4. BÖLÜM
5.2. Örnek Bina Plan Şemasının Oluşturulması
"É bem conhecido que grupos não amam 'informantes', especialmente quando o transgressor ou traidor pode ter, talvez, a pretensão de compartilhar os valores mais elevados desses grupos. As mesmas pessoas que não hesitariam em exaltar o trabalho de objetivação como 'corajoso' ou 'lúcido', se ele é aplicado a grupos estranhos ou hostis, estarão propensas a questionar as credenciais da lucidez especial alegada por qualquer um que tente analisar seus próprios grupos. O aprendiz de feiticeiro que assume o risco de investigar a feitiçaria e seus fetiches em seu estado nativo, ao invés de partir para tentar
descobrir em climas tropicais os confortantes fascínios da magia exótica, deve esperar ver a violência que desencadeou virar-se contra si." (BOURDIEU, 1988a , p. 27-28).
Considerações iniciais
A etnografia envolve um esforço contínuo para situar fatos, eventos e conhecimentos num contexto mais amplo e significativo. Mais do que simplesmente um ato de produção de novas informações ou dados de pesquisa, a etnografia é a forma pela qual tais informações ou dados são transformados num formato escrito ou visual. Por essa razão, a etnografia pode ser vista como uma combinação de design de pesquisa, trabalho de campo e diversos outros métodos de investigação para produzir relatos, descrições, interpretações e representações da vida humana que sejam histórica, política e pessoalmente contextualizadas. Como a etnografia pode ser considerada tanto um processo como um produto de pesquisa, a vida do etnógrafo está imbricada em suas experiências de campo de tal forma que todas as suas interações envolvem, em maior ou menor grau, um juízo de valor, um posicionamento moral e ético. Na etnografia, a experiência da e pela prática guarda um significado especial, e o comportamento humano é simultaneamente produzido e informado por essa significância. Os etnógrafos mostram-se permanentemente travestidos: "outsiders usando roupas de insiders enquanto adquirem gradualmente sua linguagem e seus comportamentos" (TEDLOCK, 2000, p. 455).
De acordo com Cavedon (2003), Goulart e Carvalho (2005) e Vieira e Pereira (2005), a etnografia como estratégia de pesquisa pode ser caracterizada por:
i) Uma forte ênfase na exploração da natureza de um fenômeno social particular, buscando adquirir uma compreensão detalhada de suas circunstâncias específicas, sem preocupações de extrair dados para testes de hipóteses. ii) Trabalhar prioritariamente com dados não-estruturados, dados que não foram
submetidos a algum processo de codificação com base em um conjunto fechado de categorias analíticas.
iii) Concentrar-se numa análise sociocultural da unidade ou unidades investigadas, neste último caso, normalmente limitadas a um número pequeno de casos. A etnografia distingue-se de outras estratégias de pesquisa qualitativa pela
grande preocupação com aspectos não somente culturais e sociais mas também históricos do contexto onde o fenômeno de interesse do pesquisador está inserido.
iv) Analisar os dados por meio da interpretação explícita dos sentidos e das funções da ação humana: o ato de escrever sobre o que foi investigado é tão importante como a coleta e análise dos dados. Dessa forma, o observador assimila as categorias inconscientes que animam o universo cultural investigado, não eliminando, no entanto, o trabalho sistemático da coleta de dados, nem a interpretação e integração das diversas evidências empíricas. O intuito é recriar a totalidade vivida pelos participantes do grupo social envolvido, apreendida pela intuição do pesquisador.
Ao contrário do que ocorre em outras ciências, e mesmo ocasionalmente nas ciências sociais (na tradição positivista, em especial), que buscam de forma sistemática a isenção ou ausência do pesquisador na coleta e na análise dos dados como meio de garantir uma posição neutra e objetiva, condição essencial para legitimar sua cientificidade, o "jogo intrigante que a etnografia possibilita, faz com que o pesquisador ora se impregne totalmente do ponto de vista dos seus pesquisados, ora se afaste, de sorte a tornar possível a análise daquilo que foi levantado no campo" (CAVEDON, 2003, p. 145). Fatos e processos aos quais o pesquisador positivista dificilmente consegue ter acesso constituem parte do "dia-a-dia" com o qual a etnografia está irrevogavelmente atrelada. Nesse sentido, a estratégia de pesquisa etnográfica expande o universo de dados considerados importantes para coleta e análise. Por exemplo, o universo simbólico (o domínio dos significados, por assim dizer) é fundamental para a pesquisa etnográfica e ocupa uma parcela considerável de tempo do pesquisador, tanto na formulação teórica como no processo de coleta de dados. Esse universo simbólico se apresenta bastante problemático para o pesquisador positivista, seja no plano teórico ou no plano empírico, sendo, assim, essencialmente ignorado.
Na análise da realidade social, apesar de, em termos do se que costuma chamar de "senso comum", as pessoas possuírem apenas um conhecimento mais ou menos individual sobre o mundo, um conhecimento fragmentário, restrito, frequentemente inconsistente e parcialmente indefinido, esse mesmo conhecimento pode ser considerado suficiente para que haja uma aquiescência das pessoas com sua realidade social (MASO, 2001). Isso ocorre porque, segundo Schutz (apud MASO, 2001, p.137):
"... o mundo social é, desde o princípio, um mundo intersubjetivo e porque ... nosso conhecimento sobre ele é, em diversas formas, socializado. Alem disso, o mundo social é experimentado desde o princípio como um mundo significativo ... Nós normalmente sabemos o que o outro faz (na sua situação biograficamente determinada), por quais razões ele faz isso, porque ele faz isso nesse momento específico e nessas circunstâncias particulares."
Nesse sentido, nós construímos os motivos, objetivos, atitudes e personalidades típicos dos "outros" (dos quais suas condutas objetivas, reais, são apenas uma instância ou exemplo) de uma forma tal que torna essa construção suficiente para diversos propósitos empíricos. O cientista social deve proceder no sentido de propor, em variadas situações, conceitos capazes de apreender os padrões típicos de ação que se revelam de forma interrelacionada na realidade social, exercidos por atores típicos que também se encontram interrelacionados. Ele forma esse construtos objetivos, esses "tipos ideais", através do trabalho de construção dos construtos que emergem a partir do senso comum. Esses construtos de "segunda ordem" devem ser verificados para atestar sua validade (o princípio da consistência) e sua compatibilidade com os conceitos de "primeira ordem" que a vida cotidiana espontâneamente nos revela (o princípio da adequação e relevância) (MASO, 2001). Nesse processo, a etnografia traz para o primeiro plano da atividade de pesquisa, o "lugar" da epistemologia e o "lugar" do significado dos dados e da própria investigação, expressos na maneira como o pesquisador seleciona os dados com os quais deseja trabalhar, como delimita seu contexto e visualiza os relacionamentos entre os dados e os propósitos para os quais esses dados foram coletados, e, sobretudo, na significância de suas leituras e análises, e em como testar esse significado cientificamente.
Uma vez que o objetivo maior da etnografia como estratégia de pesquisa é produzir um entendimento profundo da vida social, e não somente uma visão parcial e datada de comportamentos ou ações, a etnografia tem, por definição, uma perspectiva temporal tipicamente longitudinal, com eventuais cortes seccionais em momentos que se mostram mais reveladores e significativos para o pesquisador. Quando se busca categorizá-la quanto ao nível de conhecimento, a etnografia pode ser vista tanto como um método descritivo, porque pretende descrever com profundidade fatos e aspectos do fenômeno que está sendo interrogado, quanto como um método interpretativo, na medida em que o pesquisador aprecia esse mesmo fenômeno à luz de seus pressupostos teóricos, de seus pontos de vista e de sua "visão de mundo", conferindo-lhe significados particulares (VIEIRA e PEREIRA, 2005). A
interpretação é o objetivo prioritário da etnografia porque os significados, seguindo a perspectiva socioconstrucionista, são entendidos como uma derivação do trabalho de interpretação: a explicação etnográfica tem significado somente se ela for plausível diante do nosso próprio conjunto de premissas, implícitas ou explícitas, acerca dos processos sociais.
Etnografia em organizações
Quando aplicado ao universo das organizações, a etnografia pode se tornar uma poderosa ferramenta para revelar e explicar as formas pelas quais as pessoas, em cenários particulares no local de trabalho, compreendem e interagem com as situações do dia-a-dia. O objetivo da etnografia nesses casos em geral, é decodificar, traduzir e interpretar os comportamentos e os sistemas de significados inculcados nos atores que ocupam, criam e reproduzem o sistema social que está sendo analisado.
A etnografia em organizações preocupa-se, predominantemente, com aquelas relações sociais que se localizam e se fundem em torno das atividades desempenhadas nas organizações, tipicamente voltadas para o atingimento de objetivos conforme o imperativo da eficiência característico das organizações modernas. As regras, estratégias e significados que operam sob o disfarce dessas posturas "corporativas" aparentam ser diferentes daquelas que fazem parte do cotidiano da vida social, da vida "comum". Contudo, uma análise mais aprofundada e cuidadosa da realidade nas organizações nos revela uma situação oposta: ambas as posturas estão propensas a serem bastante congruentes entre si. Vieira e Pereira (2005) expressam opinião semelhante quando afirmam que as contribuições da etnografia para o estudo das organizações são evidentes, mas
"... é necessário salientar que algumas das interações sociais que ocorrem no local de trabalho têm sua origem no universo simbólico compartilhado pelos indivíduos e grupos em outras esferas de sua vida, como a casa, a família, os círculos de amigos, os locais que frequentam no convívio social etc." (p. 229).
É certo que as pessoas interagem entre si nas organizações conforme esse "subconjunto de significados e ações" durante o exercício de uma atividade especializada. No entanto, no âmbito das complexas sociedades de hoje, essa postura tornou-se formalizada e legitimada, elevada a um papel central na ordem social: nós nos percebemos atualmente como parte de uma grande "sociedade organizacional".
Ainda que não seja objetivo deste trabalho oferecer uma definição específica de "regras", a centralidade desse conceito pode ser abordada numa perspectiva geral, não determinística. Em linha com o pensamento de Wittgenstein - a quem Bourdieu reconhece ter sempre recorrido nos momentos mais difíceis, "quando se trata de questionar coisas tão evidentes como 'obedecer a uma regra' ... ou quando se trata de dizer coisas tão simples (e, ao mesmo tempo, quase inefáveis) como praticar um prática" (BOURDIEU, 2004b, p.21) - o significado de uma regra somente poderá ser entendido quando obtido dentro de um contexto, onde regras são consultadas para interpretar aquilo que é percebido como ação intencional: ao invés de predizer comportamentos, a regra é empregada, na verdade, como um instrumento de interpretação do qual o observador faz uso para tornar inteligível e coerente os comportamentos com os quais se depara.
Existe, aqui, uma postura fundamentalmente reflexiva. Membros de uma sistema social produzem regras através dos mesmos mecanismos dos quais lançam mão para definir o significado e aplicabilidade dessas regras: como numa "via de mão-dupla", da mesma forma que uma situação é consultada ou considerada para construir o significado de uma regra, as regras são utilizadas para definir o significado de uma ação. Emerge daí, a importância fundamental da noção de habitus para o entendimento que se pretende aqui para o conceito de "regras", o qual está intimamente ligado à analogia do comportamento social como um tipo de "jogo". Nessa perspectiva, as regras existem para sugerir estratégias, as quais, por sua vez, inspiram ações que sejam efetivamente gratificantes para o jogador, pour le sport (BOURDIEU e WACQUANT, 1992).
Certamente, um interpretação etnográfica das formas de comportamento e de pensamento no âmbito geral de uma sociedade será diferente de uma descrição dessas relações quando circunscritas ao espaço de uma organização. Mesmo quando as organizações são complexas, um traço característico das organizações na modernidade, elas não apresentam a mesma complexidade das sociedades pelo fato de que as organizações formais são, ao mesmo tempo, parciais (isto é, são "recortes" ou "subconjuntos" da sociedade) e especializadas (orientadas para o atingimento de objetivos específicos): todos os relacionamentos observáveis são, ao menos a princípio, racionalizados em termos do produto ou produtos finais que representam a razão de existir da organização; nessas organizações todos possuem um papel, um status formal, explícito, frequentemente definido através dos documentos oficiais da organização. As pessoas estariam imersas, portanto, em interações mútuas com base nesses papéis formais, as quais seriam supostamente diferentes de como essas mesmas pessoas se comportariam em situações completamente distintas e separadas do
espaço organizacional: é como se a consciência da vida social "cotidiana" fosse colocada num estado de "suspensão" ou "supressão" na medida em que o loci da interação entre as pessoas se desloca para o espaço organizacional. No entanto, quanto mais as pessoas interagem entre si no interior desse espaço organizado e formalizado, maior é a influência do mundo social "exterior", que se infiltra de forma silenciosa mas poderosa nas relações sociais dentro das organizações.
A etnografia em organizações permite revelar o quanto é particularmente dinâmica essa dicotomia "interior"/"exterior", repleta de tensões de natureza sexual, religiosa, étnica, social e estética, que talvez possa ser melhor concebida como um esforço permanente daqueles que controlam as organizações para acentuar e enfatizar as experiências e significados representativos de suas culturas ou de seus extratos sociais. Visto que as organizações são normalmente centralizadas em torno de interesses de um pequeno segmento de seus membros, qualquer discussão sobre cultura organizacional deve-se ocupar obrigatoriamente da análise das relações de poder e dominação, explícitas ou implícitas, que permeiam as organizações.
Ao engajarem-se nos mesmos processos sociais, confrontando as mesmas estruturas organizacionais, tecnológicas e administrativas, e estando, assim, imbricados nas mesmas relações de poder e controle, pesquisadores que adotam a etnografia como estratégia de pesquisa conseguem ter acesso e/ou adquirir alguns tipos de dados que, devido à sua natureza subjetiva, dificilmente estariam disponíveis através de outros modos de investigação, como, por exemplo, através de questionários ("surveys") ou entrevistando indivíduos fora de seu contexto habitual. Segundo Smith (2001, p. 229):
"... um dos objetivos mais importantes da pesquisa em ciências sociais sobre o trabalho deve ser não apenas descrever mas explicar e determinar como as organizações de trabalho modernas modificam as estruturas de oportunidade, de que maneira podem servir como veículos de desigualdade, e como transformam a natureza do poder e do controle."
Se ficarmos restritos a conversas com trabalhadores no final de um dia de trabalho, ou com gerentes e diretores cujos relatos sobre as causas e consequências de determinadas situações ou arranjos no ambiente de trabalho serão inevitavelmente seletivos, corremos o risco de obter uma visão parcial do que "esta lá" efetivamente, daquilo que "transpira" nas complexas relações sociais que ocorrem no interior das organizações.