As inúmeras possíveis perspectivas teóricas disponíveis para abordar a questão da inclusão e da exclusão social envolvem os mais variados campos de conhecimento: ciência política, economia, educação, psicologia, sociologia, entre outras.
Recentemente, inclusão e exclusão social tornaram-se termos, recorrentemente, usados pela mídia, pelos governos e por organizações não governamentais (ONG‟s) para tratar da realidade socioeconômica brasileira e para descrever as desigualdades sociais que a são características.
Segundo Oliveira (1997), a problemática da exclusão há tempos está presente nas discussões sobre a realidade social brasileira e adquiriu os mais diversos usos no decorrer do tempo. O autor lembra, ainda, que a problemática da exclusão social não é exclusividade dos países periféricos como o Brasil, sendo um problema que atinge também os países ricos como a França, por exemplo. É ainda apontado que o termo vem sendo usado
desde a década de 1970 por autores como Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, que já apontavam para um padrão de sistema social excludente no clássico Dependência e desenvolvimento na América
Latina (1975) e que, a partir da década de 1980, ganhou destaque nos
textos que analisavam criticamente o processo de acumulação conhecido como o “milagre brasileiro”, considerado excludente por alguns autores. Oliveira chama a atenção, ainda, para a natureza epistemológica do uso do termo exclusão e a sua aplicação generalizada no cenário nacional e internacional, gerando confusão entre diversas designações diferentes (como no caso das minorias serem chamadas de excluídos) e a diluição retórica da especificidade do conceito.
No início do anos 1980, os “excluídos” eram considerados os resíduos da sociedade industrial, aqueles que não tinham sido absorvido pelo emprego e que viviam à “margem” da sociedade. O conceito de marginalização, no entanto, estaria limitado pois “o crescente aumento da pobreza, em vista do desemprego estrutural e tecnológico, teria obstruído os poros que permeabilizavam a relação sistema/margens” (Ribeiro, 1999, p. 37), invalidando o conceito referido a esta relação. Desta forma, já em meados dos anos 1980, os excluídos passam a ser considerados como resultado de um problema estrutural do mercado de trabalho, ou seja, o desemprego estrutural. Neste sentido, Oliveira distingue dois traços distintos do uso do termo exclusão: primeiro referindo-se ao desemprego estrutural, tornando os “excluídos” desnecessários economicamente e, segundo,
referindo-se os “excluídos” que se tornaram não somente economicamente mas, sobretudo, socialmente desnecessários pois levam “uma vida considerada subumana em relação aos padrões normais de sociabilidade” (OLIVEIRA, 1997, p. 51) e “passam a ser percebidos como indivíduos socialmente ameaçantes e, por isso mesmo, passíveis de serem eliminados” (NASCIMENTO apud OLIVEIRA, 1997, p. 51). Diante deste quadro, o autor questiona a própria existência do conceito de exclusão do ponto de vista epistemológico pois este estaria, na sua conceituação e uso indiscriminado, adotando uma perspectiva dualista – de incluídos e excluídos - que remete à orientação teórica dos anos 1970, onde estas duas categorias pertenceriam a esferas sociais diferentes e não coincidentes (OLIVEIRA, 1997).
CASTEL (1998) considera que o uso impreciso do conceito exclusão oculta e, ao mesmo tempo, traduz o estado atual da questão social, pois se detém nos efeitos mais visíveis e imediatos da crise, reduzindo-a, erroneamente, a aspectos econômicos pontuais e não a uma situação de “ausência de participação de qualquer atividade produtiva e o isolamento relacional” (p. 24) que produzem a exclusão, sendo esta não apenas de natureza econômica mas determinada pelas “relações existentes entre precariedade econômica e instabilidade social” (p.25). O autor emprega o termo "desfiliação" que, segundo seu entendimento, traduz com mais fidelidade os diferentes processos de rupturas em relação a estados de equilíbrio anteriores, que poderiam ser mais ou menos estáveis. CASTEL afirma que "Falar em termos de exclusão é rotular com uma qualificação
puramente negativa que designa a falta, sem dizer no que ela consiste nem de onde provém" e que, no lugar de se analisar processos e trajetórias diferenciadas que levaram à desfiliação, há o risco de se cair no discurso da exclusão, que "de tanto repetir a ladainha da ausência, oculta-se a necessidade de analisar positivamente no que consiste a ausência" (CASTEL, 2000, p. 21)
Analisando a questão entre exclusão social e econômica, o sociólogo José de Souza Martins considera que não existe, de fato, exclusão total uma vez que esta implicaria em indivíduos completamente dissociados da realidade social. O que ocorre é que a sociedade atual é uma sociedade “includente do ponto de vista econômico e excludente do ponto de vista social, moral e até político” (MARTINS, 2003, p. 34). Os considerados “excluídos” não estão, assim, completamente à parte da sociedade pois encontram-se, ainda que precariamente, incluídos economicamente na medida que fazem parte do contingente que realizam alguma atividade econômica para sobreviver. Mesmo entre os mais destituídos, não se pode afirmar que a maioria viva exclusivamente das redes de proteção social pois existe grande porcentagem de ocorrência de empregos precários, tais como os catadores de materiais recicláveis e os que recebem por dia de trabalho, ambos sem nenhum vinculo empregatício. Neste sentido, Martins afirma que “Vocês chamam de exclusão aquilo que constitui o conjunto das dificuldades, dos modos e dos problemas de uma inclusão precária e instável, marginal. A inclusão daqueles que estão sendo alcançados pela
nova desigualdade social produzida pelas grandes transformações econômicas e para os quais não há senão, na sociedade, lugares residuais” (MARTINS, 2003, p. 26). Considerando-se esta abordagem teórica, o conceito de exclusão torna-se, segundo o autor, ”inconceitual‟, ou seja, é “impróprio e distorce o próprio problema que pretende explicar” (MARTINS, 2003, p. 27) na medida em que tende a simplificar um fenômeno social muito mais complexo. A questão da inclusão e da exclusão social deve, pois, ser entendida dentro da própria lógica capitalista, que exclui e inclui num movimento dialético constante, e não como um fenômeno recente na história. Se considerarmos que, no decorrer da história, sempre existiram grupos excluídos (como os camponeses expulsos do campo) e incluídos novamente (camponeses absolvidos pela indústria), uma outra perspectiva pode ser lançada a um problema que não é recente, mas que só recentemente tornou-se visível. A visibilidade dos excluídos passou a ser notada quando estes não mais conseguiam incluir-se no sistema capitalista com a mesma rapidez que outrora ou, o mais grave, se o conseguem é de maneira precária ou parcial (como mencionado, conseguem incluir-se economicamente mas não socialmente).
O termo processos de exclusão é também usado pois entende-se que este implica num entendimento que considera “processos sociais contemporâneos, de caráter mais amplo e permanente, que vão além da perda de emprego para tornar-se um „modo de vida‟” (RIBEIRO, 1999, p. 41). O uso deste termo permite ainda abordar a questão da exclusão social
não como algo estático, no qual os excluídos estariam permanentemente relegados ao seu lugar na margem da sociedade, mas como um fenômeno dinâmico, característico da lógica capitalista.
1.4.2 A Relação Bolsa Família e Inclusão Social como