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4. Değerlendirme ve Sonuç

Mesmo reconhecendo que a esfera midiática está atrelada às imposições feitas pelo mercado capitalista, impulsionado pela indústria e pelo comércio, na medida em que os meios de comunicação sugerem modelos culturais, não podemos considerar que esses retiram dos sujeitos a sua capacidade crítico-reflexiva. Como vimos, tais sujeitos se anunciam como agentes produtores de sentidos culturais, capazes de resistir a determinados modelos produzidos pela indústria fonográfica. Ou seja, ainda que aderindo a certos “modismos”, eles não necessariamente integram o seu capital cultural aos contextos midiáticos pois a adesão é momentânea, já que os processos culturais funcionam numa circularidade, modificando-se constantemente. Sob este argumento, embora a mídia se utilize de um certo totalitarismo quando comanda idéias, formatando-as unidirecionalmente195, esta relação de poder possivelmente ”imposta” permite estratégias de mudanças, nas quais são evidenciadas as novas condições de constituição das identidades sociais, através de um processo no qual os diferentes grupos sociais, sob as mais diversas formas, buscam, junto à sociedade, amplos significados.

Num contexto de um mundo globalizado os sujeitos são conduzidos a responder criativamente junto às difusões culturais, adotando múltiplos posicionamentos que se constroem numa complexa rede de relações que interconectam o local à cultura global.

Observando as construções culturais desses jovens no que concerne às múltiplas ofertas mediadas pelo rádio, sobretudo as musicais, verificamos o quanto estas são diversificadas e transitam por um hibridismo cultural. Com isso nos associamos à corrente teórica latino–americana (Martin-Barbero e Canclini) quando defende a concepção de que é no processo da recepção onde ocorrem a negociação e, consequentemente, a produção de sentido dos indivíduos e o que dela( recepção) fazem uso. Nesta perspectiva, a partir do momento em que a comunicação é negociada, consequentemente o sentido passa a ser também espaço de negociação (MARTIN- BARBERO, 2001).

Sob este paradigma a recepção não pode ser pensada como um processo de

195 Nesse sentido a comunicação passa a ser utilizada como um poderoso artefato junto à opinião pública,

194 homogeneização, já que é um espaço relacional de articulações e negociações, o que resulta na constituição de um sujeito – receptor ativo, capaz de negociar e produzir sentidos de várias maneiras. É neste processo que a construção de identidades se constitui através da diferença, aqui considerada como uma fonte de diversidade, 196de heterogeneidade e de hibridismo, e não como um processo de exclusão, isso se considerarmos que essas identidades são produzidas de modo relacional.

Há que se ponderar, no entanto, que tal aspecto só é possível se reconhecermos o processo de imbricamento existente entre cultura e identidade, funcionando dentro de um sistema fluído e móvel, resultante de invenções e reinvenções.197

Como acentua Canclini (1999): “a cultura é um processo de montagem multinacional, uma articulação flexível das partes, uma colagem de traços que qualquer cidadão, de qualquer país, religião ou ideologia pode ler e utilizar” (CANCLINI, 1999, p 142).

Diante desta compreensão podemos dizer que as construções das identidades culturais desses jovens são implementadas através de interconexões que se arquitetam na diversidade por meio de fluxos culturais imersos em sua pluralidade.

Mergulhando um pouco mais no universo simbólico desses jovens na sua interação com o rádio também identificamos a sua relação com outros formatos de programas, a exemplo dos informativos. Nesse sentido, além da música, as informações veiculadas no meio radiofônico também se constituem como elemento motivador do processo de audiência de grande parte dos jovens pesquisados, que atestam escutar o rádio nas primeiras horas da manhã em busca de informações.

John, 16 anos, declara que liga o rádio “só pra acordar e ficar informado logo cedo” (JOHN, 16 anos. Dados Questionário- I , aplicado em 07 de Novembro de 2007). Esta outra atesta sua fidelidade ao veículo quando afirma ser ela própria quem liga o rádio: “sou eu quem ligo. Escuto o jornal, o programa de Dra. Lígia. Escuto das 6:00h às 11:00h” (LUCINARA, 18 anos. Dados Questionário- I , aplicado em 07 de Novembro de 2007).

A posição de autonomia que exercem ao declararem que escutam rádio por opção própria, não se coaduna com a realidade de outros grupos juvenis que estão aderindo a outras alternativas comunicacionais em decorrênciade novas possibilidades provenientes das novas tecnologias da comunicação. Nos Estados Unidos, considerados um dos principais centros da radiofonia no mundo, verifica-se uma significativa queda no processo de audição dos jovens

196 Como acentua Ribeiro (2000) esse jogo de diversidade não significa necessariamente, desigualdade.

197 O sentido empregado aqui a tais categorias implica enfrentar o desafio posto pelos desdobramentos

195 perante o rádio diante de outros meios eletrônicos mais sedutores e com programações menos unidirecionais.

Algumas pesquisas de natureza micro realizadas aqui no Brasil indicam que o rádio está entre uma das últimas opções dos jovens, pois os grupos juvenis de poder aquisitivo e formação cultural, principalmente os do meio urbano, buscam mecanismos de informação e entretenimento pela televisão, vindo em seguida a internet, ficando portanto o jornal impresso e o rádio como últimas opções 198.

Esses dados, contudo, não podem ser vistos como fatos generalizantes. Há que se relativizar levando-se em consideração os aspectos sociais tanto de ordem econômica quanto cultural que permeiam a vida desses grupos juvenis, principalmente os que residem no meio rural e é isso que aponta a nossa pesquisa.

No caso específico dos nossos pesquisados, estes integram outra realidade já que o rádio se configura como parte integrante do seu cotidiano, atuando como meio legitimador de suas construções culturais, tanto por intermédio da música como da informação. Isso porque as novas ferramentas tecnológicas ainda são pouco disponibilizadas no meio rural.

Para identificar quais os assuntos que lhes despertaram maior interesse, solicitamos que citassem pelo menos três fatos marcantes que escutaram pelo rádio. A reação não foi tão imediata quanto com a música. Muitos não souberam responder. Mas isso é justificável porque no rádio os sons se apresentam de forma clara e mais “real”. Através da alta definição de sua programação são fornecidos inúmeros dados ao receptor sem exigir do mesmo um esforço para entendimento. A maioria das mensagens está atrelada ao factual, o que contribui para uma efetiva falta de interpretação que estimule o senso crítico dos sujeitos. Assim, determinados assuntos, quando em pauta, chegam ao universo simbólico desses jovens de forma, podemos dizer naturalizada, não despertando nenhum estímulo, o que repercute numa ausência mais crítica sobre o seu repertório de conhecimentos. Aliado a isso, o rádio divide com outras atividades a atenção do ouvinte e isso minimiza a apreensão dos conteúdos.

Dentro de suas subjetividades os filtros que criaram junto aos fatos se compuseram de forma bastante diversificada, através dos elementos aqui descritos na ordem de preferências: os temas catastróficos; assuntos relacionados à política; questões sociais

198 Ver KISCHINHEVSKY, Marcelo. Anais XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da

196 (educação, saúde) e por fim, divulgação de eventos culturais que aqui denominamos de realização de desejos.

O processo psicológico que envolve os programas radiofônicos, em geral, recorre ao apelo imediato através de várias formas: sentimentalismo, agressividade, fetichismo, sensacionalismo, grotesco, e outros. Sob essa lógica, o setor da informação faz triunfar no imaginário dos indivíduos temas sensacionalistas quando aborda fatos que transitam por toda a esfera do cotidiano, indo desde o mais elementar até o mais profundo. Informações romanescas, sensacionalistas e vedetizadas são aspectos que fornecem uma matéria real, mas que afeta o imaginário, fazendo o indivíduo projetar-se naquele mundo, identificando-se com as mais variadas situações, através dos modelos culturais por ela sugeridos. Nesse aspecto, as formas como esses indivíduos deram sentidos às informações variaram através de um conjunto de símbolos a que estão vinculados. Dessa forma, eles se aproximam de conteúdos que representam a realidade do seu cotidiano.

Para os rapazes que se inserem na categoria de militantes o tema mais apontado foi o relacionado à política; Roberto, 25 anos, por exemplo, citou os escândalos mais recentes dentro do cenário político tanto local como nacional como: o caso Cunha Lima; o desvio de verbas do administrador de Catolé de Boa Vista e ainda o escândalo denominado de Sangue Suga, no qual se envolveu o então senador Ney Suassuna.

Para Artur, 16 anos, a sua atenção se direcionou para aspectos que envolvem mais diretamente o MST. Ele apontou a reforma agrária; ocupações do Movimento e também a notícia da adulteração do leite (ARTUR, 16 anos. Dados Questionário –I , aplicado em 07 de Novembro de 2007).

Jomar, 18 anos, percorre a mesma racionalidade na medida em que assinala igualmente a questão de reforma agrária, a cassação do governo Cássio e por fim a investigação sobre o Pronaf ( Dados Questionário-I, aplicado em 07 Novembro de 2007).

Maria Vitória, 14 anos, também se pronuncia:

“Escuto, bem cedo, rádio FM. Escuto rádio mais pela informação, porque logo cedo as informações passam mais” (Dados Questionário-I, aplicado em 11 de Novembro de 2008).

De acordo com Maria Vitória, os fatos que mais chamam sua atenção são os direcionados à questões políticas. No caso específico destes jovens que se inserem como militantes efetivos, as questões de ordem política são latentes o que demonstra que suas construções identitárias, dentro deste campo, estão bastante arraigadas a um fazer político, independentemente de este tratar ou não de MST.

197 Outros, no entanto, apresentaram os fatos inseridos dentro de uma racionalidade integrativa, a exemplo do futebol. Jean, 26 anos, destacou como tema mais importante o fato de seu time ter saído da zona de rebaixamento (Dados Questionário-I, aplicado em 11 de Novembro de 2007).

As moças, no âmbito geral, direcionaram seu foco de observação para temas relacionados à saúde e educação.Regina, 14 anos, cita a campanha de vacinação contra a hepatite. Já Amélia, 16 anos menciona a greve dos professores; Ana, 18 anos, faz referência ao cadastro do bolsa-família. (Dados Questionário-I , aplicado em 12 de Novembro de 2007).

Já as casadas, apontam interesses pelos assuntos ligados aos aspectos locais e estruturais do seu cotidiano. Fátima, 26 anos destaca as dificuldades existentes na zona rural e como temas importantes relacionados cita: abastecimento de água pelo exército; encanação de água para o Monte Alegre e por fim o recadastramento do bolsa- família.

0 1 2 3 4 5 6 POLÍTICAS N. LEMBRA ACIDENTES FUTEBOL CAMPANHA DE VACNAÇÃO CASSAÇÃO DE CÁSSIO REFORMA AGRÁRIA VIOLENCIA VACINA DE ANIMAIS ROUBO DE CABOS DE ENERGIA A VNDA DOS ROLLINGSTONES PARADA GAY DESTQUES DE MODA FESTAS OCUPAÇÃO DO MST ADUTERAÇÃO DOLEITE INVESTIGAÇÃO SOBRE O PRONAF CASO SANGUE SUGA MORTE DE AYRTON SENNA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO GREVE DOS PROFESSORES SAÚDE EDUCAÇÃO ENCANAÇÃO PRA O MONTE ALEGRE ABASTECIMENTO DE ÁGUA REDASTRAMENTO BOLSA FAMILIA

rapazes moças

Quadro X– Temas de interesse dos jovens

Diante dos temas apresentados, percebemos que os mecanismos de retenção das informações que a eles são destinadas, são construídos através das suas práticas cotidianas e

198 de suas necessidades individuais. E aqui evocamos Morin (2000), quando atenta para o fato de que há uma relativa elasticidade entre os efeitos ditos narcotizantes da”indústria cultural”, pontuando que apesar da lei fundamental que a rege ser a do mercado de consumo, mesmo nos sistemas mais estatizados, nada é obrigatório. Ou seja, o indivíduo pode ou não optar por ouvir rádio, ir ao cinema, ler jornais.

Como acentua Dubet (1996), os atores e as instituições não são mais redutíveis a uma lógica única, a um papel e a uma programação cultural de condutas, tal como a socialização na sociedade industrial era pensada. Nesse novo contexto ocorre uma heterogeneidade de princípios culturais e sociais que organizam as condutas, possibilitando aos atores a adoção simultânea de vários pontos de vista.

As produções de sentidos aqui apresentadas, sejam de ordem política, de questões estruturais, ou da ordem de atendimento de suas necessidades, inserem-se numa posição negociada, podendo igualmente ser reconhecida como forma de resistência diante de determinados fatos. Essa negociação representa, por sua vez, um modo particular de intervenção na sociedade global, a partir do seu local de pertencimento.

Podemos então considerar que a recepção é um fato social, mas também é uma medida comum localizada entre reações particulares de cada sujeito que reage individualmente a cada emissão, selecionando aquilo que lhe interessa, em razão da sua liberdade de ação no contexto comunicativo.

Os sujeitos desta pesquisa demonstraram essa característica na medida em que apontaram sua capacidade de apropriar-se ou não de determinados produtos midiáticos,199 reconstruindo-os dentro de um universo simbólico que tanto pode ser particular quanto universal.

Há um outro aspecto que deve ser ressaltado: o que de fato eles fazem com as mensagens recebidas? De que forma estas interferem na composição de seus hábitos e atitudes? Estabelecendo uma conexão entre os ciclos de conversas apontados anteriormente por esses sujeitos, dentro de seus espaços de sociabilidade, seja com outros jovens ou mesmo nos espaços de reuniões familiares, observamos que a maioria dos fatos difundidos pela mídia, e que eles indicaram como os que mais chamaram a atenção, não necessariamente integram o universo narrativo desses sujeitos. Embora os fatos sensacionalistas, vedetizados, sejam temas por eles apontados, os jovens não perdem a noção do real. Isso significa dizer que embora estejam conectados ao mundo midiático, muito do que ali advém é descartado em

199 decorrência de um certo distanciamento que criam entre o campo da oferta e o modo de apropriação. Dessa forma, podemos considerar que embora a mídia radiofônica e televisiva seja parte constitutiva da vida daqueles sujeitos, não necessariamente esses meios se consagram como elementos eminentemente reguladores da vida social desses, no que tange às suas produções de sentidos, já que outras fontes discursivas integram suas construções culturais, a exemplo dos assuntos que estão mais direcionados ao seu cotidiano ou mesmo das formas de sociabilidades que se exercem no interior do assentamento, seja no ambiente familiar ou pelas ações empreendidas em prol do Movimento.

Esta reflexão nos remete a uma outra inquietação: levando-se em consideração as formas como negociam as mediações culturais, que tipo de credibilidade eles imputam a mídia (Rádio e televisão)? Em que medida acreditam nas informações por ela veiculadas?

As respostas dos nossos interlocutores indicam uma total falta de confiabilidade. O grupo pesquisado, na sua maioria afirma não acreditar em tudo relacionado à mídia.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

sim não parcialmente

rapazes moças

GráficoXVI - Credibilidade perante a mídia

Antonio, 23 anos, justifica sua posição alegando que “acredita em algumas coisas, porque a mídia como sempre distorce os fatos” (Dados Questionário-I, aplicado em 07 de Novembro de 2007).

Joaquim, 17 anos, segue essa mesma linha de raciocínio: “acho que tem muita mentira”. (Dados Questionário-I, aplicado em 11 de Novembro de 2007).