O objetivo da investigação realizada foi identificar o olhar de pessoas ligadas – direta ou indiretamente – sobre as vestimentas para idosos. Procurou-se, paralelamente, levantar as noções presentes, entre os sujeitos, de velhice, envelhecimento e corpos que envelhecem.
No que se refere à moda e seus significados, Barthes fornece referenciais de fundamental importância. Para este autor, a moda constitui um o sistema ambíguo, sendo a “ambiguidade de um sistema ao mesmo tempo imprevisível e metódico, regular e desconhecido e estruturado” (apud Vincent- Ricard, F.; 1989; p. 139). Para Pascolato (apud Vincent-Ricard, F; 1989), no passado a moda era considerada uma marca de distinção social. Na atualidade, ela leva em consideração aspectos pessoais, socioculturais, estéticos, além de ser apreendida como “um grande negócio”.
Permiola (apud. Svendsen, L.; 2010; p. XX) nos mostra que as roupas contribuem para a formação das identidades, ou seja, o “ser” de cada um. Consequentemente, a nudez deve ser compreendida como ausência, privação
e carência desta62.
Na maioria das vezes as roupas são utilizadas como disfarces para cobrir os corpos; elas correspondem a uma “segunda pele”, escondendo o que
corresponderia ao corpo natureza. Baudrillard (apud Svendsen, L.; 2010)
destaca a moda como uma aflição de busca da perfeição ideal, dominando o que é dado pela natureza.
No mundo da moda, “chique” e “look” são dois conceitos fundamentais (Vincent-Ricard,F.;1989). Chique é uma elegância espontânea, que faz parte do indivíduo. A pessoa que têm um estilo “chique” pode usar o pomposo de uma forma natural e simples e o singelo com classe; esse estilo não está associado a condições econômicas privilegiadas.
62 De um ponto de vista antropológico, toda cultura define formas de “cobrir o corpo”. Assim, mesmo entre povos que, aos olhos ocidentais, “não usam roupas”, as vestimentas estão presentes, a exemplo do cinto pubiano presente em diversas sociedades tribais.
Data dos anos de 1960 a separação dos conceito de “look” e “chique”; hoje, ser “chique” é possuir um “look” pessoal. Como é difícil encontrar, na sociedade contemporânea, roupas que possam ser usadas pelo idoso, ele deverá definir seu próprio “look” a partir das peças dispostas em lojas e magazines. Um dos sujeitos entrevistados afirmou: “Procuro me adaptar ao que existe no mercado”; outro falou: “[...] quando envelheci comecei a comprar conforto”.
Muitas vezes, as limitações em compor o look se devem às dificuldades das confecções considerarem as mudanças do corpo que envelhece. Preferem centrar a produção no que é jovem, novo, belo e descartável. Conforme Svendsen, L. (2010), na sociedade pós-moderna o corpo está “preso”; é apreendido como um objeto utilizado para mostrar a moda. As atenções concentram-se nos corpo jovens, "malhados" e moldado de acordo com as regras ditadas pela sociedade de consumo; regras que, fartamente presentes dos diversos veículos de comunicação, atingem os consumidores como “flechas”.
Cobrir a superfície dos corpos, uma superfície, adornar corpos nus para modelá-los é algo que não se aplica apenas à representação artística; corresponde a uma experiência real vivida por todos.
Nos dias de hoje, corpos que envelhecem devem ser “camuflados”; a exibição dos mesmos não é permitida, pois não correspondem aos valores e às disposições socioculturais de corpo da pós-modernidade.
De acordo com Crema (2000; p. 9), “o corpo é o nosso texto mais concreto, nossa mensagem mais primordial, a escritura de argila que somos. É também o tempo onde outros corpos mais sutis se abrigam”.
Desde o nascimento, o corpo vai se desenvolvendo e interagindo com o meio ambiente. É através da pele, segundo Crema (2000), que o corpo se comunica com o mundo. O corpo é nosso órgão mais extenso. Seu substrato físico é apenas parte dele pois, como interioridade, abriga emoções, desejos e histórias de vida.
Segundo Gardin (2008), o corpo é um meio de expressão e comunicação. Neste sentido, o corpo é um meio de expressão de aspectos (saúde, disposição, aparência etc.) tão explorados pela mídia na sociedade de consumo. No que se refere especificamente no mundo da moda o corpo é usado como veículo de comunicação da arte de vestir.
Na sociedade contemporânea o corpo deve ser sinônimo de perfeição!
[...] a sociedade se constrói, especialmente, tratando dos corpos e dispondo-os no espaço [...] ela impõe distâncias convenientes ou eficientes, recobre os corpos de suas marcas ou insígnias, modos e uniformes, modelando-os segundo cânones que expressam seus valores por meio de práticas esportivas, medicinais e estéticas [...] Ora, chegado o momento da aposentadoria, em que os corpos não podem mais se encaixar neste modelo em face da impossibilidade de corresponder aos ideais e modelos sociais propostos, voltados fundamentalmente para a juventude e a maturidade, momento em que a sociedade não propõe mais um modelo e consagra os corpos ao distanciamento, à ocultação, ou melhor, à assistência, acusando-os de envelhecimento. (Baurus-Michel, apud. Peixoto; 1998, p. 75).
Villaça e Góes (1998) lembram que a sociedade de consumo impõe às pessoas um ideal de modelo do corpo, exigindo um investimento de frequentar as academias e realizar cirurgias estéticas para conseguir a aparência almejada. Na atualidade importa ter uma boa aparência, pois a imagem pessoal é muito valorizada.
A manipulação por meio de TV, jornais e mídia em geral nos faz desejar um corpo ideal, um físico perfeito; porém, não é rara a separação entre o corpo desejado e o corpo real (difícil de ser conseguido!). As pessoas tornam-se aprisionadas à necessidade de alcançar um corpo escultural; corpo que as deixa sem liberdade e prisioneiras do que é socialmente exigido e imposto.
No desejo de alcançar um corpo “jovem”, não são poucas as pessoas (especialmente as mulheres) que de submetem às mais diversas tecnologias desenvolvidas para conseguir a juventude e identificando-se, desta maneira, com uma imagem de corpo ideal; imagem imposta pelo “outro”.
Muitos discursos relacionados ao corpo procuram a imortalidade escondendo o real que amedronta: o mal-estar por um corpo que envelhece e um sentimento de finitude. Com isto, a passagem do tempo se apresenta como algo inexorável e doloroso para as mulheres que fizeram do seu ideal o ideal da juventude.
Mesmo as modelos escolhidas como representantes dos ditames da moda, possuem dificuldades em lidar com os seus corpos, pois a sociedade impõe um ideal do corpo nada fácil de ser obtido.
Para Monteiro (2008) existe uma beleza simulada, expressão que se refere à beleza transformada pelas técnicas da estética, tanto cirúrgicas como cosméticas.
Cumpre distinguir a beleza da aparência. Segundo Monteiro (2008), enquanto a beleza é deflagrada pelas sensações e sentimentos, a aparência estaria relacionada ao respeito diante do outro, da forma como nos apresentamos; enfim, uma máscara de vaidade como disfarce para esconder as marcas do tempo.
Para Caradec (2011) a aparência se refere a tudo que envolve a estética do corpo como, por exemplo, o envelhecimento corporal: o aumento de peso, as rugas, os cabelos brancos etc. Nesse sentido, o autor explora a angustia de uma mulher diante do espelho quando está provando uma roupa. A vitalidade do corpo não é mais a mesma; entre muitos idosos, há a fadiga e a fraqueza, deixando-os com menos energia. Esses sinais de envelhecimento são, muitas vezes, negados pelo velho diante de uma sociedade que não valoriza o envelhecimento.
Como os primeiros “sinais” da velhice são exteriores, não são poucas pessoas que, diante destes sinais, procuram praticas que os atenuam. Não buscam o retorno à juventude; o que almejam é não se tornar velhos.
No entanto, já em Cícero63 nos mostra que saber envelhecer é algo muito especial e muito próximo de saber viver.
Segundo Pénicaut & Roger (2010), com o tempo o corpo perde o seu vigor; isto é observado na pele, nos olhos, na audição, na voz, nos músculos, nos ossos e nas articulações. No que se refere à pele o processo de envelhecimento começa por volta dos 30 anos, acentuando-se aos cinquenta anos. Aos sessenta anos, ela perde vivacidade, firmeza e elasticidade.
Quanto os olhos, a partir dos cinquenta anos as pessoas se queixam da presbiopia (vista cansada) e muitos de cataratas, dois “males” que podem ser corrigidos por óculos e intervenção cirúrgica.
Em consequência do desgaste dos neurônios estragados e da dificuldade das células sensoriais se regenerarem, a partir dos sessenta anos a audição anos começa a perder a capacidade da escuta Na velhice a voz da mulher se torna mais grave e a do homem mais aguda. Na mulher a menopausa, devido à queda do nível de estrogênio, influencia na qualidade de vibração da voz.
A perda da massa muscular começa aos trinta anos, acentuando-se à medida que a idade avança, sendo importante a regularização dos exercícios físicos. Tanto para os homens como para as mulheres os ossos e as cartilagens se atrofiam com o tempo. A melhor prevenção é a atividade física. A idosa (I3) menciona que fazia academia, natação e dança cuidando dessa forma o corpo e o equilíbrio psíquico.
Segundo Moraes (apud. Del Priore, A. 2011), na sociedade contemporânea existem muitas maneiras de envelhecer; maneiras relacionadas não só às classes sociais, como – e principalmente – à forma com que cada sujeito encara seu próprio envelhecimento.
63 Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C. — Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano. In: www.
Estatísticas populacionais mostram que existem mais mulheres do que homens idosos; trata-se da chamada "feminização da velhice”. Desta forma, a construção da velhice comporta variações de gênero significativas.
Debert (apud Moraes; 2011) assinala a diferença da percepção da velhice entre os sexos; para esta pesquisadora, as mulheres valorizam mais esta etapa que os homens. Elas enfatizam a liberdade e a autonomia como uma conquista só alcançada neste período da vida. Já para os homens, a velhice é considerada uma fase da vida que acentua as perdas e isolamento.
Hegel (apud. Svendsen; 2010), destacou que o corpo e o vestuário são coisas separadas, diferentes e que ambos (corpo e vestuário) se se desenvolvem livremente. Isto é, as roupas podem ser criadas independentes das necessidades do sujeito e o corpo pode também ser transformado conforme o desejo; defende que depender da moda é melhor que depender da natureza.
Svendsen (2010) retoma o caso de uma estilista que afirmou que as roupas não devem ser adaptadas ao corpo; é o corpo ser adaptado às roupas.
As roupas, como segunda pele, correspondem ao que há de mais perto em nosso corpo; desde o nascimento, nossa delicada pele já está protegida por vestimentas, contribuindo para a formação da nossa identidade corporal.
Assim como a vestimenta é uma segunda pele a maquiagem é uma forma de “superar a natureza”. Segundo Baudelaire (apud. Svendsen; 2010) não é necessário esconder-se atrás de roupas e maquiagens. Mas é através das duas – utilizada com propriedade - que nos permitirmos expor-se e se exibir.
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