1. BÖLÜM
2.10. EleĢtirel DüĢünme Ġle Ġlgili Yapılan ÇalıĢmalar
2.10.2. Yurt DıĢında Yapılan ÇalıĢmalar
No nosso ponto de vista, a experiência inicial do grupo de pesquisa durante os cinco anos de parceria com professores da educação básica, no seio do Projeto Urubunesp, foi determinante para a construção da identidade do grupo, bem como sua estrutura e dinâmica organizacional, referencial teórico, metodologia de trabalho e modelo de formação inicial e continuada de professores.
Defendemos essa ideia porque, no nosso ponto de vista,algumas práticas implementadas durante o Projeto Urubunesp se mostraram tão eficazes e promissoras na lide diária com os professores da escola, que se tornaram basilares da ação e da identidade do grupo. Nesse sentido, ousamos dizer que a partir da experiência do Projeto Urubunesp, o grupo de pesquisa “Educação de Professores e Avaliação Formativa” começou a construir o seu próprio modelo de formação de professores, que define a sua identidade de grupo e o distingue de outros grupos comprometidos com a formação de professores.
Esse modelo de formação peculiar se baseia no tripé teórico- metodológico constituído:
a) pela adoção da teoria social crítica frankfurtiana como base teórica das ações de pesquisa;
b) pela interação universidade-escola, consubstanciada pela ação dos PGP;
c) e pela “pesquisa do professor”, como princípio norteador da interação entre acadêmicos e professores da educação básica, para onde convergem os esforços de produção de conhecimento sobre os problemas cotidianos da prática docente.
Como já pontuamos anteriormente, após a conclusão do Projeto Urubunesp, o grupo manteve o seu interesse e compromisso com uma formação de professores que preparasse os futuros professores (formação inicial), ou mesmo aqueles em exercício (formação continuada), para uma atuação docente crítica, autônoma e transformadora. Para isso, o grupo precisava de um referencial teórico, que fornecesse a base de referência para uma formação docente dessa amplitude. A teoria crítica elaborada pelos teóricos da Escola de Frankfurt (Horkheimer, Adorno, Marcuse, Habermas, dentre outros) foi uma excelente inspiração encontrada pelo grupo para sustentar a busca dessa meta; pois,além de oferecer os elementos teóricos para o pensar e o agir críticos, as teorias dos frankfurtianos possibilitam uma ação-reflexão mais ampla, que excede ao escopo das questões meramente pedagógicas da sala de aula e abrange um cenário mais amplo, caracterizado pelo ambiente escolar, o sistema educacional, bem como o cenário social, político e econômico, que são condicionantes do trabalho do professor. Portanto, ao adotar o referencial frankfurtiano como fundamentação teórica de suas pesquisas e ações, o grupo transcendeu o paradigma do professor reflexivo e se comprometeu com uma ação educativa emancipadora, conforme discutimos no capítulo 2.
Em nossa breve descrição das etapas do Projeto Urubunesp ficou claro que a divisão do grupo maior, constituído pelos professores da universidade e da escola, em pequenos grupos de trabalho autônomos, independentes e coordenados (PGP) foi uma sábia decisão para permitir a formação de grupos com foco em temáticas de pesquisa diferentes. Do ponto de vista organizacional e funcional, grupos menores com foco de interesse bem definidos, são mais fáceis de ser geridos ou coordenados, sendo possível atingir níveis de interação mais profundos, frequentes e fortes, conferindo maior sinergia e produtividade ao grupo. Entretanto, há desvantagens como a fragmentação, o distanciamento e possível acirramento entre os diferentes grupos, todavia essas tendências segregacionistas foram inteligentemente combatidas ao promover reuniões técnicas e assembleias gerais que resgatassem a comunicação intergrupos e a sensação de unidade do grupo
maior, além de fomentar a discussão sobre temas de amplo interesse e disseminar as produções de todos os PGP. Dessa maneira, foi constatada a eficácia desse
modus operandi para o alcance dos objetivos do Projeto; contudo, como essa
dinâmica poderia sustentar a interlocução e colaboração entre professores da universidade e professores da escola após o encerramento do Projeto Urubunesp?
Essa pergunta se torna crucial e desafiadora, quando consideramos que as ações do Projeto Urubunesp eram exclusivamente locais, mobilizando um grupo da universidade e um grupo de uma única escola pública, ambas localizadas em Ilha Solteira, mobilizando portanto dois lócus institucionais/grupos bem definidos. Essa configuração favorecia relativamente a organização das atividades, bem como a logística, a comunicação, o convívio e a realização de encontros do grupo. Mesmo assim, foram constatadas no Projeto inúmeras dificuldades e resistências de origem interna e externa, antinomias e heteronomias, no dizer de Martinez (2009), que tiveram de ser enfrentadas e superadas ao longo do Projeto.
Uma vez consolidadas as a©·es do Projeto Urubunesp, o centro das atenções se volta para as ações acadêmicas de formação inicial (graduação) e continuada (pós-graduação). É importante esclarecer que tais atividades acadêmicas já vinham sendo desenvolvidas durante a vigência do Projeto Urubunesp e, portanto, não podem ser concebidas como totalmente independentes e isentas de influência do e sobre o mesmo. Nesse momento, tentaremos abordar apenas as possíveis influências do Projeto Urubunesp sobre tais atividades acadêmicas.
No nosso entendimento, a experiência vivenciada durante o Projeto Urubunesp parece ter influenciado o currículo da graduação (Licenciatura em Física), da Unesp, na medida em que tal experiência evidenciou a necessidade de se preparar o futuro professor para o enfrentamento da realidade escolar com todas as contradições e desafios do sistema. Inclusive,uma das teses de doutorado produzidas recentemente no grupo (SUTIL, 2011), teve o objetivo de analisar processos de negociação vivenciados em uma concepção de formação de professores como ação dialógica (FREIRE, 1979, 2002, 2003a, 2003b) e ação comunicativa (HABERMAS, 1999). Nesse trabalho, a autora defendeu a tese de uma “formação para negociações como viabilizadora de reação às invasões do sistema
no mundo da vida – formação de cultura, sociedade e personalidade.” (SUTIL, 2011, p. 25)
Segundo a autora, entre o ano de criação do curso de Licenciatura em Física, no campus de Ilha Solteira (2002), e o ano de 2008 foram implementadas três configurações curriculares diferentes nos anos de 2002, 2003/4 e 2005, respectivamente. Tal fato corrobora a ideia de que a experiência do Projeto Urubunespinfluenciou o desenho curricular do curso de graduação com o objetivo de formar professores para o enfrentamento da realidade escolar. O excerto abaixo expressa com mais clareza essa constatação:
As atividades de Estágio Docente (AED) e relacionadas à cultura escolar e à docência (ACED), no ano de 2008, possibilitaram a sustentação de processo de “problematização da prática educacional”. Esse processo de problematização da prática educacional, delineado pelos professores Lizete Maria Orquiza de Carvalho e Washington Luís Pacheco de Carvalho, com a colaboração de professores universitários e alunos de graduação, integra uma proposta formativa de professores de ciências, vinculada ao grupo de pesquisa “Educação continuada de professores e avaliação formativa”.
A proposta teve início em projeto de formação de professores, em parceria com a Escola Estadual Urubupungá, no município de Ilha Solteira, São Paulo. Esse projeto obteve financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), compreendendo o período de 2000 a 2005. Os professores dessa escola pública desenvolviam projetos de pesquisa em educação, considerando problemas de suas práticas educacionais, com a colaboração de docentes universitários (ORQUIZA DE CARVALHO, 2007; FREITAS, 2008). (SUTIL, 2011, p. 114, grifo nosso)
Essa afirmação corrobora nossa interpretação acerca da influência do Projeto Urubunesp e da experiência do grupo de pesquisa “Educação Continuada de Professores e Avaliação Formativa” sobre a reformulação do currículo da Licenciatura em Física. Essa constatação, no nosso entendimento, atesta a validade e importância de projetos colaborativos entre universidade e escola, como ponto de partida para se repensar e redefinir tanto a academia e a formação de professores como a educação básica. Portanto, não se trata de uma parceria onde a universidade apenas ensina, mas também aprende e se modifica na relação com a escola.
Essa foi uma das conclusões de Orquiza de Carvalho em sua tese de livre docência, na qual se dispôs a investigar as nuances desse processo de interação entre universidade e escola:
[...] vale lembrar que os professores e pesquisadores da universidade, via de regra, não possuem, no seu cotidiano, a oportunidade de se expor à cultura de outras áreas e, assim, experienciar a “imperfeição” do seu mundo disciplinar. A escola básica, então, se levanta como um espaço, na sociedade, em que as resistências para aproximação, das diferentes áreas da cultura, não são intransponíveis. Nesse sentido, “a fraqueza” da escola, aquela relacionada ao nível sempre introdutório de abordagem dos conteúdos, torna-se o seu “ponto forte” e, neste primeiro sentido, a universidade precisa da escola. [...] não é somente a escola pública que precisa da universidade, para a formação de seus professores, mas a universidade também precisa da escola pública, para poder cumprir o seu próprio papel. (ORQUIZA DE CARVALHO, 2005, p. 122 e 123, grifo nosso)
A proposta curricular que resultou dessa parceria universidade-escola procurou, na medida do possível, privilegiara pesquisa como base do ensino/formação do futuro professor. Todavia, não se trata de uma pesquisa tradicional, puramente acadêmica, e sim uma pesquisa que nasce da “problematização da prática educacional”, o que a aproxima da ideia da “pesquisa do professor” ou dos práticos, do inglês “practicioners”, como já discutimos no capítulo 2.
Além da influência sobre a graduação (formação inicial), o Projeto Urubunesp marcou profundamente a dinâmica do grupo de pesquisa, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru. Após o Projeto, o grupo manteve sua prioridade de atuar na interface universidade-escola, através da instauração de pequenos grupos de pesquisa (PGP) em algumas escolas públicas e universidades. Esses PGP são coordenados por ex-alunos ou alunos da graduação ou da pós-graduação, que de alguma maneira estão vinculados ao grupo de pesquisa. Assim como no Projeto Urubunesp, tais PGP tem autonomia para definir o seu tema de pesquisa, estabelecer a sua agenda de trabalho e encontros, bem como as leituras a serem realizadas pelos seus integrantes e tem como base a “pesquisa do professor”.
Essa estrutura organizacional do grupo de pesquisa compartimentada em PGP diversos com focos de interesse e realidades distintas contribuiu parauma
expressiva expansão do grupo de pesquisa12, em termos de número de PGP, localização geográfica, quantidade de participantes e temas de pesquisa. De modo que, a exceção dos coordenadores de PGP, que mantêm contato com o grupo de pesquisa, a maioria dos integrantes dos PGP, principalmente aqueles situados nas escolas públicas, não tem contato direto com o grupo, pois não tem condição de participar dos encontros do grupo, por motivos diversos como: distância geográfica, indisponibilidade de tempo e de recursos financeiros (bolsa ou auxílio financeiro) para arcar com as despesas de viagem, falta de motivação, dentre outros. Nesses casos, o coordenador tem um papel importante de ser a ponte entre os membros do PGP e o grupo de pesquisa (GGP), sendo o porta-voz do PGP, responsável por compartilhar com o grupo (GGP) os avanços e retrocessos das atividades realizadas pelo PGP, buscando apoio e orientação sempre que necessário.
Convém esclarecer que o grupo de pesquisa (GGP) não é formado somente pela coletividade de PGP, mas também há pós-graduandos, alunos e ex- alunos da graduação, que não estão vinculados a nenhum PGP especificamente, mas que estão desenvolvendo projetos de pesquisa específicos de mestrado, doutorado, pós-doutorado, ou apenas estão participando das atividades do grupo de pesquisa por iniciativa e interesse próprios.
Enfim, pode-se concluir que o grupo de pesquisa é constituído por uma ampla variedade de pessoas com formações e interesses diferentes, todavia ligadas pelo fato de serem, em sua grande maioria, professores da área de ciências em formação inicial ou continuada. No nosso entendimento, o elemento de coesão do grupo, que possibilita o diálogo e entendimento de um grupo tão diversificado, é o compartilhamento do referencial teórico crítico da Escola de Frankfurt.
No nosso último levantamento realizado em 2010, a lista de discussão do grupo contava com cerca de 80 participantes dentre alunos e ex-alunos da graduação e da pós-graduação e professores da rede de escolas públicas e privadas de São Paulo e outros Estados, sendo a grande maioria de professores da área de ciências (matemática, física, química e biologia).
12Daí surgiu o termo “grande grupo de pesquisa” (GGP) para se referir ao grupo como sendo a congregação dos diversos PGP.
Para facilitar a comunicação entre o grupo e o acompanhamento das atividades, mesmo à distância, desde o ano de 2001, o grupo utiliza uma lista de discussão no Yahoo! Grupos13, denominada “Avformativa”. Desde a sua criação, há pouco mais de uma década, o grupo já trocou mais de 5000 mensagens através desse canal de comunicação, o que equivale a quase duas mensagens diárias. Tal evidência mostra a importância desse veículo de comunicação na manutenção e suporte às interações do grupo.
Entretanto, no nosso ponto de vista, com o passar do tempo e o crescimento do número de participantes do grupo de pesquisa, bem como a ampliação dos PGP (mais de dez, em meados de 2010), a demanda por comunicação e espaço de diálogo nos encontros do grupo logo se tornou insuficiente, pois como já afirmamos na introdução desse trabalho, as reuniões do grupo acontecem cerca de quatro vezes ao longo do ano letivo, por diversos motivos, dentre os quais destacamos a distância geográfica entre os integrantes do grupo que possui parte de seus integrantes em Ilha Solteira e parte em Bauru, onde está estabelecido o Programa de Pós-Graduação, além disso há muitas pessoas residentes em diversos outros municípios do Estado de São Paulo e de outros Estados e até de outros países.Essa realidade dificulta consideravelmente a realização de encontros com a participação de todos os integrantes do grupo, por isso as reuniões do grupo se alternam entre Ilha Solteira e Bauru e acontecem de forma concentrada nos fins de semana com carga horária aproximada de 12 horas, distribuídas no período diurno (manhã e tarde) do sábado e na manhã de domingo.
Mesmo assim, esse período se torna limitado diante do tamanho do grupo, da complexidade e variedade das questões a serem tratadas. Geralmente, as atividades se dividem entre a leitura e discussão de um referencial teórico comum ao grupo (estudo coletivo); apresentação de projetos de pesquisa, versões preliminares e finais de dissertações e teses; apresentação de seminários; realização de assembleias para a tomada de decisão; planejamento e organização de eventos; relatos dos coordenadores de PGP, dentre outros. Com isso, muitos aspectos
13 Serviço oferecido pela Yahoo! que permite a um grupo de pessoas a troca de mensagens via e- mail entre todos os membros do grupo.
importantes e relevantes para o desenvolvimento dos trabalhos de pesquisa individuais e dos PGP ficam sem ser discutidos e isso invariavelmente limita o agir comunicativo do grupo e o avanço das pesquisas e estudos do grupo, podendo inclusive ocasionar a desmotivação das pessoas.
Diante dessa realidade e considerando a impossibilidade de gerar mais ônus financeiro e pessoal com a realização de mais encontros presenciais com o grupo, por um lado; e a necessidade de fomentar o agir comunicativo para potencializar o desenvolvimento do grupo e das pesquisas realizadas, por outro.Entendemos que uma solução viável e promissora seria a utilização das novas tecnologias da comunicação para ampliar o espaço de diálogo, troca de experiências e colaboração entre os diversos membros do grupo. No nosso ponto de vista, esses espaços colaborativos virtuais podem fortalecer o agir comunicativo do grupo, na medida em que sejam concebidos como uma extensão natural das ações e das discussões realizadas nas reuniões presenciais. Além disso, esperamos que esses espaços virtuais representem uma possibilidade real de conexão e contato entre professores da escola pública, membros dos PGP, que até o momento não tiveram oportunidade de interagir diretamente com o grupo de pesquisa. Dessa forma, acreditamos que tais canais de comunicação virtual possam servir para estreitar e fortalecer os laços comunicativos entre os diversos integrantes do grupo, pois fomentam tanto o diálogo e troca de experiências entre instâncias maiores, como os PGP, assim como entre os indivíduos que os compõem. Portanto, nesse trabalho investigamos o potencial das interações virtuais como suporte para o agir comunicativo de um grupo de professores da área de ciências em processo de formação continuada.