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Tendo apresentado as diversas temáticas que compõem as políticas sociais em Belo Horizonte60 é importante destacar elementos específicos construídos ao longo dos anos da gestão popular democrática no município.

Inicialmente vamos considerar os temas que compõem o conjunto das políticas sociais. Ao considerarmos a Câmara Intersetorial de Políticas Sociais como a

60 As temáticas que compõem as políticas sociais em Belo Horizonte estão descritas no APÊNDICE D.

expressão do conceito de políticas sociais adotado pelo município, percebemos que a fronteira estabelecida exclui a habitação. A moradia é considerada um direito social (art. 6º da Constituição de 1988), no entanto, em Belo Horizonte é um dos eixos da Política Urbana. O mesmo ocorre com o meio ambiente, previsto na constituição como um dos elementos que fundamentam a ordem social. Esta opção impõe um desafio constante para o município, a construção da intersetorialidade não só entre políticas sociais, mas também entre as políticas sociais e as políticas urbanas. Não identificamos nenhum aspecto institucional que reforce esta construção. Os projetos de cunho territorial revelam potencial como promotores da integração entre o social e o urbano. A intervenção urbana em territórios classificados como de alta vulnerabilidade ou risco tem impulsionado o diálogo, como por exemplo, os programas BH Cidadania, Vila Viva e Orçamento Participativo. No entanto, observa-se que a ponte social-urbano ainda é frágil.

Dentro das fronteiras do social devemos destacar a temática Abastecimento. Belo Horizonte, desde 1993, dá um destaque maior a esta temática que desde então adquire status de secretaria. A Secretaria Municipal Adjunta de Abastecimento ao zelar pela segurança alimentar e nutricional dos usuários dos serviços sociais do município enfrenta o desafio da intersetorialidade no seu dia-a-dia. O desafio maior é romper com a concepção de área meio. O abastecimento não deve ser somente um fornecedor a que se demanda o alimento, deve ser um parceiro com quem se planeja. A construção desta relação de parceria continua sendo uma necessidade. Outro aspecto interessante da secretaria de abastecimento é o atendimento direto que faz ao público. Através de ações de fomento a agricultura urbana e de treinamento tem assumido um papel importante na geração de trabalho, emprego e renda. A terceira dimensão do abastecimento é na regulação do mercado de alimentos, esta ação revela a relação da temática com a política econômica. Esta multidimensionalidade reforça a importância da temática, mas também a complexidade inerente a sua gestão.

Outro destaque necessário dentro da fronteira do social refere-se à existência de uma estrutura específica dedicada a promoção e defesa dos Direitos de Cidadania. Observa-se que a fronteira entre esta secretaria e a Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social é tênue. Pessoas idosas e pessoas com deficiência são público alvo das duas secretarias, o que exigiria uma clareza da divisão de

responsabilidades no processo de atendimento, nem sempre existente. Esta é uma das áreas em que a intersetorialidade deve ser construída não só por princípio, mas por necessidade. A assistência social ainda enfrenta outros desafios no município, inclusive a relação com a sua secretaria de coordenação, a Secretaria Municipal de Políticas Sociais61 que assumiu o papel de coordenação e a responsabilidade por

programas intersetoriais estabelecendo uma hierarquia peculiar.

Por fim, destacamos o desafio inerente à prática da intersetorialidade. A intersetorialidade como um princípio que privilegia a integração matricial das políticas públicas urbanas e sociais, tanto na fase de sua formulação quanto na sua execução e monitoramento, permeia a todas as políticas. No entanto, observa-se que na prática a PBH testado elementos sobre o qual construí-la. A experiência do município aponta para construções que têm como elemento básico a temática (saúde, educação, transferência de renda) ou território. Provavelmente coexistirão programas intersetoriais de natureza distinta, entretanto, deve-se tomar cuidado para que eles não concorram entre si, mas se integrem em torno daquele que viabilizar a visão mais integral do cidadão.

Esta rápida incursão pela organização atual das políticas sociais em Belo Horizonte nos mostra que a descentralização das funções sociais do estado com a transferência de responsabilidades da União para os municípios foi plenamente efetivada no caso de Belo Horizonte. As funções absorvidas pelo gestor municipal respeitam a lógica do Estado Democrático de Direito que prepondera. Esta lógica nos coloca como desafio teórico enfrentar um conjunto de conceitos que se apresentam como estruturadores na construção e justificação das políticas sociais no Brasil e no município em estudo. Estes conceitos serão analisados no capítulo a seguir.

61 Na gestão 1993-1996 identificamos 6 estruturas ligadas ao eixo social (abastecimento, cultura, desenvolvimento social, educação, esportes e saúde). Na administração seguinte (1997-2000) além destas foi incluída a temática Assuntos da Comunidade Negra. Com a reforma administrativa de 2001, mantiveram-se as temáticas abastecimento, cultura, educação, esportes e saúde. As demandas da comunidade negra foram incorporadas pelos direitos de cidadania que abrangeu parte da temática típica do desenvolvimento social que foi extinto. Criou-se então a assistência social e as políticas sociais. Sendo que este último eixo trouxe consigo um papel de coordenação, como explicado neste capitulo.

4 EIXOS ESTRUTURADORES DAS POLÍTICAS SOCIAIS

Esta rápida passagem pela história das políticas sociais no Brasil e pela história bem mais recente da política social em Belo Horizonte evidencia que a análise da definição da função social do estado e da constituição de direitos não contém todos os elementos necessários para a análise das políticas sociais. Ao falarmos de direitos (civis, políticos, sociais, metaindividuais ou difusos) ou ao definirmos fronteiras (educação, saúde, cultura, assistência social, esportes, trabalho, abastecimento, transferência de renda, direitos de cidadania e outros) nos deparamos com um conjunto de conceitos que se apresentam como estruturadores na construção e justificação da agenda das políticas sociais no mundo, no Brasil ou no município. São eles: as desigualdades, as identidades, a exclusão, a vulnerabilidade e o risco. Eles trazem consigo a percepção de (in)justiça social e de problema social. Neste capítulo elucidaremos estes conceitos e sua evolução no debate político nas teorias políticas contemporâneas.

4.1 A DESIGUALDADE E O RECONHECIMENTO COMO EIXOS

Benzer Belgeler