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Nesta seção, voltaremos nossa atenção para as tentativas de produção, por parte dos aprendizes brasileiros, dos segmentos fricativos /s/ e /f/ em posição final de palavra no inglês. A escolha pela análise desses dois segmentos dentre as outras possíveis codas fricativas que ocorrem na língua inglesa deve-se ao fato de que são esses os únicos segmentos fricativos capazes de formar codas complexas não-sufixadas na L2.

Na L1 dos participantes do presente estudo, [s] ocorre na posição de coda45, como nas palavras ‘paz’ e pus’. Dessa forma, com base na L1 dos aprendizes, prevíamos que as

45 Em dialetos do português brasileiro como o falado na cidade do Rio de Janeiro, a fricativa coronal é produzida como [S] ou [Z], na posição de coda. Destacamos, dessa forma, a necessidade de futuras pesquisas que discutam as conseqüências desse fato para a aquisição das codas /s/ e /S/, na L2. Poderíamos nos perguntar se falantes cariocas, diferentemente dos gaúchos, apresentariam dificuldades na produção de /s/ final do inglês (dada a

produções de /s/ final, na L2, não representariam problemas para os aprendizes. A Tabela 01, a seguir, confirma esse fato.

Tabela 01 – outputs encontrados nas tentativas de produção das palavras do inglês encerradas pela fricativa alveolar /s/

/s/ Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Total

s 100% (31/31) 96,67% (29/30) 97,44% (38/39) 100% (22/22) 98,36% (120/122) si (0/31) 0 (0/30)0 (0/39) 0 (0/22)0 (0/122)0 Outros46 (0/31) 0 3,33% (1/30) 2,56% (1/39) (0/22)0 1,64% (2/122)

Ressaltemos a ausência de segmentos epentéticos após a fricativa alveolar, confirmando nossa expectativa de que palavras da L2 finalizadas por /s/ não implicam dificuldade para o aprendiz. Já a fricativa labial, por sua vez, é proibida de figurar na posição de coda, no português brasileiro. Siglas e palavras estrangeiras encerradas por /f/ tendem a ser epentetizadas, como em Maluf [ma»lufi] e strogonoff [istrogo»nçfi]. Dados como os de Baptista & Silva Filho (2006), nesse sentido, apontam para o fato de que a fricativa bilabial tende a apresentar índices de epêntese mais altos do que aqueles encontrados para as plosivas [p], [t] e [k] em posição final. Dessa forma, contávamos com a possibilidade de ocorrências

possibilidade de tais falantes virem a produzi-lo como um [S]). Poderíamos questionar, também, se a presença da fricativa palatal no dialeto de L1 desses aprendizes representaria uma vantagem no que diz respeito à não- necessidade de epênteses após palavras tais como fish [fIS] e garage [g´»rAZ], em comparação com aprendizes gaúchos, que tendem a inserir a vogal após tais segmentos finais. Fica ressaltada a pertinência, tento em termos empíricos como analítico-teóricos, de estudos voltados para a investigação das possíveis conseqüências, em termos de aquisição das formas-alvo, que diferentes dialetos da L1 podem exercer no processo de aquisição da segunda língua.

46 Nas tabelas a seguir, sob o rótulo de “outros”, temos produções da fricativa final com vozeamento [ z] ou a produção da vogal como um ditongo (ex. [stejfi] ao invés de [stEf] staff), o que implicaria a produção de uma coda complexa, ao considerarmos o glide como pertencente à posição de coda (cf. Bisol 1999). Atribuímos tais produções diferentes do alvo ao desconhecimento, por parte do aprendiz, da palavra-alvo utilizada no experimento.

de epêntese após o [f] final. A Tabela 02 apresenta os índices de produção de palavras do inglês encerradas por /f/, de acordo com os níveis de proficiência dos sujeitos:

Tabela 02 – outputs encontrados nas tentativas de produção das palavras do inglês encerradas pela fricativa bilabial /f/

/f/ Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Total

f 90,63% (29/32) 100%(32/32) 97,37% (37/38) 100% (23/23) (121/125) 96,8%

fi 3,12%

(1/32) (0/32)0 (0/38) 0 (0/23)0 (1/125)0,8%

Outros 6,25%

(2/32) (0/32)0 2,63% (1/38) (0/23)0 (3/125) 2,4%

Os altos índices de produção de [f] em coda se mostram surpreendentes, uma vez que hipotetizávamos um número maior de epênteses após a fricativa labial final. De fato, apenas um dos sujeitos (S4), pertencente ao Nível 1 de proficiência, ainda produz uma variação entre epêntese e formas que exibem o [f] final. Para comparar o desempenho dos diferentes níveis de proficiência frente à produção de epênteses, nas produções de cada um dos tipos de codas simples, foi utilizado o teste não-paramétrico de Kruskal-Wallis47. No caso dos dados referentes à aquisição de /f/, em função do baixíssimo número de vogais epentéticas encontradas, não foram apontadas diferenças significativas (p>.05), em função do nível de proficiência.

47 De acordo com as informações fornecidas pela professora encarregada da análise estatística realizada neste trabalho, o teste de Kruskal-Wallis é equivalente a uma ANOVA, e permite comparar dados com mais de dois grupos ou variáveis com mais de dois níveis. No caso da presente verificação, a variável independente, nível de proficiência, tem 4 níveis, e, devido ao número reduzido de tokens produzidos pelos participantes, as variáveis não apresentam distribuição normal, de modo que seja recomendável o uso deste teste. Diferentemente da ANOVA, que compara diferenças entre médias, o Kruskal-Wallis compara diferenças entre medianas, as quais são utilizadas para indicar uma tendência central, ou seja, um número que represente todos os valores obtidos pelo grupo.

Convém ressaltar que, ainda que 8 dos 32 informantes tenham sido apontados pelo

Oxford Placement Test (ALLAN, 2004) como pertencentes a um nível elementar de

proficiência na L2, tais aprendizes não podem ser vistos como iniciantes em seus estudos de segunda língua. Sendo os participantes acadêmicos de cursos de graduação em Letras - Habilitação em Língua Inglesa, podemos dizer que todos os aprendizes recebem, semanalmente, uma grande quantidade de exposição à língua estrangeira. Acreditamos que tal fato constitua uma possível explicação para os altos índices de produção semelhante ao falar nativo.

A ausência da epêntese fornecerá insumos empíricos para que possamos discutir a produção das codas complexas e sua relação com a aquisição dos segmentos componentes dessas seqüências em codas simples, o que nos permitirá responder, posteriormente, à Questão Norteadora 3. De fato, uma vez que podemos considerar que o segmento [f] já é produzido em coda, produções tais como [fit] para o /ft/ não podem ser previstas, caso assumamos que a aquisição de duas consoantes em codas simples individuais é equivalente à aquisição de um único nó de coda preenchido pela seqüência desses dois segmentos. Essa verificação será realizada na seção 5.3.1, em que trataremos da produção das seqüências finais CfricCplos.