A fim de prosseguirmos com as abordagens comparativas envolvendo o jornal laico e o jornal protestante se faz necessário a história editorial do periódico selecionado para nossas análises – o jornal presbiteriano Imprensa Evangélica – representando o conjunto de jornais evangélicos em circulação na segunda metade do Século XIX. Conforme dito, a primeira folha protestante editada no Brasil surgiu dos ideais de imprensa do jovem missionário norte-americano Ashbel Green Simonton. Com uma tiragem de 450 exemplares e uma periodicidade que se pretendia semanal, o primeiro número do Imprensa Evangélica, datado de 05 de novembro de 1864, foi publicado pela Typographia Universal Laemmert, a segunda mais importante da Corte, de propriedade dos irmãos protestantes Eduard e Heinrich Laemmert.
Temendo a oposição católica e as possíveis represálias, os Laemmert limitaram-se a publicar a primeira edição do jornal evangélico. A edição do IE datada de 02 de janeiro de
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1879 faz menção aos 15 anos de circulação do jornal e apresenta na capa uma retrospectiva sobre sua história na qual se lê:
Foi difficillimo no principio achar impressor para a folha. A respeitavel firma que imprimiu o primeiro numero, negou-se a receber os originaes para o segundo, allegando receios que seria apedrejada a casa, si constasse que tivesse parte na publicação de um jornal protestante. (p. 01)
Assim, coube à Typographia Perseverança a função de imprimir as novas edições que, por questões financeiras, passaram a ter uma tiragem quinzenal. Localizada na Corte, a Perseverança foi fundada em 1863 por Antonio Maria Coelho da Rocha e administrada por Antônio Joaquim Pereira dos Santos, havendo mudanças de proprietários e sócios ao
longo dos anos. Em 1884, teve como um dos seus sócios Antônio dos Santos Cardoso –
um dos proprietários do Correio Mercantil (1866 – 1867) e um dos redatores do Almanak Laemmert. Questiona-se o motivo de uma pequena tipografia assumir a impressão de uma folha evangélica de pequena tiragem quinzenal, que não apresentava um bom lucro financeiro e ainda atraía, inclusive, a oposição católica podendo acarretar em ataques pessoais e danos patrimoniais oriundos dos não simpatizantes do Protestantismo. Uma explicação possível deve-se à ligação desta tipografia à maçonaria, considerando que as lojas maçônicas também imprimiam suas obras nas tipografias Leuzinger, Perseverança e F. Alves de Souza (SANTOS, 2009).
O surgimento do jornal não passou despercebido pela imprensa laica. Como uma
prática comum à imprensa oitocentista, alguns jornais contemporâneos noticiaram o fato e parabenizaram a iniciativa de criação do periódico. No dia seguinte à distribuição do primeiro número, 06 de novembro de 1864, o Correio Mercantil noticia em primeira página na seção “Notícias diversas”: “Publicou-se o 1º número da Imprensa Evangelica. Dedica-se o nosso campeão a explicar e disseminar os preceitos e doutrinas do Evangelho; que considera única fonte quer da moral quer da religião.” (Cf. Figura 35 a seguir)
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Figura 35 – Anúncio da publicação do primeiro número do jornal Imprensa Evangélica por
meio do Correio Mercantil (1864)
Fonte: <memoria.bn.br/docReader/Docreader.aspx?bib=217280>
O Diario do Rio de Janeiro, também de 05 de novembro de 1864, apresenta e elogia o Imprensa Evangelica na primeira página em seção intitulada “Noticiario”:
[...] Com este título começa a publicar-se hoje uma uma revista hebdomadária consagrada, segundo diz a redacção no fim do seu programma – á liberdade de consciência perante o Evangelho. [...] partidários da liberdade de consciência, folgamos com a apparição de mais um lutador no campo da moral. É da discussão elevada, esclarecida e tolerante, que nascem as convicções firmes. O primeiro numero da Imprensa Evangelica, que temos á vista, é escrito com dignidade, com moderação próprias de verdadeiros christãos, de homens que respeitam as crenças alheias, para fazer respeitar as proprias.
Os jornais católicos, por ora envoltos em seções polemistas contra o protestantismo, também noticiaram o fato do estabelecimento de uma folha evangélica na capital do Império. O Cruzeiro do Brasil em circulação no Rio de Janeiro, por exemplo, datado de 06 de novembro de 1864 (p. 04), reproduz em suas páginas o anúncio do surgimento do periódico protestante (Cf. Figura 36) que fora um dia antes veiculado no Correio Mercantil e faz uma advertência aos seus leitores:
Não sabemos que folha é esta, por não a termos ainda lido, mas, pelo que diz o Mercantil, parece ser um novo órgão do protestantismo. É boa lição dada ainda aquelles que acreditão ser o protestantismo um sonho de imaginação ainda escaldada. Ao Sr. vigário capitular compete syndicar do facto, e como chefe do
133 bispado dar providencias. Pela nossa parte faremos como até então, o nosso dever, profligando toda e qualquer doutrina condemnada e reprovada pela Igreja Catholica Apostolica Romana, unica verdadeira.
Figura 36 – Página do jornal católico Cruzeiro do Brasil constando o informe do surgimento do Imprensa Evangélica
Fonte: < memória.bn.br/DOCREADER/DOCREADER.ASPX?BIB=235261>.
A publicação da folha protestante, e dos possíveis males que sua leitura poderia causar, continuou sendo destaque na primeira página do Cruzeiro do Brazil (13/11/1964) onde se encontra:
Não era um sonho de uma imaginação escaldada, nem tão pouco infundado receio quando escreviamos que o protestantismo estava contaminando a capital do Império levando a discórdia e o desespero ao centro das famílias.
Ahi esta essa alluvião de folhetos espalhados pela população, innoculados de veneno o mais corruptor, das máximas as mais perigosas e destruidoras dos preceitos da igreja.
Ahi estão essas reuniões de domingos, onde a Biblia é truncada, despedaçada, interpretada à vontade de cada um; onde o Papa é chamado de ante-christo, os sacerdotes harpias da humanidade, e os sacramentos invenções de padres. E agora, não contentes com isto, os protestantes lançam mão de um outro meio mais poderoso para espalhar o crime; a imprensa veio em seu auxílio, e uma folha denominada Imprensa Evangelica, órgão puramente dissidente, se publica aos sabbados na capital do imperio.
134 Parece incrivel que isso se dê em uma nação catholica, aos olhos de uma nação que prima pelo seu sentimento religioso.
Da Imprensa Evangelica não se teria publicado se quer um numero se as leis do nosso paiz fossem mais bem cumpridas, se o espírito da nossa constituição fosse melhor interpretado.
[...]
Não é que tenhamos medo que a Imprensa Evangelica convença pela verdade grande numero de nossos compatriotas, é sim porque tememos o que pode a ousadia desses homens, que anarchisarão com quejandas ideas a França, a Allemanha e ultimamente Portugal e Italia.
[...]
E‟ de mister que alguém erga voz contra as doutrinas pregadas pela Imprensa Evangelica, vozes autorisadas venhao esclarecer o povo e lhes mostrar o perigo dessas leituras; é isso o que nos ordena o Apostolo. Talvez que amanha o remédio já seja tarde, e que o mal não tenha mais cura. (Grifos do Autor)
No Cruzeiro do Brazil de 08 de janeiro de1865, desta vez alguns meses após o lançamento do Imprensa, encontra-se, em seção intitulada “Interior”, uma carta endereçada pelo correspondente da folha católica em São João d‟El Rei, interior de Minas Gerais, no qual informa à redação:
A propaganda turbulenta Kelly de Nietheroy73 [Sic] tem repercutido até cá por
estas paragens; pois várias pessoas de letras aqui da cidade tem recebido, já por 2 ou 3 correios, não poucos exemplares do papelucho condemnado que se intitula Imprensa Evangelica, incubado provavelmente sob as inspirações dissidentes do mesmo pseudo-pregador ou especulador das variações Bossueticas. Porém os nossos bons catholicos tem recambiado, pelas mesmas vias, esses boletins tribunicios da desunião. (p. 03)
A partir das impressões do correspondente apresentadas no trecho acima, é possível verificar que o jornal evangélico já estava ampliando sua circulação chegando ao
interior de Minas Gerais. Outro dado relevante – e não menos preocupante para o editor
católico – é que o fato do Imprensa Evangelica ter sido recepcionado e lido por “pessoas de letras”, o que nos oferece uma pista sobre os possíveis leitores da folha em análise, cujo assunto abordaremos em capítulo posterior.
73 Possivelmente o correspondente fez menção aqui ao reverendo congregacional Robert Kalley que, na época,
estava estabelecendo o protestantismo também em Niterói (RJ). Mesmo não tendo relação com a folha evangélica, a imagem de Kalley era associada diretamente pelos católicos à propagação das doutrinas protestantes.
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A historiadora Edwiges Rosa dos Santos (2009) propõe o estudo do Imprensa dividindo-o em quatro fases editoriais, a partir da gestão dos reverendos presbiterianos que administraram a folha, acumulando funções pastorais e jornalísticas. Para cada fase, consideraram-se os principais protagonistas, o perfil formal do jornal, os principais temas e uma síntese parcial. Essa contribuição é importante no sentido de fornecer um panorama abrangente da história do jornal, dos títulos, dos jornalistas e colaboradores e dos aspectos gráficos. Porém, o que de fato interessa no presente estudo, para além dessas questões, é o resgate das várias maneiras de ler, escrever e dizer o que era considerado literatura protestante no Oitocentos, bem como o papel fundamental que o suporte jornal teve como agente propagador do literário e cultural. De toda forma, apropriar-se-á das fases propostas pela referida pesquisadora para uma necessária contextualização do periódico em questão.
A primeira fase do Imprensa Evangélica, entre os anos de 1864 a 1867, consta de sua fundação até a morte do seu idealizador. Entre os primeiros colaboradores, estavam o ex-
padre José Maria da Conceição (1822 – 1873); Antônio José dos Santos Neves,
funcionário do Ministério da Guerra, taquígrafo do Congresso e também poeta; o físico e
matemático Miguel Vieira Ferreira (1837 –1895); Domingos Manuel Quintana, um
membro da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro e o romancista Júlio César Ribeiro Vaugahan (1845 – 1890). O discurso predominante dessa fase do periódico foi a propaganda doutrinária presbiteriana, além de artigos que proporcionavam o embate direto com o Catolicismo. Segundo Santos (2009, p. 77), os artigos “[...] procuravam direcionar os leitores para uma comparação entre o „Brasil católico‟ e os países que adotavam o protestantismo ou que admitiam a liberdade de prática religiosa.”
A segunda fase do Imprensa estende-se entre os anos de 1868 a 1876, sob a gestão do cunhado de Simonton, o Rev. Alexander Latimer Blackford (1829 – 1890), que assumiu a direção da folha após a morte daquele em dezembro de 1867. A morte precoce do reverendo foi anunciada com pesar, não apenas nas páginas do jornal que com tanto zelo fundara e para o qual contribui três anos, como nas folhas católicas com que trocavam correspondências e artigos. Essa fase pode ser caracterizada por certa liberdade dos editores e colaboradores do Imprensa em reivindicar os direitos políticos para os
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protestantes. Do ponto de vista político, a gestão de Blackford coincidiu com o desprestígio do Império. Assim, o jornal também propôs um discurso mais politizado, envolvendo a Questão Religiosa e uma ampla literatura de caráter polemista com discussões em torno dos dogmas católicos, da maçonaria e da liberdade religiosa.
Entre os anos de 1877 a 1885, o Rev. George W. Chaberlain (1839 – 1902) passa a
gerir a folha constituindo, assim, a sua terceira fase. O crescimento da denominação presbiteriana no Brasil, o aumento do número de igrejas e dos membros contribui para uma participação mais ativa de brasileiros na redação do Imprensa que, mesmo tendo recebido a colaboração de brasileiros desde sua fundação, se encontrava até então sob forte influência dos reverendos e missionários norte-americanos. Essa fase, caracterizada por um maior envolvimento dos nacionais nas atividades da denominação, coincidiu com um período de certa liberdade religiosa e, do ponto de vista político, com uma diminuição do prestígio do regime imperial. Nesse período, a redação do jornal, que sempre havia sido editado no Rio de Janeiro, foi transferida para São Paulo, tomando-se como justificativa o fato de a cidade paulista abrigar a elite intelectual da Igreja Presbiteriana (NEVES, 2009, p. 101). Além disso, o jornal passou a ser impresso por outras tipografias, considerando que, até então, as impressões haviam sido feitas pela Tipografia Perseverança. Entre as observadas nos jornais, encontram-se: Typographia G. Leuzinger & Filhos localizada na Rua do Ouvidor (1877); Typographia de D. M. Hazlett, localizada na Travessa da Barreira, n. 15 (1878, 1879); Typographia Universal E. & H. Laemmert, localizada na Rua dos Inválidos, n. 71 (1879); Typographia da Província, localizada na Rua da Imperatriz, n. 44 (1880); Typographia a Vapor de Jorge Seckler, na Rua Direita, n. 15 (1881 a 1883); Typographia a Vapor King, cujo endereço não constava nas publicações.
Ainda na gestão do Rev. Chaberlain, o jornal alterou sua periodicidade: de quinzenal, para semanal, entre 1878 e 1880; mensal, em 1881; voltando a ser quinzenal a partir de 1882. Um dado interessante é que, no ano de 1881, o jornal foi ampliado com a inclusão da Revista Christã, sendo anunciada no cabeçário em forma de subtítulo. O jornal passou, então, de 8 para 32 páginas com edição mensal.
A quarta fase do Imprensa Evangelica, entre os anos de 1886 a 1892, ocupou-se de temas gerais relacionados à religião, ao Catolicismo e ao embate com o periódico católico
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O Apóstolo. Nesse período, a folha encontrava-se mais sedimentada, com um leque mais ampliado de leitores. Um discurso mais confiante acerca dos direitos civis dos evangélicos cerceava os números do órgão impresso, gerando uma série de entraves com a religião oficial do Brasil. A esta altura, os únicos colaboradores remanescentes da fundação da folha nos anos 60 eram os reverendos Blackford e Chamberlain. Esses, porém, estavam envolvidos com outros projetos evangelísticos, o que, consequentemente, reduziu a participação no jornal, que passou aos cuidados do Rev. Donald C. Mc Laren (1859 – 1930).
Outros redatores não foram mencionados pelo Imprensa até o ano de 1891, quando a edição de 02 de maio desse ano (p. 137) anuncia: “Com este número a Imprensa Evangelica passa para o cuidado editorial do Sr. J. A. Corrêa, com um grupo de hábeis collegas. O trabalho de revisão e de remessa fica a cargo dos estudantes de Theologia.” O novo editor, Joaquim Alves Corrêa (1863 – 1933), era presbítero da Igreja Presbiteriana de São Paulo e aderia ao grupo de membros brasileiros que desejava uma maior autonomia para a igreja nacional (SANTOS, 2009).
Comparando o discurso da quarta fase com as que lhe antecederam, é perceptível o apagamento de temas presentes desde a fundação do jornal, a exemplo de perseguições aos não católicos e de questões sobre a legislação dos direitos civis antes negados aos protestantes. Do ponto de vista político, os grandes embates travados até a proclamação da República não existiam mais. A Constituição promulgada em 24 de fevereiro de 1891 confirmou, entre outros assuntos, no artigo 72: o casamento civil de celebração gratuita, o caráter secular dos cemitérios estando estes livres a todos os cultos religiosos e o caráter leigo do ensino público74. Apesar do novo panorama religioso e político, os jornais
publicados no período republicano continuaram mantendo no discurso certo tom combativo em relação à Igreja Católica e seus dogmas e um expresso senso de nacionalismo a partir de publicações de relatos de missões evangélicas no Brasil e de assembleias e atas de cunho denominacional.
O fim do periódico foi causado por discordâncias intradenominacionais. Os missionários norte-americanos possuíam uma dupla estratégia de propagação do
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Protestantismo em solo brasileiro: a educação (por meio de implantação das escolas e seminários teológicos) e a implantação de igrejas (por meio do envio de pessoas para a evangelização). Parte dos presbiterianos nacionais não concordava com a primeira estratégia e defendia a opinião de que a verba gasta com educação deveria ser reduzida à evangelização do povo brasileiro. O Imprensa Evangelica estava diretamente envolvido nos conflitos, configurando essas divergências ao longo de suas fases. Isso levou a Board of Foreing Mission – órgão financiador do jornal representante do presbiterianismo do Norte dos Estados Unidos – a decretar, por telegrama, o fechamento do periódico e a proibição aos brasileiros do direito de utilização do título do jornal extinto. O último número foi publicado em 02 de julho de 1892, tendo como seu último redator Joaquim Alves Corrêa, somando assim, um total de quase 28 anos de circulação ininterrupta (SANTOS, 2009).
4.2 – O Jornal Imprensa Evangélica– sobre materialidade e conteúdo
O objeto jornal e seus usos foram favorecidos por uma organização do mercado de impressos que envolvia, por sua vez, baixos preços, diversificação de conteúdos, inovações técnicas, estratégias de divulgação, inserção de gravuras e desenhos entre outras vantagens, proporcionando, assim, o acesso de um número maior e mais variado de pessoas. A uma parcela cada vez mais significativa da população tornava-se possível ler a palavra impressa nestes papéis, observar as imagens que neles circulavam, adquirir suas próprias leituras pagando preço baixo por elas, socializar e debater (na rua, em casa, nos cafés, nas livrarias, nas confrarias literárias, nas lojas) as ideias e informações do seu conteúdo (LIMEIRA, 2007).
Após um breve percurso pela história editorial do Imprensa Evangélica, a fim de nos apropriarmos dos discursos veiculados por essa folha religiosa ao longo de suas fases, é possível verificar o quanto o jornal protestante estava em consonância com os diversos periódicos que inundaram não só a Corte como as províncias de todo o Brasil. Nesse sentido, as reflexões de Marialva Barbosa (2010, p. 15) nos são oportunas quando, baseada nos aportes da História Cultural, expõe:
139 Reconstruir o sentido de uma obra – e, neste caso, a obra são os jornais como rede de textos – exige que se considerem as relações entre o texto, o objeto que lhe serve de suporte (no caso, a impressão) e as práticas que a instrumentalizam (a leitura realizada e a reapropriação feita pelo leitor).
Comparado com os jornais que compunham o quadro dos periódicos mais influentes do período75, tomando, por exemplo, alguns jornais em circulação na Corte
como Correio Mercantil (1848), Jornal do Commercio (1827) e até alguns tradicionais provincianos como o Diário de Pernambuco (1825), o Imprensa Evangélica podia ser considerado um pequeno jornal, cuja principal característica tenha sido a pretensão de atuar diretamente na formação religiosa, moral e cultural de seus leitores pelo viés da propaganda evangélica. Nesse sentido, evita uma perspectiva meramente noticiosa bem como envolver-se diretamente com questões políticas, o que não implica uma neutralidade total em relação a esse tema. A folha abordava, ainda que polidamente, os assuntos sobre a Questão Religiosa que envolvia, por sua vez, liberais e ultramontanos. De todo modo, encontra-se a advertência no Prospecto do primeiro número do Imprensa Evangelica (05/11/1864, p. 01):
Este trabalho, não tendo em vistas senão os interesses exclusivamente religiosos da sociedade em geral, como em particular do individuo, estranho a toda e qualquer ingerencia em politica, á todos é consagrado [...].
A primeira edição do IE (Cf. Figura 36 a seguir) possuía oito páginas e dimensões de 30 x 22 cm, nas quais se distribuíam o conteúdo em duas colunas. Com um cabeçalho simples, a moda dos jornais em circulação na época, lia-se o título, a periodicidade rasurada76 e as informações de data e número. Em média, a folha prosseguiu com o
75Ao caracterizar a “grande imprensa” de meados do Século XIX, Nelson Lage Mascarenhas (1961, p. 282) expõe –
a julgar por periódicos tais como Diário do Rio de Janeiro e Correio Mercantil – que esta possuía grande tiragem, parte informativa esmerada, seção financeira, comercial, forense, correspondências do estrangeiro, e a substancial seção de anúncios.
76 Considerando que Simonton e os demais colaboradores pretendiam fazer publicar o IE a cada oito dias, o primeiro
número precisou ter a periodicidade alterada manualmente para quinzenal, a fim de não se perder os 450 volumes impressos pelos Laemmert. Em versão que consta a alteração, conforme pudemos verificar, a expressão “TODOS OS SABBADOS” foi riscada ficando apenas a palavra “”PUBLICA-SE” (cf. Figura 13 a seguir).
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mesmo aspecto formal, sofrendo algumas alterações ao longo de seus 28 anos de circulação. Dentre essas, as mais significativas foram a alteração do cabeçalho no ano de 1868: alterou-se o tipo de letra do título, e incluiu-se entre as palavras do título uma logomarca (um coração com uma âncora no centro em formato de cruz encravada na rocha), constando um verso bíblico da Epístola aos Hebreus (6:19) – “A qual a esperança temos como âncora da alma, firme e inabalável” (Cf. Figura 37 adiante). Em 1878 e 1882, os versículos bíblicos que constavam no cabeçalho foram alterados, fato que, do ponto de vista do estudo do suporte, deve estar relacionado às fases do jornal e aos contratempos nelas vivenciados (Cf. Figura 38 a seguir). No entanto, apenas sinalizamos essa discussão considerando que o IE não é o único objeto de nossa pesquisa.
Figura 36 – Capa do primeiro número do Jornal Imprensa Evangélica (1864)
Fonte: <www.bn.br>
Figura 37 – Capa de um dos números do Imprensa Evangélica nos finais de 1860
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