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a) Rádio Maluca

Aos sábados, próximo à hora do almoço, o auditório da Rádio Nacional, espaço que viveu seu auge nos anos 1950, é tomado por crianças de colo a adolescentes que, ao lado dos pais, ocupam as cadeiras azuis do teatro. No palco, o cenário é composto à frente da cortina de veludo azul e do painel verde onde repousam em letras prateadas as palavras “Rádio Nacional”, um dos poucos elementos remanescentes da configuração original do auditório. Uma colcha de retalhos cobre a beirada do palco, enquanto à direita se encontra uma mesa, coberta pela mesma colcha, repleta de brinquedos, como buzinas de ar, tambores, cornetas, pequenos atabaques de madeira, chocalhos. Atrás da mesa, uma armação de metal serve de suporte a outros objetos, como canecas, pratos de percussão, uma frigideira e uma chupeta gigante, todos à espera do golpe que fará o ar vibrar até os potentes microfones. No centro do palco fica o microfone principal; em poucos minutos lá estará o protagonista dessa jornada lúdica. Às onze horas todos ouvem atentos às caixas de som, que espalham as vozes do boletim de notícias pelo teatro. Não sabemos onde eles estão. Aquele espaço só pensa em brincadeira. Após a vinheta da Rádio MEC, ouve-se a abertura do programa:

Do Auditório da Nacional, ou de um buraco de rato, talvez. Entrando pelo fio de um microfone, chegando de mansinho, pelos fundos do seu rádio. Está entrando no ar, para confundir a sua cuca, a Rádio Maluca!

Na sequência ouve-se a música de abertura do programa:

Passa o rádio tocando, vem no rádio tocar / traz o peito da vaca, que o bebê quer mamar. / Quem não mamou não demora a berrar / Salve a Rádio Maluca que acabou de chegar. /

Os cachorros, papagaios, mexem as roupas no varal / Escondem frutas, melancias, melodias no cordão. / E o rádio “Heya”!, grita “Heya!”, emoção. / Temos artistas, divertindo, colorindo a multidão. E o mundo “Heya!”, pinta “Heya!”, coração. /

Passa o rádio tocando, vem no rádio tocar / traz o peito da vaca, que o Dedé quer mamar. / Quem não mamou não demora a berrar / Salve a Rádio Maluca que acabou de chegar (Zezuca, s.d.).

Ao entrar pelo fio do microfone e pelo fundo do rádio, os atores do programa estão convidando a criança a participar como extensão do auditório da Rádio Nacional. O programa chega para confundir a cuca, provocar a criança em suas vontades, gostos, fantasias, sensações. Segundo Maturana e Verden-Zoller as relações humanas se dão no “espaço relacional do conversar” (2004, p. 09). Também se apropriando dos estudos da etologia, os autores afirmam que as relações se dão como fenômeno biológico, através de fluxos de ordens comportamentais, os quais denominarão “linguajear”. Contudo, esse fluxo é submetido a ações de cunho emocional, que entrelaça as ações do linguajear, muda seus cursos. A esse entrelaçamento os autores denominam “conversar”.

Figura 2 - Performance de Mariano e Zé Zezuca

Confundir a cuca, portanto, é uma ação de emocionar, mudando o fluxo codificado da linguagem. A Rádio Maluca se presta a suspender a criança de seu espaço lingual tradicional, para que ela viaje pelos buraquinhos do alto-falante em uma teia de provocações emocionais.

A partir desse momento, a Rádio MEC AM e a Rádio Nacional são extensões de toda performance experimentada no auditório. As crianças são conduzidas pelo protagonista Zé Zezuca que, após as saudações, lança a pergunta: “vocês sabem quem eu sou?”:

Eu sou aquele que fala cantando / Eu sou aquele que vive tocando / Vou convidar você pra brincar, lalala / Eu sou o Zé, o amigo Zé Zezuca...

As palavras Zezuca, maluca e cuca jogam e rimam no ritmo musical da abertura do programa. Tal jogo sonoro não apenas facilita a atenção e a memória da criança, como a estimula sensorialmente a mexer seu corpo e participar ativamente, em seus cinco sentidos, das brincadeiras; estejam elas no auditório ou ouvindo pelo rádio.

Figura 3 - Zé Zezuca com chapéu e Mariano

O companheiro de Zé Zezuca no programa é Mariano, responsável por tocar os instrumentos musicais, além de manter constantes diálogos com o apresentador. Boa parte da conversa entre os dois termina em comida. Como diria Zezuca: “Mariano, você só pensa em comida”. É logo após as apresentações que Zé Zezuca chama seu primeiro quadro.

Eu vou te provocar

Neste quadro as crianças começam de fato a participar do programa. A cada episódio é proposto um tema a ser debatido nos espaços do teatro. Zé Zezuca desce do palco e interage com as crianças, levando o microfone aos grupos que já se formam entre as poltronas e na boca do palco. Neste momento, muitas das crianças já não estão mais sentadas em suas poltronas; muitas correm em direção ao apresentador, outras se encolhem em sua timidez e procuram proteção nos corpos dos seus pais.

As perguntas normalmente se referem a preferências ou percepções, como por exemplo: você tem um bicho de estimação em casa? O que dá para ver da sua janela? Qual a sua comida preferida? Quem apresenta o tema do dia e os canais de interação é a chamada “voz da produção”, momento em que a pessoa responsável pela produção do programa entra em off, sem que as crianças no teatro saibam onde ela está. Esta voz convoca as crianças que estão ouvindo o programa a participarem pelo telefone, e-mail ou pela página do programa na rede social Facebook. Ao final do programa são sorteados brindes aos ouvintes, como livros e CDs.

Figura 4 - Zé Zezuca entrevista as crianças

O apresentador desce do palco até as poltronas do teatro, onde crianças experimentam diferentes tipos de sensações e performances corpóreas. Muitos se projetam para próximo ao palco, na tentativa de ser o primeiro a ser abordado por Zezuca. Outros buscam refúgio no colo dos pais, assim como os pequenos filhotes Rhesus pesquisados por Harry Harlow (1972). Zezuca aponta o microfone para as crianças, buscando aqueles mais ágeis; por vezes segue uma ordem lógica pelas fileiras do teatro. Mas sempre causando um grande alvoroço entre as crianças presentes. Está claro que a provocação não se restringe ao tema abordado e a uma simples resposta, mas se trata de um jogo corporal, tal qual um jogo de “pega”. O espaço entre o palco e as poltronas é invadido por crianças que tentam chegar primeiro ao apresentador, como em um jogo de âgon, ávidas em participar da brincadeira que consiste em responder questões no microfone.

Como exemplo, um dos temas foi o folclore brasileiro, logo a provocação do dia era saber qual dos personagens do folclore a criança mais gostava. O Antônio, de 6 anos de idade respondeu “Saci Pererê”, já o Jean Luca e o Cauã, ambos de 4 anos, responderam a Mula sem Cabeça. A Cuca também foi citada, pela menina Bárbara de 10 anos. No fim das perguntas, Zezuca pergunta a Mariano seu personagem preferido, que responde gostar do Saci, pois este rouba as comidas das casas alheiras. Mas Mariano, você só pensa em comida.

Repórter Mirim

Criação e apresentação de uma pequena reportagem ligada ao tema do programa. A criança apresenta ao vivo durante o programa um produto muito semelhante aos formatos tradicionais das reportagens de rádio. A reportagem, que já fora editada e finalizada, conta com a participação ativa da criança, sempre desenvolvendo um assunto relacionado ao tema do dia no programa. Normalmente este quadro é produzido por crianças de uma faixa etária mais elevada entre os ouvintes da rádio (algo em torno de 7 a 10 anos de idade). Aparentemente este quadro não cumpre uma função de oficina de produção de conteúdo radiofônico, mas serve como espaço para que a criança desenvolva um assunto, usando de argumentos textuais que, em seguida, serão transformados em conteúdo sonoro.

Entrevistinha

Momento em que Zezuca volta descer do palco e encontrar as crianças na plateia para uma nova rodada de perguntas, todas elas ainda sobre o tema do dia. O apresentador não perde em momento algum a posição de líder da brincadeira, cuidando do andamento não só do programa (este também sujeito aos ditames do cronômetro), mas também da brincadeira entre as crianças. Contudo, este é o momento do programa em que observamos a efetiva participação das crianças, respondendo às perguntas de forma a expor um pouco de sua fantasia. Tomando novamente o exemplo do folclore brasileiro, ao serem perguntadas sobre qual seria a festa folclórica mais legal, poucos se dispunham a responder; uma das crianças chegou a dizer que era a festa da sua amiga dos pirilampos, o que levou Zezuca a responder entre risadas que esta não era uma festa folclórica. Em seguida, perguntado se tinha medo de Mula Sem Cabeça, o menino respondeu: “eu só tenho medo se ela entrar lá em casa”. Muitas das respostas das crianças demonstram uma criatividade aguçada, além da vontade de participar da brincadeira expondo suas fantasias que, por vezes, são confundidas com simples erros. É evidente, neste caso, a perda de oportunidade de exploração da criatividade infantil ao se privilegiar a dinâmica radiofônica tradicional do jogo de perguntas-e-respostas.

b) No palco: contar histórias e fantasiar-se

Em uma das visitas ao auditório, minha chegada antecipada ao Rio de Janeiro possibilitou o acompanhamento mais próximo do processo de montagem do palco e ensaio com as crianças. Nesse dia a contadora de histórias fez sua performance com a

ajuda de uma criança da plateia. Foi escolhida uma menina de aproximadamente cinco anos de idade, que vestia uma fantasia de fada. A contadora de histórias trouxe consigo uma maleta repleta de brinquedos, que serviriam de apoio para a história da “Dona Baratinha”. Durante o ensaio, ainda com a plateia vazia, ao abrir a maleta, a contadora deu um animal de brinquedo à criança, dizendo que este queria casar-se com a Dona Baratinha. A participação da menina consistiu em imitar o som do animal que ela tinha em mãos, para que a Dona Baratinha se assustasse com o som e desistisse de casar com cada um dos animais. Mas já durante o ensaio a pequena fada se agitava pelo palco da Rádio Nacional, dando ao cavalo que estava em suas mãos o poder de voar. Apesar das tentativas da contadora de histórias em manter a menina próxima ao microfone, a pequena fada conduzia o cavalo de plástico pelos ares, impedindo a continuidade da história que se desenvolvia em frente ao palco.

Este pequeno acontecimento é importante para que se observe a dificuldade de um adulto em trazer a criança para performance marcada teatralmente. A fantasia já estava acontecendo naquele momento na cabeça da criança, embora não estive de acordo com a proposta da contadora de histórias. Em seus gestos, a menina nos revelava ritualizações comuns nossa cultura: o cavalo que voa, como diversos cavalos alados em histórias infantis; a própria fantasia de princesa que a criança vestia já a colocava mimeticamente em um universo fantástico, onde seria perfeitamente aceitável o uso de um cavalo voador em suas histórias mentais.

c) Estação Brincadeira

O programa Estação Brincadeira estreou na Rádio MEC AM no mês de agosto de 2011. Vai ao ar aos sábados das 9hs às 11hs, seguida do programa Rádio Maluca, o que soma três horas consecutivas de programação para criança. É composto pelos seguintes quadros:

Café com som

O quadro Café com Som traz uma seleção musical variada, contando com um grande número de canções de folclore e artistas brasileiros de talento. A ancoragem fica por conta de jovens locutores, seguindo os padrões tradicionais da radiodifusão. Textos curtos e falas em formato “bate-bola” entre os apresentadores dão um tom de artificialidade à fala das crianças. O jogo da representação desponta novamente como uma preparação para o fazer radiofônico adulto. A plástica do programa (vinhetas) é

produzida também com as vozes infantis dos apresentadores, no melhor formato “rádio jovem”. É possível notar a musicalidade infantil na plástica do quadro apenas na música de abertura, que traz a seguinte letra: “de manhãzinha quando o galo me acorda e os passarinhos na janela vêm cantarolar. O toca-disco vai tocando uma seresta. Eu vou tomar café com som”. O próprio nome “Café com Som” sugere atividades adultas, ligadas ao trabalho ou a encontros de negócios ou intelectuais. O termo “café da manhã” não é explorado em sua totalidade, o que poderia sugerir melhor uma refeição ao lado da família e ouvindo a rádio.

Carro-céu

O quadro que vai ao ar das 10h às 11h leva o nome do veículo que conduz os personagens por aventuras temáticas. A cada episódio, os heróis são chamados a resolver problemas relacionados ao tema que se pretende debater. Fazem parte da aventura os personagens: Macaco Tião, Aerogata Mimi, Robô-computador Jeca-Bite, o vilão Doutor Malvadez e Pirraça, seu assistente.

Nas aventuras, Dr. Malvadeza realiza alguma peripécia que irá desencadear no tema que se pretende apresentar. Em uma das histórias o vilão disseminou em uma casa abandonada na cidade de São Gonçalo larvas do mosquito Aedes Aegypti. A proliferação do mosquito estava causando ataques de espirros entre os habitantes, o que obrigou a equipe de heróis a viajar com o Carro-céu até a cidade de São Gonçalo. Neste momento é feita uma pequena explicação, pelos próprios personagens, sobre a cidade, indicando que ela é a segunda maior do Estado do Rio de Janeiro. A cidade também é uma das que mais apresentam problemas de urbanização, tornando-se um foco frequente da dengue. Ao descobrir o local onde as larvas foram depositadas, os heróis, com a ajuda do Robô-computador (espécie de elo científico da história) aprendem que a banana tem propriedades que ajudam a combater alguns dos sintomas da doença. Por isso, então, que todos os personagens sofriam de ataque de espirros, menos o consumidor de bananas Macaco Tião. Após eliminar o foco da dengue no local, os personagens se indagam como combater os mosquitos que já se espalham pela cidade. Nesse momento, entra na história o carro “Fumacê”, figura frequente nas ruas dos subúrbios cariocas. Normalmente uma caminhonete equipada com um aparelho que pulveriza substâncias venenosas ao mosquito, o “Fumacê” possui um cheiro e uma sonoridade muitos específicos. O efeito sonoro utilizado no programa imitava a passagem do carro “Fumacê” pelas ruas de São Gonçalo, provocando no ouvinte

oriundo dessas regiões mais do que a sensação de pertencimento, mas um mergulho nas reações sensoriais provocadas pela passagem do inseticida. Este pesquisador, que cresceu nas ruas dos bairros de Olaria e Penha, no subúrbio do Rio de Janeiro, certamente pôde se transportar por segundos aos tempos de infância, ouvindo pela janela do quarto o som do carro que chegava pela esquina espalhando um cheiro desagradável nos dias quentes de verão.

Este fenômeno foi tratado por Menezes (2007) como “trânsitos sonoros”, ou seja, as imagens geradas em nossas cabeças (endógenas)24 são um complexo de

memórias sensoriais profundas, retomadas pelos estímulos sonoros, que nos vinculam. Neste sentido, as vinculações acontecem não apenas pelos signos de reconhecimento (Lotman, 1996), mas também influenciando diretamente o aparelho psíquico do ouvinte, religando-o, nos termos de Michel Serres (2003), ao ambiente.

Além do eu penso, logo existo, proposto por Descartes, e do eu me

religo, logo sou, proposto por Serres, que citamos anteriormente,

acrescentamos: eu ouço, logo sou, para indicar que na cultura do ouvir o rádio provoca a ação criativa de imagens endógenas (Menezes, p.99, 2007).

O veículo Carro-Céu retorna da aventura, cumprindo sua função proporcionando experiências sensoriais profundas e fundamentais para o estabelecimento de uma cultura do ouvir entre as crianças.

Outros quadros

Outros quadros da Estação Brincadeira são “Pipocontos”, chamada de “máquina de fazer histórias” e “Álbum de Figurinhas”, apresentado por Fernanda Ribeiro e produzido por Zezuca, que traz grupos musicais brasileiros. Este quadro foi um dos vencedores do Prêmio Roquete Pinto, da Associação das Rádios Públicas do Brasil. Ainda faz parte do programa Estação Brincadeira o quadro “Carro céu”, com os contadores de histórias Jujuba e Ana Nogueira, com uma linguagem próxima às brincadeiras dos palhaços circenses. São propostos jogos de charadas e trava-língua com humor. Já o quadro “Pingue-pongue” propõe um bate-bola com um artista convidado.

O quadro “O que você vai ser?” apresenta a cada episódio uma profissão diferente, entrevistando um profissional da área. Este quadro contou com a participação da filha do pioneiro do rádio brasileiro, Edgar Roquete Pinto, Carmen Roquete Pinto

falando de sua infância e sua relação com o rádio. “Toques e Dicas” é o quadro que apresenta um formato de agenda cultural.

d) Ondas públicas, empresa estatal, conteúdo comercial

Logo na abertura da Rádio Maluca, o apresentador Zé Zezuca ressalta que o programa é veiculado simultaneamente pela Rádio MEC AM e pela Rádio Nacional, além de ser retransmitido em Brasília e no norte do país. Em seguida ouve-se a vinheta: “Sabe quando dois amigos, ou duas amigas, se juntam para fazer uma brincadeira? Foi assim que a Rádio Nacional e a Rádio MEC resolveram brincar pelo rádio. Entre nessa roda. Rádio Nacional, Rádio MEC e você, de mãos dadas com a Rádio Maluca”.

É notável e exclusivo que duas emissoras de rádio tenham em sua programação três horas seguidas de conteúdo voltado ao público infantil. Como apontado por Haussen (1988), os programas infantis têm pouco apelo publicitário devido à concorrência com a televisão e à falta de empenho de jornalistas e produtores na elaboração de programas inovadores. Fica claro, portanto, que apenas emissoras públicas teriam a oportunidade de veicular em suas grades uma quantidade tal de programas para crianças.

No livro “Rádio Nacional: o Brasil em sintonia” (2005), Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira apontam diversos exemplos em que a Rádio Nacional assumiu parcerias com empresas na difusão de seus programas. Destaca-se a época do sucesso do concurso “Rainha do Rádio”, no final da década de 1940, em pleno auge do rádio como meio de comunicação de massa. O programa atraía multidões ao teatro da Rádio Nacional e, consequentemente, as atenções dos anunciantes.

A votação se fazia através de cupons a serem recortados das revistas especializadas – como Radiolândia e, especialmente, a Revista do Rádio, de Anselmo Domingos –, o que vinculava o artista ao poder econômico de seus patrocinadores. Então interessada na produção do Guaraná Caçula, a Companhia Antártica Paulista assegurou seu apoio a Marlene, sob a forma de um oportuno cheque em branco (Saroldi e Moreira, 2005, p.123).

Tal movimentação fez o mercado publicitário agir diretamente na eleição das cantoras como rainhas do rádio, o que escancara desde a época dourada a tendência econômica nas produções, em detrimento das premissas de difusão das manifestações culturais, que pautam as emissoras públicas de rádio.

Ao contrário da época das Rainhas do Rádio, a Rádio Maluca tem dificuldades em reunir ouvintes e participantes no teatro da Rádio Nacional ou do Sesc, de onde

desde 2013 tem sido veiculado o programa, devido a reformas no prédio da Praça Mauá. Normalmente a ocupação da plateia é baixa, o que exige um grande esforço por parte dos apresentadores em manter o clima de alegria durante as brincadeiras. Como não usa efeitos sonoros para mascarar o público, a produção do programa conta com um animador de plateia que passa o programa a soar buzinas de ar e pedir às crianças presentes que faça muito barulho. O animador também estica as mãos e bate palmas em direção ao microfone do tipo boom, responsável por captar sons ambientes, colocado acima das crianças na plateia.

Notadamente, embora transmitido por emissoras públicas, o programa tem em seu cerne os vícios do fazer radiofônico submetido às dinâmicas do consumo. Como apresentado no subcapítulo “Rádio Racional”, o rádio está imbuído da necessidade de velocidade e sonho de sucesso, independente do modelo de gestão ao qual esteja submetido. Em outras palavras, não importa se é veiculado em rádio pública ou comercial, o programa deve aparentar sucesso, dinamismo e ritmo (velocidade), cumprindo assim seu papel de transmissor de informações.