A forma, determinante da reflexão, expressa o caráter relacional do lógico objetivo, no qual a contradição se estabelece. Diferente da reflexão kantiana que se estabelece no âmbito da subjetividade, em que a determinação ainda representa uma dualidade inerente. Em Kant, a reflexão representava uma atividade da faculdade judicativa, limitando o horizonte das determinações relacionais. A faculdade judicativa, como pura reflexão, partia de uma dada representação imediata, em busca de determinações gerais. Contudo, como faculdade judicativa determinante, compreendia o movimento das determinações do universal frente ao conteúdo particular.
A contradição tem caráter positivo, sendo que a sua base está na reflexão determinante. A dimensão positiva, produtiva e superadora das antinomias da razão, expressa o movimento de determinação reflexiva do pensamento encerrado em si mesmo, independente de qualquer instância externa ao âmbito do pensamento ou da Ideia.
A compreensão da contradição passa pela consideração da negatividade. Essa expressa o movimento da diferença como uma relação de negatividade autorreferente. A diferença sinaliza um comportamento reflexivo que passa pela diferença de si, sem se perder na exterioridade, sem entrar em um campo estranho. Essa relação de diferença sempre mantém em si também a unidade. Os momentos da negatividade são lados diversos de uma mesma relação, momentos de identidade e diferença.
A diferença tem seus dois lados como diversos ou contrapostos. Como simplesmente diversos esses lados se separam entre si de modo indiferente; como contrapostos esses lados da diferença estão determinados um por meio do outro.205
A diferença pode indicar também uma relação entre o positivo e o negativo, sendo que esses momentos se estabelecem na relação, como momentos autorreferentes.
Na relação de determinação reflexiva, o outro se constitui plenamente como outro de si. Pode-se definir objetivamente esse positivo como um momento relacionado ao negativo, mas que, ao mesmo tempo, o constitui. Sendo que o negativo não existe sem o positivo. Trata-se de um processo imanente ao pensamento, movimentando-se por determinações reflexivas autodeterminantes e autorreferentes. O pensamento não sai para uma esfera além de si, não se funda na esfera real externa ao pensamento.
A relação constitui esses momentos alternados e diferenciados, não como ser indiferente, em que um e outro se excluam reciprocamente, relação que sustente algo fora do pensamento, mas representa momentos de uma relação de unidade e diferença no seio do próprio pensamento.
A questão central aqui é que a contraposição reflexiva não implica uma contraposição firmada em uma instância externa ao pensamento. O princípio da contradição, para Hegel, circunscreve-se nesse horizonte, sendo que remete essencialmente a uma dependência lógica ao mundo real, exterior. Quando Hegel aborda a diferença, afirmando que a diferença é a própria contradição, não está condicionando a lógica a uma dimensão externa ao processo do conceito, como ocorre nas formas de percepção da representação.
205 HEGEL, WL, II, 2003, p. 64.
Para a razão, a negatividade é condição afirmativa da relação de autodeterminação do pensamento. Algo é, enquanto é determinado pelo conceito. Nisso se constitui, internamente, por uma relação de afirmação e negação. Positivo e negativo representam pólos determinantes de um objeto, ao mesmo tempo, independente e dependente. Como pólos relacionados, afirmam-se enquanto se negam. Nesse contexto, negação é afirmação. A própria diferença é a contradição, e, assim, é afirmativa.
Posto que a determinação reflexiva independente exclua a outra no mesmo aspecto em que a contém e por isso é independente, ao fazê-lo, exclui de si em sua independência, sua própria independência; em efeito, esta consiste em conter em si a outra determinação e em não ser, somente por esta razão, relação com algo extrínseco – porém consiste também de modo imediato em ser ela mesma e excluir de si a determinação que é negativa a ela. Assim, ela é a contradição.206
Pode-se, perceber, desta forma, que a determinação reflexiva se estabelece como um movimento recíproco e constante de dependência e independência, sendo que um somente é diante de seu oposto correlacionado. Identidade e contradição se estabelecem juntos na relação da coisa.
[...] positivo e negativo são a contradição posta, porque, como unidades negativas, são justamente o pôr-se eles mesmos, e nisto são cada um a superação de si mesmo e o pôr-se seu contrário. Eles constituem a reflexão determinante como exclusiva; e posto que o excluir é um único distinguir e cada um dos distintos, justamente como exclusivo, constitui toda a exclusão, cada um se exclui em si mesmo.207
Portanto, a contradição positiva se estabelece como uma determinação do pensamento reflexivo determinante. Para Hegel, a afirmação, pela via da negação, impõe, por reflexo, a afirmação da interdependência das partes que, supostamente, na abstração, pudessem ser entendidas como coisas independentes. A
206 HEGEL, WL, II, 2003, p. 65. 207 Ibidem, p. 65.
independência se estabelece correlativamente à relação de dependência. A negação, proposta pelo ser-posto, tem como referência um vínculo de dependência com esse ser supostamente independente.
Considerando por si as duas determinações reflexivas independentes, o positivo representa, assim, o ser-posto como refletido na igualdade consigo, o ser-posto que não seja referência a outro, vale dizer, é o subsistir, posto que o ser-posto se encontra superado e excluído. Porém, com isto, o positivo se converte em referência de um não-ser, quer dizer, em um ser-posto. Desta forma, representa a seguinte contradição: que o positivo, posto que seja o pôr a identidade consigo mesmo por meio da exclusão do negativo, se converte a si mesmo no negativo, nesse outro que exclui de si.208
Na compreensão de Hegel, a contradição do positivo reflete na mesma proporção como contradição do negativo, sendo que ambas são a mesma reflexão209. Logo, a negação, o não ser do ser-posto é um ser mediado, um não ser que é ser-posto pela reflexão determinante. Reforça-se a compreensão de que o não ser, como momento da contradição posta, não é um ser externo à razão e, sim, um ser mediado.
O negativo é, por isso, a completa oposição que, como oposição, se funda em si; é a diferença absoluta que não se refere a outro; exclui de si, como oposição à identidade – porém, com isto, se exclui a si mesmo, em efeito, por ser relação consigo, se determina como identidade mesmo que exclui.210
Essa condição em que a negação, o ato de negar, está em relação de identidade com a diferença, com o objeto, o qual quer negar, é verdadeiramente a condição que tanto afirma a sua diferença, quanto revela a sua identidade com o objeto que quer negar. Diante da identidade, o momento de negação nega a si mesmo e, nesse processo de confronto, a relação com a identidade o negativo se media e se afirma.
208 HEGEL, WL, II, p. 65. 209 Ibidem, p. 65.