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Denetleme Faaliyetleri

Belgede Yayın no: NEE-HÜ ISBN X (sayfa 39-0)

2.2 Yenilikçi Bir Veri Toplama Sistemi

2.2.5 Saha Çalışması

2.2.5.3 Denetleme Faaliyetleri

Temos de descobrir uma construção e explicá-la: seu andar superior foi construído no século XIX, o térreo data do século XVI e o exame mais minucioso da construção mostra que ela foi feita sobre uma torre do século II. No porão, descobriram fundações romanas e, debaixo do porão, acha-se uma caverna em cujo solo de descobrem ferramentas de sílex, na camada superior, e restos da fauna glaciária nas camadas mais profundas. Tal seria mais ou menos a estrutura da nossa alma.

JUNG apud BACHELARD, 1978:196

Lorenzo, recoge en la corriente despeñada de un rio el alud que rueda incesante

en las sombras de un tierno laberinto y sobre la tiniebla de lo no construido

levanta con las piedras ancestrales del asombro una morada para un habitante herido.

En las cuatro columnas primordiales coloca el norte en la palma de mi mano el sur en un suspiro ineludible

el poniente en los ojos dormidos de la estatua y el oriente mirando hacia un mercado de sorpresas. No quiero que me duelan las paredes de mi casa que nadie diga que me mire al espejo

ni que tire para siempre mis zapatos que perdieron su color por la distancia constrúyela... para que converse conmigo y ponle mil ventanas que den al paraíso.

NAZARIO CHACON apud RAMIRÉZ PONCE

A essas duas narrativas, poderíamos acrescentar a indagação de Heidegger: “em que medida pertence ao habitar um construir?”

Trata-se de percurso reflexivo que permite a aproximação à noção de “criação” que Lefebvre introduz como condição decisiva para cumprir o direito à cidade e da noção de “apropriação”, ou fruição, como desafio da política de patrimônio.

O planejamento urbano e o urbanismo modernista, tal como as práticas patrimoniais contemporâneas, apesar da narrativa humanista em torno de valores civilizacionais centrados no direito individual à liberdade e à “qualidade de vida”, geraram vazios na relação idealizada entre os bens produzidos, os projetos de vida

e os sujeitos sociais, ao ponto de se tornar necessário, para viabilizar o projeto da modernidade, para alguns, ou, para outros, o projeto pós-moderno de realização das impossibilidades e incompletudes da modernidade, promover esforçadas iniciativas de reaproximação entre a estrutura das ideias, dos valores, do poder, e as práticas sociais cotidianas.

Os elos na cadeia dos processos de produção do espaço foram, como já observamos no primeiro capítulo, fragilizados com a mudança do valor de uso dos espaços para o valor de troca ou por sua construção a partir da lógica do mercado, fragmentando, e por vezes dissolvendo, os mecanismos de relação entre os sujeitos, individuais e coletivos, remetendo-os a processos de produção isolados, autonomizados e localizados no território, impedindo a sua leitura e apropriação como totalidade.

Um dos fatores mais relevantes nessa desconexão, ou desenraizamento, é, precisamente, a mudança na noção de habitação como expressão do habitar e do habitat. Trata-se da descaracterização de campo privilegiado onde poderia operar a religação entre a cidade e os cidadãos e poder-se-ia cumprir a cidadania de modo efetivo, a partir do lugar social e geográfico – o território –, e dar sentido à noção de existência e de pertencimento, e, por consequência, estabelecer as condições decisivas para minimizar as rupturas e as perdas de coerência e de sentido das formas urbanas que se estabelecem na contemporaneidade.

O habitar resumiu-se, na narrativa banalizada da modernidade, a uma função urbana e à sua inerente “atividade” humana – a habitação –, desvinculando-se da ideia de “assentamento” e de “lugar” e da satisfação das respectivas necessidades simbólicas e afetivas da organização do espaço de viver.

Não se trata, no entanto, de ausência de conceitos, modelos e experiências. Desde o século XVIII, as transformações urbanas, e as respectivas propostas e projetos urbanísticos, tinham no “habitar” um foco referencial estruturante. Todavia, registra-se a formulação de modelos que tendem a aproximar-se da ideia de habitat, enquanto complexo ambiental da vida humana, onde se consolidam princípios e formas de “viver”, considerando fatores de equilíbrio e sustentabilidade do meio ambiente na sua articulação com o desenvolvimento das atividades humanas. As propostas de amplos parques urbanos, extensas alamedas, jardins botânicos, atividade balnear, não eram mais do que a expressão de um modo de vida burguês

transportado para o urbano. A cidade desenhava-se, e redesenhava-se, perseguindo novos modos de habitar, associados tanto a valores de status das classes sociais dominantes, como a requisitos de urbanidade que implicavam a configuração de soluções técnicas e formais decorrentes de padrões de salubridade – como ventilação, insolação, redes de abastecimento de água e de drenagem de esgotos. Ainda que o desenho urbano, entendido como o desenho do espaço público pontuado por construções isoladas emblemáticas, adquirisse, a partir do final do século XVIII, um papel relevante na imagem da cidade, o tecido urbano era, tal como sempre aconteceu, formado pela massa dos edifícios de habitação que lhe conferia densidade e continuidade.

O viver urbano, o habitat urbano, distinguia-se, assim, do rural, não apenas pelo contexto geográfico e paisagístico, ou, mesmo, pelas condições de produção, mas apresentava-se como outra forma de “habitar”, como outra forma de relação significante e simbólica, e como outra forma de organização da vida cotidiana.

Nessa perspectiva, o “habitar” era componente importante do cotidiano e compunha o ciclo das atividades de trabalho, de lazer e das outras práticas de vida coletiva. A composição do lugar de “habitar”, o alojamento, a habitação, nesse modelo de viver burguês, não era apenas determinada pelas atividades privadas, mas concentrava muitas das práticas que definiam certo conceito civilizacional – os comportamentos, os mecanismos de relação familiar, os hábitos e costumes e, mesmo, as formas de sociabilidade, considerando que, em determinados momentos e para alguns grupos sociais, a habitação era uma extensão da vida pública49.

Na Paris de Haussman, na Barcelona de Cerdá, na cidade-jardim inglesa, na ville radieuse de Corbusier ou na Brasília de Lúcio Costa, a habitação constitui não apenas a massa edificada da cidade, como, também, corresponde à proposta de

49 “N'esse outubro, quando a pequena completou o seu primeiro ano, houve um grande baile na casa

de Arroios, que eles agora ocupavam toda, e que fôra ricamente remobiliada. E as senhoras que outr'ora tinham horror á negreira, a D. Maria da Gama que escondia a face por traz do leque, lá vieram todas, amáveis e decotadas, com o beijinho pronto, chamando-lhe querida, admirando as grinaldas de camélias que emolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e gozando muito os gelados. Começara então uma existência festiva e luxuosa, que, segundo dizia o Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, tinham um saborzinho d'orgia distingue como os poemas de Byron. Eram realmente as soirées mais alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora com Champagne; talhava- se até tarde um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrara soberanamente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais intimas, ela costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater á carambola francesa D. João da Cunha, o grande taco da época.” Eça de Queiroz in Os Maias

habitat e determina a forma urbana marcando a linguagem arquitetônica. No entanto, apesar de o projeto pressupor modelos de indivíduos, grupos e classes, e seu respectivo comportamento, no tempo prevaleceu o anonimato dessa massa de sujeitos, quase desconhecendo-se a sua efetiva relação com as habitações, entretanto projetadas e construídas.

Instala-se, assim, um paradoxo: ao mesmo tempo em que o planejamento da cidade tende a configurar conceitualmente modelos de habitat que determinam formas precisas de organização social e da atividade humana, definindo minuciosamente tipos e padrões – de trabalho, de mobilidade, de lazer, de cultura –, constata-se a desmobilização dos indivíduos da formulação e realização desses processos. Ao mesmo tempo em que o “projeto” parece inserir os indivíduos em uma totalidade provida de ordem e sentido, dando significado ao seu “ser-no-mundo”, relacionando-o por meio de mecanismos de sociabilidade com outros indivíduos e com as instituições inseridas nos mesmos processos, também destituiu-o da oportunidade de “criar” o seu “lugar”.

Poder-se-ia argumentar que, embora segundo práticas distintas, os indivíduos e os grupos sociais continuam a gerar seu próprio habitat, suas próprias tipologias de alojamento e seus espaços de relação; que, em certa medida, a favela e as periferias contemporâneas não divergem, na sua produção, dos assentamentos precários no entorno da cidade medieval ou dos bairros operários improvisados no entorno das fábricas no início do século XIX; ou que os condomínios residenciais fechados das metrópoles contemporâneas são a continuidade das cidades cintadas por muralhas, dos bairros burgueses e dos boulevards centrais das cidades oitocentistas, e, portanto, poderia deduzir-se alguma permanência de práticas que configuram o “habitar”.

No entanto, o habitar, entendendo-o no sentido amplo a partir do modo de ser e estar dos indivíduos no mundo, encontra na habitação o lugar de materialização da visão de mundo, onde, ao mesmo tempo em que produz as representações sociais coletivamente reconhecidas, também desenvolve a criação de um espaço de centralidade e fixa elementos indispensáveis à expressão e prática da individualidade e da interpretação e entendimento do mundo. Existe, na noção de habitar, aproximação ao “lugar”, espacial e social, que ultrapassa as fronteiras da fruição e da apropriação. O habitar implica, ainda que em diversos âmbitos e

escalas, o fazer parte de um processo, decorrendo em alguma forma de identificação, ou vinculação, entre os sujeitos, suas práticas, suas produções, ou construções, e os lugares, o território.

Podemos, então, questionar em que âmbito situa-se o desvirtuamento nos mecanismos da produção social do espaço urbano e que conduziu à reivindicação da ausência de pertencimento dos cidadãos em relação aos lugares. Na acepção de Lefebvre, essa “perda” revela-se no desparecimento do “resíduo” que define o campo do cotidiano: o “espaço” que sobra entre as atividades modeladas e determinadas – as funcionais e as institucionais. Esse é, entretanto, o “espaço” de transformação, da “metamorfose”, que permite operar a mudança dos entendimentos filosóficos e não filosóficos a partir da práxis, da criação.

Todavia, não entendemos esse resíduo como determinante, ou como fragmento desprendido, mas como componente da totalidade que é a cidade, como território de continuidade no qual se projeta a sociedade. Nesse sentido, o “direito à cidade” afirma-se na medida em que se fomenta esse espaço residual do cotidiano, que agrega o todo a partir dos lugares intersticiais da diferença de interesses e de valores, onde se realiza a competição, se estabelece o conflito, mas, também, a mediação transformadora.

O que persiste de vago e impreciso entre essas leituras do urbano ou das práticas sociais territorializadas é esse lugar do cotidiano, esse resíduo que, ao mesmo tempo em que se apresenta como profícuo, porque não determinado, carece, ainda, de ser desvendado e caracterizado.

Se parece evidente que os modelos de organização do espaço construído, o habitat, encontram-se fixados ou, pelo menos, tendem a ser determinados segundo processos conhecidos, o habitar, entretanto, apresenta-se como noção de, cada vez mais, difícil apreensão. Talvez porque – e essa é nossa tese – ela coincida, precisamente, com esse espaço residual de ligação entre os grandes fragmentos, ou partes da cidade, reconhecidos e determinados. Ou seja, talvez o habitar situe-se nesse campo de aparente arbítrio e de liberdade de ser, de se pertencer, não em relação ao que se supõe existir, mas ao que se buscar criar e construir.

O fato de, com frequência, exprimir-se “eu moro ali”, ou “eu resido ali”, e raramente “eu vivo ali” ou “eu habito aquela casa”, denota, ainda que de modo pouco perceptível, mudança na relação com o lugar, com o viver o lugar.

Essa aparente fragilidade no vínculo ao lugar que nos é, tradicionalmente, próximo – a habitação –, que se expressa em sentimentos contraditórios – como, por exemplo, “as cidades já não são habitadas”, quando essas encontram-se cada vez mais sobrepovoadas –, constitui-se como tema de análise de diversos pensadores, como Martin Heidegger, Otto Bolnow, Gaston Bachelard e Henri Lefebvre.

Partindo de constatações empíricas referenciadas à mesma realidade, ainda que aqueles autores não a considerem do mesmo modo – a crise do “viver” nas cidades (aqui intencionalmente redutora da ampla questão urbana) –, cada uma das abordagens orienta-se a reflexões diferenciadas e com propósitos teóricos, holísticos e políticos distintos, mas prendem-se à noção de habitar, não apenas de modo referencial, mas considerando-a decisiva para a compreensão do real.

É sintomático que os modelos de cidade implantados no âmbito das transformações urbanísticas oitocentistas trouxeram mudanças comportamentais – individuais e coletivas –, descritas na literatura e tratadas nos primeiros ensaios dos cientistas sociais, e que são atribuídas tantos aos novos modos de produção dos espaços urbanos, como a desajustes entre os “modos de vida” instalados e os modelos formais e funcionais que configuram as novas tipologias de edificação, nomeadamente as residenciais.

Considerando-se a atual crise habitacional, possuir uma habitação é, sem dúvida, tranquilizador e satisfatório; prédios habitacionais oferecem residência. As habitações são hoje bem divididas, fáceis de se administrar, economicamente acessíveis, bem arejadas, iluminadas e ensolaradas. Mas será que as habitações trazem nelas mesmas a garantia de que aí acontece um habitar? (HEIDEGGER, 1951:s/p)

A indagação de Heidegger, embora reproduza a angústia que perpassava o debate nos meados do século XX a propósito da reconhecida desumanização da cidade, muitas vezes conotada com a aparente “frieza” e despojamento das edificações modernistas, busca discutir o significado da atividade humana referida à criação dos seus espaços e à qualificação do sua existência e presença no mundo. Se a habitação pode representar, na consciência coletiva, o habitar, então o residir

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