Antes de iniciarmos a explanação de outro conceito de extrema importância na Teoria Vygotskiana, faz-se necessário esclarecer que, em sua obra referente ao processo de aprender, o termo russo usado por Vygotsky – comumente traduzido em português como “aprendizado” – é “obuchinie”, que significa, segundo Oliveira (1993, p. 57 apud MARTINS, 2005, p. 55), algo como “processo ensino-aprendizagem”, incluindo sempre aquele que aprende, aquele que ensina e a relação entre as pessoas.
Como discutimos anteriormente, há aprendizado tanto no ambiente escolar quanto no que denominamos ambiente pré-escolar, ou seja, nos ambientes em que não há nenhum tipo de contato com o âmbito escolar – pré-escolar, aqui, não tem relação com Educação Infantil ou com o termo antigo usado para essa fase, Pré-escola. A diferença entre eles é que, no primeiro, o aprendizado é não-sistematizado e, no segundo, sistematizado. Entretanto, para Vygotsky, a sistematização não é o único fator diferencial. Para ele, o aprendizado que ocorre no âmbito escolar engendra algo essencialmente novo no desenvolvimento da criança: a Zona de Desenvolvimento Proximal (doravante, por vezes, referida como ZDP).
Vygotsky não deixa de considerar as definições biológicas da espécie humana, todavia confere enorme importância à extensão social, que provê instrumentos e símbolos (bem como todos os elementos que fazem parte do ambiente humano, que tenham um significado cultural) que fazem a ponte da relação do indivíduo com o mundo, e que acabam também provendo seus mecanismos psicológicos e maneiras de atuar nesse próprio mundo. Dessa forma, o aprendizado é considerado como elemento essencial e imprescindível no processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores.
Ora, para que o ser humano desenvolva-se plenamente, deve haver a interação com outros indivíduos de sua espécie, para que haja aprendizado num determinado grupo cultural. Por exemplo, se um bebê for deixado no meio da selva, junto de uma matilha de lobos, apesar de ter todas as condições orgânicas para a fala, pois possui o aparelho fonador, não a desenvolverá nos moldes de uma sociedade civilizada na qual essa fala estava inserida. Poderá, sim, desenvolver sistemas de “comunicação” primitivos através de uivos, reflexos etc.
Nessa perspectiva, é o aprendizado que possibilita e movimenta o processo de desenvolvimento: “o aprendizado pressupõe uma natureza social específica e
que as cercam” (Vygotsky, 1984, p. 99). Desse ponto de vista, o aprendizado é o aspecto necessário e universal, uma espécie de garantia do desenvolvimento das características psicológicas especificamente humanas e culturalmente organizadas. (REGO, 1994, p. 71).
É por essa razão que as relações entre desenvolvimento e aprendizagem têm grande importância na Teoria Vygotskiana. Ele avalia esse ponto tendo como referência dois prismas: por um lado, um referente ao entendimento da relação geral entre o aprendizado e o desenvolvimento; por outro, as particularidades dessa relação durante o período escolar. Por que faz isto? Justamente porque julga que, apesar de o aprendizado iniciar-se muito anteriormente ao ingresso da criança na escola, quando esta lá ingressa seu desenvolvimento terá elementos novos, introduzidos necessariamente pelo âmbito escolar.
Para Vygotsky, há dois níveis de desenvolvimento: um, referente àquilo que já foi efetivamente conquistado, denominado Nível de Desenvolvimento Real (doravante, por vezes, abreviado NDR), e o outro, relacionado àquilo que está em vias de ser construído, denominado Nível de Desenvolvimento Potencial (doravante, por vezes, abreviado para NDP).
O NDR caracteriza o desenvolvimento de forma retrospectiva, ou seja, refere-se a etapas já alcançadas, a fases já superadas, a conquistas já consolidadas na criança, tais como aquelas funções ou capacidades que ela aprendeu e que hoje domina sozinha, pois não mais necessita de ajuda de ninguém mais experiente da cultura, tal como seu pai, mãe, professor, irmão mais velho etc. Esse Nível designa, dessa forma, os processos mentais que já se estabeleceram, ciclos de desenvolvimento que já se completaram, processos que já se consolidaram, enfim, funções psicológicas já bem estabelecidas naquele determinado momento. Ao exemplificarmos, logo pensamos em atividades e tarefas que a criança já sabe fazer de forma independente, tais como amarrar os sapatos, pintar um desenho sem sair das bordas ou resolver uma conta de adição etc.
Vale ressaltar uma questão bastante interessante aqui. Tanto Rego quanto Oliveira mencionam que, nas escolas, no dia a dia ou nas pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, é comum avaliar-se a criança, levando-se em consideração apenas esse Nível de Desenvolvimento, ou seja, considera-se apenas o que ela já sabe fazer sozinha. Por exemplo, em nenhum momento, num exame de admissão de uma escola, explorar-se-á o potencial (NDP) que tal criança pode ter em determinados assuntos, ou se ela gosta de trabalhar em grupo, ou se sente que aprende mais quando interage com outras crianças.
O Nível de Desenvolvimento Potencial também é relativo àquilo que a criança pode fazer; entretanto, é quando ela o faz com a ajuda de outra pessoa, sejam adultos ou crianças mais velhas ou mais experientes ou companheiros mais capazes. Há tarefas que a criança ainda não consegue executar sozinha, mas acaba tornando-se capaz de realizar, se alguém lhe der instruções, fizer uma demonstração, der pistas, der algum tipo de assistência. Nesse caso, a criança realiza tarefas e resolve problemas através do diálogo, da cooperação, da imitação, da experiência compartilhada.
Vamos a alguns exemplos: uma menina de três anos ganha o jogo Hipobolhas. Ela precisará de algumas instruções – simples – para conseguir jogá-lo. Não será capaz simplesmente de abrir a caixa sozinha e saber o que fazer, apesar de o jogo estar destinado para crianças a partir de 3 anos de idade. Ou outra criança ganha um jogo de blocos. Também precisará, inicialmente, de algumas dicas ou de um modelo a ser seguido, enquanto se aventura sozinha, sem muito sucesso. Caso contrário, muito provavelmente não ficará brincando muito mais do que alguns minutos e perderá o interesse.
Esse ínterim entre aquilo que a criança já tem capacidade de fazer por si própria, autonomamente (NDR), e aquilo que a criança pode realizar, porém ainda com a cooperação de
outros membros de seu grupo social (NDP) é justamente o que Vygotsky denomina de ZDP, Zona de Desenvolvimento Proximal.
Figura 2: Níveis de Desenvolvimento.
A zona de desenvolvimento proximal (ZDP) entre o nível de desenvolvimento real (NDR) e o nível de desenvolvimento potencial (NDP). É justamente nela que a intervenção pedagógica deve atuar de formas diferentes,
sabendo-se que um nível (NDR) pode chegar a atingir o outro (NDP).
Observando-se as imagens acima, podemos perceber que, na primeira ilustração, a criança está resolvendo operações no contexto daquilo que já foi alcançado por ela, ou seja, etapas já conquistadas, atingidas, aprendidas, por isso a denominação de Nível de Desenvolvimento Real. A terceira ilustração representa a fase em que a criança consegue desempenhar tarefas, porém ainda o faz com a ajuda de um outro, podendo este ser tanto o professor quanto um colega mais experiente ou mais capaz. Daí a denominação Nível de Desenvolvimento Potencial, ou seja, há toda uma potencialidade a ser atingida, mas a criança ainda não o faz com total autonomia. Ora, a segunda ilustração, é justamente o nível intermediário entre um estado e outro, aquele em que o professor pode intervir, ajudando na promoção de uma fase para a outra. Por esta razão, a denominação de Zona de Desenvolvimento Proximal, ou seja, é uma área que pode incitar, pode gerar e instigar a aproximação, a diminuição deste distanciamento entre a NDR e a NDP, obviamente com a intervenção pedagógica.
A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, em vez de “frutos” do desenvolvimento. (VIGOTSKI, 2007, p. 98).
Assim sendo, podemos dizer que o conhecimento apropriado do desenvolvimento de cada indivíduo leva em consideração tanto o Nível de Desenvolvimento Real quanto o de Desenvolvimento Potencial.
O aprendizado é o que será responsável por gerar a ZDP, à proporção que a criança, estando em interação com outras pessoas, tenha capacidade de pôr em movimento vários processos de desenvolvimento que, se ela não tivesse o auxílio externo, seriam impossíveis de acontecer. Tais processos são internalizados e passam a ser algo adquirido e parte do desenvolvimento do indivíduo. Por essa razão, Vygostky afirma que “[...] aquilo que é a Zona de Desenvolvimento Proximal hoje será o Nível de Desenvolvimento Real amanhã – ou seja, aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã” (VIGOTSKI, 2007, p.98).
É importante ressaltar, também, que o conceito de desenvolvimento proximal é de suma importância no tocante a pesquisas acerca do desenvolvimento infantil e do plano educacional, porque possibilita o entendimento da dinâmica interna do desenvolvimento do indivíduo. Levando em consideração a ZDP, podemos analisar não apenas os ciclos que já foram completados, mas também aqueles que ainda estão em maturação, o que faz com que seja possível fazer um delineamento tanto da competência da criança e de suas possíveis conquistas futuras, quanto da elaboração de estratégias pedagógicas que possam ajudar nesse processo todo.
Assim, a zona de desenvolvimento proximal permite-nos delinear o futuro imediato da criança e seu estado dinâmico de desenvolvimento, propiciando o acesso não somente ao que já foi atingido através do desenvolvimento, como também àquilo que está em processo de maturação. (VIGOTSKI, 2007, p. 98).
Se partirmos desse conceito, a relação entre desenvolvimento e aprendizado toma outra dimensão: o aprendizado passa a ser fundamental para o desenvolvimento humano.
[...] o aprendizado orientado para os níveis de desenvolvimento que já foram atingidos é ineficaz do ponto de vista do desenvolvimento global da criança. Ele não se dirige para um novo estágio do processo, mas, ao invés disso, vai ao reboque desse processo. Assim, a noção de Zona de Desenvolvimento Proximal capacita-nos a propor uma nova fórmula, a de que o “bom aprendizado” é aquele que se adianta ao desenvolvimento. (VYGOTSKY, 1991ª, p.100-101 apud MARTINS, 2005, P. 54).
Ora, levando-se em consideração essa perspectiva, podemos dizer que o aprendizado não é desenvolvimento, nem depende do desenvolvimento. Se for organizado de forma adequada, terá como resultado o desenvolvimento mental. O aprendizado é elemento essencial do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas.
Quando a criança aprende, é como se ela se embrenhasse no espaço que pertence tanto ao Nível de Desenvolvimento Real, quanto ao Nível de Desenvolvimento Potencial – atualizando a Zona de Desenvolvimento Proximal, solidificando o desenvolvimento.
É nesse momento, então, que ratificamos a extrema importância do professor e da intervenção pedagógica para o processo de desenvolvimento dos alunos. Tal processo estará totalmente relacionado com a forma ou formas com que o professor abordar os conteúdos de sua disciplina, as oportunidades que ele oferecer para o aluno conseguir apropriar-se de tais conteúdos, as estratégias que usar para que a assimilação e a internalização aconteçam, que sistema de avaliação utilizará, compatível com essa abordagem histórico-dialética etc.
Tal perspectiva nos faz pensar que o processo de aprendizado dos conteúdos escolares não se esvazia num determinado tempo, mas que ele se solidifica e amplia-se, conforme determinadas situações vão sendo oferecidas aos alunos, de forma que possam exercitar os sentidos e significados entrelaçados com os conteúdos aprendidos. Ao criar situações em que isso
acontece, o professor possibilita aos alunos darem novos sentidos aos conceitos aprendidos no decorrer do processo de escolarização.
Vale ainda destacar que o aprendizado dos conteúdos escolares não acontece única e exclusivamente a partir da relação professor-aluno, estabelecida dentro da sala de aula, mas, também, a partir do exercício social de ambos, no contato da realidade em que estão inseridos e imersos. Em outras palavras, é a prática social do conhecimento que possibilitará aos alunos dar um sentido próprio ao conhecimento que lhes foi dado pela escola.
Ora, como pontuamos anteriormente, se o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal permite-nos abordar o processo de aprendizado e de desenvolvimento infantil numa perspectiva histórica – tanto retrospectiva, quanto prospectivamente –, ao operacionalizarmos tal conceito em nossa prática pedagógica, poderemos estabelecer tanto um diagnóstico quanto um prognóstico dos alunos, o que possibilitará planejarmos, fazendo uso de estratégias e dinâmicas educacionais que possam ajudá-las a atingir ou, até mesmo, a superar seu Nível de Desenvolvimento Real.