"Assim que reconhecermos a unidade subjacente às estratégias sociais e apreendê-las como uma totalidade dinâmica, seremos capazes de perceber como podem ser artificiais as oposições usuais entre teoria e prática, entre métodos quantitativos e métodos qualitativos, entre o registro estatístico e a observação etnográfica, entre o entendimento das estruturas e a construção dos indivíduos. Essas alternativas não têm outra função senão fornecer uma justificativa para as abstrações ressonantes e vazias do teoreticismo e para as observações falsamente rigorosas do positivismo, ou, como as divisões entre economistas, antropólogos, historiadores e sociólogos, para legitimar os limites da competência: quero dizer que elas funcionam, de certo modo, como uma censura social, sujeita a nos impossibilitar de entender uma verdade que reside precisamente nas relações entre domínios da prática, nessas condições, arbitrariamente separados." (BOURDIEU e DE SAINT MARTIN, 1978, p. 7 apud WACQUANT, 1992, p. 27-28). [Grifos do autor]
Um objeto de pesquisa só pode ser definido e construído em função de uma problemática teórica que permita interrogar, de forma sistemática, os aspectos da realidade que são revelados ao pesquisador pela questão que lhes é formulada.
Na obra de Bourdieu, ao rigor analítico e formal dos conceitos ditos "operatórios", opõe-se o rigor sintético e real dos conceitos que recebem a designação de "sistêmicos" ou "relacionais" porque sua utilização pressupõe a referência permanente ao sistema completo de suas inter-relações. Por colocarmos uma ênfase demasiada no caráter operacional das definições, corremos o risco de considerar tipologias ou simples terminologias classificatórias como uma verdadeira teoria, deixando para a pesquisa posterior o trabalho fundamental de sistematização dos conceitos propostos, ou até mesmo, a confirmação da sua "fecundidade teórica" ou da sua capacidade explicativa (BOURDIEU, CHAMBOREDON e PASSERON, 2004). Ao privilegiar as "definições operacionais" em detrimento das exigências teóricas,
"a literatura metodológica dedicada às ciências sociais tende a sugerir que, para preparar seu futuro de disciplina científica, bastaria constituir uma provisão tão ampla quanto possível de termos 'operacionalmente definidos' e 'com utilização constante e unívoca', como se a formação dos conceitos
científicos pudesse estar separada da elaboração teórica." (HEMPEL, 1952, p. 47 apud BOURDIEU, CHAMBOREDON e PASSERON, 2004, p. 48).
Reconhece-se com razoável facilidade e frequência nos trabalhos acadêmicos que são produzidos - reflexos, decerto, de um embate tradicional nas ciências humanas e sociais sobre a possibilidade do conhecimento - que toda a observação ou experimentação implica sempre a formulação de hipóteses. A definição do procedimento científico como um diálogo entre hipótese e experiência pode, entretanto, se degradar quando insiste numa trajetória sequencial, serializada e compartimentalizada, perpetuando, assim, a dicotomia teoria/prática.
É necessário sempre lembrar que a teoria domina o trabalho experimental desde a sua concepção até as últimas análises e conclusões, numa relação dialética, constantemente permeada de dúvidas e contradições, ou ainda, que sem teoria é impossível elaborar um único instrumento de pesquisa ou interpretar um dado. Quando negligenciamos essas preliminares epistemológicas, ficamos vulneráveis à armadilha de tratar diferentemente o idêntico e de uma forma idêntica o diferente, comparar o incomparável e deixar de comparar o comparável, pelo simples fato de coletarmos dados, até mesmo os mais objetivos, aplicando esquemas classificatórios prontos (faixas etárias, de renda etc.) que implicam pressupostos teóricos e, por isso, deixam escapar uma informação que poderia ter sido apreendida por outra construção dos fatos (BOURDIEU, CHAMBOREDON e PASSERON, 2004).
A solução desta contradição se torna possível quando somos capazes de definir um "invólucro teórico" mais amplo, que conceba a análise não como ponto de chegada de uma teoria construída mas como instrumento para elaborações teóricas posteriores. Assim como o método, a "boa" teoria, elaborada de forma apropriada, não deve ser separada do trabalho de pesquisa que a alimenta, e a quem também orienta e estrutura continuamente. Do mesmo modo que reabilita a dimensão prática como um objeto de conhecimento, Bourdieu tenta restaurar o lado prático da teoria como uma atividade produtora de conhecimento (WACQUANT, 1992).
Bourdieu sustenta que toda a atividade de pesquisa é, simultaneamente, empírica (ao confrontar o mundo dos fenômenos observáveis) e teórica (na medida em que requer necessariamente hipóteses sobre a estrutura subjacente às relações que as observações empenham-se em capturar). Mesmo as operações mais simples e usuais - a escolha de uma escala de mensuração, uma decisão sobre critérios de codificação, a construção de um indicador, ou a inclusão de um ítem num questionário - envolvem opções teóricas, conscientes ou inconscientes, da mesma forma que os problemas conceituais mais abstratos não podem
ser totalmente clarificados sem um engajamento sistemático com a realidade empírica (WACQUANT, 1992).
Assim, devo dizer que a opção pelo referencial bourdieusiano neste trabalho não se limita à tentativa de aplicação dos conceitos centrais de sua teoria social no mundo das organizações, em particular, na empresa multinacional que está sendo investigada. Minha pretenção é buscar igualmente em seu método de pesquisa a inspiração para realizar um trabalho a um só tempo teórico e empírico, onde teoria e prática informam-se mútua e continuamente a partir de um "invólucro teórico" inicial, num esforço para localizar e explicar as relações sociais imanentes ao objeto de estudo deste trabalho, as confrarias, ele próprio fruto de um trabalho de construção teórica-empírica.