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Em relação à pergunta acima o ALCESTE© selecionou 585 Unidades de Contextos Elementares (U.C.E.) representando 81% do corpus analisado. Estas U.C.E. foram divididas em três classes, articulando-se entre si, correspondentes a diferentes contextos. O fundamento para o agrupamento de UCE em determinada Classe é fornecido pela frequência e o Ȥ2 (qui- quadrado) das palavras de acordo com seu vocabulário específico. A seguir, apresentamos a Figura 1, que ilustra o dendograma resultante da classificação do material analisado.

Figura 1: Dendograma resultante da classificação hierárquica do material textual analisado referente a questão “Qual foi a principal finalidade buscada nessa experiência?”

CLASSE 1 “Melhorar as relações interpessoais na escola” 331 U.C.E – 56% Palavras/ Radicais Ȥ 2 F Escol+ 35 166 Professor 26 41 Melhor 20 62 Necessidade 14 50 Qualidade 14 21 Trabalh+ 14 44 Acontec+ 13 26 Violência 13 35 Aprendiz+ 12 18 Ensin+ 10 28 Sala 10 13 Comportamento 9 18 Publ+ 9 12 Tem+ 9 26 Aula 8 10 Devido 8 26 Equipe 8 14 Gestor 8 10 Funcionários 7 12 Aluno 6 155 Atividade 6 15 Dificuldade 6 8 Fisic+ 6 9 Relacionamento 6 14 Causa+ 5 6 Indice 5 9 Indiscipline 5 10 Interpesso+ 5 7 Agressividade 4 5 Conflitos 4 10 Disciplina 4 5 CLASSE 2 “Resgate de Valores Morais e

Éticos” 162 U.C.E – 28% Palavras/ Radicais Ȥ 2 F Valores 152 81 Resgata+ 61 35 Moral+ 54 28 Humano 38 22 Éticos 36 15 Importancia 26 21 Solidariedade 25 11 Respeit+ 23 40 Valoriz+ 23 19 Cultura+ 18 17 Dignidade 16 6 Etic+ 16 16 Existe+ 16 12 Mostrar 16 9 Próximo 16 10 Vive+ 14 9 Ser+ 13 23 Harmoni+ 12 6 Motiv+ 11 4 Preconceito 11 7 Vida 11 25 Esquecidos 9 5 Hábitos 9 5 Precis+ 9 8 Tempo 9 5 Diferenças 8 9 Sociedade 8 18 Amor 7 4 Conceito 7 4 Conduta 7 5 Educando 7 6 Futuro 7 5 Jovens 5 7 Mundo 5 6 Paz 5 7 CLASSE 3 “Formação Cidadã” 92 U.C.E – 16% Palavras/ Radicais Ȥ 2 F Cidada+ 137 37 Direitos 121 29 Deveres 87 22 Conhecimento 65 22 Crit+ 59 12 Constru+ 41 13 Cidadania 38 17 Voltada 32 7 Forma+ 26 25 Consciente 24 8 Humaniza+ 22 4 Papel 22 6 Consciência 21 8 Just+ 18 6 Busc+ 17 15 Interação 17 5 Enquanto 17 5 Participativo 16 4 Individu+ 15 6 Compromisso 12 4 Exercício 12 4 Local 12 4 Principalmente 11 6 Solidário 11 3 Coletivo 9 4 Promover 9 6 responsabilidade 9 5 Processo 8 6 Propri+ 7 4 Criar 6 5 Despertar 5 5 Objetiv+ 5 6 Sociedade 5 11

A figura acima (Figura 1) apresenta a seleção das palavras mais significativas para cada Classe, considerando as palavras com média maior que 4 (critério lexicográfico indicado na operação A2) e as com Ȥ2maior que 3,84. Posteriormente, realizamos a descrição de cada classe. A partir dessa descrição, selecionamos os projetos que têm como finalidade o enfretamento da violência e da indisciplina escolar.

As classes obtidas pelo Alceste revelam-nos que as finalidades dos projetos realizados foram: melhorar as relações interpessoais na escola (Classe 1); resgatar valores morais e éticos (Classe 2) e buscar a formação cidadã dos alunos, visando ao conhecimento de seus direitos e deveres (Classe 3).

A Classe 1, denominada “Melhorar as relações interpessoais na escola” contém 331 Unidades de Contextos Elementares (U.C.E.) representando 56% do corpus. Nessa classe, as respostas indicam a necessidade de uma melhoria nas relações entre os sujeitos escolares, o que pode contribuir para a melhora da qualidade do ensino.

Os respondentes apontam que os projetos se originam devido à falta de respeito e ao comportamento, à violência, à indisciplina e à agressividade dos alunos; assim os agentes escolares buscam, com a realização desses projetos de Educação em Valores, uma melhoria no comportamento e nos relacionamentos interpessoais, principalmente entre professores e alunos e entre os alunos.

Seguem exemplos de falas: “Melhorar a disciplina, o respeito mútuo entre alunos, professores e funcionários, incentivo a permanência na escola”. (suj. 1066); “Diminuir a violência na escola, formar cidadãos e melhorar a qualidade de ensino-aprendizagem.” (suj. 400);

A escola não esta isolada da sociedade e todas as questões relacionadas a violência valem para a escola também. A violência na escola não pode ser avaliada por casos isolados de alunos e profissionais com problemas mais sérios de comportamento. Pesquisas sobre violência nas escolas têm mostrado que a grande maioria dos alunos e profissionais não são habitualmente violentos e nem tampouco convivem em um ambiente desestruturado ou violento. No entanto, muitas vezes acabam manifestando algumas atitudes violentas na escola. Podem se apontar alguns aspectos relacionados ao fenômeno mais frequente, como educadores não capacitados para lidar com o fenômeno, problemas de gestão e de liderança escolar, ação policialesca com os alunos, etc. Se trata de um trabalho em que a comunidade escolar pode falar em prevenção e, acima de tudo, propiciar uma oportunidade de atitude cidadã e consciente em sua comunidade. (suj. 430)

O maior problema era a indisciplina, o não hábito da leitura e o desinteresse pela escola, violência verbal, física e o “maldito” fenômeno bullying. De outro lado, a desmotivação dos professores, [...]. Como estratégia para intervir pedagogicamente surgiu as ideias contidas no

projeto gincana cultural: construindo cidadania. A porcentagem atingida foi o suficiente para acreditarmos que podemos transformar o ambiente de convívio nosso para melhor. Menos conflitos, vandalismo, violência. (suj. 821)

A partir da leitura das respostas classificadas, foi possível identificar nessa classe 102 projetos, cuja finalidade reside no enfrentamento das situações apontadas como de violência e de indisciplina na escola, objeto desta pesquisa.

A classe 2, “Resgate de valores morais e éticos”, contém 162 Unidades de Contextos Elementares (U.C.E.) representando 28% do corpus. Nela, as respostas indicam que os projetos de educação em Valores estão acontecendo com a finalidade de resgatar valores morais e éticos que, segundo os respondentes, são importantes para vivermos em sociedade. Eles apontam que os valores, como solidariedade, respeito, dignidade, estão se perdendo ou são esquecidos em nossa sociedade atual. Em decorrência, consideram a

necessidade de a escola assumir essa educação em função da crise atual na formação em valores morais.

Vejamos exemplos de fala: “Para ter maior respeito entre os seres humanos e assim poder viver melhor em sociedade.” (suj. 1019); “Para resgatar ou ensinar a importância desses valores na vida de cada um. Mostrar que uma existência alicerçada em valores morais pode trazer um grande progresso ou uma transformação na vida tornando pessoas respeitadas.” (suj. 91); “As pessoas estão cada vez mais distantes de princípios morais e éticos. Existe uma onda cultural entre os jovens que tudo pode, não se tem limites, não se cobra boas atitudes, bom comportamento.” (suj. 331); “Para mostrar ao educando a importância de se recuperar valores ora esquecidos, a importância de se relacionar com o outro e a importância de defender sua sobrevivência.” (suj. 286).

A leitura das respostas classificadas nessa classe permitiu-nos identificar dois projetos, sendo uma resposta que sinaliza a falta de valores como fator motivador da indisciplina; outra igualmente demonstra preocupação em resgatar valores perdidos como forma de superação da violência escolar e social.

A classe 3, “Formação cidadã - o conhecimento dos direitos e deveres”, contém 92 Unidades de Contextos Elementares (U.C.E.) representando 16% do corpus.

Essas respostas apontam que os projetos têm a finalidade de promover a formação de cidadãos críticos, conscientes de seus direitos e deveres. Nessa classe, a Educação em Valores é percebida como parte da função escolar e a escola como instituição social com o dever de formar integralmente os alunos com vistas a sua humanização. Como exemplos de respostas temos:

A cidadania é construída no exercício de pequenas coisas do cotidiano, abrangendo não apenas os direitos, mas também os deveres, gerando compromisso, responsabilidade e participação, permitindo o desenvolvimento da sua consciência ética e do seu compromisso cidadão. (suj. 317)

Para criar consciência de direitos e deveres enquanto cidadãos, melhorar o convívio social na escola, sugerir mudanças para construção de uma nova sociedade, questionar os poderes constituídos acerca de seus deveres na promoção da ordem e do bem comum social, e acima de tudo, cumprir com o nosso papel social enquanto escola. (suj. 629)

Buscar o engajamento coletivo na promoção de ações pedagógicas transformadoras voltadas ao resgate de valores, interferindo na realidade local em busca da humanização nas relações e a justiça social, enfocando o individuo nas suas relações com o meio. (suj. 464)

A leitura das respostas classificadas nessa classe permitiu-nos identificar ainda uma resposta com a afirmação de que uma das finalidades da formação cidadã é a redução da violência.

Considerando os dados do ALCESTE descritos acima, percebemos que as respostas sobre as finalidades dos projetos de Educação moral ou em Valores realizados em escolas públicas brasileiras dividiram-se, primeiramente, em dois tipos de justificativas: a Educação Moral ou em Valores ocorre na escola com o objetivo de promover uma melhora nas relações interpessoais (Classe 1) e a Educação Moral ou em Valores é parte do papel formativo da escola em busca de um resgate dos valores morais e éticos (Classe 2) e de uma formação cidadã (Classe 3).

O papel da Educação em Valores Morais associado a uma melhora nas relações interpessoais, representado em 56% do corpus das respostas, parece sinalizar, conforme aponta La Taille (CORTELA; LA TAILLE, 2009), que a preocupação dessas escolas com questões morais e éticas deriva dos problemas de comportamento e da falta de respeito dos alunos para com seus pares e para com os docentes. Houve maior número de falas destacando essa questão e menos as que demonstravam uma preocupação ética com a formação do cidadão. A Educação em Valores é pensada, assim, mais como uma forma de conter casos de violência e de indisciplina, considerados graves em meio escolar, visto que, muitos agentes escolares, segundo La Taille, não parecem perceber que há, além de uma crise de civilização, uma crise ética em relação aos valores de vida coletiva.

Por outro lado, alguns respondentes apontaram a necessidade de resgatar valores morais ou éticos que, segundo eles, estão se “perdendo” na sociedade atual, o que parece

sinalizar um saudosismo pelos tempos passados e, em decorrência, um estranhamento a respeito dos valores presentes na atualidade (SHIMIZU et. al., 2010).

Também mencionam a importância de a escola buscar uma formação integral para a humanização das relações sociais (Classe 3). Esses projetos, ao pesquisar uma reorientação de valores com o objetivo de formar o cidadão crítico, parecem indicar o reconhecimento dos respondentes de que a escola pode se constituir como um espaço de reflexão ética sobre a questão da vida que se quer viver, porque, conforme aponta La Taille (2009), é exatamente essa falta de sentido da vida que causa a violência e outros problemas de relacionamento.

Autores como Goergen (2007) e Puig (1998) têm defendido que a formação moral nas escolas não pode se limitar à socialização ou disciplinarização dos alunos e sim se centrar na formação dialógica. Segundo Goergen (2007), o contexto contemporâneo é marcado por um período de permanente transformação e desconstrução de valores e normas tradicionais, o que exige a busca por outras formas de legitimidade das normas, tarefa que compete também ao educador. Nesse contexto, como apontamos anteriormente, a tarefa da educação moral para Goergen (2007) não é transmitir valores e exigir esse ou aquele comportamento, mas sim formar o sujeito moral, crítico e reflexivo, capaz de avaliar os códigos e normas baseados numa perspectiva de liberdade e de justiça. Portanto, “a educação moral se baseia, em termos de procedimento, no diálogo e na argumentação, e, em termos de objetivos, na formação do sujeito moral crítico, autônomo e livre, cujas principais virtudes devem ser a responsabilidade e a justiça.” (ibid, 754).

4.2 Os resultados do ALCESTE para a pergunta “Quais foram as mudanças ocorridas