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A utilização da entrevista qualitativa é o ponto inicial para a compreensão do mundo do respondente pelo cientista. “Toda pesquisa com entrevistas é um processo social, uma interação ou um empreendimento cooperativo, em que as palavras são o meio principal de troca. (...) Ela é uma interação, uma troca de idéias e de significados” (GASKELL, 2002, p.73).

Como já inferido, um dos instrumentos de coleta de dados escolhidos é a entrevista individual semi-estruturada, pois, assim como aborda Triviños (1987), é um instrumento que valoriza a presença do investigador ao mesmo tempo em que concede ao entrevistado a liberdade necessária para que este possa responder às perguntas propostas pelo investigador. A entrevista semi-estruturada:

...parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante (TRIVIÑOS, 1987, p. 146).

Triviños (1987), baseado em Spradley descreve o processo de desenvolvimento da entrevista semi-estruturada e ressalta alguns passos a serem observados:

• esclarecer o informante quanto aos objetivos da entrevista, tornando-a mais amigável e familiar;

• estabelecer, previamente, local e horário para a entrevista e, se possível, realizar a gravação da entrevista. Uma fotografia do momento também é interessante;

• demonstrar ao entrevistado a abertura necessária para o rapport em toda a entrevista.

Em relação à entrevista grupal, esta se apresenta com mais autenticidade do que a entrevista individual, pois emergem do coletivo respostas e posicionamentos representativos do “grupo”, sendo possível compreender falas e reações dos participantes por meio de sua interação com os demais. Além da vantagem exposta, a escolha deste método também vem ao encontro das proposições deste estudo quando enfatiza, na fala dos sujeitos, a emergência de uma identidade compartilhada. Entretanto, é importante para o pesquisador uma postura ativa, promovendo questões relevantes e explorando as contribuições advindas do grupo (GASKELL, 2002).

Para Gaskell (2002, p. 76), as características principais da entrevista em grupo podem ser assim sintetizadas:

1. Uma sinergia emerge da interação social. Em outras palavras, o grupo é mais do que a soma de suas partes.

2. É possível observar o processo do grupo, a dinâmica da atitude e da mudança de opinião e a liderança de opinião.

3. Em um grupo pode existir um nível de envolvimento emocional que raramente é visto em uma entrevista a dois.

Assim, a escolha deste instrumento condiz com as demandas da metodologia da pesquisa, pois a flexibilidade e a duração do mesmo são aspectos contributivos para seu uso, além de sua relação com processos emergentes em grupos, mas dificilmente visíveis em entrevistas individuais como a colaboração, a diversidade de opiniões e a incidência de consensos.

Ademais, a metodologia de pesquisa deve ser flexível e reflexiva, característica encontrada nos instrumentos semi-estruturados. De acordo com Köche (2000, p. 121):

A flexibilidade deve ser característica principal do planejamento da pesquisa, de tal forma que as estratégias previstas não bloqueiem a criatividade e a imaginação crítica do investigador. A investigação não deve estar em função das normas, mas em função do seu objetivo que é buscar a explicação para o problema investigado.

Desta maneira, optou-se pela transcrição literal das falas dos dez (10) entrevistados, o que resultou em um montante de mais de oito (08) horas de gravação e 177 laudas de transcrição.

Naturalmente, foi utilizado o levantamento de literatura e este teve função essencial em todo o processo de desenvolvimento do estudo, inicialmente para verificar obras, estudos e o estado do conhecimento do tema abordado e, num segundo momento, para estabelecer um referencial que auxiliasse na elaboração do plano de pesquisa e de suas variáveis, bem como para oferecer sustentação aos resultados.

Após a obtenção dos dados, apresentou-se o momento de os mesmos serem examinados e transformados em elementos relevantes para o trabalho. Esta fase de apreciação aconteceu por meio da análise de conteúdo, que potencializa, de acordo com Chizzotti (2001), a apreensão do conteúdo explícito ou implícito das comunicações, sejam estas utilizadas de forma gestual, visual ou impressa. Para o autor (2001, p. 99):

Esta técnica procura reduzir o volume amplo de informações contidas em uma comunicação a algumas características particulares ou características conceituais que permitam passar dos elementos descritivos à interpretação ou investigar a compreensão dos atores

sociais no contexto cultural em que produzem a informação ou, enfim, verificando a influência desse contexto no estilo, na forma e no conteúdo da comunicação.

Desta maneira, as interpretações constantes neste trabalho estão, como bem salienta Moraes (1999), intimamente relacionadas ao contexto sublinhado ao longo da pesquisa. Também, as cinco etapas constantes do processo de análise de conteúdo compreendido pelo autor foram realizadas da seguinte maneira no estudo:

• Preparação das informações: leitura de todo o material, relação dos mesmos com os objetivos da pesquisa e codificação dos entrevistados; • Unitarização ou transformação do conteúdo em unidades: releitura

acurada do material, classificação e isolamento em unidades de significado;

• Categorização ou classificação das unidades em categorias: realização por meio de categorias definidas a priori, representadas pelas variáveis da Aprendizagem Auto-Regulada (Variável Cognitiva/Metacognitiva, Variável Contextual e Variável Motivacional) e das disciplinas da Aprendizagem Organizacional (Domínio Pessoal, Modelos Mentais, Visão Compartilhada, Aprendizagem em Equipe e Pensamento Sistêmico), excetuando-se apenas a categoria denominada Variável Espiritual, que emergiu das falas dos entrevistados;

• Descrição: produção de texto síntese contemplando o conteúdo de cada uma das categorias, com diversas citações dos entrevistados;

• Interpretação: relação entre o material constante no processo de descrição, a compreensão da pesquisadora e a base teórica do estudo.

O essencial é que a metodologia adotada, além de auxiliar o processo de pesquisa, atribuiu para o estudo em questão o rigor científico necessário ao seu desenvolvimento.