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Trataremos, a partir de agora, das seqüências consonantais permitidas em posição final de palavra no inglês, de acordo com a descrição realizada por Hammond (1999). Tal descrição, de caráter expositivo, visa a deixar clara a complexidade do sistema silábico da L2, se comparado ao do português brasileiro.

Todas as consoantes do inglês, com exceção da fricativa [h], podem figurar em codas simples. No que diz respeito às codas complexas, conforme aponta Hammond (1999), o conjunto de encontros consonantais em posição final de palavra no inglês mostra-se ainda mais amplo do que o de seqüências iniciais8, uma vez que um número maior de seqüências finais é permitido. Muitas dessas combinações são formadas através do acréscimo de sufixos consonantais, tais como ‘-s’, de plural/de terceira pessoa do singular do presente, e o sufixo ‘- ed’, de passado simples/passado particípio simples dos verbos regulares.

Nesta seção, seguimos Hammond (1999, p. 58) ao descrevermos todas as possibilidades de seqüências consonantais em posição final de palavra. Destacaremos, na listagem, as seqüências investigadas neste trabalho, que serão apresentadas em negrito.

De acordo com Hammond (1999, p. 58), as seqüências consonantais possíveis de ocorrer em posição final de palavra podem ser classificadas em quatro grupos:

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Por fins de delimitação, não listaremos, neste trabalho, as seqüências consonantais iniciais possíveis de ocorrer no inglês. Aconselhamos a leitura de Hammond (1999) para um descrição completa desses padrões.

(i) Uma nasal seguida por uma obstruinte9:

[mp] ‘camp’, [nt] ‘rent’, [Nk] ‘sink’, [ntS] ‘French’, [Mf] ‘triumph’, [nT] ‘month’, [ns] ‘fence’, [nd] ´send’, [ndZ] ‘arrange’, [nz] ‘bronze’, [mpt] ‘tempt’, [mps] ‘glimpse’, [nts] ‘blintz’, [Nks] ‘lynx’, [Nkt] ‘instinct’, [Nst] ‘amongst’,

[NT] ‘length’, [mz] ‘seems’, [Nz] ‘rings’, [md] ‘teamed’, [Nd] ‘longed’, [ntSt] ‘inched’, [mpst] ‘glimpsed’, [Mft] ‘triumphed’, [Mfs] ‘trymphs’, [nTs] ‘months’ [nst] ‘fenced’, [ndz] ‘lends’, [ndZd] ‘arranged’, [nzd] ‘bronzed’;

(ii) [s] seguido por uma plosiva surda:

[sp] ‘crisp’, [st] ‘last’, ‘missed’10

, [sk] ‘ask’,

[spt] ‘crisped’, [sps] ‘crisps’, [sts] ‘lasts’, [skt] ‘asked’, [sks] ‘asks’;

(iii) Uma líquida [l, r] seguida por uma nasal, obstruinte, ou outra líquida:

[lp] ‘help, [lt] ‘halt’, [lk] ‘milk’, [ltS] ‘mulch’, [lb] ‘bulb’, [ld] ‘could’, [ldZ] ‘divulge’, [lf] ‘self’, [ls] ‘else’, [lS] ‘Welsh’, [lv] ‘solve’, [lm] ‘elm’, [ln] ‘kiln’, [rp]

‘sharp’, [rt] ‘art’, [rk] shark, [rtS] ‘search’, [rb] ‘curb’, [rd] ‘card’, [rg] ‘morgue’, [rdZ] ‘large’, [rf] ‘dwarf’, [rT] ‘forth’, [rs] ‘curse’, [rS] ‘harsh’, [rv] ‘carve’, [rl] ‘curl’, [rm] ‘storm’, [rn] ‘barn’, [rps] ‘corpse’, [rts] ‘quartz’, [rSt] ‘borscht’,

[lT] ‘health’, [lz] ‘calls’, [lpt] ‘helped’, [lps] ‘helps’, [lts] ‘halts’, [lkt] ‘milked’, [lks] ‘milks’, [ltSt] ‘mulched’, [lbz] ‘bulbs’, [ldz] ‘fields’, [ldZd] ‘divulged’, [lft] ‘golfed’, [lfT] ‘twelfth’, [lfs] ‘gulfs’, [lst] ‘pulsed’, [lvd] ‘absolved’, [lvz] ‘shelves’, [lmd] ‘overwhelmed’, [lmz] ‘films’ [lnz] ‘kilns’, [ltst] ‘waltzed’,

[rz] ‘cars’, [rpt] ‘harped’, [rkt] ‘marked’, [rks] ‘marks’, [rtSt] ‘marched’, [rbd]

‘curbed’, [rbz] ‘curbs’, [rdz] ‘discards’, [rgz] ‘morgues’, [rdZd] ‘forged’, [rft]

‘barfed’, [rfs] ‘barfs’, [rTs] ‘hearths’, [rst] ‘cursed’, [rvd] ‘curved’, [rvz] ‘curves’, [rld] ‘curled’, [rlz] ‘curls’, [rmd] ‘charmed’, [rmz] ‘charms’, [rmT] ‘warmth’, [rnd] ‘warned’, [rnz] warns’

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As seqüências que somente ocorrem em codas bimorfêmicas são apresentadas em itálico. 10

Nas seqüências verificadas por este trabalho que podem ser compostas tanto por um como por dois morfemas, apresentaremos sempre dois exemplos: no primeiro, a seqüência é monomorfêmica e, no segundo, formada a partir do acréscimo de um sufixo.

(iv) Qualquer consoante seguida por uma obstruinte coronal:

[pt] ‘opt’, ´dropped’, [kt] ‘act’ ‘cooked’, [ft] ‘drift’, ‘cuffed’ [ps] ‘lapse’ ‘stops’, [ts] ‘nuts’, ‘puts’ [ks] ‘fax’, ‘books’, [dz] ‘kids’ [kst] ‘text’, ‘boxed’

[Tt] ‘toothed’, [St] ‘pushed’, [tSt] ‘watched’, [fs] ‘stiffs’, [pT] ‘depth’, [tT] ‘eighth’, [dT] ‘width’, [fT] ‘fifth’, [bd] ‘robbed’, [gd] ‘plugged’, [dZd] ‘judged’, [vd] ‘believed’, [Dd] ‘breathed’ [zd] ‘buzzed’, [bz] ‘robs’, [gz] ‘plugs’, [vz] ‘loves’, [Dz] ‘breathes’ [pts] ‘accepts’, [kts] ‘acts’, [fts] ‘sifts’, [pst] ‘eclipsed’, [dst] ‘amidst’, [ksts] texts.

Conforme podemos verificar, dentre os quatro grupos descritos, interessa-nos, especialmente, o segundo e o quarto, por apresentarem seqüências constituídas apenas por obstruintes. Podemos verificar, também, que apenas duas seqüências ocorrem unicamente em formas monomorfêmicas ([sp] e [sk]), justamente por não serem encerradas por coronais. Notamos, ainda, que os componentes do encontro consonantal concordam em voz, e que todas as seqüências monomorfêmicas de obstruintes cuja aquisição queremos aqui verificar constituem encontros de consoantes surdas.

Ao discutir a existência de codas compostas por três ou quatro consoantes, Hammond ressalta que todos os encontros com mais de dois segmentos apresentam uma seqüência final C+COR (o que é compreensível pelo fato de serem os segmentos coronais os que representam a flexão do inglês, como por exemplo, [s,z] para o plural ou a terceira pessoa do singular, e [t,d] para o passado simples ou o particípio passado). Conforme podemos observar na descrição aqui realizada, e até mesmo a partir das considerações que fizemos acerca da proposta de silabação do inglês sugerida por Selkirk (1982), a seqüência [kst] é a única coda complexa monomorfêmica de três elementos do inglês, encontro consonantal esse que desobedece ao Princípio de Seqüência de Sonoridade.

Seqüências consonantais, tanto em onset como em coda, que desobedecem o previsto pelo Princípio de Seqüência de Sonoridade sempre precisaram de um tratamento especial por

parte das análises fonológicas, ao longo dos anos. Cho & King (2003), ao realizarem uma revisão da literatura dos estudos voltados para o tratamento analítico de seqüências que representariam uma oposição ao Princípio de Seqüência de Sonoridade, apontam 5 espécies de propostas freqüentes, na literatura, para dar conta dessa desobediência:

(a) A oposição entre raiz vs. afixo (FUJIMORA & LOVINS 1978, CLEMENTS 1990) – de acordo com a qual o Princípio de Seqüência de Sonoridade se mostra atuante apenas na core syllabification, em seqüências monomorfêmicas. (b) A proposta do apêndice silábico (HALLE & VERGNAUD 1980, STERIADE

1982) – através da qual segmentos extrassilábicos são incorporados. De acordo com Cho & King (2003), tal solução se aproxima da anterior por também evitar as violações ao Princípio de Seqüência de Sonoridade através de um domínio silábico em que tal princípio não precisa ser respeitado.

(c) Estipulações de língua particular (STERIADE 1982, LEVIN 1985, RUBACH & BOOIJ 1990) – de acordo com a qual diferentes versões da escala de sonoridade são propostas para cada língua, ou, até mesmo, versões específicas do próprio Princípio de Seqüência de Sonoridade.

(d) Encontros consonantais tratados como um único segmento de natureza complexa (SELKIRK 1982) - ao considerarmos um encontro consonantal de consoantes como componente de apenas um slot silábico, o Princípio de Seqüência de Sonoridade não pode se aplicar, uma vez que lida com seqüências que ocupam dois slots em um onset ou coda complexa. Tal tratamento já foi mostrado na seção 2.2, ao verificarmos o molde silábico do inglês proposto por Selkirk (1982), em que, através da ajuda do molde adicional apresentado em

(02), seqüências iniciais tais como [sp] e [skr], que violariam tal princípio, ocupam apenas um slot de onset.

(e) A proposta de que algumas consoantes nunca são silabificadas (BAGEMIHL 1991) – de acordo com a qual o segmento é adjungido diretamente a um constituinte prosodicamente menor ou maior que a sílaba (como, por exemplo, uma adjunção diretamente à palavra prosódica W).

Acreditamos que nossa tarefa de dar conta da aquisição de codas tais como [kst], que parecem desobedecer à escala de sonoridade, constituirá uma tarefa desafiadora, ao verificarmos a pertinência do uso de uma das possibilidades de solução apresentadas acima para dar conta de nossos dados.

Conforme discutimos na seção 2.4.2, acreditamos que as seqüências finais CplosCfric (ex: [ks]) ocorrem variavelmente no português, sendo produzidas como um segmento africado, que vem a ocupar apenas um slot de coda. Se confirmado esse fato através dos dados desta Tese, estaremos assumindo, de fato, uma postura semelhante à de Selkirk (1982). Estaremos, assim, tratando como um segmento simples uma seqüência que, à primeira vista, desobedeceria aos padrões de sonoridade. Não haveria, nesse sentido, desobedecimento ao princípio proposto por Clements (1990).

Sob a mesma linha de raciocínio, uma seqüência tal como [kst] poderia ser tratada como uma seqüência de africada + plosiva, que, apesar de constituir uma coda complexa de dois elementos, estaria apresentando uma queda de sonoridade entre a primeira e a segunda consoante, ao considerarmos uma escala de sonoridade do tipo fricativas > africadas > plosivas. Ressaltemos, nesse sentido, que uma análise desse tipo somente se fará possível se encontrarmos, nos dados empíricos do português, casos de ocorrência de seqüências finais tais

como [ps] e [ks], o que nos permitirá tratar tais seqüências como africadas, conforme sugerido por Bisol (1999).

É importante mencionar que o tratamento de seqüências que desafiam o Princípio de Seqüência de Sonoridade, tais como [kst], mostra-se dificultoso inclusive para os estudos desenvolvidos à luz da OT. De fato, não são poucas as análises que excluem tais seqüências de seu escopo. Podemos mencionar, nesse sentido, o trabalho de Baerstch (2002). Ao analisar a estrutura silábica do holandês, como forma de provar a pertinência de seu modelo de silabação derivado das hierarquias primitivas de sonoridade propostas em Prince & Smolensky (1993), a autora exclui de sua análise segmentos coronais finais em seqüências que desafiariam o Princípio de Sonoridade, sob o argumento de que tais elementos são adjungidos à estrutura silábica, e, portanto, não constituem o que ela considera como “core

syllable”, ou o molde silábico básico, que é o foco de sua investigação teórica. Segundo as

palavras de Baertsch, “essas seqüências são tratadas, na maioria das análises, como adjungidas à sílaba ou a alguma outra propriedade prosódica ao invés de incluída dentro do molde silábico básico” (op.cit., p. 47), o que, para a autora, justifica a sua exclusão de sua proposta de silabação à luz da OT. Em outras palavras, a autora adota, em sua análise, a solução (b) apontada por Cho & King (2003), referente à proposta de apêndice silábico, para explicar a existência de seqüências, na língua, de codas que apresentariam um acréscimo de sonoridade.

Acreditamos que, à luz da OT, essa não seja a melhor solução teórica. A atribuição de um segmento à estrutura silábica, por adjunção, se dá somente após o template padrão já estar completamente preenchido. Como exemplo, podemos considerar a Regra de Adjunção de /S/, proposta por Bisol (1999, p. 705). Em palavras como ‘claus.tro’, o segmento final de coda, sob a linha de análise da autora, somente é atribuído após a “sílaba base” (core syllable) encontrar-se pronta, com o glide já ocupando a posição de coda. Fica clara, portanto, a

existência de um ordenamento de processos que, sob a OT Standard, não deveria ser considerado.

Novamente reafirmamos, aqui, a nossa convicção de que as restrições devem olhar para os candidatos a output já formados, não havendo processos intermediários para a formação das seqüências que ali competem ao status de candidato ótimo. Ainda que o presente trabalho não tenha a intenção de dar conta da silabação do inglês11, mas sim da chegada dos aprendizes a uma hierarquia tal que leve à produção dos padrões encontrados nessa língua, julgamos fundamental, em nossa análise, considerar a aquisição de todas as seqüências de obstruintes não-sufixadas, ainda que venham a desobedecer ao ciclo de sonoridade, como é o caso da seqüência [kst].

Realizada a descrição dos padrões de seqüências consonantais permitidos em coda, faremos menção a duas questões segmentais do inglês que se mostrarão pertinentes para o entendimento das produções dos sujeitos deste estudo: a não-soltura dos segmentos plosivos e a produção da plosiva final com soltura longa.