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DURAND ANLAŞMASI VE GÜNEY SINIRININ BELİRLENMESİ

Para analisar o uso das cores no Bunraku é preciso entender a forma como elas se apresentam no teatro Kabuki. Surgidos no mesmo período, Bunraku e Kabuki desenvolvem-se juntos (o primeiro com bonecos e o outro com atores de verdade), apresentando-se com uma perspectiva mais popular, em oposição ao teatro mais clássico do nô. Essas duas manifestações exercem uma mútua influência entre si e, no que se refere ao uso e função das cores, foi o Bunraku quem absorveu muitos dos conceitos desenvolvidos pelos encenadores do Kabuki.

Para Darci Kusano (1993), ao se permitir usar de forma mais livre a imaginação, “os encenadores de peças kabuki acabaram por se afastar radicalmente das cores imitativas, de mera reprodução da realidade, passando a utilizar generosamente as cores puras enquanto expressão dos sentimentos”. (KUSANO, 1993, p. 231). Esse pensamento vai ser intensificado no Teatro Bunraku, fazendo com que as cores exerçam um papel importante na comunicação visual do espetáculo, em seu uso nos cenários e, principalmente, nas vestimentas das personagens.

Assim como outros aspectos do teatro Bunraku, o palco também sofreu modificações, em grande parte para facilitar a movimentação dos manipuladores, até chegar a uma forma consolidada24. Esse palco é dividido pelos tesuri, definidos por Giroux e Suzuki (1991) como divisórias, ou como grades, por Kusano (1993). Esses tesuri são feitos de madeira e servem para ocultar as pernas dos manipuladores, mantendo o palco na altura onde os bonecos são manipulados. Existem três tesuri, o primeiro, ichi-no-tesuri, o segundo, ni-no-tesuri e o terceiro, san-no-tesuri que também fazem parte do cenário, servindo para delimitar os espaços de ação da cena em três espaços: palco anterior, palco central e palco posterior. Além desse palco há um espaço específico, “um estrado levemente elevado” (KUSANO, 1993, p. 141), onde ficam em destaque as figuras do narrador e do músico.

24Darci Kusano destaca que “durante a primeira metade do século XVIII, paralelamente ao

grande desenvolvimento do processo de elaboração da estrutura e manipulação dos bonecos, ocorrem mudanças no palco de bunraku” (1993, p. 140).

próxima da plateia seja a “terceira grade”. Não será escolhida nenhuma forma de contar, pois o objetivo aqui é compreender o funcionamento e não a nomenclatura desses tesuri. O mais próximo à plateia delimita o início do palco, o que equivaleria ao proscênio, e é decorado com figuras geométricas. Os outros dois tesuri definem respectivamente o espaço das cenas exteriores e interiores. “Uma convenção, tanto das peças de kabuki quanto de bunraku, é apresentar os edifícios com suas fachadas removidas, permitindo ao público observar tanto o que se passa no interior como ao redor e fora dos edifícios”. (KUSANO, 1993, p.141).

Esquema lateral do palco de Bunraku

O espaço logo após o tesuri do meio (neste caso o segundo, independente da contagem) é a área principal de atuação dos espetáculos e, por isso, é construído

com o nível um pouco mais baixo que as outras áreas, permitindo que os manipuladores permaneçam de pé enquanto movimentam os bonecos. Por ter esse nível mais baixo, essa área recebe o nome de funazoko, que significa literalmente “fundo do barco”. Aos olhos do espectador, a movimentação dentro de cada um desses níveis ocorre basicamente de forma lateral, acompanhando a linha desses tesuri. A movimentação e interpretação dos bonecos evita explorar uma relação com a profundidade do palco, pois além de uma possível quebra com a definição dos diferentes ambientes, a perspectiva da cena estaria em risco, caso houvesse uma movimentação que alterasse a posição do corpo do boneco relacionado com o tesuri, Isso ocorre, pois os diferentes níveis do tesuri, assim como o rebaixamento do funazoko, são construídos para que, aos olhos do espectador, crie-se a impressão de que o boneco esteja efetivamente caminhando sobre a superfície do palco, quando, em verdade, ele flutua nas mãos dos manipuladores25.

Imagem do espetáculo Ichinotani futaba gunki, "A Batalha de Ichinotaki".

Teatro Nacional do Japão, 1975. Courtesy of The Barbara Curtis Adachi Bunraku Collection, C.V. Starr East Asian library, Columbia University.

Na foto é possível notar como o boneco fica suspenso nas mãos dos manipuladores, e como funciona a divisão entre os três planos do palco do bunraku.

25 Darci Kusano ressalta, porém, que esse efeito só se torna possível quando os espectadores

assistem o espetáculo do nível térreo. “Um ponto de vista essencial, que se perde nos novos teatros, construídos para uma grande variedade de atividades, com camarotes e galerias, o que faz com que muitos espectadores, sentados bem acima do nível do palco, tenham a sensação de que os bonecos flutuam”. (KUSANO, 1993, p. 138).

para cenas de congratulação ou quando se evita dar uma definição ao espaço.” (GIROUX; SUZUKI, 1991, p. 94).

Essas convenções se apresentam ainda de forma mais insistente na composição das vestimentas dos bonecos. As regras para o uso das cores é tão rígida, que não se é permitido mudar várias vezes as roupas dos personagens, pois cada mudança impõe uma nova forma de se conceber o personagem, de apresentar seu caráter, sua condição e sua natureza.

Há três cores básicas na vestimenta do bunraku: o vermelho, o branco e o preto. O vermelho é a cor que emana a força de vida, uma força mágica; o sol, tão importante para o Japão agrícola, é tingido de vermelho em sua bandeira nacional; o vermelho é a cor da congratulação. No bunraku, utiliza-se o vermelho para as roupas de uma princesa, numa simbolização, talvez, da força de uma flor prestes a eclodir. O branco representa a pureza. Essa cor está presente, igualmente, na vestimenta da princesa, junto com o vermelho, a mesma combinação das cores da bandeira japonesa. O preto é a cor da morte, uma cor fúnebre. Representa o medo, as trevas, mas é também a cor que vence todas as demais, neutralizando-as. O preto tem também a força da magia, razão pela qual talvez esteja presente nas vestimentas cerimoniais. (GIROUX; SUZUKI, 1991, p. 97).

O uso das cores não se limita a essas três, mas parte-se delas para construir diferentes combinações que vão gerar outros significados, mais específicos e que são relacionados diretamente com cada personagem. O rosa claro, por exemplo, é usado para representar a natureza de um rapaz jovem. Ele não possui toda a força de um homem, apresentando ainda uma pureza, uma inocência. O rosa claro é, portanto, a mistura dessa força ainda insipiente, que está no vermelho, com a pureza do branco. O marrom, por sua vez, sendo uma cor mais escura, mais próxima ao preto, vai ser usado por ambos os sexos, para representar a velhice, não

numa referência direta com à proximidade da morte, mas com a experiência acumulada pelos anos de vida e por isso uma cor que absorve muito das outras.

As mesmas convenções podem ser adotadas para a pintura das cabeças dos bonecos, à escolha do manipulador e, especialmente nesse caso, também podem ser usadas em personagens que procuram esconder sua verdadeira personalidade. Um bandido experiente pode aparecer com a cabeça pintada de branco não por se tratar de um homem puro, mas por ser ele astuto o bastante para ocultar suas intenções, que só serão reveladas com o desenvolvimento da narrativa, o que demonstra como a cor é peça fundamental para revelar as características de cada personagem. Para isso, a palheta de cores do Bunraku parte da pureza do branco e vai escurecendo, até o caráter negativo do preto. Negativo no sentido que mata, mas também que absorve todas as outras cores.

Vestimentas do Bunraku. Courtesy of The Barbara Curtis Adachi Bunraku Collection, C.V. Starr East Asian library, Columbia University.

O estilista Yoji Yamamoto, responsável pelos figurinos de Dolls, vai expor no filme a mesma importância que as vestimentas possuem no teatro Bunraku, especialmente em relação ao uso de cores fortes e bem definidas, que vão representar características dos personagens. Esse uso se destaca em vários momentos: a cantora Haruna, por exemplo, após o acidente, passa a vestir somente roupas em tons predominantemente escuros. O chefe da máfia Hiro aparece vestindo roupas no tom marrom, a cor que no Bunraku representa os personagens

Matsumoto. Sawako pode ter tentado o suicídio, mas é ela quem representa a vida desses amantes e por isso vai aparecer na parte final do filme vestida de vermelho. Já Matsumoto, vestindo preto, carrega a morte para os dois. A morte como perda, como marginalização, já que os “amarrados” se tornam párias dentro daquela sociedade. Morte como desistência, já que não é mais possível para eles se completarem em vida.

Pode-se constatar que o Bunraku possui uma estrutura aparentemente simples, com o uso de apenas uma figura para dar conta tanto da narrativa quanto dos diálogos, uma música gerada por um instrumento musical de apenas três cordas e um boneco que se compõe de partes destacáveis, com uma estrutura interna oca. Ao mesmo tempo, é a partir dessa estrutura que são definidas diversas convenções e formas bastante específicas, o que vai exigir um refinamento artístico extremo de seus artistas. Nesse refinamento artístico, na harmonia dos diversos elementos, o uso das cores, do texto, da música, das formas de representação, a partir dessa tríade composta pelo narrador, pelo músico e pelos manipuladores, é que se apresenta toda a complexidade e beleza desse teatro.

O próximo capítulo trata ainda do teatro Bunraku, a partir da figura do dramaturgo Monzaemon Chikamatsu, analisando temas da dramaturgia desse teatro, para em seguida falar de Takeshi Kitano, pensando na forma como esses temas e esse teatro vão servir de referência para a construção do filme Dolls.