se concentre nos passos situados entre 248a-256d (1993, p. 224), o que implica dizer que muitas questões essenciais do texto platônico são deixadas de lado. Plotino deixa claro que o seu propósito no tratado VI 2 (43) é o de investigar o ser (1. 16-21) e isso implica examinar e elucidar a natureza do Noûs e sua constituição, ou seja, mostrar de que modo é uno-múltiplo, pois a unidade absoluta não lhe cabe.

O número de gêneros estabelecidos por Plotino permanece o mesmo do Sofista, assim como os seus nomes, mas há profundas diferenças entre ambos, como ressaltam os intérpretes. Plotino diz seguir a opinião de Platão a respeito dos gêneros (VI 2 (43), 1, 1-5), mas devemos

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Gerson (1998, p. 53) ressalta que o Noûs é princípio (a)rxh/) tanto da essência quanto da vida”, cf. o passo IV 7 (2), 9, 14-15. Gerson indica Hadot (1960 ou 1999 2ª. Ed.) como ponto de partida da discussão da unidade desses dois aspectos do Noûs, e também Kremer (1966, p. 86-108) como fonte de extensa documentação e discussão posterior a respeito da questão. O artigo de Hadot (1999) sobre a tríade ser-vida-pensamento é indispensável para o estudo da questão. Hadot mostra que o tratado III 6 (26), no passo 6.10-32, utiliza explicitamente o Sofista em referência à tríade acima; uma outra fonte importante seria o livro XII da Metafísica de Aristóteles. Segundo o intérprete, a noção do ser como vida e inteligência já teria se tornado clássica no tempo de Plotino.

157 Sobre a definição de gênero em Plotino, Santa Cruz (1983, p. 70) afirma que este entende o gênero como algo

comum e que deve ser um predicado da essência, possuir diferenças próprias e originar espécies (VI 2 (43), 10. 37- 39). Como veremos em outro lugar, as categorias não cumprem essas condições e, portanto, para Plotino não são gêneros, pois há homonímia em cada uma delas (VI 1 (42), 4, 51-54).

destacar que os me/gista ge/nh de Platão transformam-se nos prw=ta ge/nh com Plotino, pois, enquanto no Sofista os cinco grandes gêneros são considerados como alguns dentre os maiores, nas Enéadas transformam-se em gêneros supremos158. No que diz respeito à posição dos gêneros na hierarquia dos seres, no Sofista eles ocupam o primeiro lugar e nada é posto acima deles, enquanto em Plotino, localizam-se no âmbito da segunda hipóstase, situados, portanto, em um degrau inferior, abaixo do primeiro princípio (SANTA CRUZ, 1997, p. 106)159.

Os gêneros supremos elencados no tratado VI 2 (43) são a essência (ou)si/a)160, o repouso (sta/sij), o movimento (ki/nhsij), a identidade (tau)to/n) e o outro (qa/teron) ou a alteridade. Um ponto essencial na determinação dos gêneros e que aponta para outra diferença fundamental em relação a Platão, diz respeito ao modo como Plotino estabeleceu os cinco gêneros, percurso completamente diferente daquele feito no Sofista e que se alinha com as características próprias da metafísica plotiniana161. Nos capítulos VI 2 (43), 7-8, Plotino descreve esse percurso marcado pelo duplo movimento dialético da análise e da divisão162, que permite o discurso acerca do mundo inteligível e o discernimento, até onde é possível para a razão discursiva (dia/noia), da sua natureza unimúltipla.

O primeiro aspecto da questão dos gêneros e sua importância para a justificação do múltiplo diz respeito ao exercício do pensar. Parmênides argumentou em prol da identidade tautológica entre o ser e o pensar, e da unidade do primeiro como condição para o exercício do segundo, já que o pensamento só pode ter como referência o que é, no caso o ser, pois o que não é não pode ser pensado. Plotino, seguindo os passos de Platão, procurou demonstrar a condição múltipla do ser em função da sua inteligibilidade e copertinência com a atividade pensante. Para

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No passo VI 2 (43), 8, 43-49, Plotino deixa claro que são gêneros primários sem que haja qualquer subordinação entre eles e que nada pode ser predicado deles como gênero, pois não são espécies de um gênero superior.

159 Santa Cruz segue Brisson (1991, p. 106). Remetemos também para Gavray (2007, p.15).

160 Gavray (2007, p.15) segue Collette (2002, 177-180) ao afirmar que Plotino, no tratado VI 2 (43), usa as

expressões to\ o)/n e ou)si/a em relação ao Noûs e esclarece que a primeira diz respeito ao ser hipostático, enquanto a segunda se refere ao ser como gênero. Charrue (1993, p. 213) cita Nebel (1929) ao criticar essa distinção e tenta mostrar que ambos os termos são usados indistintamente para o ser hipostático e genérico, o que refletiria a ausência de uma terminologia precisa em Plotino. Santa Cruz (1997, p. 110), por sua vez, concorda com Charrue a respeito da questão.

161 Vide Brisson (1991, p. 469), que segue a via aberta por Hadot (1969, p. 333-339), Santa Cruz (1997, p. 106) e

Gavray (2007, p. 15).

162 Collette (2002, p. 134-135) indica, a partir do que é dito no tratado I 3 (20), que o movimento dialético na

investigação da simultânea unidade e multiplicidade do inteligível e, consequentemente, dos gêneros, obedece a duas etapas: a) pela divisão, partimos o domínio do inteligível até discernirmos todos os gêneros que o compõem; b) pela análise, realizamos a unificação da multiplicidade dos gêneros e mostramos a sua condição una.

Plotino, o exercício do pensar, muito embora pressuponha a estabilidade e unidade do ser, traz consigo inexoravelmente a multiplicidade; o pensar só se efetiva no âmbito desta e a requer como condição para o seu processo de desdobramento163. Mesmo a intuição pura do Noûs colhe o inteligível em uma apreensão que implica relação. O pensamento, em qualquer nível que seja, é múltiplo, muito embora possa realizar um maior ou menor grau de unidade e identidade com o ser que apreende. O próprio Noûs, concebido como ser e Intelecto, existe como dualidade básica entre Intelecto e inteligível, que implica a presença da alteridade e de todos os outros gêneros. A presença da diversidade, que para Parmênides traz consigo o não-ser e inviabiliza o pensar em função de sua contraditoriedade, para Plotino torna-se a sua condição, pois o pensar só se realiza na diferença, traduzida em um primeiro momento em termos da dualidade intrínseca ao Noûs, a de ser pensamento e conteúdo de um pensamento, e sem a qual só restaria o silêncio do Uno.

É que não pode haver intelecção se não há Alteridade e ademais, Identidade. Assim, as coisas primárias resultam ser: Intelecto, Ente, Alteridade, Identidade. Deve-se incluir, ademais, Movimento e Estabilidade: Movimento porque intelige; Estabilidade, para que intelija o mesmo. A alteridade para que seja inteligente e inteligido. Em realidade, se retiras a alteridade, o Intelecto se fará uma só coisa e se calará. Todavia, é preciso que também as coisas inteligidas sejam distintas entre si.

V 1 (10), 4, 33-40 [trad. IGAL, J.]: ou) g\ar a)\n ge/noito to\ noei=n e(tero/thtoj mh\ ou)/shj kai\ tau)to/thtoj de/. gi/netai ouÕn ta\ prw=ta nou=j, o)/n, e(tero/thj, tau)to/thj: dei= de\ kai\ ki/nhsin labei=n kai\ sta/sin. kai\ ki/nhsin me/n, ei¹ noei=, sta/sin de/, i(/na to\ au)to/. th\n de\ e(tero/thta, i(/n’ $Å noou=n kai\ noou/menon. h)\ e)a\n a)fe/l$j th\n e(tero/thta, e(\n geno/menon siwph/setai: dei= de\ kai\ toi=j nohqei=sin e(te/roij pro\j a)/llhla eiånai.

O que possibilita que o Noûs seja objeto do pensamento e, portanto, da investigação dialética, é a sua unimultiplicidade pensada em termos dos gêneros. No tratado V 1 (10), Plotino faz referência aos gêneros e afirma que sem estes não haveria intelecção e, portanto, não haveria sequer o Noûs como Intelecto e inteligível. É o que também afirma o seguinte passo: “Do mesmo

163“E por isso, Platão, acertadamente, supõe alteridade onde há Intelecto e Essência. Porque o Intelecto, para poder

pensar, deve sempre assumir alteridade e identidade: não discriminaria a si mesmo de seu inteligível mediante uma relação de alteridade com seu objeto nem contemplaria todas as coisas, se não mediasse alguma alteridade que lhe

permitisse ser todas as coisas.” (VI 7 (38), 39, 4-9 [trad. IGAL, J.]: dio\ kai\ o)rqw=j e(tero/thta lamba/nein, o(/pou nou=j kai\ ou)si/a. dei= ga\r to\n nou=n a)ei\ e(tero/thta kai\ tau)to/thta lamba/nei, eiãper noh/sei. e(auto/n te ga\r ou) diakrinei= a)po\ tou= nohtou= t$= pro\j au)to\ e(te/rou sxe/sei ta/ te pa/nta ou) qewrh/sei, mhdemia=j e(tero/thtoj genome/nhj ei¹j to\ pa/nta eiånai:).

modo, o pensamento deve existir sempre e necessariamente na alteridade e na identidade.” (V 3

(49), 10, 24-25 [trad. IGAL, J.]: kai\ a)ei\ e)n e(tero/thti th\n no/hsin eiånai kai\ e)n

tau)to/thti de\ e)c a)na/gkhj:). Sem a diferença, haveria apenas uma espécie de contato inefável

entre pensante e pensado, ou melhor, sequer haveria ambos (V 3 (49), 10, 40-44). A multiplicidade do ser, longe de representar uma condição contraditória, constitui a condição de possibilidade de todo pensar. Plotino não pensa essa alteridade como o contrário do ser e excludente desse, mas como um gênero distinto que se encontra no mesmo nível que aquele. É nesse sentido que o procedimento dialético é mencionado no tratado I 3 (20), em estreita relação com os gêneros, pois, como uma ciência do inteligível que trata dos seres, a dialética é condicionada pela unimultiplicidade de seu objeto e obedece a essa dupla face em seu procedimento de análise e divisão (I 3 (20), 4). Para Collette (2002, p. 175), os gêneros são anteriores ao exercício da dialética e condição desta, pois tornam possível todo pensamento verdadeiro.

Na busca da determinação dos gêneros, o procedimento inicial de Plotino é ascendente e parte de realidades mais próximas a nós164 e conduz até o inteligível. Isso implica que devemos abordar primeiro a natureza dos corpos e levarmos a investigação até a alma e ao

Noûs. Verra (1993, p. 61-64)165 faz uma observação importante a respeito da apreensão dialética da unimultiplicidade do Noûs, indicando que o método dialético procede discursivamente, pela

dia/noia, dividindo e percorrendo o inteligível parte por parte, mas encontra um limite

justamente na unidade do Noûs, que não pode ser apreendida integralmente pelo discurso que divide, estando assim, fadada a ceder lugar a uma intuição direta, noética. Não obstante sua multiplicidade, como afirma Plotino, não se pode dizer de maneira exata que o inteligível seja constituído de partes, já que há uma anterioridade da natureza inteligível sobre essas, de acordo

com o passo a seguir: “E umas estão como que em uma parte do ente total, enquanto outras estão

em sua totalidade, assim como esse ente que é verdadeiramente total não foi agrupado a partir de suas partes, mas ele mesmo engendrou suas partes, para que também nesse sentido fosse

verdadeiramente um todo.” (III 7 (45), 4, 8-11 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: kai\ ta\ me\n w(/sper e)n me/rei tou= panto\j o)/ntoj, ta\ d’ e)n panti/, w(/sper kai\ to\ a)lhqw=j tou=to

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Segundo Collette (2002, p. 141), Plotino segue o método dado por Aristóteles em Phys. A, 1, 184a 10, 16-21, que começa a investigação partindo do que é mais conhecido para nós, até chegar ao que é mais conhecido por si.

pa=n ou)k e)k tw=n merw=n h)qroisme/non, a)lla\ ta\ me/rh gennh=san au)to/, iÐna kai\ tau/t$ w(j a)lhqw=j pa=n $Õ.). Podemos dizer, nesse sentido, que a dupla faculdade racional-

intuitiva do homem se complementa na apreensão do Noûs, que em sua divisão se mostra para o raciocínio discursivo e em sua unidade, para a intuição noética.

As questões centrais que abrem a investigação dialética realizada pelo tratado VI 2 (43) dizem respeito ao número dos gêneros: se são um só ou se muitos; e ainda ao estatuto dos gêneros, se são princípios ou apenas gêneros. Segundo Plotino, caso o ser fosse tão somente uno, as perguntas pelo gênero seriam descabidas (1. 5-6), pois este tem de ter espécies subordinadas. Os gêneros representam a condição estruturante da unidade múltipla do ser inteligível, o que requer a investigação do seu número. Para realizar esse exame, Plotino procede a uma primeira divisão metodológica, pois se o ser é o objeto da investigação, é necessária, depois do reconhecimento de sua ínsita pluralidade, a elucidação da sua natureza, o que significa perguntar quais são as suas características definidoras.

Uma vez estabelecida a natureza invariável do ser, a investigação deve tomar como desafio a justificação dessa unimultiplicidade, o que coloca de imediato a questão do número dos gêneros e como se relacionam com suas espécies. A respeito disso, Plotino elenca três hipóteses (VI 2 (43), 2, 3-10): a) deve haver um só gênero e os outros seres subordinados a ele como espécies; b) deve haver vários gêneros, no entanto subordinados a um gênero supremo superior; c) deve haver uma pluralidade de gêneros, irredutíveis a outros gêneros, cada um deles com gêneros inferiores e espécies subordinadas, todos princípios constitutivos da unidade do Noûs. Todo o escopo do tratado consiste em justificar essa última hipótese e Plotino faz isso a partir da exegese do Sofista.

Para sustentar este último ponto de vista, Plotino nega categoricamente que haja somente um gênero, pois isso implicaria reduzir todas as coisas à indistinção e levaria à destruição das espécies, já que cada gênero recebe do exterior166 as diferenças que originam as espécies. E as diferenças devem vir do exterior, pois, caso contrário, estariam sob o gênero em questão e seriam definidas por ele, o que manifestamente não pode ser admitido (VI 2 (43), 2, 34- 39). Deve haver então uma pluralidade de gêneros irredutíveis entre si, primeiros, já que nada pode ser predicado deles como gênero, e que abarquem as suas respectivas espécies. Não

166 Top. IV, 122b20. Sobre a aplicação dessa regra aristotélica por Plotino, remetemos o leitor para Lavaud (2008, p.

obstante serem primeiros, exigem um princípio anterior em função de sua multiplicidade (3. 1-4) e este é o Uno que, no entanto, não é um gênero supremo e não se predica dos gêneros primeiros. Para Plotino, colocar o Uno como princípio dos gêneros impede que sejam vários por casualidade e, por outro lado, permite que cada um seja gênero por si mesmo, em função de não possuírem a mesma essência; como gêneros supremos todos estão em um mesmo nível ontológico (3. 1-9).

Segundo Plotino, para que os gêneros cumpram a terceira hipótese acima, devem ser considerados como princípios167, pois, por meio da sua copertinência e unidade, o Nôus pode se concebido como uma natureza única (mia fu/sij) e, por outro lado, por eles é possível explicar a passagem da unidade para a multiplicidade, enquanto são princípios de suas espécies. O seu papel na constituição e estruturação do Noûs é fundamental, pois caso fossem apenas classes que abrangessem espécies e indivíduos168, classificando-os169, não poderiam ser considerados princípios170, já que, para tal, os gêneros devem ser originadores171 da unidade múltipla do Noûs, os seus elementos constitutivos e formadores (VI 2 (43), 2, 10-14). Plotino toma como exemplo para mostrar que nem todo princípio é gênero os elementos que constituem os corpos, como a terra, a água, o fogo e o ar. Um corpo qualquer é formado por esses elementos, mas em nenhum sentido estes podem ser considerados gêneros, pois não cumprem as condições mínimas para tanto, ou seja, não possuem subordinados abrangidos por eles (2. 15-18). Uma vez definido que os gêneros são princípios e são numerosos, Plotino pode dar início à sua investigação que visa determinar exatamente quais e quantos são os gêneros do ser (2. 27-31).

167“E se isso é assim, é preciso que esses gêneros sejam não só gêneros, mas sim concomitantemente princípios do

Ser: gêneros, porque por debaixo deles há outros gêneros inferiores seguidos de espécies e de espécies indivisíveis; princípios, porque um Ente assim consta de uma multiplicidade e o todo é resultado dessa multiplicidade.” (VI 2 (43), 2, 10-14 [trad. IGAL, J.]: ei¹ dh\ tou=to, ou) mo/non ge/nh tau=ta eiånai, a)lla\ kai\ a)rxa\j tou= o)/ntoj

a(/ma u(pa/rxein: ge/nh me/n, o(/ti u(p’ au)ta\ a)/lla ge/nh e)la/ttw kai\ eiãdh meta\ tou=to kai\ a)/toma: a)rxa\j de/, ei¹ to\ o)\n ou(/twj e)k pollw=n kai\ e)k tou/twn to\ o(/lon u(pa/rxei.).

168 Encerram como tais, multiplicidade e composição, e como princípios, os gêneros são simples e unitários, cf.

Isnardi Parente (1994, p. 342).

169 Em oposição a Charrue (1993, p. 209) e outros intérpretes que defendem que o gênero tem um significado lógico

enquanto o princípio assumiria um significado ontológico, Isnardi Parente (1994, p. 349-350) considera que

ge/noj/a)rxh/ apresentam uma unidade indissociável, lógico-ontológica.

170 Segundo Montet (1996, p. 96-97), Platão jamais qualifica os gêneros como princípios (a)rxai/. Segundo a

intérprete, gêneros como o ser, o mesmo e o outro determinam a articulação das formas, enquanto em Plotino, produzem a unidade do ser. Isnardi Parente (1994, p. 328) mostra que os gêneros que são princípios articulam, para Plotino, a passagem da unidade para a multiplicidade.

171“I generi che sono anche principi hanno una funzione dinamica, perché dalla nozione di principio non è possibile

togliere quella caractteristica di fonte, origine, punto di partenza e di impulso che non è invece connessa alla

O início da determinação dos gêneros começa em VI 2 (43), 4, 1-12, mediante a aplicação dos dois momentos do método dialético172 aos corpos, a fim de encontrar os seus componentes e a unidade que lhes é característica. De acordo com Plotino, um corpo particular revela, mediante a divisão, as suas partes constitutivas, tais como o substrato (ou)si/a), a qualidade (poio/n), a quantidade (poso/n)e o movimento (ki/nhsij)173. Essas características podem ser generalizadas para cada um dos corpos, já que representam a condição requerida para a existência destes. Essas partes constitutivas, no entanto, formam uma unidade sem a qual não haveria corpo algum, já que os corpos dependem da articulação desses diversos aspectos de um composto. No exame dos seres sensíveis, portanto, a razão encontra uma natureza múltipla dotada de certa unidade, essencial para a sua existência.

Dessa constatação inicial a respeito dos corpos, Plotino passa então para a consideração da natureza do ser inteligível (VI 2 (43), 4, 12-34). Prescindindo dos dados da apreensão sensorial, encontra a realidade inteligível e se propõe a compreender como esta pode ser una e múltipla. Segundo Plotino, a divisão inicial do composto em corpo e alma poderia nos levar a crer que essa última seria a unidade absoluta. Em função de sua concomitante unidade e multiplicidade, porém, a alma não poderia ser o princípio primeiro e, portanto, unidade absoluta. A aparente unidade absoluta da alma, que aparece assim em função da subida para o inteligível requerer o abandono das representações sensoriais, principalmente as que se referem à divisão espacial, leva a uma dificuldade, que reside na compreensão de como tal unidade, que não admite separação local, sem grandeza e simples, pode ser una e, também, múltipla. Segundo Plotino, a elucidação dessa questão, no que diz respeito à alma, permite então a elucidação da questão dos gêneros do ser.

A partir do exame anterior, surge então uma questão: os corpos possuem uma natureza una e múltipla, mas será que é possível encontrarmos uma natureza una e múltipla na realidade inteligível? A passagem da multiplicidade dos corpos para um nível mais intenso de unidade, no caso a alma, pressupõe a demonstração da insuficiência dos seres corpóreos e também da existência de um princípio organizador e formador destes; sendo múltiplos, os corpos provêm de uma natureza mais una que os origina (VI 2 (43), 5, 1-11). A alma então é considerada como o princípio formador mais imediato aos corpos e representa um maior grau de ser, pois a

172 A respeito da aplicação do método dialético na descoberta dos gêneros, vide Collette (2002, p. 134-141).

passagem de um menor grau de unidade para um mais intenso é compreendida como passagem de um menor grau de ser para um maior (5. 5-7). Um primeiro ponto a ser observado é que a alma, em função da sua simplicidade, não pode ser considerada múltipla como os corpos, ou seja, dotada de partes aglutinadas ou superpostas, mas deve ser uma natureza una que integre em si certa multiplicidade. Segundo Plotino, a unidade múltipla da alma nada mais representa do que a sua dupla condição de razão (lo/goj) e de compêndio de razões (lo/goi), mediante as quais confere ao mundo sensível as características que se encontram em seu substrato material, manifestando-se como múltipla em função dos efeitos que produz (5. 11-14). As razões da alma não devem ser consideradas, no entanto, como algo distinto da alma, mas como produto de sua atividade decorrente da sua essência, que possui a potência (du/namij) de produzi-las174 (5. 12- 14), como veremos detalhadamente em outra ocasião. Ao comparar o ser da alma com o dos corpos, como no caso da pedra (5. 18-19), Plotino ressalta que ambos não coincidem com o ser, mas enquanto os corpos admitem composição acidental, a alma possui tudo o que possui a partir da sua essência, pois, sendo um princípio inteligível, não admite acidentalidade (5. 18-26). Sua unidade múltipla não pode ser compreendida em termos de composição entre essência e acidente175, o que significa que ela possui vida como algo intrínseco à sua natureza, raciocínio