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Na obra de Osório Cesar intitulada “A expressão artística dos alienados” (1929) a estética da arte infantil é comparada à dos desenhos primitivos. O autor afirma que essas obras são em grande parte simples e desprovidas de fantasia (Cesar, 1929, p. 8). A criação artística das crianças nos primeiros anos de vida é fruto da percepção instintiva, da manifestação do inconsciente. A criança já se diverte em representar traços de pessoas e animais de estimação sem ainda ter a capacidade de classifica-los simbolicamente.

As expressões artísticas infantis seriam, então, resultado dos seus afetos com o mundo exterior e com os corpos mais próximos (mãe, pai, irmãos, amigos etc.). Trata-se de uma arte primitiva por não ter ainda sido impregnada pela linguagem em toda sua complexidade. A dificuldade em lidar com os códigos culturais, seja entre as crianças ou entre pessoas com distúrbios mentais, produzem obras artísticas que merecem reflexão.

Ao analisar pacientes esquizofrênicos, Leo Navratil (1972) observa que há diferenças entre a noção de talento e força criadora, sendo a primeira uma qualidade mimética, ou seja, baseada em imitação. Pacientes em crise de psicose esquizofrênica buscam habilidades criadoras como forma de expressão de afetos.

Durante muito tempo se tendeu a considerar a esquizofrenia como um “processo de embrutecimento” consequência de uma enfermidade orgânica do cérebro (dementia praecox). Ao observar-se que as funções intelectuais do esquizofrênico não se perdiam, creu-se que a dolência se devia a um “isolamento afetivo”, termo destinado a descrever uma certa destruição organicamente condicionada da zona afetiva. Atualmente se duvida também do “defeito afetivo” desses enfermos. Assim, Bleuler opina que o pensamento dos esquizofrênicos está dominado mais intensamente pelos afetos do que o das pessoas sãs. Supõe que com a enfermidade os afetos não se destroem, mas que se alteram funcionalmente ou que atuam obstaculizados, algo assim como o estupor sem afetos que pode dominar uma criança transportada repentinamente a um ambiente estranho (Navratil, 1972, p. 26-27)34.

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Durante mucho tempo se tendió a considerar la esquizofrenia como un “proceso de embrutecimiento” consecuencia de una enfermedad orgánica del cerebro (“dementia praecox”). Al observarse que las funciones intelectuales del esquizofrénico no se pierden, se creyó que la dolencia se debía a um “aislamiento afectivo”, término destinado a describir una cierta destrucción orgánicamente condicionada de la zona afectiva. Actualmente se duda también del “defecto afectivo” de estos enfermos. Así, Bleuler opina que el pensamiento de los esquizofrénicos está dominado más intensamente por los afectos que el de las personas sanas. Supone que con la enfermedad los afectos no se destruyen, sino que se alteran funcionalmente o que actúan obstaculizados, “algo así como el estupor sin afectos que puede dominar a un niño trasladado repentinamente a un ambiente extraño”.

Se um aparente bloqueio afetivo dos esquizofrênicos pode funcionar como estratégia de proteção, a arte se apresenta como meio de expressão dessa afetividade reprimida. Mais uma vez estamos diante da criação artística como uma forma de relação entre o mundo dos sonhos com o mundo dos códigos. Para analisar os desenhos de seus pacientes, Navratil traz o conceito do maneirismo, um estilo35 aplicado por artistas

contemporâneos ao Renascimento na Itália do século XVI. Para o autor, a arte maneirista expressa formas humanas fora do padrão estabelecido pela regras da época, evocando formas tortuosas e grotescas.

A fronteira entre sonho e realidade não é clara, os temas dos quadros se convertem em “sonhos pintados”. O “sorriso enigmático” se converte na forma de expressão que domina tudo. Juntam-se de um modo fantástico objetos que não harmonizam (grotesco, surrealismo) (Navratil, 1972, p.32-33)36.

O estilo se caracteriza pela mistura de cores, pelos contrastes entre luz e sombra, entre formas que não se relacionam. O enigmático e o desarmônico presente nas obras maneiristas aponta para as tensões entre o mundo dos sonhos, dos sentidos e o mundo da razão, este muito valorizado na Europa renascentista.

A cara como máscara, impenetrável, enigmática, corresponde ao labirinto como alegoria do que não se adivinha. Em contraste com isso, certas manifestações da representação maneirista são particularmente abertas. A penetração intelectual recebe a prioridade ante a manifestação dos sentidos (Navratil, 1972, p.33)37.

O artista do maneirismo é, portanto, alguém que busca uma beleza rebuscada e contraditória, alheio ao formalismo. “O homem do maneirismo, que tem medo do espontâneo e que ama a escuridão, orgulha-se pelo fato de descobrir o sensível através de metáforas abstrusas e se esforça por captar o fantástico (meraviglia), graças a uma linguagem sumamente rebuscada” (Hocke, 1974, p.17).

Navratil relaciona, portanto, o estilo maneirista com a expressão artística dos seus pacientes esquizofrênicos. O autor consegue traçar um estilo artístico entre os

35 O termo “estilo” é proposto por John Shearman (1978) evocando o próprio sentido da palavra

“maniera” em italiano. O autor argumenta que o maneirismo é confundido com um movimento como outros ocorridos nos séculos XIX e XX (1978, p.14), devido ao seu sufixo “ismo”. Preferiu-se, portanto, tratar o maneirismo nesta pesquisa como um estilo e não um movimento artístico.

36La frontera entre sueño y realidad se desdibuja, los temas de los cuadros se convierten em “sueños pintados”. La “mueca enigmática” se convierte en la forma de expresión que lo domina todo. Se juntan de un modo fantástico objetos que no armonizan (grotesco, surrealismo).

37La cara tipo máscara, impenetrable, enigmática, corresponde al laberinto como alegoría de lo que no se adivina. En contraste con esto, ciertas manifestaciones de la representación manierista son particularmente diáfanas. La penetración intelectual recibe la prioridad ante la manifestación de los sentidos.

esquizofrênicos, provando através de seus desenhos que o essas pessoas estão muito mais conectadas ao nosso universo cultural do que imaginávamos. Se a arte é constituída historicamente, através das relações com o meio social que a engloba em diversas épocas, a manifestação artística dos esquizofrênicos – assim como a das crianças – se desenvolve independentemente do encadeamento de tempo.

Uma característica essencial da arte é o aspecto histórico-sociológico. Não obstante, também há arte fora da história. A ela pertencem as produções originais das crianças, os inocentes e os esquizofrênicos. Sempre que se quer empreender algo novo na arte, os artistas dirigem o olhar a essas fontes do original e criador38 (Navratil, 1972, p.175).

Desta forma, a arte infantil seria vista como uma origem das expressões artísticas; criação essencialmente sensorial, destacada das relações histórico-culturais. Levando esse pensamento para as produções radiofônicas, entende-se que os programas infantis, ou a expressão infantil nas ondas radiofônicas, é uma oportunidade de retorno às origens do ouvir. Se as crianças produzem elas mesmas os sons dos anjos, dos fantasmas, das bailarinas, dos piratas, elas estão nos oferecendo novas possibilidades estéticas que não deveriam ser renegadas ao plano de fundo das verbalizações adultas.

Por enquanto o que se apresenta como alternativa para programação infantil no rádio são produções culturais que valorizam o estímulo à imaginação a partir do som, mas com resultados (ou produtos) imagéticos. A seguir será demonstrado um exemplo de programa que estimula a criatividade da criança na relação entre os sons escutados e os desenhos que são produzidos a partir desses sons. O estilo visual que se produz é, portanto, resultado dos jogos sonoros que foram experimentados em sala de aula, lado- a-lado com colegas de sala e professores.