A definição de um conceito utilizado num estudo representa para Thiry- Cherques (2012) “o enunciado que diz precisamente o que uma coisa é”. Cada estudo, dependendo do objetivo delimitado, adotará uma definição conceitual que será unívoca, declaratória, contextualizada, convencional e redutora. Para este autor, independente do sentido que dermos a pesquisa devemos estar sempre preparados para conceitualizar, sendo específicos, rigorosos e claros.
De forma simplificada, definir um conceito é expressar o seu significado. Os signos são palavras ou símbolos que utilizamos para denotar os conceitos, cujo significado se deseja estabelecer. “Os signos (termos, símbolos, representações) são conceitos cientifica e rigorosamente determinados.” (THIRY-CHERQUES, 2006, p.148).
Entretanto, como ele ressalta, deve se reconhecer que a elaboração dos conceitos é condicionada histórica e psicologicamente. Isto é, depende do contexto, da visão do pesquisador e do momento histórico considerado. Portanto, partilhando das ideias deste autor, antes de se tratar a questão da segurança pública, julga-se necessário num
primeiro momento discutir a definição do próprio conceito de segurança pública utilizado no desenvolvimento da presente tese de doutorado.
Na Constituição Federal Brasileira de 19884 há uma definição oficial do conceito de segurança pública. No Art.144 é definido que
a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I – polícia federal, II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V- polícias militares e corpos de bombeiros militares.
Considera-se que esta definição oficial presente na Constituição Federal na verdade não explicita de forma clara o conceito de segurança pública, se preocupando apenas em determinar os órgãos responsáveis. Desta forma, buscou-se uma definição própria para o conceito de segurança pública que permitisse o seu melhor entendimento para o desenvolvimento do estudo.
Conforme Santos (2005, p.1) destaca o conceito de segurança pública é bastante amplo, “não se limitando à política de combate a criminalidade e nem se restringindo à atividade policial”. Para este autor, segurança pública vai além da competência do Estado em garantir a segurança de pessoas e de bens no território brasileiro, com o respeito às leis e a manutenção da paz e ordem pública.
O conceito de segurança pública envolve políticas que também perpassam pelas dimensões econômica, social e de saúde, além de estar ainda relacionado ao próprio conceito de crime. A ocorrência ou eminência de um crime exige políticas de segurança pública, implicando na existência de sistemas de justiça para punir e coibir a prática criminal. Desta maneira, é importante admitir estas relações delimitando qual aspecto de segurança pública pretende-se adotar no estudo.
Soares (2008, p.146) ao discutir algumas questões teóricas aplicadas ao crime no contexto brasileiro aponta para a impossibilidade se tratar adequadamente fenômenos relacionados ao crime “dentro dos limites estreitos de uma disciplina, seja qual for”. Tal
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concepção vai ao encontro da perspectiva interdisciplinar adotada no presente trabalho. Embora o objetivo do trabalho esteja voltado mais claramente para o campo da Administração, já que seu enfoque está voltado para a área de gestão e planejamento, parte-se do princípio que o tema da segurança pública é por natureza interdisciplinar. Este tema é incorporado por diversos campos do saber como a Sociologia, a Economia, a Psicologia e a própria Administração, como uma ciência social aplicada.
Conforme este autor aponta, qualquer tipo de reducionismo limitaria o poder de explicação de um tema tão complexo que pode envolver variáveis de dimensões que podem ir além de questões jurídicas, como questões de ordem econômica, social, e, porque não dizer psicológicas. Ele se preocupa em demonstrar como as teorias sobre crime presentes na literatura podem se mostrar insuficientes para explicar certos casos. Por exemplo, as teorias baseadas em escolhas econômicas racionais, ou seja, que preconizam que o crime é cometido na busca de alguma vantagem econômica, não se aplica aos crimes de estupro. Da mesma forma, podem ocorrer homicídios motivados por relações amorosas ou simplesmente por vingança.
Soares (2008) ilustra tal posição indicando que já há um debate entre os pesquisadores5 brasileiros que desqualifica a relação entre o efeito do desenvolvimento econômico e social e os eventos criminosos. Tais estudos são baseados em evidências empíricas e tratamentos estatísticos, cujos resultados indicam que não há uma relação causal obrigatória entre desigualdade e ocorrências de crimes.
Assim, irá se tratar este conceito, considerado central para o desenvolvimento do estudo, sob a ótica da gestão pública e dos atores envolvidos na circunstância específica abordada, ou seja, segundo a percepção dos profissionais de segurança pública envolvidos na utilização da estatística criminal como uma fonte de informação para o planejamento do trabalho policial. Portanto, ao assumir a delimitação de um tema tão diverso como a segurança pública, necessária para o desenvolvimento da tese, ressalta- se a importância da conscientização de que esta problemática também perpassa por discussões densas, sobre questões concernentes a violência6 e as formas de percepção da criminalidade.
5 Ver Beato Filho (1999b) e Zaluar (1999). 6
O estudo não teve como foco, por exemplo, quais seriam as atuais políticas de direitos humanos, como o sentimento de insegurança pode influenciar a rotina das pessoas, nem como o sistema judiciário atua em relação à aplicação das penas dos criminosos. O interesse esteve no conceito de segurança pública, associado mais propriamente à utilização das estatísticas criminais no planejamento de políticas públicas de segurança.
Portanto, partiu-se do princípio que segurança pública pode ser conceituada como um conjunto de processos geridos pelo Estado com ações políticas e jurídicas voltadas para a proteção da população contra danos e riscos eventuais à vida e a bens patrimoniais. O Estado deve “zelar pela preservação do patrimônio dos cidadãos e de suas respectivas integridades físicas”, de modo que atualmente a sua própria legitimidade pode depender da sua capacidade “de manter a ordem no seio de populações residentes em territórios juridicamente submetidos à sua autoridade”. (SAPORI, 2007, p.17).
A associação com o conceito de público vem justamente para esclarecer que o enfoque está nas ações do agente público para gerir políticas de segurança se diferenciando assim, do conceito de privado. Sapori (2007) indica que o caráter público adquirido pelas instituições de Estado está associado com a própria emergência e afirmação dos direitos civis nas sociedades democráticas. Para este autor, a construção da ordem pública deve ser pensada sob a perspectiva de que a responsabilidade pelo espaço público cabe a todos os membros da comunidade política. Portanto, segundo ele, cabe ao Estado, como responsabilidade central, a garantia da ordem interna visando não só a viabilização da vida coletiva como a garantia dos direitos dos indivíduos que compõem essa mesma coletividade.
Assim, o conceito de segurança pública tem significado para toda população, pois atinge desde os cidadãos comuns, até os criminosos, os agentes encarregados de oferecer segurança pública (policiais), os agentes encarregados da aplicação da lei (juízes, advogados) até os gestores públicos e os analistas que lidam com esta questão. No entanto, a tese teve como objeto de pesquisa somente os profissionais de segurança pública envolvidos no processo de utilização da estatística criminal no planejamento das atividades policiais. Isto é, policiais (civis e militares), especialistas da área (técnicos) e gestores públicos que atuam neste campo.
Um último ponto que merece ser esclarecido relaciona-se ao fato de que a questão da segurança pública vai diferir dependendo do contexto. Para a tese, o interesse esteve no significado que a segurança pública, mais propriamente, o uso das estatísticas criminais para o planejamento das atividades policiais, adquire atualmente num local com circunstâncias específicas, no caso o estado do Rio de Janeiro. Conforme Soares (2008) aponta variantes de contextualização temporal e espacial podem influenciar significativamente nos resultados de uma análise criminal. Outra concepção deste autor, que reforça o cuidado de se delimitar o campo especificamente estudado, se relaciona com o fato de que as variáveis políticas também precisam ser contextualizadas nas análises criminais, considerando que políticas públicas específicas podem influenciar no aumento ou na diminuição das taxas de homicídios7.