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O mais célebre Oráculo do período clássico da história grega é o santuário do deus Apolo em Delfos. Sua proeminência vai até o período Helenístico, no qual decai bruscamente até o inicio do período imperial.

Delfos fica 160 quilômetros a noroeste de Atenas, no sopé do Parnaso, numa condição rural muitas vezes louvada. De acordo com a pré-história mítica, havia em Delfos um santuário a deusa da Terra, que era protegido por uma grande serpente165. O nome desta serpente era Píton que habitava numa fissura da terra. Apolo que nasceu na Ilha de Delos, em suas peregrinações chega a Delfos, onde resolve ficar (Hino Homérico 3,287 s: “Aqui pretendo construir o mais belo templo; um lugar de vaticínio para os homens”)166. Apolo luta com o dragão Píton, mata-o e toma posse da área. O mito mostra como os lugares dos oráculos remetem ao antigo culto da Terra, e se localizavam em cavernas ou fissuras na terra.

Originalmente, dizia-se, o deus falava aqui apenas uma vez por ano, durante a festa da sua chegada, na primavera. Porém, a fama do oráculo fez com que houvesse “serviços” para oferecer o ano todo167. No santuário havia três Pítias simultaneamente. Essa vidente de nome Pítia precisava ser uma virgem de Delfos, tinha que estar sempre a serviço do deus Apolo. Antes de comunicar o seu oráculo, a Pítia devia jejuar, se purificar banhando-se na fonte de Castália, jogar farinha sacrificial e folhas de louro no fogo da lareira de Héstia, que queimava no salão principal do santuário168. As pessoas

165KlAUCK, Hans-Josef. Entorno religioso do cristianismo primitivo I - Religião civil e religião

doméstica, cultos de mistérios, crença popular. São Paulo: Loyola, 2011, p.199.

166

Ibid. p.199.

167BURKERT, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 236.

168

KlAUCK, Hans-Josef. Entorno religioso do cristianismo primitivo I - Religião civil e religião

ofereciam sacrifícios antes de consultar a Pítia, então, a ordem da consulta era sorteada, no qual, Cidades e pessoas proeminentes tinham o direito da precedência.

A Pítia além de ser uma sacerdotisa que estava sobre o tripé de Apolo (que representava o trono divino) entrava em transe, e neste estado, proclamava seus oráculos em uma mistura de um grego incoerente e truncado e uma vocalização ininteligível, afirma Forbes169. Suas afirmações eram interpretadas pelos προφήτης, que declaravam ao inquiridor em forma oracular hexamétrica, e, se solicitado, fornecia uma cópia escrita para ser levada para casa.

Parke e Wormell170 falam que a Pítia, antes do interrogador entrar, ela já estava sobre a influência de Apolo, em um estado alterado de transe ou êxtase. O profeta fazia a pergunta do interrogador por escrito ou verbalmente. A resposta da Pítia variava em grau de coerência e inteligibilidade. Para Forbes171 esta evidencia não indica que a sacerdotisa Pítia pronunciava seus oráculos em uma forma semelhante à Glossolalia. Entretanto, devemos considerar que mesmo não sendo a mesma coisa, a Pítia em um momento de êxtase religioso podia pronunciar seus oráculos em um grego ininteligível que caracterizaria ser uma forma de glossolalia.

Em relação ao “entusiasmo” da Pítia, Aune172 não concorda que ela era possuída por demônios. O transe de possessão é um estado em que um espírito alheio invade a personalidade do intermediário humano. Quando os oráculos são apresentados como fala direta de uma divindade oracular, o estado psico-fisiológico do transe de possessão é pressuposto. Uma visão popular muito antiga da origem das habilidades da Pítia era a de que um deus ou demônio tomava posse de seu órgão da fala para fazer respostas oraculares. Entretanto, o mundo dos antigos era povoado por multidões de deuses e demônios, e acreditava-se que seres sobrenaturais exerciam influências sobre os seres humanos de várias maneiras, como por exemplo, através de visões e transes. No entanto, raramente verificamos nos escritores gregos pré-cristãos, a crença que demônios podiam entrar em profetas e adivinhos e falar através de seus órgãos da fala. A noção de que a Pítia era possuída por demônio e depois podia pronunciar os oráculos

169

FORBES, Christopher. Prophecy and Inspired Speech In Early Christianity and its Hellenistic

Environment. Massachusetts: Hendrickson Publishers, Inc., 1997, p.103.

170

Ibid. p.107.

171

Ibid. p.107. 172

AUNE, David E. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterranean World. Michigan: Grand Rapids, 1983. p. 33.

de Apolo é afirmada primeiramente por Plutarco173, que, na base da racionalidade rejeitou a sacerdotisa Pítia, afirmando que ela era indigna de receber a comunicação divina.

Segundo Forbes174 é importante distinguir claramente entre o tipo de balbuciar incoerente, um fenômeno que é ininteligível ao nível linguístico, e as afirmações oraculares obscuras da Pítia. Para o autor, a obscuridade de Delfos não é uma importância de ininteligibilidade linguística, mas simplesmente que alguns oráculos eram formulados em termos enigmáticos no nível da alusão literária e da metáfora.

Como exemplo de um oráculo de Pítia tem a descrição proveniente de Farsália, o poema épico sobre a guerra civil do autor romano Lucano, do século I d.C. Appius, encarregado por Pompeu de governar a Grécia, quer saber detalhes sobre a guerra em curso. Então, ele se dirige ao oráculo de Delfos e pergunta:

Pois se deus entra num seio mortal, uma morte prematura é a punição ou recompensa?175

O sacerdote a pedido deste romano solicita que a primeira virgem assuma o papel de Pítia. Esta ao tentar enganar o interrogador finge um estado de transe ao pronunciar palavras confusas, balbuciadas, mas sem êxito. O sacerdote exige que ela fale com a própria voz:

Em êxtase ela cambaleou pela gruta, jogando a cabeça para um lado e para outro, só então o delírio flui pelos seus lábios; ela geme alto e sua respiração se torna ofegante176.

Segundo Forbes, a distinção entre glossolalia e fala oracular no mundo Helenístico geralmente pode ser muito nítido. Vamos analisar um vocabulário bem reconhecido para descrever imprecisões oraculares. Inclui termos como: anfíbolos,

anfílogos, upónoia, asáfeia, e skia177. Para o autor178, estes termos nunca são usados pelos escritores cristãos para descrever fenômeno de fala inspirada dentro de suas

173

Ibid. p.33.

174FORBES, Christopher. Prophecy and Inspired Speech In Early Christianity and its Hellenistic

Environment. Massachusetts: Hendrickson Publishers, Inc., 1997, p.109.

175

KlAUCK, Hans-Josef. Entorno religioso do cristianismo primitivo I - Religião civil e religião

doméstica, cultos de mistérios, crença popular. São Paulo: Loyola, 2011, p.201.

176 Ibid. p.201. 177 Ibid. p.113. 178 Ibid. p.114.

comunidades. A ininteligibilidade da glossolalia nunca é descrita, conclui o autor. Mas, pelo contrário, os escritores cristãos descreveram a ininteligibilidade da glossolalia como uma linguagem desconhecida ou como a metáfora de instrumentos musicais.

Uma linguagem ininteligível com palavras pronunciadas de forma balbuciada é característica de alguém em um estado de êxtase no ambiente religioso, como é o caso da sacerdotisa Pítia, entretanto para estabelecer um paralelo com a glossolalia cristã é preciso verificar os elementos que nos fornece esta afirmação ou não, no qual será feito ao longo da pesquisa, mas ao analisar a afirmação de Forbes, é muito simplista dizer que pelo fato das palavras ininteligíveis da glossolalia cristã não ser descritas em algum manuscrito, significa que não tem paralelo com a fala oracular grega que em alguns casos é registrada. Mesmo que a ininteligibilidade da glossolalia cristã foi comparada a metáfora de instrumentos musicais sem harmonia, isto indica que a fala é ininteligível para quem ouve. Sendo assim, não precisando registrar esta fala sem sentido na forma escrita.