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Dördüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorumlar

Ao tentar explicar a presença animal na arte mato-grossense, Aline Figueiredo diz o seguinte:

Quase todos os artistas desenvolvem assuntos ligados às imagens de bichos, domésticos ou selvagens, porque eles povoam o nosso espaço físico e imaginário. Nós, que somos do mato, crescemos ouvindo estórias de bichos. Nossa memória tem portanto um arquivo rico de detalhes sobre o assunto e os nossos artistas possuem desembaraço para tratar e sentir o tema271.

Nesse ponto, não há o que discordar. Toda visualidade de Alcides é varada por bichos estranhos e outros mais familiares. Nas obras que seguem, os pássaros (pombo, cisne, garça) estão desvinculados de sua função enquanto comida, caça, bem como não se prestam a ser personagem do mundo visionário das lendas e do folclore. Pintados de modo peculiar, os pássaros alcidiano entregam-se à superfície não apenas como entes reais (figura, paisagem, natureza-morta), mas, acima de tudo, como entes visuais (linha, cor e plano). No grupo A (reproduções 30,31 e 32), observa-se que a cor branca predomina em diferentes combinações colorísticas.

Alcides sabe que a sensualidade é inerente à cor e, a partir disso, explora essa excitação dos sentidos, formulando, com poucas cores básicas, o efeito expressivo almejado. Não se trata, pois, de representar o movimento dos pássaros que voam, reproduzem, alimentam, constroem ninhos, etc. O que determina o caráter da obra é o próprio movimento da formação da imagem que, no caso, encarna a lógica da ordem. Na pintura ―Pombo‖ (reprodução 31), sete ramos vegetais na vertical separam doze pombos de costas dispostos em duas filas horizontais formando uma

271 FIGUEIREDO, Aline. Pintam bichos na visualidade. Cuiabá, MT: MACP-UFMT, 1985,

coluna. O excesso de ordenação é, contudo, assaltado por um detalhe falho: o da coluna sem pombo no canto esquerdo da tela. Num ato obsessivo de encontrar harmonias e continuidades, essa pequena sobra, em seu limite, revela a ineficácia e insensatez de toda tentativa de classificar, encaixar, e organizar objetos, pessoas e suas histórias.

Em ―As montanhas e os pombos‖ (reprodução 30) eles estão em pares um de frente ao outro totalizando dois grupos de seis. Paralelo a isso, encanta-nos a forma como Alcides transforma o jogo simétrico em objetos de contemplação estética de grande beleza não-convencional, notadamente nas texturas dos corpos das aves que sugere fragmentos de uma paisagem de montanha. Como um acontecimento fictício, a paisagem é abordada a partir de:

(...) um homem, um ponto de vista e, sobretudo, uma narrativa que possa nomear o que o homem vê e sente; um relato que logre solapar a ameaçadora, insuportável, separação entre o homem e o mundo natural272.

Nesses termos, poderíamos indagar o que é natureza e o que é paisagem. Segundo a autora Maria Angélica Melendi ―Para que a paisagem aconteça, não basta o mundo natural, pois ela não pertence à natureza, mas à cultura‖273. Isso parece certo levando em consideração que a decodificação mais contundente da pintura ―A natureza‖ dá-se muito mais pelo que foi imaginado (cultura) do que algo que pressupõe pertencer ao mundo natural (natureza). Apesar da afinidade mística de Alcides com os símbolos naturais, como as garças que representam valores imateriais de um Deus criador, ao desfamiliariar a noção de realidade, criando um cenário que realça seu valor de objeto — seja através das cores ou dos arranjos ornamentais na tela e moldura—, ele substitui o plano espiritual pelo estético. Tudo indica que a questão da verossimilhança não se coloca

272 MELENDI, Maria Angélica. Entre jardins e pântanos: paisagens alteradas. In:

BULHÕES, Maria Amélia e KERN, Maria Lúcia Bastos (orgs), op.cit., 2010, p.197.

para Alcides nessas obras. Não há intenção alguma em recriar um cenário que remeta a uma paisagem campestre, como declarou Figueiredo, ou mesmo ao ecossistema do Pantanal. Diferente dos outros artistas plásticos de Cuiabá, Alcides não faz do meio o argumento maior de sua pintura. Na tela ―Pássaros‖ (reprodução 33), o que primeiro chama atenção é a articulação das cores primárias em sua plena cromaticidade. Em sua composição mirabolante, o azul, o vermelho e o amarelo, por serem cores autônomas, não oferecem sossego aos olhos, mas, ainda assim, é possível deter-se no conjunto rigorosamente organizado pelo artista.

Os animais de Alcides são aparentemente comuns, porém todo resto é manipulado para se chegar a um ambiente onde pudesse reinar uma harmonia ideal. Por conta desse desejo, o foco visual do seu trabalho está na extrema artificialidade da encenação: os bichos, sempre colocados em espaços fechados, estão dispostos como se posassem num estúdio. Os cenários, por sua vez, são de uma intensidade de cor que falta à grande maioria das paisagens. Alcides superdramatiza seus pássaros, tornando-os quadros vivos pelo que apresentam de artificial, cenográfico e espetacular.Há qualquer coisa entre o sonho e realidade nesse cenário hiperflorido e pássaros com bicos platinados que brilham (reprodução 34), ou porque, mesmo aparentando um ambiente em que pese certa sublimação ao artifício, as cores em contrastes e pontilhados ondulantes provocam-nos fantasias (reprodução 35), questão também preponderante na imagem faustosa que ocupa o deslumbrante fundo urdido em vermelho e branco da tela ―Os animais‖ (reprodução 36). Resta-nos, senão, admirar a delicada floração ridente em que povoam peixes e pássaros. Ao oferecer uma experiência plástica na qual o referente é medido pela sua própria iconicidade (aspectos formais), Alcides comprova a capacidade da imagética cultural contemporânea de produzir experiências intermediadas pelo efeito de sentido que Olalquiaca chama de ―sensibilidade vicária‖, isto é, quando ―os sentimentos, emoções e sensações são evocados mais

efetivamente pelas imagens da mídia ou pelos simulacros high-tech do que pela exposição direta (...)‖274

.

Alcides nos seduz porque a linguagem o faz vítima de uma sedução primeira. Um dos significados de seduzir é enganar com astúcia, desviar do caminho, influir sobre a imaginação275. Sua pintura, enfim, sublima os aspectos mais incontroláveis da natureza porque acredita mais na ordem da conciliação do que do conflito. Uma natureza pacificada, controlável, idílica, eis o tempo da inocência, o lugar em que tudo começa: eis o paraíso. Puritanismo obsessivo? Homem cordato? Não sei. Mas, ainda assim, a condenação parece-me equivocada, porque a linguagem é sempre promessa enganosa de uma realidade. Seu afinco de inventariar racionalmente as coisas boas de Deus, não pôde escapar aos embustes autorais e às trapaças ficcionais que envolvem a todos que se dedicam a construir seus próprios sistemas classificatórios. Por caminhos inversos Borges, Perec, Bispo do Rosário, Calvino, Platão e Alcides mostram que qualquer modelo de classificação do mundo está fadado a ser um ato arbitrário, subjetivo, conjetural, provisório, tal qual são as criações inimagináveis produzidas pela linguagem. Mas não se pode inferir disso que seu gesto catalogador seja um fim em si mesmo, uma vez que foi, e continua sendo, capaz de mobilizar a linguagem em sua potência poética. Onde mais poderiam habitar tais entes visuais, senão no mundo visionário de Alcides? Suas paisagens são, afinal, fabulações.

274 OLALQUIACA, Celeste, op. cit., 1998, p.16.

275 Cf. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da escrivaninha: ensaios. São Paulo: Companhia