4.2. Alt Problemlere İlişkin Bulgular ve Yorum
4.2.1. Birinci Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorum
Na seção anterior, investigamos de que modo a unidade e multiplicidade da Alma permite que se mantenha vinculada ao Intelecto pela sua parte superior, indivisível e desempenhe concomitantemente as suas funções junto ao mundo sensível pela sua parte inferior, divisível. Nesta seção, iremos analisar a mesma relação sob outro aspecto, investigando em que sentido a Alma é lo/goj241do Noûs e, como tal, causa do múltiplo sensível. Em um primeiro momento, examinaremos a origem do lógos e a sua relação com a Alma; posteriormente investigaremos como a Alma desdobra a sua parte inferior, que representa um lógos inferior cuja função é a de ordenar o múltiplo sensível.
239 A respeito da metáfora do círculo e da esfera em relação com o mundo, consultar Ferwerda (1965, p. 30-34). 240
Igal (1985, p. 282, nota 4) discorda de Santa Cruz (1979, p. 55, nota 6), que considera que os termos
“u(pe/rtaton” e “e(\n mo/non” designam o Uno e não o Noûs. Apesar de o Uno ser constantemente considerado por meio de superlativos e a expressão “somente um” se aplicar normalmente ao Uno, seguimos Igal nesse ponto, pois o
contexto indica que os seres em discussão são os inteligíveis.
241 A respeito do lógos na filosofia de Plotino, os principais trabalhos específicos são os de Witt (1931); Turlot
O termo “lógos” assume uma ampla polissemia242
na filosofia de Plotino. O Lexicon
Plotinianum (1980, col. 601-614) registra mais de oitocentas ocorrências agrupadas em cinco
significados: a) pensamento falado ou palavra escrita; b) razão em geral, pensamento racional, raciocínio; c) princípio racional, formativo, criativo; conceito, significado ou definição de uma coisa; d) raciocínio em argumentos, discussões; e) proporção, relação, contagem. Em uma investigação do estatuto do múltiplo sensível, a análise da função cosmológica do lógos deve assumir uma dimensão preponderante, pois é por meio de sua ação sobre a matéria que o mundo sensível é constituído como imagem dos arquétipos inteligíveis presentes no Noûs. Mesmo em sua função cosmológica, a doutrina do lógos é apresentada por Plotino com amplas variações, que permitem diversas questões e até interpretações díspares. Há um lógos do Uno243? O Noûs é o único princípio do lógos ou a Alma deve ser considerada também como seu princípio? A Alma se identifica com o lógos ou há diferenças entre ambos? Há um lógos superior e inferior em concomitância com a divisão da Alma? Além dessas questões internas ao pensamento plotiniano, há ainda as questões históricas relativas à origem da doutrina do lógos nas Enéadas, o que torna o seu exame mais complexo.
De um ponto de vista histórico, a principal influência recebida por Plotino na formação de sua doutrina do lógos é proveniente do estoicismo, mas não há que se descartar a relação, provavelmente mediata, com Fílon de Alexandria244. Brisson (1999, p. 87) mostra que Plotino buscou realizar uma síntese da metafísica transcendente do platonismo, expressa pela transcendência das três hipóstases em relação ao universo sensível, com a doutrina estoica da imanência, cujo aspecto fundamental é uma concepção vitalista que pensa o cosmos constituído e conformado a partir de uma energia interna. Para Plotino, o princípio de coesão e conformação do
242 Hadot (1987, p. 214-216) apresenta uma sintética, mas profunda apreciação da polissemia do termo “lógos” em Plotino. O termo aparece em seu sentido mais habitual de “palavra”, “discurso”, “faculdade racional” etc. O seu
sentido mais profundo em Plotino relaciona e sintetiza certos aspectos aristotélicos e estoicos da doutrina do lógos. Segundo Hadot (1987, p. 214), de um ponto de vista aristotélico, presente também em Plotino, o lógos assume a condição de conteúdo nocional, essência e forma, mas é revestido de um sentido platônico que supõe uma forma ou Ideia transcendente da qual o lógos depende, mas que, por outro lado, a manifesta em todos os níveis de realidade como sua projeção e, nesse sentido, é uma imitação do seu modelo. Para Hadot, esse aspecto platônico-aristotélico do lógos assume um sentido estoico de forma produtora e organizadora. Segundo o intérprete (1987, p. 215), o lógos desdobra a necessidade inteligível presente nas Ideias e representa tanto uma fórmula racional e programa quanto uma razão formadora.
243 No passo V 1 (10), 6, 43-46, Plotino parece aludir à existência de um lógos do Uno. A questão é complexa e para
o exame desse problema remetemos o leitor aos trabalhos de Couloubaritsis (1992, p. 231-243), Rist (1967, p. 84ss) e Pigler (2003, 189-210).
244
Não tanto uma relação de influência histórica, mas de certas semelhanças e antecipações. Bréhier (2008) e Witt (1931) apresentam indicações importantes sobre a questão. Para Witt (1931, p. 104), Fílon antecipou Plotino ao transformar o lógos em um princípio simultaneamente transcendente e imanente ao sensível.
mundo é o lógos, embora, em dissonância com os estoicos, jamais o designe em termos materiais, como indica Witt (1931, p. 104). Turlot (1985, p. 517)245, por sua vez, situa a concepção plotiniana do lógos a partir da divisão da filosofia pré-socrática em dois grupos: o primeiro, representado por Anaxágoras e seu conceito de Noûs, pensa um princípio separado de tudo; o segundo, representado por Heráclito e sua concepção de lógos, pensa um princípio imanente aos seres. De acordo com o intérprete, as filosofias que se originaram do primeiro grupo apresentam uma tendência dualista, enquanto as derivadas do segundo, como a estoica, uma inclinação monista que identifica natureza e razão. Para Turlot (1985, p. 517), Plotino se filia ao primeiro grupo, pois o Noûs transcendente é essencial ao seu sistema, mas considera que o conceito de
lógos desempenha um papel fundamental em sua doutrina, assumindo um significado metafísico
que remete à questão de sua relação com as três hipóstases.
Sob o aspecto de sua realidade metafísica, o surgimento do lógos deve ser compreendido a partir da relação do Noûs com a Alma, pois é no âmbito dessa relação que se inscreve a sua origem. Em alguns passos das Enéadas, Plotino identifica de modo claro a Alma com o lógos e a produção da primeira em concomitância com a do segundo, como se fossem idênticos. A Alma, segundo Plotino, representa uma substância cuja atividade racional decorre da atividade pensante de seu princípio, o Noûs, relação que é ilustrada pela metáfora da luz,
formulada no seguinte passo: “Segundo isso, há que assemelhar o Primeiro à luz, o segundo ao sol e o terceiro ao astro lunar, que toma sua luz do sol.” (V 6 (24), 4, 14-16 [trad. IGAL, J.]: Kai\ ouÅn a)peikaste/on to\ me\n fwti/, to\ de\ e)fech=j h(li/%, to\ de\ tri/ton t%= selh/nhj a)/str% komizome/n% to\ fw=j par’ h(li/ou.). A metáfora é apresentada após a discussão da ausência de
intelecção do Uno, em função de sua simplicidade e autossuficiência. Curiosamente, a relação entre luz e sol aparece invertida, pois no passo, o Uno não é mais comparado ao sol, mas com a luz, pois não pensa, mas é a condição para que outros pensem, assim como a luz é condição para que os objetos sejam iluminados e vistos. O Intelecto é comparado ao sol, porque este expressa melhor a sua condição simultânea de luz e ser iluminado (4. 14-20), ou seja, pensamento e ser inteligido, portanto, atividade intelectiva primordial que jamais se inclina para as coisas inferiores e que contém todos os seres juntos em unidade, pois os apreende simultaneamente e de modo intuitivo. A lua, por sua vez, simboliza a condição da Alma, que recebe um reflexo da atividade
intelectiva do Noûs e se torna atividade intelectiva derivada (4. 15) e secundária246, dianoética (V 3 (49), 6, 18-22). A Alma então é uma razão ou lógos derivado do ato próprio do Noûs (V 1 (10), 3, 7-12) e desse modo identificada com a razão que procede do Intelecto e se constitui como seu ato segundo, o que justifica a afirmação de que a Alma é o lógos do Noûs e aparenta indicar que não há razão para pensá-los como realidades distintas. A questão não é tão simples, a ponto de ter levado Armstrong (1984, p. 115-125) a aventar a tese de uma quarta hipóstase representada pelo
lógos, opinião posteriormente negada pelo autor, mas que ainda é frequentemente usada de modo
inoportuno para criticá-lo.
Uma questão difícil emerge então da análise do surgimento da Alma e do lógos e que diz respeito às suas relações. O lógos jamais pode ser considerado uma hipóstase independente da Alma e mesmo do Noûs (TURLOT, 1985, p. 518), mas permanece a seguinte pergunta: a Alma é idêntica ao lógos e as almas são idênticas aos seus respectivos lógoi ou devem ser pensados de maneira distinta? É possível encontrarmos nas Enéadas respostas dissonantes que identificam o
lógos e a Alma, como no passo acima, e que às vezes os distinguem, indicando que o primeiro
está presente na Alma e não subsiste sem ela. No passo a seguir, Plotino põe a questão como um
problema a ser resolvido: “É que a alma é uma coisa e suas razões outra? Não, a alma mesma é
uma Razão247 e um compêndio de razões248. As razões são atividade da alma atuando segundo
sua essência e sua essência é potência de razões.” (VI 2 (43), 5, 11-14 [trad. IGAL, J.]: aÅr’ ouÅn au)to\ me\n a)/llo, oi¸ lo/goi de\ a)/lloi; h)\ kai\ au)th\ lo/goj kai\ kefa/laion tw=n lo/gwn, kai\ e)ne/rgeia au)th=j kat’ ou)si/an e)nergou/shj oi¸ lo/goi: h( de\ ou)si/a du/namij tw=n lo/gwn.). Plotino afirma que a Alma é um lógos que contém em si um conjunto de lógoi249
, gerados pela sua potência e que estes devem ser considerados como seus atos250. Esse passo
246
A metáfora da luz aparece modificada em IV 3 (27), 17, 6-18. No passo, o Uno é comparado a um foco de luz que irradia um primeiro círculo de luz à sua volta, o Noûs, que por sua vez irradia um segundo círculo, a Alma. Após esses círculos há um terceiro círculo, sem luz própria, representado pelo mundo sensível.
247 De acordo com Igal (1992, p. 57, nota 115, v. I): “O termo Logos, em seu sentido metafísico, é o mais
intraduzível do léxico plotiniano pela multiplicidade de significados que denota e conota. Deles importa destacar os seguintes: 1) expressão ou imagem de uma realidade superior como a palavra o é da ideia; 2) inteligência, intelecção ou inteligível não primários; 3) princípio constitutivo de uma realidade como forma imanente; 4) princípio
originativo de uma realidade inferior como causa exemplar e eficiente simultaneamente.” 248 No passo III 6 (26), 1, 31, Plotino considera a alma como razão.
249
Brisson (1999, p. 93-94): “En définitive, on pourrait dire que l’Âme hypostase est la somme de tous les logoi, et que ces logoi sont en fait les Formes qui se trouvent sous le mode de simultanéité dans l’Intellect et sous un mode
discursif dans l’Âme hypostase.” 250
Isnardi Parente (1994, p. 344) ressalta em seu comentário, que no passo Plotino quase identifica e)ne/rgeiae
coincide com o que é dito a respeito da questão no tratado III 3 (48): “Pois as razões são
atividades de uma alma universal, e as partes o são das parciais; e, como essa alma una possui partes diferentes, também as razões as têm e, assim, também as ações, que são os últimos
engendrados.” (III 3 (48), 1, 4-6 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: yuxh=j ga/r tinoj pa/shj e)ne/rgeia oi¸ lo/goi, tw=n de\ merw=n ta\ me/rh: mia=j de\ dia/fora e)xou/shj me/rh a)na/logon kai\ oi¸ lo/goi, w(/ste kai\ ta\ e)/rga e)/sxata o)/nta gennh/mata.).
No tratado III 5 (50), 9, Plotino aborda novamente a questão do engendramento do
lógos e sua relação com a Alma. O lógos é associado com Poros e este é definido como uma
razão representativa do Intelecto, “inerente à Alma” e que está na Alma (9. 1-3). Desse modo, a Alma é concebida como algo que acolhe o lógos procedido da Inteligência para ela, de tal modo a torná-la plena e saturada. Com o advento do lógos na Alma, esta recebe do Intelecto sua perfeição e permanece adornada pelas razões que estão nela de modo adventício (9. 14-16). É nesse sentido que Plotino afirma no passo V 8 (31), 3, 4-9 que o Noûs não é razão, mas autor
desta, que é considerada “beleza imanente em uma matéria psíquica”. Isso explica de que modo
Plotino considera que a Alma é passiva, em função de sua relação com o Intelecto (V 9 (5), 4, 10- 15). Na Alma então são implantadas as razões como formas e estas assumem a função de representarem os seus respectivos arquétipos, como novamente afirma o passo abaixo:
Portanto, também as almas, imediatamente suspensas uma a uma de seu respectivo Intelecto, sendo como são razões representativas dos Intelectos e estando mais desdobradas que aqueles, como que convertidas de algo exíguo em algo múltiplo, estando cada uma em contato com seu respectivo, exíguo e mais indiviso Intelecto, desejando dividir-se, porém não podendo chegar à divisão total porque preservam tanto sua identidade como sua alteridade, cada uma segue sendo uma, ao mesmo tempo que todas são uma só.
IV 3 (27), 5, 8-14 [trad. IGAL, J.]: ou/(tw toi/nun kai\ yuxai\ e)fech=j kaq’ e(/kaston nou=n e)chrthme/nai, lo/goi nw=n ouÅsai kai\ e)ceiligme/nai ma=llon h)\ e)kei=noi, oiâon polu\ e)c o)li/gou geno/menai, sunafei=j t%= o)li/g% ouÅsai a)mereste/r% e)kei/nwn e)ka/st%, meri/zesqai h)/dh qelh/sasai kai\ ou) duna/menai ei¹j pa=n merismou= i¹e/nai, to\ tau)to\n kai\ e(/teron s%/zousai, me/nei te e(ka/sth e(\n kai\ o(mou= e(\n pa=sai.
Igal (1985, p. 41, v. II) apresenta uma solução para a questão da relação da Alma com o lógos que nos parece ser bastante plausível e decorrente dos textos em que a questão é apresentada, pois considera que ambos podem ser tomados como idênticos e diferentes, a partir
de certa perspectiva: “É o ato da Alma perfeita em ato; é para a Alma em ato o que a Forma é para a Inteligência autossubsistente em ato. Segundo isso, cabe dizer que em certo modo, o Logos é distinto da Alma e está na Alma; porém precisamente porque o Logos é o princípio formal da Alma, também cabe dizer que a Alma é seu Logos ou que o Logos é Alma. Os dois pontos de
vista são igualmente legítimos.” O que Igal manifesta é a tentativa de conciliação da linguagem
fluida com que Plotino apresenta as relações entre lógos e Alma e que representa muito mais a complexidade ínsita à questão, do que pontos de vista contraditórios.
Outra questão que decorre da presença das razões na Alma é a do seu estatuto e divisões, pois, se a Alma e o lógos são idênticos em certo sentido, as suas divisões devem ser correspondentes. Plotino afirma que a Alma, em sua relação com o Noûs, permanece contemplando os inteligíveis puros e é capaz de vê-los de modo mais claro em seu princípio, pois quando os contempla em seu interior, a sua visão se torna um tanto quanto diminuída e obscura
em comparação com aquela: “A saber: a Alma subsequente ao Intelecto, ainda que, como Alma, tenha seu próprio conteúdo, o vê melhor em seu antecedente.” (VI 2 (43), 22, 3-4 [trad. IGAL,
J.]: e)pei\ kai\ yuxh\ meta\ nou=n, kaqo/son yuxh\ e)/xousa e)n au(t$=, e)n t%= pro\ au(th=j
be/ltion kaqor#=:). O passo nos leva a pensar que a Alma é capaz de contemplar os inteligíveis
no Noûs, mas também volta o seu olhar para si mesma e os apreende em si, como seus conteúdos próprios. O fato de a Alma apreendê-los em si mesma de modo mais obscuro indica, portanto, que, ao acolher a potência do Noûs, não é capaz de engendrar esses inteligíveis em si mesma, tal como estão no primeiro, e recebe deles tão somente reflexos que se constituem como os seus
lógoi. Na Alma então não se realiza de modo perfeito a identidade entre a atividade pensante e os
conteúdos próprios de seu pensamento.
A atividade contemplativa da Alma, no entanto, considerada em seu nível mais elevado, não permite a sua diferenciação do Intelecto. Ambos pertencem ao mundo inteligível e são essências, a sua distinção, portanto, diz respeito à diversidade de funções e atividades que as duas hipóstases desempenham. Como traço do Noûs, a Alma o imita em sua unidade exercendo uma atividade intelectiva em função de se manter próxima e em comunhão com o seu princípio; por outro lado, pela sua estrutura peculiar, que a faz una e múltipla, também é capaz de exercer diretamente uma atividade que a vincula ao mundo dos corpos para ordená-lo e governá-lo, o que revela a transferência da atividade demiúrgica do Noûs para a sua esfera de atuação. Por proceder
do Intelecto, a Alma é intelectiva (V 1 (10), 3, 12), mas não permanece apenas como intelectiva, pois caso contrário não poderia ser diferenciada da sua origem.
Todavia, a função própria da parte mais racional da Alma consiste em inteligir, mas não em inteligir somente, se não, em que diferiria do Intelecto? Porque a Alma, ao receber outra característica ademais da de ser intelectiva, não permaneceu como mero intelecto. E assim, também a Alma possui sua função, porque tudo que pertence ao reino dos inteligíveis a possui. Mas a Alma, ao olhar para quem é anterior a ela, intelige; porém, ao olhar para si mesma, põe em ordem e governa o que é posterior a ela, e manda nele.
IV 8 (6), 3, 21-27 [trad. IGAL, J.]: yuxh=j de\ e)/rgon th=j logikwte/raj noei=n me/n, ou) to\ noei=n de\ mo/non: ti/ ga\r a)\n kai\ nou= diafe/roi; proslabou=sa ga\r t%= noera\ eiÅnai kai\ a)/llo, kaqo\ nou=j ou)k e)/meinen: e)/xei te e)/rgon kai\ au)th/, eiãper pa=n, o(\ e)a\n $Å tw=n nohtw=n. Ble/pousa de\ pro\j me\n to\ pro\ e(auth=j noei=, ei¹j de\ e(auth\n to\ met’ au)th\n [o(\] kosmei= te kai\ dioikei= kai\ a)/rxei au¹tou=:
O passo acima indica três momentos da atividade contemplativa da Alma, o primeiro mediante o qual intelige o seu arquétipo, o segundo, quando contempla a si mesma e se conserva, e o último, quando se volta para as realidades inferiores. Os três momentos podem ser reduzidos a dois: contemplação autoconstitutiva que simultaneamente engendra a sua parte inferior, e contemplação que origina os seres sensíveis. Plotino afirma que a atividade contemplativa das almas particulares é dupla251, uma dirigida ao Noûs e seus arquétipos, e outra para o que lhe é inferior (VI 2 (43), 22, 29-32). A parte superior da Alma, a essência indivisível, corresponde à intelectividade, enquanto a parte inferior, a essência que se divide nos corpos, corresponde à sensitividade e vegetatividade (ANDOLFO, 1996, p. 188), engendradas pela superior como uma imagem: “As hipóstases daqueles se originam enquanto eles permanecem, ao passo que a alma, foi dito, move-se ao engendrar tanto a sensação hipostática quanto a natureza, inclusive a dos
vegetais.” (III 4 (15), 1, 1-3252
[trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: Tw=n me\n ai¸ u(posta/seij
gi/nontai meno/ntwn e)kei/nwn, h( de\ yuxh\ kinoume/nh e)le/geto genna=n kai\ aiãsqhsin
251 No passo III 4 (15), 6, 21-28, Plotino afirma a identidade das funções da alma do mundo e das individuais. 252 O mesmo ponto de vista está presente no tratado V 2 (11), que afirma que a Alma gera as suas partes inferiores
movendo-se em direção contrária ao Noûs: “A Alma, ao contrário, não cria permanecendo, mas engendra uma imagem após por-se em movimento. Desse modo, olhando para o princípio, aquele do qual proveio, plenifica-se; mas avançando até um movimento diferente e ainda contrário engendra como imagem de si mesma a Sensação e a Natureza que vegeta nas plantas.” (V 2 (11), 1, 18-21 [trad. IGAL, J.]: h( de\ ou) me/nousa poiei=, a)lla\
kinhqei=sa e)ge/nna eiãdwlon. e)kei me\n ouÅn ble/pousa, o(/qen e)ge/neto, plhrou=tai, proelqou=sa de\ ei¹j ki/nhsin a)/llhn kai\ e)nanti/an genn#= eiãdwlon au(th=j aiãsqhsin kai\ fu/sin th\n e)n toi=j futoi=j.).
th\n e)n u(posta/sei kai\ fu/sin kai\ me/xri futw=n.). Essa divisão da Alma corresponde à
divisão do lógos, pois em sua parte superior, a Alma se mantém em contemplação e não se vincula diretamente ao sensível, e nesse nível representa um lógos superior. A função de ordenar o mundo cabe à parte inferior da Alma, mais especificamente, à sua função vegetativa ou fu/sij que assume a condição de lógos inferior. É nesse nível que se encontram os lógoi inferiores, que atuam sobre a matéria e transmitem a esta a potência dos seres inteligíveis.
A contemplação da Alma dirigida ao seu princípio permite que esta realize a sua própria ordem interior, como um lógos universal abrangente do conjunto dos lógoi. Ao haurir a potência do Noûs, a Alma realiza a sua perfeição própria e se capacita a transmitir uma imagem da ordem inteligível primordial e imutável para o mundo sensível, na medida em que recolhe em si mesma as imagens desses arquétipos mediante a sua conversão contemplativa. Como imagem da ordem presente no Noûs e que representa a sabedoria primordial, a Alma se apresenta como uma sabedoria derivada (V 8 (31), 4, 36-42) que reflete a ordem noética em si mesma e a transmite para os seres posteriores253. No passo, a sabedoria é identificada com a Alma superior254, que emite para a fu/sij ou natureza um reflexo seu, uma razão inferior cuja função é a de ordenar o mundo como imagem da sabedoria da Alma e dos próprios arquétipos primordiais:
Em que, porém, diferirá semelhante sabedoria da chamada Natureza? - Pois em que a sabedoria é um nível primeiro, enquanto a Natureza é um nível ínfimo. Porque a Natureza é um reflexo da sabedoria, e, como é um nível ínfimo da Alma, também é ínfima a razão que nela se reflete. É como se a figura impressa em uma espessa camada de cera penetrasse até o fundo desenhando-se na face oposta: a figura de cima seria clara; a de baixo, um tênue vestígio.
IV 4 (28), 13, 1-7 [trad. IGAL, J.]: ¹Alla\ ti/ dioi/sei th=j legome/nhj