1.3 WALLERSTEİN VE MODERN DÜNYA SİSTEMİ
1.3.1 MODERN DÜNYA SİSTEMİNİN TEMELLERİ
1.3.1.2 DEVLET-KAPİTALİZM İLİŞKİSİ
Já foi dito, anteriormente, neste capítulo, que a Reserva Extrativista Marinha Acaú-Goiana teve uma importante participação das mulheres marisqueiras. Sendo a luta das mulheres a marca indelével da reserva. Já foi dito também que esta é a única reserva extrativista que se localiza em dois Estados diferentes, Paraíba e Pernambuco sendo uma de suas características que a distingue das demais. Diante desse processo foi falado pouco sobre a luta das comunidades de Pernambuco para se incluírem no processo de proteção que a Acaú-Goiana traria. Mesmo tendo deixado claro que meu ponto de partida e de chegada seria a comunidade de Acaú e as pessoas que gravitam em torno delas. Sejam as pessoas locais, sejam os pesquisadores das universidades, sejam as pessoas que representam o Estado nos seus três níveis, federal, estadual e municipal, na figura das mais variadas instituições como IBAMA, Ministério da pesca, Incra, Instituto Chico Mendes,
prefeituras e suas secretarias, o governo do Estado e suas secretarias. Todas essas representações do estado da Paraíba com as quais estou mais próximo e mais familiarizado.
Fazendo justiça com as pessoas do Estado de Pernambuco que contribuíram para a criação da Acaú-Goiana e todas as instituições do Estado nos seus três níveis, federal, estadual e municipal. Além das organizações da sociedade civil como colônias, associações, fundações e Ong’s que também estiveram juntas na defesa dos pescadores, pescadoras, marisqueiras e catadores de caranguejo, entre outras categorias que tem nos rios da região do estuário do rio Goiana o seu espaço laboral e produtivo por excelência. Dentre essas entidades destaca-se a comissão pastoral dos pescadores do nordeste, secção Pernambuco, e fundação Joaquim Nabuco.
O processo de criação da Reserva Acaú-Goiana como já foi dito iníciou-se com a luta das marisqueiras de Acaú na discussão pela proteção dos bancos de mariscos no lado paraibano do rio. No outro lado do rio, em Pernambuco já existia uma discussão pela criação de uma unidade de conservação Estadual de proteção ao canal de Santa Cruz captaneada, principalmente, pela Comissão Pastoral dos Pescadores (CPP), de Pernambuco já que na Paraíba esta comissão da igreja católica não existe.
A comissão pastoral dos pescadores ocupa posição central nesse universo político que culmina com a criação da Acaú-goiana. A ação principal da CPP está no ato de articular e intercambiar as lideranças dos dois Estados em torno das discussões sobre proteção ambiental na região. Isso permite que as pessoas que representam as suas comunidades tomem conhecimento do que se passa nas outras comunidades. Essa articulação do CPP potencializou as demandas das lideranças em torno das ideias que mais à frente culminaria da criação da unidade de conservação. As lideranças de Acaú na figura das marisqueiras que acreditaram e tomaram a frente nesse processo. Por isso que a minha perspectiva parte da luta das mulheres do Estuário, mas principalmente, de Acaú. Até porque, como veremos mais à frente, os avanços político-institucionais em torno do processo no lado de Paraibano encontraram solo fértil e frutificaram mais rápido que os processos do lado do Estado de Pernambuco. Isso foi outro fator que conferiu às lideranças das marisqueiras ganhasse maior visibilidade e status dentro de todo esse universo de arranjos e negociações. É a partir disso que discutimos um pouco mais sobre o
protagonismo político das mulheres da Reserva Acaú-Goiana e percebemos que a ação das mulheres, nesse caso se sobrepujou a dos homens nesses locais.
Estes momentos de articulação e intercambio acontecessem no final da década de 1990, pelos anos de 1998 e 1999, conforme confirma Luzia e Dona Marinalva, e é a partir dessas reuniões que começam a enquadrar ideias, noções e conceitos definindo e encaminhando a demandas no lado Paraibano do rio Goiana. A proteção dos mariscos e a figura das marisqueiras emergem como pontos pacíficos. E a partir daí a lideranças das mulheres se torna um força incontestável dentro da comunidade e até fora dela. Muito mais fora da comunidade, na verdade, até porque as agências governamentais e da sociedade civil começam a acionar cada vez mais a associação das marisqueiras conferindo-lhes status.
Com os intercâmbios promovidos pela CPP, as lideranças pernambucanas tomam conhecimento do encaminhamento por parte das mulheres marisqueiras de Acaú pela criação de uma reserva extrativista para a área do estuário dos rios Goiana e Megaó decidiram apoiar ao processo que já estava em andamento na Paraíba.
Mas para o pessoal de Pernambuco as discussões mais importantes estavam sendo debatidas no sentido da consolidação de uma unidade e conservação no canal de Santa Cruz. Essa era a luta mais importante para as lideranças de Pernambuco. Até porque essa área estava num processo de degradação mais avançada. As pessoas tinham urgência no encaminhamento desse processo, sem falar que as articulações em torno de uma Reserva na região de Santa Cruz, se dariam a nível estadual, apenas. As discussões em torno do estuário do Goiana Paraíba e Pernambuco, como também o estuário do rio Megaóem Pernambuco. Teriam de ser negociadas com os dois Estados e suas lideranças. Algo um pouco complicado porque discutem fronteiras geopolíticas dos Estados, dos municípios em nome de uma unidade de conservação federal que se inseria nesse lugar tomando espaço e prestígio políticos das lideranças dos Estados em nome do Meio Ambiente, um conceito um tanto abstrato para a maioria das pessoas locais. Essa foi uma das causas que emperrou o processo de criação da unidade já que as negociações com órgãos federais dois não avançavam. Até porque na petição inicial vislumbrando a criação de uma reserva extrativista apenas para Acaú. Após ser protocolado 2002 dento do IBAMA/PB, no MMA, o processo administrativo tem seu trâmite paralisado,
pois os limites estabelecidos até aquele momento dividiam o estuário ao meio, o que pensando em termos de uma gestão ambiental sustentável seria inviável. Até porque os recursos estuarinos em questão na região da foz “não saberiam” de que lado do rio estariam protegidas.
Esse fato força as lideranças paraibanas, as mulheres marisqueiras, articularem com as lideranças pernambucanas do outro lado do rio uma forma que “fazerem andar” o processo junto ao MMA. A primeira solução encontrada foi ampliar os limites da unidade de proteção para todo o estuário do Rio Goiana Paraíba e Pernambuco e incluir também o estuário do Rio Megaó. De fato essa se torna uma proposta mais viável em torno da construção de uma unidade de proteção, mas torna mais complexo já que a pretensa unidade se colocaria encravada entre dois Estados da Federação o que, provavelmente, geraria um grande problema de gestão e administração em relação aos rumos que os interesses estaduais divergentes pudessem tomar. A segunda solução é a inclusão formal das comunidades pernambucanas no processo que estava sendo conduzido no IBAMA/PB através de abaixo assinado das lideranças de O processo voltou a ser discutido, Carne de Vaca (PE), São Lourenço (PE), Tejucupapo (PE) e Ponta de Pedras (PE). Posteriormente, entram nessa liga de comunidades, as cidades de Caaporã/PB e Goiana/PE já que elas se encontram ao longo do estuário do rio Goiana.
Este momento se dá entre os anos de 2002-2004, podendo ser considerada o momento de virada onde a formatação e os limites da RESEXAcaú-Goiana ganham contornos mais concretos.
A articulação na Paraíba sobre o processo avançou dentro do MMA e o IBAMA/PB discutia uma parceria Universidade Federal da Paraíba para disponibilizar dados socioeconômicos e antropológicos num parecer sobre o encaminhamento das questões referentes a RESEX, se era viável ou não implantação.
No período que corresponde aos anos de 2005 a 2007 o processo de criação da Reserva Extrativista Acaú-Goiana, ganha força. Boa parte da força com que as articulações entre as entidades da sociedade civil das comunidades do estuário do rio Goiana se deve ao bom relacionamento que as pessoas que fazem parte de MMA, UFPB, associação e colônias, desenvolvem no âmbito inter-pessoal. Dessa
forma o diálogo institucional avança de modo a culminar com a criação em 2007 da RESEX.
Os fatos contados possuem uma perspectiva. Essa perspectiva tende a valorizar o trabalho a força política das pessoas que fazem Acaú. Não apenas as pessoas da comunidade, mas todas as outras que de alguma forma vivenciam a realidade, seja através de pesquisas, seja através de um projeto extensionista, ou até mesmo por simpatia pessoal a causa captaneada pelas mulheres de forma clara e objetiva. Existem outras perspectivas e outras formas de contar a história de Acaú- Goiana, mas a minha satisfação está no fato de que qualquer ângulo histórico que seja contado essas coisas, as mulheres marisqueiras de Acaú terão um lugar de destaque nos créditos. O que revela que a minha angular não assume uma visão distorcida e desraigada da realidade.