2.6. Teknoloji ve Bağımlılık
2.6.3. Dijital Oyunlara Bağımlılık
A criação desse conselho seguia, diretamente, o modelo francês que tinha seu próprio Conselho de Salubridade. A iniciativa pernambucana partiu do presidente da província, Francisco do Rego Barros, em 1840, talvez influenciado pela sua formação francesa adquirida na Escola Politécnica de Paris.
Rego Barros deu todo apoio à formação da Sociedade de Medicina, e, depois começou a lutar pela estruturação desse Conselho.
Regulamentado em 1845, pela Lei número 43, aprovada pela Assembléia provincial, no governo de Chichorro da Gama, esse Conselho atuou intensamente nas questões de saúde pública e higiene que afligiam o Recife e o resto da província.
A composição da equipe de conselheiros, apesar de ser multiprofissional, mostrava o prestígio dado aos médicos, talvez já como um resultado da luta empreendida para reconquistar o lugar que lhes fora tomado a partir do momento que as câmaras municipais assumiram o direito de reger a saúde pública. Desse modo, o Conselho era composto de três doutores em medicina28, versados no estudo de higiene pública e da medicina legal. Ainda, a composição do Conselho contou com a participação de dois farmacêuticos especialistas em análises químicas e práticas toxicológicas. Foram nomeados dois adjuntos, também doutores em medicina, para substituição
28 Nesse período, o estudante de medicina, para receber o grau de médico, defendia ao final da graduação, uma tese
e, então recebia o título de doutor em medicina. Portanto, o grau de doutor tinha um significado diverso do conferido pelas universidades contemporâneas.
nos casos de eventuais faltas dos membros titulares, mas que também poderiam trabalhar em conjunto quando a demanda pública fosse maior que a capacidade de trabalho dos membros titulares da equipe. Para dar ampliar o raio de ação do ao Conselho e para garantir que as ações deliberadas chegassem ao interior da província, ficou determinado que cada municipio teria por um delegado do Conselho de Salubridade, escolhido entre um facultativo, a fim de realizar tudo que se referisse à saúde pública.
O detalhe de atuação na área de Medicina Legal, por vários motivos, não deve ser menosprezado. Primeiro porque ele representa, segundo Afrânio Peixoto (1910, p.I) a “aplicação de um conhecimento científico aos misteres da Justiça” . Mas, para aplicar esse conhecimento, era necessário que o perito dominasse também, aqueles referentes às ciências conexas como as sociais, as físicas e as naturais. Segundo, ele também, representou o instrumento de legitimação dos médicos que compuseram o conselho, na tentativa de regulamentar, através da legislação, uma proposta ambiciosa de trabalho. Essa hipótese fica mais plausível quando, uma lei de 1850 conferiu ao Conselho de Salubridade o poder de encaminhar, à Câmara Municipal, sugestões de práticas higienistas ambientais e para regulamentar a construção de edifícios, quer públicos quer privados, para que elas fossem regulamentadas através das Posturas (SOUZA, 2002b) ocorrendo aquilo que considero como um diálogo entre Themis e Hygeia.
A partir de então houve uma enxurrada de sugestões para a normatização via Câmara, o que acabou causando, digamos, um congestionamento no trâmite legal dessas propostas. Este fenômeno desencadeou uma insatisfação por parte dos vereadores locais, a ponto de seu presidente encaminhar, ao Presidente da Província, uma longa queixa contra a insistência dos médicos do Conselho afirmando que eles “andavam com a cabeça em Paris, ignorando as condições reais e específicas que um administrador tinha de considerar” (ARRAIS, 2004, p.432)29.
29 È interessante notar que, no capítulo que Arrais (2004) dedicou ao estudo da atuação médica na conformação do
espaço recifense, ficou explícito que, nem sempre, os médicos conseguiram impor suas orientações técnicas, por uma série de entraves, dentre eles, a não aceitação dos juízes que avaliavam os casos encaminhados para julgamento, ou simplesmente a não aceitação dos vereadores das queixas médicas encaminhadas, principalmente quando estas iam de encontro ao interesse popular, como no caso da retirada das estrebarias dos pontos centrais da cidade, o que determinava uma contrariedade às pessoas que, vindas de longe para resolver negócios de seu interesse, se valiam dos animais como meio de transporte e, portanto, precisavam ter um lugar próximo para abrigá-los. Também havia as questões de interesse ou poder econômico, como foi o caso da tentativa médica de retirar as padarias localizadas no Bairro da Boa Vista. A reação dos padeiros logo se fez sentir e ameaçaram o aumento do preço de pão ou mesmo a retirada do produto para consumo. Com isto, esses profissionais conseguiram barrar a proposta médica que não foi aprovada pela câmara. Estes exemplos, embora isolados mostram que a tão propalada “medicalização da sociedade” defendida, não só por Michel Foucault, mas por vários pesquisadores, não foi assim tão universalizada. Havia as
As palavras do seu Presidente Aquino Fonseca, quando da instalação do Conselho, são bastante elucidativas sobre o projeto higienizador
[...] é preciso que empenhemos nossos esforços para que o público se convença de que um Conselho de Salubridade é uma instituição de suma importância em qualquer país civilizado, porque cuida do melhoramento sanitário, e tem de resolver questões de higiene e de medicina legal de alto interesse para a sociedade; é preciso que por nossos acurados trabalhos, acreditemos esta instituição, e a tornemos necessária pelos resultados obtidos (FONSECA, 1977).
Pela envergadura da proposição da ação do Conselho, ela lembra as medidas de Vigilância Sanitária e Vigilância Ambiental dos dias atuais, muito embora, com esta afirmativa eu esteja correndo o risco de ser anacrônica30. E, por que digo isto? Porque, de modo geral, esses conselheiros se propuseram a atuar em uma gama variada de assuntos (FREITAS, 1935) como a realização de inspeção sanitária dos alimentos, bebidas e medicamentos, tentando impedir sua contaminação ou falsificação, bem como regulamentar a comercialização realizada nas ruas do Recife. A vigilância se estendia à prestação dos serviços, dentre os quais estava o funerário.
Em relação à vigilância ambiental, a insalubridade local esteve na pauta das discussões. Havia a preocupação com os ares e os lugares, quer público, quer privado, que representassem risco à saúde pública. Nesse ponto, Moreira (2009) indicou que as escolas também fizeram parte da proposta de inspeção dos digníssimos conselheiros.
O Conselho de Salubridade acabou se extinguindo. Seus propósitos não atingiram a meta desejada, pois mesmo que não tivessem sido “desmantelados nos seus pontos capitais, a sua restrição a poucas cidades, e não sòmente (sic) á sua capital, foi sendo imposta pouco a pouco, no decorrer dos anos que se lhe seguiram” (FREITAS, 1935, p. 287).
Isto, no entanto, não ocorreu de forma brusca e radical. Temendo a ausência de um órgão atuando na área da saúde pública, o presidente da província, mesmo tendo extinguido, por ato legal o Conselho, ainda permitiu que continuasse executando sua missão, até que foi criada a Comissão de Hygiene.
resistências. Aliás, este fenômeno de medicalização foi duramente rebatido por Antunes. O exemplo mais vivo de resistência aos atos da Polícia Médica e que ganhou notoriedade nacional foi a Revolta da Vacina, em 1904, da qual, aliás, participou de modo ativo, um ex-governador de Pernambuco, José Alexandre Barbosa Lima e que, talvez por isto mesmo, tenha ecoado no estado de Pernambuco, onde estourou a Revolta dos Quebra-Lampiões.
30 Faço esta ressalva porque a aplicação do termo “vigilância” em saúde pública é muito recente. Segundo Bueno
(2005) data de 1963. Para maiores informações sobre este assunto, ver o livro À sua saúde. A Vigilância Sanitária