1. BÖLÜM
2.3. Odalardan TÜRMOB Disiplin Kurulu‟na Gönderilen Dosya Sayısı, Ceza
3.1.2. Düzenleyici Ve Denetleyici Kurumlardan, Mevzuat Hükümlerinin
Freud afirma que a aplicação da teoria da libido ao ego repressor foi certamente “o mais importante progresso teórico” (1923 [1922], p. 265), pois, com a concepção de que o ego é o “reservatório do que foi descrito como libido narcísica” (idem), foi possível empenhar-se na análise do ego e efetuar uma distinção clínica das psiconeuroses em neuroses de transferência e distúrbios narcísicos,33 entre os quais se inclui a melancolia.
É interessante constatar que, mais do que nunca, após o momento em que percebeu essa questão, Freud passou a usar a melancolia como exemplo para explicar os avanços em sua teoria. Isto acontece inclusive quando apresenta, em “O ego e o id” (1923), sua versão mais elaborada da segunda tópica e o conceito de pulsão de morte. Algumas alterações teóricas aconteceram, como, por exemplo, a noção de consciente e
33 É digno de nota que, para Freud, as neuroses narcísicas raramente poderiam ser tratadas pela psicanálise. Em “Dois verbetes de enciclopédia” (1923 [1922]) deixa isto bem claro: “os distúrbios narcísicos (demência precoce, paranóia, melancolia) caracterizam-se por uma retirada da libido dos objetos e, assim, raramente são acessíveis à terapia analítica. Sua inacessibilidade terapêutica, contudo, não impediu a análise de efetuar os mais fecundos começos do estudo mais profundo dessas moléstias que se contam entre as psicoses” (1923[1922] p. 265).
inconsciente, que foi mudada a partir da descoberta de que parte do ego pode ser inconsciente, mas de um modo não reprimido. A idéia de que o ego fosse uma parte do id modificada pela influência do sistema perceptivo, sendo assim o representante do mundo externo real na mente, precisou também ser modificada. Inicialmente, Freud pensou que, presumindo a existência de uma gradação no ego e estipulando a presença de uma diferenciação dentro dele, nomeada de superego, resolvesse o problema surgido com as patologias narcísicas. No entanto, mesmo considerando válidas essas construções teóricas, precisou ampliar a teoria a respeito do ego para poder explicar o fato de essa parte do ego (o superego) estar menos vinculada à consciência.
Freud reconhece que obteve sucesso explicando (em “Luto e melancolia”) o “penoso processo” da melancolia ao supor que, para o melancólico, um objeto perdido é instalado novamente dentro do ego, isto é, que uma catexia de objeto foi substituída por uma identificação. No entanto, admite que, quando tratou dessa forma o problema da melancolia, ainda não tinha condição de apreciar “a significação plena desse processo” nem tinha percebido o quanto comum e típico ele era. (1923, p. 41). Dessa forma, foi apenas em 1923 que constatou que este tipo de substituição (de uma catexia por uma identificação) desempenha um papel importante na forma tomada pelo ego, principalmente porque “efetua uma contribuição essencial no sentido da construção do que é chamado de seu caráter” (idem.).
A construção metapsicológica de Freud relativa a essa constatação foi totalmente apoiada no mecanismo da introjeção, que ele postulou acontecer na melancolia. Assim, quando uma pessoa precisa abandonar um objeto sexual, segue-se uma alteração em seu ego descrita como instalação do objeto dentro dele (introjeção). A natureza dessa substituição, entretanto, permanecia obscura para Freud. Ele levantou duas hipóteses para que isso acontecesse: 1) a introjeção, que é uma espécie de regressão ao mecanismo da fase oral, pode fazer com que fique mais fácil o objeto ser abandonado pelo ego ou 2) a identificação pode ser a única condição para que o id abandone os seus objetos. Independente da razão para essa substituição o ponto central dessas considerações é que isso é muito frequente nas fases primitivas o que “torna possível supor que o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas” e, assim, é possível pensar que ele “contém a história dessas escolhas de objeto” (1923, p. 42). Isso explica o quadro
clínico: as auto-recriminações são críticas feitas a um objeto amado que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente, por isso o paciente não fica envergonhado com os próprios “queixumes” - no fundo essas auto-recriminações se referem a outra pessoa. Inexiste no paciente melancólico atitudes de humildade e submissão, pois, na realidade, está se referindo a um objeto perdido quando ataca a si mesmo e se autodegrada. Impossibilitado de perceber o quanto denigre a sua própria pessoa o melancólico apresenta, de maneira oposta ao que seria esperado, sentimentos de arrogância, manifestados em atitudes de cobrança e exigência para com as pessoas, dando a impressão de que se sente desconsiderada e de que foi tratada com injustiça.
Ao fazer a análise dos efeitos - considerados “gerais e duradouros” - das primeiras identificações, Freud associa as identificações objetais do ego à sublimação, aos quadros patológicos de personalidade múltipla e à problemática da origem do ideal do ego, por trás da qual está “a mais importante identificação de um indivíduo”, ou seja, “a sua identificação com o pai em sua própria pré-história pessoal” (1923, p. 44). Ele adverte que isso não é a conseqüência de uma catexia do objeto, mas se trata de uma identificação direta e imediata, que acontece mais primitivamente que qualquer catexia do objeto, estando a complicação do assunto em pauta relacionada ao “caráter triangular da situação edipiana e à bissexualidade constitucional de cada indivíduo” (idem).
Esse fato permite concluir que, mesmo tardiamente, Freud associou a patologia melancólica ao processo de desenvolvimento sexual. Uma base para as identificações objetais poderia ser decorrente de problemas na resolução do complexo de Édipo. A seguinte passagem mostra essa possibilidade:
O amplo resultado geral da fase sexual dominada pelo complexo de Édipo pode, portanto, ser tomada como sendo a formação de um precipitado no ego, consistente dessas duas identificações unidas uma com a outra de alguma maneira. Esta modificação do ego retém a sua posição especial; ela se confronta com os outros conteúdos do ego como um ideal do ego ou superego. (1923, pp. 46-7)
Um pouco mais adiante nesse mesmo artigo, Freud afirma, confirmando essa idéia, que o ideal do ego (que já foi definido como a parte do ego que critica o ego nos casos de melancolia) “é o herdeiro do complexo de Édipo”, e, assim, “constitui também a
expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id” (ibid., p. 48). E, ao concluir esse texto retorna ao tema e deixa mais uma vez evidente que há uma associação possível entre os problemas decorrentes dos conflitos do ego e as catexias objetais do id, quando estes conflitos continuam com o seu herdeiro, isto é, o superego. É exatamente nesse caso que os melancólicos se inscrevem (ibid., p. 51).
Mais adiante, ao retornar à explicação da constituição do ego como resultado das identificações que tomam o lugar das catexias abandonadas pelo id, reafirma que a primeira dessas identificações sempre se comporta como uma instância especial no ego e dele se mantém à parte sob a forma de um superego, até que, posteriormente, o ego se torne mais forte e resistente às influências dessas identificações. A posição do superego em relação ao ego precisa ser compreendida sob dois aspectos. De um lado, constitui a primeira identificação (quando o ego era fraco) e, por outro, é considerado o herdeiro do complexo de Édipo (ibid., p. 61). E a possível relação entre melancolia e o processo de desenvolvimento sexual anteriormente anunciada fica, de certo modo, confirmada na seguinte afirmação de Freud:
A relação do superego com as alterações posteriores do ego é aproximadamente semelhante à da fase sexual primária da infância com a vida sexual posterior. Embora ele seja acessível a todas as influências posteriores, preserva, não obstante, através de toda a vida, o caráter que lhe foi dado por sua derivação do complexo paterno – a saber, a capacidade de manter-se à parte do ego e dominá- lo. Ele constitui uma lembrança da antiga fraqueza e dependência do ego, e o ego maduro permanece sujeito à sua dominação. Tal como a criança esteve um dia sob a compulsão de obedecer aos pais, assim, o ego se submete ao imperativo categórico do seu superego. (1923, p. 61)
Na seqüência desse texto, Freud continua a tratar a melancolia como uma forma especial de neurose. Quando dá exemplo de pessoas que ficam descontentes com a indicação do progresso do tratamento psicanalítico, coloca que, na verdade, o que está sendo tratado é um fator moral, “um sentimento de culpa, que está encontrando sua satisfação na doença e se recusa a abandonar a punição do sofrimento” (1923, p. 62). Sabe que essa explicação não é animadora, mas alerta que pode ser a explicação final
para alguns quadros. Segundo Freud, o paciente quando está envolvido nesse processo, não se sente culpado, mas doente, e é muito difícil, “convencer” esse paciente de que esse sentimento de culpa está por trás de seu mal-estar. Ele prefere acreditar que seu caso não é para análise. A partir dessa proposição, Freud coloca que essa descrição diz respeito a casos extremos, mas que, em certa medida, deve-se levar em conta esse mecanismo em todos os casos graves de neurose; diz ele: “em verdade, pode ser precisamente este elemento da situação, a atitude do ideal do ego, que determina a gravidade de uma doença neurótica” (1923, p. 63).
Continuando a explicitar como o sentimento de culpa se expressa sob diferentes condições, diz que um sentimento de culpa normal, consciente, não apresenta dificuldade, porque se baseia na tensão existente entre o ego e o ideal do ego, sendo apenas uma expressão da condenação do ego pela sua instância crítica. Porém, ao tratar das duas enfermidades na quais o sentimento de culpa é “superintensamente consciente” (neurose obsessiva e melancolia), alerta que, embora semelhante, há diferenças significativas entre elas.
Entre os exempos que o autor dá, analisarei a melancolia. Nessa enfermidade, a impressão de que o superego obteve um ponto de apoio na consciência é ainda mais forte. Só que o ego do melancólico não arrisca fazer objeções, apenas admite a culpa e submete-se ao castigo. Isso acontece porque, diferentemente da neurose obsessiva, na qual os impulsos censuráveis permaneciam fora do ego, na melancolia, o objeto ao qual a ira do superego se aplica foi incluído no ego mediante identificação.
Diante dessa constatação, Freud se pergunta por que o sentimento de culpa atinge essa força tão extraordinária nesses dois distúrbios (melancolia e neurose obssesiva) e como o superego se manifesta essencialmente como o sentimento de culpa desenvolvendo tão extraordinária rigidez e severidade com o ego. No que diz respeito à neurose histérica, o sentimento de culpa é e permanece inconsciente, pois o ego reprime as críticas do superego. Já na melancolia, descobre-se um superego excessivamente forte, que consegue apoio na consciência e dirige sua ira contra o ego com violência impiedosa, “como se tivesse se apossado de todo o sadismo disponível na pessoa” (1923, p. 65). Para explicar esse sadismo, Freud aproxima, pela primeira vez, a melancolia da pulsão de
morte, destacando que a disposição maníaca deveria ser entendida como um escape desse estado mórbido. Diz Freud:
Seguindo nosso ponto de vista sobre o sadismo, diríamos que o componente destrutivo entrincheirou-se no superego e voltou-se contra o ego. O que está influenciando agora o superego é, por assim dizer, uma cultura pura do instinto de morte e, de fato, ela com bastante freqüência obtém êxito em impulsionar o ego à morte, se aquele não afasta o seu tirano a tempo, através da mudança para a mania. (ibid., pp. 65-6)
Freud continua nessa linha de raciocínio, sempre mostrando que as diferenças que existem entre um obsessivo e um melancólico acontecem em termos da relação com os impulsos destrutivos. Enquanto o obsessivo lida com os instintos de morte de diversas maneiras, de alguma forma, e por algum motivo, na melancolia, o superego torna-se “uma espécie de lugar de reunião” para a pulsão de morte (ibid., p. 66). Mas por que isso ocorre? Mais uma vez Freud retoma o complexo de Édipo como hipótese explicativa para compreender esse problema. Partindo da idéia de que do ponto de vista instintual - da moralidade - o id é amoral, o ego se esforça por ser moral e o superego é supermoral, podendo se tornar inclusive tão cruel quanto o id, Freud esclarece que, embora para quem observe um melancólico possa parecer que seu estado de não- agressividade corresponda ao alto padrão do superego que inibe sua atitude, o que na realidade acontece é o melancólico controlar excessivamente a agressividade que deveria ser dirigida para o exterior, deslocando essa energia para o ego, que, por identificação, se torna seu ideal de ego.
Vê-se que só aqui Freud pôde compreender os mecanismos apresentados em “Luto e melancolia”. A dificuldade de compreender economicamente o processo da melancolia se resolve com a introdução da estrutura do superego, inicialmente denominada ego ideal. A relação entre melancolia e o complexo de Édipo fica finalmente ratificada quando Freud aborda nesse texto a questão do medo da morte na melancolia:
O medo da morte na melancolia só admite uma explicação: que o próprio ego se abandona porque se sente odiado e perseguido pelo superego, ao invés de amado.
Para o ego, portanto, viver significa o mesmo que ser amado - ser amado pelo superego, que aqui, mais uma vez, aparece como representante do id. O superego preenche a mesma função de proteger e salvar que, em épocas anteriores, foi preenchida pelo pai e, posteriormente, pela Providência ou destino. (1923, p. 70)
Dois comentadores consultados abordam o temada aproximação entre depressão e o complexo de Édipo. Segundo Hassoun, a introdução da pulsão de morte e sua articulação com as pulsões eróticas deram a Freud “uma nova abordagem dessa afecção” (2002, p. 13), que deveria ser entendida “como um elemento estrutural do sujeito, marcando a impossibilidade de realizar o luto de um objeto” (ibid., p. 14). À medida que o conhecimento do mecanismo desse luto impossível tornou-se claro, também ficou esclarecido o mecanismo pulsional que está no princípio da destruição melancólica, isto é, a “intricação pulsional que liga a morte ao vivente” (ibid., p. 17). Essa posição de que “a morte está presente no vivente” não como representação, mas como pulsão, cuja intricação com as pulsões parciais eróticas supõe que o desejo, e o que o causa representa estruturalmente uma operação que se deduz da inscrição da pulsão de morte no ego. Dessa maneira, a melancolia para Freud é “uma doença do ego, no lugar mesmo onde nele se inscreve a pulsão de morte” (ibid., p. 17). Sulloway, na mesma linha de Hassoun, destaca que, embora Freud tenha percebido a importância da repressão do superego, nunca destituiu a primeira forma de repressão de seu lugar de destaque, bem como nunca alterou sua opinião sobre a preponderância da etiologia sexual para as neuroses (1992, p. 375).
Apresentada essa análise, é possível dizer que, após percorrer um complicado percurso, Freud finalmente consegue relacionar a melancolia aos seus preceitos teóricos fundamentais: a pulsão de morte e o complexo de Édipo. Como veremos no próximo capítulo, esses resultados teóricos da última fase de Freud a respeito da melancolia e depressão têm sido duramente criticados pelos pesquisadores mais recentes. Em contrapartida, os teóricos das relações objetais, em particular os que se afastaram da teorização freudiana, têm alcançado destaque para o estudo da depressão.
Winnicott foi um dos autores pós-freudianos (iniciou seus estudos por volta da década de 1920) que muito cedo questionou a validade de um constructo como a pulsão
de morte e a supremacia do complexo de Édipo. Para esse autor, o fato de Freud ter se dirigido tão completamente para o estudo das neuroses em detrimento dos psicóticos e depressivos – fixando seu trabalho ao Édipo ou período da pré-latência como uma pessoa inteira – está relacionado ao modo como ele fazia a escolha dos casos que atendia. Afirma que, no meio do “grande estoque psiquiátrico que incluía todos os loucos soltos e internados”, Freud aceitava os casos que teriam recebido “os cuidados adequados na primeira infância”, isto é, os psiconeuróticos (1955d [1954], p. 381). Winnicott entende que, por ter tido boas experiências infantis, Freud, em sua auto-análise, não percebeu que a maternagem era algo importante; ao contrário, tomou como “óbvia” a situação da maternagem inicial.
A ênfase nas ansiedades pertencentes aos relacionamentos interpessoais se deve, portanto, ao fato de Freud ter se auto-analisado como pessoa total e independente. Mesmo que mais tarde ele e outros psicanalistas tenham estudado a primeira infância em termos teóricos, postulando as fases de desenvolvimento pré-genital dos instintos e descrevendo os aspectos cada vez mais primitivos da história do indivíduo, esse trabalho “não frutificou” como podia, porque não se baseou no estudo de pacientes que precisavam regredir dentro da situação analítica (ibid., p. 382). Embora reconheça que a teoria freudiana precisaria ser revista e ampliada para poder ser aplicada à depressão e à psicose, Winnicott considera positivo o fato de Freud ter se interessado primeiramente pelos pacientes cuja regressão não era necessária, pois a teoria construída serviu de manual para os iniciados no tema.