C. Actio Iniuriarum Aestimatoria
4. Davada Taraflar
A primeira entrevista foi feita no dia 16 de abril de 2007, após reunião que tive com as educadoras em que solicitei sua colaboração para a escolha dos jovens que seriam entrevistados. Como mencionado anteriormente, após o processo de escolha, o grupo foi constituído por seis jovens: três meninas e três meninos, sendo cinco do projeto Agente Jovem, representando as turmas B e C e um jovem do projeto Jovens Urbanos. Não houve representante da turma A.
Após encontrar com quem participaria da entrevista, fomos para o Barracão onde seria mais tranqüila a nossa conversa. A sala estava com ‘ares de abandono’, pois não é mais utilizada para atividades da comunidade, abri as janelas, arrumei a mesa e dispus as cadeiras para que todos pudessem ficar próximos.
Após todos sentarem, falei novamente do objetivo do meu trabalho e agradeci a colaboração do grupo. Pedi para que se apresentassem para que eu reconhecesse a voz deles na gravação, facilitando o processo de transcrição.
Os jovens começaram a fazer uma breve apresentação. Todos falaram seus nomes, idade, escola e série que estudam, o projeto que participam e, curiosamente, terminaram a apresentação falando ‘e gosto de fazer o projeto’, ou algo com o mesmo sentido.
Em seguida, trataram da relação que têm uns com os outros, onde se conheceram, se são próximos (amigos ou colegas) e como se deu a aproximação.
De maneira geral, eles tinham uma relação entre si de colegas, muito mais do que ‘amigos de verdade’, se conheceram por serem vizinhos, e por alguns estudarem na mesma escola. Parece que foi o convívio cotidiano nas atividades do projeto que os aproximou e, como mencionaram, ‘puderam se conhecer de verdade’.
Como opção de lazer os jovens citaram alguns salões para dançar (danceteria), escolas de samba, mas afirmaram ‘não serem de balada’, apenas uma das jovens (Ana) já saiu, mas eles afirmam que não saem, pois os pais são muito rígidos com o horário e aí, ‘não vale a pena’. Então, nos finais de semana, eles vão para uma praça que existe na comunidade; em festas da escola; os meninos jogam futebol e, no caso de Raquel e Sônia, namoram.
Todos relatam que faz parte do cotidiano, inclusive dos finais de semana, arrumar a casa, cuidar dos irmãos e que essa rotina, somada com a da escola, é muito cansativa.
Sobre a escola, Raquel é a única que estuda à noite, os outros no período da manhã, de forma geral comentam que não gostam da escola em que estudam, mas que ela é melhor do que outra da região. Vinícios relata que não gosta da escola porque no seu primeiro dia de aula um garoto foi esfaqueado e ele ficou com medo. Os outros não relataram os motivos de não gostarem da escola, pedi para que me contassem sobre suas trajetórias nos projetos – Agente Jovem e Jovens Urbanos.
Os jovens tomaram conhecimento dos projetos por anúncio em carro de som. Um dos jovens relata que essa é uma forma de divulgar algumas reuniões na comunidade: o líder comunitário anuncia a reunião e os moradores se reúnem na quadra para discutir o assunto em pauta. Citam um exemplo da Eletropaulo que, segundo uma das jovens (Sônia) não estão nem
aí prá gente, pois pensam morem no barro, continuem no barro, morram no barro. Ana discorda e diz que eu moro no barro, mas vou subir. Pergunto se
não há reivindicações para mudanças e eles respondem que os moradores fazem, mas como não adianta, então eles desanimam.
Retomam o assunto de como ingressaram nos projetos e os jovens relatam que além do anuncio, também receberam visitas das educadoras convidando-os para que participassem dos projetos.
Foram incentivados a fazer inscrição ou por vizinhos, amigos ou irmãos que já participavam dos projetos e davam boas referências. A bolsa oferecida também foi mencionada como motivação.
Na época da inscrição, eles não puderam participar do Jovens Urbanos por serem muito novos e lamentam o projeto não ter uma nova edição agora que eles poderiam participar. Explicam que os projetos são muito semelhantes, mas que o Jovens Urbanos dava mais oportunidades e citam os cursos, passeios, viagens e a própria bolsa como exemplos.
Os jovens passam a discorrer sobre o cotidiano dos projetos, o que realizam nos Dias de Atividade em sala, no Dia do Esporte e Ação Comunitária. Sobre as atividades realizadas em sala, comentam sobre os filmes a que assistem e dos textos chatos que têm que debater. Os meninos falam que gostam de ir para a quadra jogar, mas as meninas acham que nesse dia elas ficam à toa, que não têm nada para fazer, pois não gostam de jogar e, também, a quadra sempre está ocupada pelos meninos.
O Dia de Ação Comunitária rendeu comentários por um bom tempo... De acordo com o que relataram, não concordam e não gostam desse dia porque é um dia em que eles são obrigados a limpar a sala. Disseram não aceitar, pois eles já são responsáveis pela faxina em suas casas e não acham que devam fazer a mesma coisa nos projetos; argumentam que muitos jovens não colaboram, fogem da atividade e, por isso, ela acaba
sobrando só para alguns, incluindo-os.
dois participantes que afirmaram não ter o Dia da Ação Comunitária ou, como preferem chamar, o Dia da Limpeza. Esses dois jovens relataram que não precisam fazer a limpeza, pois o dia designado para tal atividade é o mesmo que o da outra turma (do período da manhã), por isso, quando chegam ao local, ele já está arrumado e não há a necessidade de fazer alguma coisa. Todos ficam indignados e não concordam com essa situação, inclusive os que ‘não fazem nada’.
Comentam a seguir sobre as educadoras, elogiam as que, segundo eles, conseguem as coisas para eles, ou que são mais competentes. Indagados sobre essa competência, afirmaram que significa, dar mais
atenção aos jovens, se preocupar com as coisas do projeto. Sobre o que
seria atenção, responderam dar limite pro jovem, te ajudar, não é aquele tipo:
você que tem que fazer, a idéia tem que sair de você, não, tem que dar assistência. Ou ainda, deixa você falar, desabafar, dar sua opinião (...) Os
exemplos de situações vivenciadas por eles nesse sentido, centraram-se em ocasiões em que não só a educadora falou, mas criou espaço para que os jovens dessem suas opiniões.
(...) vamos ver o que eles pensam do jeito que eles querem [perguntar opinião aos moradores sobre uma interferência do projeto], e deixava eles falar e não só ela falar.
Ela respeita a opinião, ela dá opinião dela também.
Para eles, dar opinião, poder expor suas idéias, é muito importante e, algumas vezes, consideram que isso não é possível, porque a educadora é
durona (...) é muito estressada e, por isso, gera medo.
Então, esse é o medo dele, porque ela chega na sala, e erra, às vezes ela erra, mas todo mundo erra, ninguém é certinho, aí o povo fala “não vou falar nada, porque é ela que manda então vamos ficar quietos, né?” Aí eu começo a falar, ele já fala “fica quieta, ela vai ferrar a gente!”, “fica quieta, pára de reclamar...”.
Eles têm medo de serem punidos em razão de alguma opinião que dêem e que seja contra a opinião de alguém da equipe. Receiam que a bolsa que recebem seja cancelada.
(...) vocês vão fazer assim, agora: só pode faltar três dias, se faltar um dia nós pegamos e damos a bolsa para outra pessoa, não para aquele”. Aí eu fiquei escutando isso! Então ela quer ferrar uma pessoa.
Explicam também que muitas vezes a equipe os deixa confusos, que estão debatendo um assunto e que de repente isso muda sem explicação. Explicam os combinados de cada turma, sobre os atrasos, freqüência... e, muitas vezes, perdem a linha. Assim como o Dia da Ação Comunitária, descobrem que cada turma funciona de um jeito.
Aí ela fala da escola que ela dá aula, (...), ela fala de outros problemas que não têm nada a ver [risos] Aí ela começa “ah, eu tenho que atender o telefone ali agora” aí daqui a pouco ela fala “ah, tenho que buscar o lanche” [risos]
Ela começa a gritar, a falar alto, cada vez mais alto, “ah, não sei o que, não sei o que” cada vez mais alto, cada vez mais alto (...)
“o pessoal que já fez”, quando ela vê que tá quase na hora, o pessoal já pensa que pode ir embora, “até a hora que não fizer não pode ir embora não”, quem disse? Você vê dois, três, saindo, enrola e vai embora.
Depois de discorrer sobre as atividades dos projetos, as diferenças entre uma turma e outra, conversamos sobre participação e autoridade... Após as primeiras leituras foi possível identificar muitos aspectos que envolvem essas experiências para os jovens entrevistados. Selecionei trechos que me possibilitassem compreender o fenômeno em estudo e que fossem mais significativos.
Finalizamos suas reflexões avaliando os projetos e sugerindo mudanças que, em suas opiniões, melhorariam as atividades e, conseqüentemente, o envolvimento e a participação deles nos mesmos. Resumidamente esses comentários centraram-se na importância de serem ouvidos e terem suas opiniões respeitadas pelos adultos, tanto nas experiências familiares quanto nas educativas – nos projetos e na escola.
Agradeço a colaboração de todos, saímos juntos, três jovens ficaram comigo, fechamos a sala e vamos para o Centro Comunitário. Dois me acompanham e, no caminho, vamos conversando: eles me mostram onde brincam, onde moram, falam de como era antigamente e fazem muita, muita graça... Foi nesse clima descontraído que nos despedimos... Até o próximo encontro!