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Açıklayıcı Faktör Analizine Göre Ölçeğin Faktör Yapısı

3.4. Ölçme Aracını Geliştirme Süreci

4.1.1. Açıklayıcı Faktör Analizine Göre Ölçeğin Faktör Yapısı

Se, de um lado, os médicos atuantes durante o período Imperial elaboravam medidas de caráter coercitivo em relação à higiene ambiental, esperando serem transformadas em Posturas

Municipais, do outro estavam os vereadores que ignoravam, ludibriavam, simulavam interesse e, quando se empenhavam era para benefício de algum compadrio. O mesmo se dava com a população em geral, que se mantinha rebelde ou indiferente às recomendações médicas ou das Posturas da Câmara municipal (ANDRADE, 1986).

Havia queixas de todos os lados. A população resistia tenazmente. A despeito da elaboração da proposta regulamentadora oriunda da Comissão de Higiene e da regulamentação através da Postura da Câmara Municipal do Recife, promulgada em 1854, sobre as construções, o que se dava era que “As habitações continuavam aglomerando-se, acotovelando-se e os efeitos insalubres disso documentavam-se através da crescente „tuberculinização dos pulmões‟ e de mazelas outras” (ANDRADE, 1986, p.55).

Outro exemplo de resistência às orientações médicas, dadas pelo Conselho de Salubridade foi relatado pelo Presidente da Comissão de Higiene, Joaquim de Aquino Fonseca, que em visita ao Colégio dos órfãos observou que os internos não realizavam os exercícios ginásticos propostos (COMMISSÃO DE HYGIENE PUBLICA, 1855).

Os indícios que essa resistência à medicalização atravessaram décadas e chegaram ao último quartel do século XIX foram mostrados em duas ocasiões distintas. Em 1875, o então presidente de província, Henrique Pereira de Lucena descrevia em seu Relatório enviado à Assembleia Provincial, a “obstinação” que os inquilinos e proprietários de imóveis apresentava “em franquear suas casas e respectivas obras” para a instalação de latrinas móveis para a remoção dos excrementos em referência ao sistema de instalação e coleta das latrinas móveis (LUCENA, 1875, p.96).

Em 1878 o Inspetor da Saúde Pública de Pernambuco declarava que, hà muito, as autoridades sanitárias reclamavam contra o péssimo sistema de edificação “e a municipalidade não se abala com essas cousas que ela julga sem nenhuma importância... os cortiços parecem zombar das autoridades” (MOSCOSO, 1879, p.38).

Mas, haveria alguma explicação para essa desmedicalização da saúde? Há uma vertente de pensamento que é da tradição e dos costumes. Um dos teóricos mais importantes nessa área Edward Paul Thompson em seu livro sobre o costume dos trabalhadores na Inglaterra, do período entre o século XVIII e parte do XIX, mostrou que o costume “era a segunda natureza do homem” (THOMPSON, 1998, p.14). Thompson se referiu ao reforço dos costumes pela pressão popular

frente às leis estatutárias, demonstrando que o costume, quando muito antigo, era superior à elas se fosse exercido sem interrupções.

Na América, esta força do costume também prevaleceu.

Por isto, em muitos casos, o costume se posicionou contra a lei, ou a legislação foi criada a partir do costume local. Isto acabou determinando espaços ambíguos de poder, onde não havia uma jurisprudência única sobre o mesmo caso e sim, negociações, adaptações, mudanças ou, simplesmente, rejeição de leis (RUIZ, 2009). Este pesquisador estuda a temática, tendo como recorte temporal o século XVI ao XVIII. Mas, estas premissas se estenderam até finais do século XIX. O título III do Regulamento Imperial sobre a competência da Câmara dos vereadores confirma esta hipótese. A Câmara devia adotar posturas frente a cada caso, deliberando e provendo objetos sobre a normatização do espaço público. Se não vejamos este trecho do Relatório do Presidente da Comissão de Higiene, datado de 1856.

No Recife, quando a Câmara municipal editava posturas estas ou não entravam em vigor ou eram elaboradas segundo os interesses ou costumes locais. Bom exemplo disto foi o caso da tentativa de proibição, feita pelos órgãos de saúde pública, de instalar as estrebarias no centro do Recife. Encaminharam a proposição para ser regulamentada através de uma Postura da Câmara municipal. Os vereadores simplesmente se negaram a fazê-lo porque atrapalharia a vida daqueles comerciantes que precisavam se locomover, de modo prático e rápido, e que já tinham o costume de usar as instalações próprias no centro do Recife para deixarem seus animais enquanto mascateavam pela cidade ou resolviam coisas de seu interesse.

A mesma opinião sobre a força dos costumes se opondo à legislação referente as questões ambientais em Recife foi apontada por Santos (2009) quando, em sua dissertação de mestrado estudou a atuação do Conselho de Salubridade, em meados do oitocentos.

Diante disto, questiono: em que espaço se deu a construção do discurso para a higiene escolar em Pernambuco durante o Império?.

1. 10 A REPÚBLICA DEU ASSENTO À HIGIENE

Logo após a proclamação da República, em 1889, os médicos especialistas em saúde pública ocuparam diferentes lugares para fazer prevalecer seu discurso.

Não se pode esquecer que, nesse período histórico, grandes acontecimentos tiveram lugar no campo da saúde pública. Ocorridos localmente tiveram repercussão nacional, como a Revolta da Vacina que, desencadeada no Rio de Janeiro, repercutiu em todo país33.

Em Recife, um movimento, não com as mesmas proporções daquilo do Rio de Janeiro, foi chefiado pelos acadêmicos da Faculdade de Direito e recebeu o nome de “Os Quebra-Lampiões” (MONTEIRO, 2005).

Outro fator de grande consideração ocorreu durante a primeira década do novecentos: a criação da Organização Panamericana de Saúde, um mecanismo bastante poderoso que os Estados Unidos da América se serviu para fazer valer medidas saneadoras em outros países da América Latina e Caribe. No rastro desta criação, a Fundação Rockfeller, também se instalou no Brasil, com medidas saneadoras do ambiente. Eventos estes que repercutiram de modo intenso na saúde pública nacional (IYDA, 1995) e que serão contemplados nos conteúdos de ensino de 1928.

Em Pernambuco, as ações no campo da Saúde Pública continuaram sob a responsabilidade da Inspetoria de Hygiene até 1912, que funcionava precariamente. Além da desestruturação, física e de pessoal, essa repartição deixava a desejar pela falta de um regulamento sanitário que contemplasse a ação que a higiene exigia. Por volta de 1913,

33

Durante as revoltas ocorridas no Rio de Janeiro, uma das figuras de destaque na organização do levante foi José Alexandre Barbosa, ex-governador de Pernambuco, então ocupante de uma cadeira de Deputado na Assembléia do Rio de Janeiro.

começaram os debates para a melhoria das condições de trabalho, ao mesmo tempo em que circulou no Congresso estadual uma proposta de elaboração do Regulamento sanitário.

Em junho desse mesmo ano foi aprovada a Lei 1.201 reorganizando, inteiramente, os serviços de saúde pública do estado. Além de promulgar o tão almejado Regulamento, foi criada a Diretoria de Higiene e Saúde Pública, com as seguintes secções: Profilaxia da Febre Amarela, desinfectório, Instituto Bacteriológico, Laboratório químico e Secção Demográfica.

Note-se que a organização de um serviço de Profilaxia da Febre Amarela era uma proposta inteiramente nova e já era um eco da ação instituída pela Organização Panamericana de Saúde e pela Fundação Rockfeller que, assim, estendia seus braços até o estado de Pernambuco.

Essa diretoria foi substituída na década de 1920 pelo Departamento de Serviço e Assistência à Saúde, dirigido pelo médico Amaury de Medeiros.

Toda esta mobilização em torno da Saúde Pública denunciava uma nação sem saúde. Durante o início do século XX, novos viajantes, desta vez cientistas brasileiros como Neiva e Penna, em 1906; Lutz e Machado, em 1915, sob as ordens de Oswaldo Cruz, empreenderam viagens aos sertões do Brasil e comprovaram a situação calamitosa em que se encontrava a população destas regiões do país. Estes médicos descreveram três enfermidades endêmicas, conhecidas, que afligiam a população que residia nos centros urbanos como o Rio de Janeiro. Eram elas: a Febre Amarela, a Peste e a Varíola, enquanto que, na zona rural do Brasil (os sertões) prevaleciam as doenças parasitárias, como o “impaludismo” e a ancilostomose ou opilação. A Doença de Chagas, também conhecida como Tripanossomíase americana, veio juntar-se a estas no início do século XX. Por isto o habitante do sertão ser mostrado, tantas vezes como um indolente, um preguiçoso.

Diante deste quadro desolador que a população urbana e rural do Brasil se encontrava, era premente a tomada de decisões enérgicas que revertessem a situação.

Foi durante a administração de Amaury de Medeiros que foram empreendidas grandes ações na área de saúde pública em Pernambuco.

Segundo Valdemar de Oliveira (1975) foram os tempos de braço e cutelo34.

34

A atuação deste sanitarista foi estudada por Gustavo Acioli Lopes na sua dissertação intitulada A cruzada

A “educação sanitária”, modelo de gestão que acreditava na força das palestras sobre doença como meio de obtenção e preservação da saúde, foi a tônica. O próprio Valdemar era o coordenador desse serviço de saúde pública (OLIVEIRA, 1975).

CAPÍTULO 2

OS ESPAÇOS POLÍTICOS E EDUCACIONAIS NO DISCURSO DA HIGIENE ESCOLAR.

A arte imita a vida. Se usarmos a literatura como fonte para a história da saúde e da educação, é possível perceber no livro O Alienista, da autoria de Machado de Assis, a atuação da Câmara Municipal regulamentando sobre os loucos da cidade. Tudo se inicia quando o médico, Dr. Simão Bacamarte se queixa do descaso dos vereadores locais com os dementes, que simplesmente eram trancafiados em suas residências ou ficavam a deambular pelas ruas, colocando em risco aqueles que precisavam se locomover.

Incomodado com essa situação de exclusão, o Dr Bacamarte “pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar... todos os loucos de Itaguaí... Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta...” (ASSIS, 2007, p.8-9).

Saindo da ficção para a vida real. Coube às Câmaras Municipais, elaborar Posturas sobre os cuidados com os loucos.

Para o historiador Rafael Ruiz (2008, n.p)

[...] as Câmaras municipais e os „Cabildos‟ foram agentes ativos na construção da sociedade colonial e, nesse sentido, foram criadores do direito, muitas das vezes não a partir da lei, mas por meio dos usos e costumes, que configuravam a prática cotidiana das relações sociais, jurídicas, econômicas, políticas das diferentes vilas e cidades. O autor apontou para o fato de que o direito, “muitas das vezes” não se deu a “a partir da lei, mas por meio dos usos e costumes”. Isto é de suprema importância para compreender o porquê dos vereadores não terem proibido a população recifense, em meados do século XIX, de jogar águas servidas pelas janelas dos sobrados. Eles, apenas, regulamentaram um costume que já era corrente na população. Isto coaduna com outra afirmação feita por ele (op.cit)35 de que “o costume não era o costume como o entendemos hoje, uma praxe social ao arrepio da lei”. Assim, podemos pensar que havia “negociação” entre as partes envolvidas.

À lista das práticas cotidianas citadas é importante acrescentar que, também, configuraram as relações médicas com a sociedade de um determinado período. Como isto se estabeleceu?

35 RUIZ, Rafael. Duas percepções da justiça nas Américas: Prudencialismo e Legalismo. VIII Encontro Internacional