exames de ordem
A Resolução n. 9/2004 do CNE/CSE estabelece as diretrizes curriculares do Curso de Direito, no seu artigo 4º estabelece as habilidades e competências: I – Leitura, compreensão e elaboração de textos, atos e documentos jurídicos normativos, com a devida utilização das normas técnico- jurídicas; II – Interpretação e aplicação do Direito; III – Pesquisa e utilização da legislação, jurisprudência, da doutrina e de outras fontes do Direito; IV – Adequada atuação técnico-jurídica, em diferentes instâncias, administrativas ou
judiciais, com a devida utilização de processos, atos e procedimentos; V – Correta utilização da terminologia jurídica ou da Ciência do Direito; VI – Utilização de raciocínio jurídico, de argumentação, de persuasão e de reflexão crítica; VII – Julgamento e tomada de decisões; VIII – Domínio de tecnologias e métodos para permanente compreensão e aplicação do Direito.
Pela explicitação do referido artigo percebe-se que as habilidades e competências elencadas estão providas de uma concepção tecnicista, restringindo-se ao desenvolvimento de características formativas precipuamente técnicas.
O texto formal curricular está desprovido de uma formação profissional ética, comprometida com a questão social, com uma formação profissional cidadã, consciente da relevância do ensino jurídico no contexto do mundo atual.
A Resolução n°. 09 de 2004, do CES/MEC, ao instituir as diretrizes curriculares nacionais aos cursos de direito, estabeleceu três eixos de formação: fundamental, profissional e prática.
A edição da mencionada Resolução trouxe muitas críticas pertinentes. Pesquisadores, pensadores e intelectuais, especialistas no ensino superior questionam a sua eficiência ao se colocar em prática. O que se percebe é que há fragmentação entre esses eixos, não havendo, dessa maneira a mínima articulação entre si que, somada à falta de pesquisas científicas, compromete um diálogo maior do direito com as outras disciplinas necessárias ao desenvolvimento dialógico e crítico do saber jurídico.
Colaço, (2006, p. 98-100), configura que esse quadro apresentado prejudica o surgimento de uma proposta pedagógica desafiadora, por conta das heranças que se mantiveram ao longo do tempo arraigadas as estruturas do ensino de direito. Para Colaço o modelo de ensino fragmentado já está superado na teoria, o que falta é sua evidência de transformação na prática pedagógica das salas de aula.
Pela formação que pautou o ensino jurídico desde seu início, verifica-se a tendência da continuidade, o que dificulta a quebra de paradigmas no ensino jurídico. O formalismo do Direito é fator que contribui para que a barreira do ensino compartimentalizado seja efetivamente quebrada. Não basta buscar novos caminhos, técnicas ou recursos sem que o corpo docente esteja
preparado para enfrentar novas propostas pedagógicas para levar o acadêmico a um nível de conhecimento que envolve outras áreas do saber, despertando o seu interesse pela aquisição de conhecimento dentro e fora da sala de aula.
O primeiro grande obstáculo encontrado é na formação das matrizes curriculares dos cursos jurídicos que impedem a integração de diversas áreas e muitas não têm área de concentração que proporcionem identidade ao curso, dificultando a formação integral e a concepção de totalidade necessária à formação interdisciplinar.
A interdisciplinaridade desempenha papel de fundamental importância ao propiciar o diálogo vertical e horizontal entre as diversas unidades curriculares e outras áreas do saber, o que não implica na quebra das peculiaridades de cada uma delas, mas, da identificação de pontos de conexão que permitem a análise, sob a ótica de diversos ângulos, do mesmo objeto ou fenômeno social.
Hoje, a formação jurídica exige a integração entre as unidades curriculares (disciplinas) e outras áreas do saber nas práticas de sala de aula, estágios, trabalhos de extensão, trabalhos voluntários, atividades complementares, ou seja, deve estar presente no cotidiano da formação acadêmica.
O ensino universitário, nos moldes da fragmentação, pouco contribui para essa construção diferenciada e o que é ministrado é fragmentado, dificultando uma visão ampliada dos fenômenos a serem observados durante o período de formação, refletindo certamente na vida profissional.
A docência no ensino jurídico encontra, ainda, um outro fator que dificulta a construção de novas propostas pedagógicas é o comprometimento do professor com o curso e, consequentemente, com a docência, com a instituição de ensino, isso porque grande parte dos docentes desempenha atividades profissionais concomitante com a docência, fazendo desta última apenas um complemento em sua vida profissional. Não que seja prerrogativa do ensino, mas se destaca dele.
A preocupação do perfil profissional para os cursos de direito explicitados pelos documentos da OAB e do MEC residem em pensar uma formação profissional que vá para além da dimensão técnico-jurídica, para a reflexão filosófica dos processos jurídicos, da sua essência enquanto justiça e
sua função distributiva no seio de uma sociedade complexa como é a realidade brasileira.
Ponto importante para o reconhecimento da abrangência das habilidades e competências: elas não se cingem ao conhecimento e práticas das técnicas dogmáticas postas, mas abrangem o próprio ser do direito, o questionamento conceitual e existencial do próprio ser do direito, da natureza do justo. Só assim, a juridicidade, em sua relação com a sociedade e a natureza, poderá ser desenhada, atualizada e transformada (AGUIAR, 2004, p. 166).
Os documentos apresentados pelas várias edições do exame nacional de cursos instituídos pelo MEC (antigo Provão), do SINAES estabelecem as habilidades e competências que atendem o perfil profissional do bacharel em direito, as quais o Colegiado de Curso incorporou às propostas curriculares e projeto pedagógico do curso de Direito da UFAC.
A primeira competência, a formação do bacharel em direito deve alicerçar-se numa formação humanística, técnico-jurídica e prática, indispensável à adequada compreensão interdisciplinar do fenômeno jurídico e das transformações sociais.
Essa primeira competência visa resgatar a dimensão humanística, no combate ao normativismo estéril, mas não vai mais a fundo no sentido de identificar qual humanismo, o da velha retórica, ou aquele que é consentâneo com o estágio das coisas e do conhecimento atual. Também não faz menção à criatividade técnico-jurídica, apenas enfocando a necessidade da interdisciplinaridade como instrumento de compreensão das transformações sociais. A formação dos estudantes precisa ser mais profunda e ir mais além, pensar o direito no contexto da sua transformação para dar conta das demandas e das mudanças contemporâneas.
Segunda, senso ético-profissional, associado à responsabilidade social, com a compreensão da causalidade e finalidade das normas jurídicas e da busca constante da libertação do homem e do aprimoramento da sociedade.
Reconhece-se o valor da ética como elemento fundamental dentro das universidades e das várias instituições jurídicas, uma vez que o legalismo imediatista é tão predominante que sufoca a dinâmica do próprio direito. A apresentação e vivência do direito é esposada como o aprendizado limitante da aplicação das leis, alicerçada numa concepção atrasada e estática da história, da sociedade, da política e do próprio ser humano. Assim, a lembrança da
responsabilidade social como marca dos operadores jurídicos traz para o campo do concreto os imperativos da ética, dimensão iluminadora da técnica. A questão da liberdade, em um país que viveu tanto tempo no autoritarismo, fez com que o direito esquecesse de sua própria razão de ser que é o de libertar os seres humanos, de romper os grilhões das opressões e explorações, aspectos englobados pela expressão “libertação” defendida pelo MEC e OAB. Por outro lado, a invocação da causalidade das normas faz com que todas essas afirmações transformadoras transitem dentro de uma epistemologia ultrapassada, principalmente porque o mundo atual caracteriza-se por complexidades e incertezas (AGUIAR, 2004)
Terceira, capacidade de apreensão, transmissão crítica e produtiva do direito, aliada ao raciocínio lógico e à consciência da necessidade de permanente atualização.
Reconhece-se a importância e relevância desses elementos explicitados acima: apreensão, criticidade, logicidade e atualização, mas falta explicitar mais detidamente suas relações com as lógicas correntes, com os fundamentos, pontos congruentes e incongruentes e sua aplicabilidade no mundo concreto em que se dá as relações jurídicas, sem esse aprofundamento epistemológico o que compromete sua exequibilidade às situações de fato.
Quarta, capacidade para equacionar problemas e buscar soluções harmônicas com as exigências sociais.
Aqui além de nos remeter a uma visão funcionalista dos fenômenos jurídicos, o direito visa essa pacificação social, enquanto ideal de justiça, mas questiona-se as contradições, lutas, exigências sociais que permeiam o direito, assim as decisões tomadas atenderão aos interesses dominantes ou dos que são os mais desvalidos nas relações jurídicas e carecem muito mais da realização da justiça plena, aqui o valor da ética toma relevo especial enquanto instrumento determinante da juridicidade.
Quinta, capacidade de desenvolver formas extrajudiciais de prevenção e solução de conflitos individuais e coletivos.
A tendência atual do direito moderno é a de abandonar crescentemente os formalismos peticionais perante os poderes do Estado e se encaminhar para o diálogo, a discussão, o arbitramento e a mediação, em função da velocidade necessária para desvelar as questões contemporâneas. Assim, é impossível
conceber a prática de um profissional do direito hoje que não esteja apto a desenvolver essas novas formas de juridicidade, que transcendem o mero pedido, ou o acompanhamento dos trâmites processuais e invade a retórica, a sensibilidade, a consciência do mundo e a prática real vivida pelas pessoas no contexto da sociedade humana. Sem contar que a cada dia engrossa o movimento pela simplificação da linguagem jurídica de modo que as pessoas entendam, compreendam a linguagem jurídica, tornando-a mais próxima do mundo real.
Sexta, visão atualizada de mundo, em particular, consciência dos problemas de seu tempo e de seu espaço.
Aqui a competência é bem audaciosa, exige-se uma visão bem atualizada do mundo, para que os profissionais do direito agucem os instrumentos de acompanhamento dessas mudanças, na superação das suas limitações pessoais, profissionais, para que estes possam atuar na multiplicidade rotativa dos fenômenos jurídicos no tempo e no espaço, como forma de superação e atualização.
Sousa Júnior (1997, p. 134) destaca que o perfil profissional exigido pelas avaliações nacionais do MEC e da OAB:
é no sentido de uma formação profissional mais humanista, sensível aos condicionamentos de seu tempo e espaço e dotado de senso ético-profissional e de responsabilidade social para atuar no sentido da realização da libertação do homem e do aprimoramento da sociedade.
A intenção dos documentos institucionais formais no campo do currículo e da avaliação nacional é a concretude de um ideal de direito e de justiça, a principal questão é a materialidade do saber jurídico nas salas de aula das instituições de ensino. A força do dogmatismo jurídico que impera e reduz o estudo e aplicação do direito ao mero cumprimento das normas estabelecidas.
Quanto as habilidades os documentos oficiais estabelecem: a) leitura e compreensão de textos e documentos; b) interpretação e aplicação do direito; c) pesquisa e utilização da legislação, da jurisprudência, da doutrina e de outras fontes do direito; d) produção criativa do direito; e) correta utilização da linguagem – com clareza, precisão e propriedade – fluência verbal e riqueza de vocabulário; f) utilização do raciocínio lógico, de argumentação, de persuasão e
de reflexão crítica; g) julgamento e tomada de decisões; h) utilização de instrumentos e técnicas para conhecimento e exercício do direito (domínio de tecnologias e métodos para permanente compreensão e aplicação do direito).
Pela explicitação das habilidades na formalização oficial percebe-se que a partir da década de 1990 o Governo Federal e a Comissão de Ensino Jurídico da OAB se preocuparam em defini-las o que permitiu pensar o perfil profissional do bacharel em direito, mas é preciso destacar que os conceitos são vagos, a linguagem é tratada mais como fluência do que instituidora e desveladora de mundos, tornam muito difícil avaliar e precisar instrumentos pouco mensuráveis e qualitativamente pouco definidos. Isso traz como consequência, espaços de escamoteamento para elaboração de projetos pedagógicos dos cursos de graduação. Aprovados pelas autoridades competentes. A criatividade do comércio e a flexibilidade dos que encaram o ensino como atividade lucrativa aproveitam essas práticas mais flexíveis e abertas para fingir uma formação que efetivamente não proporcionam. (AGUIAR, 2004). O que se percebe na prática é a formalização burocrática de elaboração de projetos pedagógicos e de propostas curriculares visando atender as exigências preconizadas na legislação de ensino e nas Diretrizes Curriculares Nacionais, esquecendo-se das condições concretas e de vida em que o curso de Direito se insere. Elabora-se documentos muito bonitos mas que não ressoam na prática pedagógica institucional.