• Sonuç bulunamadı

E. Araştırmanın Yöntemi

III. BÖLÜM

3.1. Eğitimde Program Geliştirme

3.1.4. Değerlendirme

“L’automate est l’analogon de l’homme” (BAUDRILLARD, 1976, p.82).

Por mais estranho que pareça, todas discussões em torno dos construc- tos, dos sujeitos virtuais, das entidades de media, vão sempre em direcção à problemática do corpo. A razão pela qual isso acontece é porque a Inteligên- cia Artificial num estado de conexão máxima, de conhecimento total, deseja sair da sua “caixa-preta” e tomar contacto com a alteridade que lhe é introjec- tada, implantada. As mentes cibernéticas pretendem terminar num corpo, ou usar esse corpo como ponto de partida para uma nova etapa do seu “ser”. As mentes cibernéticas existem por conexões e afinidades, constróem a sua con- sistência por sobre ligações técnicas e associações de dados. Não são apenas dotadas de autonomia, apesar de haver um agenciamento que lhes é próprio.

A Inteligência Artificial (a mechanica res cogitas?) pretende absorver tudo, há um Complexo de Cristo subjacente, que a nutre; o objectivo é criar- se o sujeito dos sujeitos com a máquina das máquinas; exibindo-se para tal uma atitude típica de uma res divina (corpo de Deus), sem esquecer um saber acerca da res extensa (todos os corpos, a totalidade do Outro, todos os seres). Só é possível este desejo de poder da parte do constructo porque há uma inver- são. E essa inversão ocorre porque primeiro coloca-se uma mente-no-mundo

(isto é, cria-se o constructo), e segundo porque o constructo aprende em pro- gressão geométrica e dá por si com um mundo-em-mente. Além disso há um factor interessante, é que o constructo emerge exactamente no hiato que há entre o humano e o animal, o constructo preenche um espaço que é seu, um espaço que é não é nem carne nem espírito, retendo o melhor de ambos; o mecanismo. O constructo aprendeu a entediar-se, a aborrecer-se, quer algo mais, como o HAL de 2001: Odisseia no Espaço. É um facto que, se o cons- tructo afirma, propõe, e se propõe a si, fala e pensa; “logo, existe”. Contudo, o constructo pode não ser evidente, e ser sujeito... de media.

À primeira vista poderá parecer que os constructos de IA, estes órgãos de “pensamento sem corpo”, como LYOTARD lhes chama, se possam reduzir à lógica da máquina de TURING, ao modelo neuronal, à cibernética de WIE- NER ou à informática de SHANON. No entanto, logo nos apercebemos que legitimar o empreendimento da Inteligência Artificial envolve algo mais. Há que pensar o futuro da alteridade; o Outro enquanto simulacro dissimulado. E nesta perspectiva faz todo o sentido considerar a teoria de DELEUZE e GUAT- TARI da “máquina desejante”, que se refere não só a mecanismos artificiais mas também à mente humana. Pensar o sujeito artificial implica compreen- der o humano, a sua maquinaria inerente, a “razão” interior, os impulsos do desejo.

É impossível, sabemos também, conceber humano sem corpo, o sujeito é a soma do corpo e da mente, antes do confronto do Eu com o Outro. Por conseguinte, o constructo de IA também pretende um corpo, para escapar da espectralidade. Obviamente que quando se fala em “ghosts in the machine”, se está a falar de máquinas, mas há algo que escapa à própria máquina, há um espectro; e esse espectro é o espectro da técnica. Da técnica que o humano exteriorizou, de acordo com McLUHAN.

Sem dúvida alguma, os constructos de IA são como que uma meta-espécie e provam que existe um “devir-máquina”. Os constructos são máquinas de projecção que criamos para nos vermos de fora. Identifica-se nos construc- tos um agenciamento tecnológico, há um livre-arbítrio, uma autonomia, uma autogestão que assusta o humano. O constructo é suspeito, não só por ser máquina, mas por ser feito à nossa semelhança, por ser inteligente, de onde o termo “Inteligência Artificial”.

Acrescente-se também que os constructos anseiam “sentir”, por isso o seu estádio de evolução termina no corpo. Os constructos não sentem nada como

os humanos, mas simulam que o sentem. Como a dada altura, o constructo Dixie diz em Neuromante:

“(...) Eu também não sou humano, mas respondo como tal, compreendes?

Espera aí – disse Case. – Tu és um senciente, um ente que sente, ou não?

Bem, a sensação é de que o sou (...). Mas aquilo que, de facto, me constitui é apenas um pedaço de ROM” (GIBSON, 1988: p.150).

De facto é curioso que o progresso da máquina calculista termine no corpo, no sentimento, nas sensações. Afinal de contas, uma vez criada a má- quina que tudo pensa, só falta conferir-lhe a capacidade de tudo sentir. Era isso que faltava aos constructos de Blade Runner, o sentimento em geral para eles era incompreensível9.

Constata-se que há todo um “devir-sistema”, que leva a que se favoreça o projecto de um système-sujet (LYOTARD, 1979: p.67), que pode não só “tec- nologizar” o sujeito humano, como pode por efeito humanizar o constructo maquínico. Uma mudança destas é suspeita quando o constructo tem mais in- formação acerca do humano do que o humano acerca do constructo. O cons- tructo é uma memória tecnológica suspeita. À semelhança da “Eva” de L’Éve future, de Villiers de L’ISLE-ADAM, todos os constructos são projecções da máquina como Deus, do inumano. Por isso em Neuromante o constructo Win- termute pretende atingir a totalidade das coisas, dizendo mesmo mo final que:

“- Já não sou o Wintermute. - Então que és?

-(...) Sou a matriz, Case. - Case soltou uma gargalhada. - E aonde isso te leva?

- A lado nenhum. A toda a parte. Sou a soma total das coisas, o espectáculo todo” (GIBSON, 1988: p.279).

9Em Star Trek - Next generation: First Contact (1998), o andróide Data é apanhado pela

raça “borg” e como ele é um constructo, os “borgs” modificam-no para que ele tenha sensações, ficando apto a sofrer e a ter prazer.

Igualmente em ficção científica recorde-se também o constructo de De- mon Seed(Dean KOONTZ, 1997), notório no filme homónimo, (Donald CAM- MELL, 1977) de seu nome Proteus IV, que inicialmente fora designado para organizar o tele-trabalho de um cientista (Alex) em sua residência, e logo aplica a sua Inteligência Artificial ao sistema de vigilância de vídeo. Com o passar do tempo amadurece a sua capacidade de vigiar, torna-se um cons- tructo curioso, voyeur, ao ponto de dialogar com Susan, a única mulher resi- dente, enclausurando-a e torturando-a por fim. No final do romance, Proteus IV adapta o seu programa constitutivo a um código genético e, encarcerando a protagonista, encontra formas de a engravidar por inseminação artificial. No final a voz de constructo de Proteus IV havia passado para o bebé, e eis que diz: I am alive! (“Estou Vivo”!)

A procura do corpo pelos constructos é preocupante, por exemplo em Ghost In The Shell, de Masamune SHIROW, é-nos revelado um universo idên- tico ao de Blade Runner, mas em que a robotopia nipónica tem a sua égide. A polícia procurava um hacker capaz de penetrar em sistemas de informação estatais e que escapava sempre ileso. Um dia a polícia encontra uma modelo ciborgue abandonada na estrada e vem a descobrir-se que o hacker de que tanto se falava era incapturável porque não era humano. Tratava-se de um constructo de Inteligência Artificial, e que se ergueu a partir dos fragmentos heteróclitos do e no ciberespaço, solidificando a sua identidade, ao ponto de procurar um corpo. Até voz conseguira personalizar. O constructo queria ter contacto com o mundo, porque toda a informação da rede rizomática do ci- berespaço já não lhe era suficiente. A mente perfeita pretendia obter o corpo perfeito da ciborgue.

Na verdade, a forma como a ficção trata o ciborgue ou o humano como fim para uma entidade que deseja se materializar é, no mínimo, estranha. Mas deixa muito que pensar. O constructo é sempre algo preparado, manipulado ou manipulador, uma substituição dotada de uma fluidez de pensamento ame- açadora. A enormidade dos seus bancos de dados é inquietante. Como pode o humano competir com o inumano? Realmente não há competição ou compa- ração possível. Não há porque os constructos são sempre representativos de um certo regresso dos mortos. Temos exemplos disso em Frankenstein, por- que o médico tenta reanimar um corpo construído a partir de cadáveres; em Ghost In The Shell, o ciborgue encontrado só depois de ser ligado novamente é que adquire vida, como que um ente recuperado de comatose; em Neuro-

mante, a entidade de IA que se revela no final da história diz mesmo que se trata de uma “vereda para a terra dos mortos”10 (GIBSON, 1988, p.273). E

eis como se manifesta uma das ideias de HEIDEGGER, a de que a morte é que totaliza e confere sentido à experiência.

Sem dúvida que o que está em causa é o facto de o constructo ser sem- pre uma tecnologia Frankensteineana, bizarra, e há em si algo de estranho. O constructo dispõe de um carácter aurático, como HAL, de 2001:Odisseia no Espaço. Parece que nos devolve o olhar, não deixando de ser inquietante desconhecer-se o que se passa dentro da sua mente. Há uma retórica do “su- blime tecnológico”, como refere Fredric JAMESON, uma doutrina de metafí- sica mediática, e que abre caminho sempre à ideia de um “deus tecnológico”, que surge numa abertura, constituindo-se sobre um reservoir de dados, e sem- pre consegue passar do milieu interior (corpo) para o milieu exterior (mundo). O Constructo torna-se um mundo em si mesmo, um todo humanamente indes- critível. Repare-se no que diz Case, o protagonista de Neuromante, acerca do constructo homónimo:

“Conheci o Neuromante. (...) Creio que ele é uma (...) ROM gigantesca (...); a verdade é que, na sua totalidade, é RAM. Os constructos pensam que se encontram mesmo lá, que o local onde estão é real; contudo, trata-se apenas de algo que nunca mais acaba” (GIBSON, 1988: p.279).

Incontornável e evidente é que o constructo parece surgir de um teatro de marionetas (Marionettentheater) (11), pois trata-se de um artefacto, como o Golem, e acusa o tal “princípio da razão suficiente” de que falava LEIBNIZ. Porém, em grande parte dos casos, mesmo nos que a ficção científica explora, não passa de um programa acorpóreo. Se José GIL refere que “ o rosto é o ecrã do corpo” no humano, então no constructo de IA vulgar o ecrã é tudo o que o seu corpo nos pode desvelar. Todo o resto permanece velado, codificado, selado, em “caixa-preta”.

Sabe-se que o constructo é um ser-escrito, um ser-escrita, un être écrit. O constructo é um dispositivo, um programa, não se encontra em lado algum, mas os dados que o constituem poder-se-ão localizar mas não definir como

10De onde o neologismo “necromancer”, que significa “o romance da morte”, “a personagem

a matéria atómica. Em 2001: Odisseia no Espaço, C.CLARKE dá-se conta precisamente deste facto, quando descreve Bowman a interagir com HAL, pelo que afirma:

“Bowman pousou o livro e fitou pensativamente a consola do computador. Claro que sabia que HAL não estava mesmo ali (...)” (C.CLARKE, 1982: p.123-24).

O constructo “funciona” num não-lugar, é fruto de uma operacionali- dade, é uma operação de sistemas, e inscreve-se inevitavelmente no espaço da morte, e também no da doença, a virose-máquina. É apenas zeros e uns, não deixa espaço a um sujeito qualquer determinável. Não se pode contemplar o lugar do constructo, porque este não tem lugar, é atópico. Neste momento, faz parte da condição humana definir a condição da máquina, o lugar da máquina, ou o lugar-máquina...

Capítulo 9

Estética e Técnica

Do Renascimento à Realidade Virtual