Para Mishkin (1996), a política monetária afeta os balanços patrimoniais das empresas. Ao adotar uma política monetária expansionista, os efeitos sobre o balanço patrimonial das empresas são: uma elevação dos preços das ações, em virtude da queda da taxa de juros, gerando uma elevação do valor patrimonial da firma, ou seja, alto valor líquido, o que provoca uma baixa probabilidade de risco moral e seleção adversa. Isso contribui para geração de um menor prêmio de financiamento externo pelo fato dos agentes terem mais garantias de empréstimos, isto é, uma maior possibilidade de se auto financiar, porque os tomadores possuem uma maior fatia de ações das suas firmas contribuindo para um aumento de produção, e assim, uma elevação das taxas de crescimento econômico. Veja o esquema abaixo:
No estudo de Bernake e Gertler (2005), percebe-se que os efeitos da política monetária podem incidir direta ou indiretamente sobre os balanços patrimoniais. Os efeitos diretos da política monetária expansionista podem ocorrer de duas formas. Na primeira forma, a queda
20 Banco-dependente: porque depende quase que 100% dos empréstimos bancários por não ter acesso ao
da taxa de juros derivada desta política gera uma elevação no preço das ações (ou ativos), elevando o valor dos ativos dados como garantias, ou seja, aumenta o valor líquido dos tomadores de empréstimos. Como analisado anteriormente, e no estudo de Mishkin (1996), essa alta dos preços das ações diminui as probabilidades de risco e seleção adversa dos tomadores em decorrência da valorização do patrimônio líquido, mas essa análise é diferente do canal da riqueza, pois no canal dos balanços patrimoniais é o preço das ações que determinam o valor das garantias para os tomadores de empréstimos.
A segunda forma se verifica na queda dos juros derivado da política monetária expansionista, a qual diminui a probabilidade dos empréstimos não serem honrados, porque os tomadores não precisam se engajar em projetos mais arriscados, devido ao aumento de seu valor líquido elevando os fluxos de caixas. Como ocorre uma valorização do valor líquido o tomador de empréstimo tem uma posição forte e contribui para a queda no prêmio de financiamento externo, em virtude da correlação negativa. Neste caso, existe uma maior garantia deixando os credores mais dispostos a emprestar e assim eleva a produção e o PIB.
Os efeitos indiretos se referem à elevação dos gastos causados pelo aumento dos fluxos de caixas, que por sua vez, elevam a produção, e assim, o crescimento econômico do país. Isto é, a baixa taxa de juros, faz com que os bancos elevem o volume de empréstimos, gerando aumento de investimento por parte das empresas e também o consumo das famílias. Este fenômeno contribui para a valorização do balanço patrimonial e afeta as decisões dos agentes econômicos entre os ativos líquidos (moedas, títulos e ações) ou ilíquidos (bens de consumo duráveis e moradia). Pode-se afirmar que uma baixa taxa de juros faz os agentes manterem ativos ilíquidos ao invés de líquidos, elevando a capacidade de crescimento da economia, pois aumenta investimento e consumo, portanto a demanda agregada e PIB(Y). Veja o esquema abaixo:
Fischer (1933) apud Denardin(2007), relata que existe uma outra abordagem para esse canal, mas trata dos efeitos de política monetária sobre os índices de preços. Uma política monetária expansionista ocasiona uma elevação não antecipada do nível de preços diminuindo
o valor das obrigações das firmas em termos reais, mas ativos da firma não diminuem na mesma proporção, o que eleva o valor líquido. Isso gera uma queda nos problemas de risco moral e de seleção adversa, aumenta a produção e consequentemente o PIB. Segundo Mishkin (1996), isso ocorre porque os pagamentos da dívida foram fixados em termos nominais, diminuindo o valor do passivo em termos reais quando ocorre uma elevação de preços inesperada, mas não diminui o valor das ações, isto é, um aumento inesperado nos índices de preços aumenta o valor do patrimônio líquido real, o que propicia crescimento econômico. O esquema a seguir apresenta uma síntese desse mecanismo.
Para se obter de um prêmio externo, segundo Oliner e Rudebuch (1996), deve se analisar o custo para a sua obtenção. Dessa forma, em mercados de capitais perfeitos21, os fundos externos podem ter uma taxa igual a dos fundos internos, isto é, a taxa r1, como será demonstrado na tabela 2. Neste caso, se tem uma oferta perfeitamente elástica (curva S0 da figura abaixo) e deve-se ressaltar que:
Equação 1: fonte marginal de financiamento externo
Fundos externos (B) = Investimento (I) – Fundos internos (F)
I > F = necessita de B, pois o país não possui recursos suficientes internamente para cobrir os investimentos.
I < F = não necessita de B, pois o país possui recursos suficientes para cobrir os investimentos.
Porém, se considerar a existência de assimetria entre os agentes, isso produz um risco moral em virtude da probabilidade das firmas não honrarem seus compromissos, o que eleva o custo dos fundos externos acima dos fundos internos, isto acima de r1, por um prêmio (Ω). A seguir, veja a tabela 2 sintetiza a diferença entre os mercados de capitais.
Tabela 2: Diferença entre os mercados de capitais
Mercados de capitais perfeitos (F = B) Mercados de capitais imperfeitos (F ≠ B) Não existe assimetria entre os agentes Com assimetria entre os agentes
Não existe risco moral Com a presença de risco moral Custo dos fundos - mesma taxa: r1 Custos dos fundos > r1, por um Ω Fonte: criado pela autora
O tamanho do prêmio (Ω) depende de dois fatores que primeiro é uma função crescente do volume financiado, isto é, depende do custo marginal dos financiamentos externos. Quanto maior o volume da dívida maior o risco moral a enfrentar, demonstrado pela curva S1 da figura abaixo. No segundo fator, o Ω aumenta também com o aumento da taxa de juros livre de risco r1f, sendo esta utilizada como instrumento de política monetária, isto é: Ω = Ω (B , r1f), na qual B ambas possuem correlação positiva com Ω.
Figura 3: Efeitos da política monetária no canal de balaço patrimonial
r S3 S2 r3 S1 r2 r1 S0 fundos internos D F I3 I2 I1 I* I
Fonte: Oliver e Rudebusch (1996) e Denardin (2007)
Conforme a figura 3, em mercados de capitais perfeitos o equilíbrio ótimo é I*, com r1, pois não existe risco moral pelo fato de o tomador e credor não possuírem de informação imperfeita. Na presença de informação imperfeita, no caso de mercados de capitais imperfeitos, o nível de investimentos cai para I1, devido ao risco de não cumprimento da dívida em decorrência do aumento do custo de financiamento externo (B) a um nível acima de r1, tal aumento é decorrente do prêmio externo.
Quando ocorre um aumento na taxa de juros livre de risco, amplia o custo dos fundos externos. Gerando um deslocamento de r1 para r2, e outro deslocamento de S1 para S3 ao invés de S2. Para Oliver e Rudebuch (1996), tal deslocamento é em decorrência do efeito potencializador, e assim diminui os investimentos para I3, demonstrando a correlação negativa entre investimentos e prêmio do risco.
Com isso, pode-se dizer que o canal de transmissão de política monetária é importante porque choques de políticas macroeconômicas modificam o valor dos ativos (ações), e assim a constituição do balanço patrimonial (aumento ou queda das garantias) e a riqueza do tomador, e deste modo sua relação com os financiamentos (externo ou interno) gera impacto no lado real da economia, isto é, no crescimento econômico. Reforça-se que existe uma correlação negativa entre a riqueza do tomador (fluxo de caixa, preços das ações) e o prêmio de financiamento externo, devido à assimetria de informações neste mercado.