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TÜRK TİYATROSUNDA BÜYÜK SELÇUKLU DEVLETİ

I) DÖNEME DAİR GENEL BİLGİLENDİRME

Improvisar soluções na música é uma coisa. Improvisar soluções na vida é outra, bem mais complicada. A agilidade do pensamento é um verdadeiro dom e alguns jazzistas se deram muito bem nessa arte. (Roberto Muggiati)

Como já comentei, o improviso é uma técnica que para ser utilizada demanda do músico alguma especialidade. Charles é bom músico. É o que todos

dizem. Estudou seu instrumento minuciosamente, horas de sua vida foram

intensamente dedicadas à música durante anos. O que o impedia de improvisar? Nos shows, nos ensaios? Sozinho, em seu apartamento?

O improvisador é, antes de tudo, um individualista. Detesta obedecer regras e se mostra, na maioria das vezes, avesso às ordens de comando. A tarefa do líder de orquestra, portanto, é particularmente difícil e ingrata no jazz. Nos primeiros tempos, a solução encontrada em Nova Orleans foi a ‗improvisação coletiva‘, uma fórmula mágica que soube equilibrar admiravelmente individualismo e organização. (MUGGIATI, 2008, p. 223)

Charles, não queria fazer música sozinho, falava da importância de tocar com outros músicos, da segurança que transmitiam: era como tomar uma cerveja

juntos, cumplicidade coletiva. Mesmo assim, não se sentia livre para viajar nos solos.

Os improvisos dos elementos instituídos socialmente bateriam frontalmente com as suas fantasias de liberdade/libertação e o fantasma do complexo de Édipo que o arrastavam para a dura sensação ainda simbólica da ameaça de castração?76

76 O complexo de Édipo é uma peculiar constelação de desejos amorosos e hostis que a criança

vivencia em relação aos seus pais no auge da fase fálica. Em sua forma positiva, o rival é o genitor do mesmo sexo (e a criança deseja uma união com o genitor do sexo oposto).

Nessa estrutura triangular a interação entre os desejos inconscientes dos pais e as pulsões da criança desempenha papel fundamental na constituição do cenário edípico. O ideal do eu, como agente de superação do narcisismo infantil, expressa o que o sujeito deseja ser, contém uma aspiração, deriva sua força de uma promessa, enfatiza a natureza amorosa dos objetos introjetados. A ansiedade principal é o medo da perda do objeto de amor. O supereu começa a se esboçar a partir do complexo de Édipo. Baseia-se numa estrutura de postergação dos impulsos. Expressa o que o sujeito deve ser. Contém obviamente uma proibição. Exerce pressão por meio da ideia de punição. Enfatiza a natureza frustradora e hostil dos objetos introjetados. A ansiedade principal é a castração. O supereu lida com o complexo de Édipo positivo, ou seja, com a consequente introjeção do genitor do mesmo sexo como figura rival.

O ideal do eu se relaciona com o complexo de Édipo negativo, no que diz respeito à introjeção da relação de amor com o genitor do mesmo sexo. Sua resolução é ulterior à cristalização do supereu, ocorrendo na puberdade, quando as tendências latentes homossexuais forem dominadas.

Quando menciono o exibicionismo de Charles, é preciso ressaltar que são impulsos inconscientes, porque na realidade, como já apontei, ele não é um perverso estruturalmente falando. Enquanto o perverso não reconhece a castração e, por extensão, a lei, Charles é o oposto: sempre preso às leis, desejando em seu íntimo infringi-las, mas sem êxito.

Ele é um neurótico. Que em sua clássica definição é fruto de tentativas ineficazes de lidar com conflitos e traumas inconscientes; se distinguindo normalidade pela intensidade do comportamento e a incapacidade do analisando resolver os conflitos internos e externos de maneira satisfatória.

Se eu fosse generalizar que todos os que buscam plateias são exibicionistas de fato, então o teatro e o cinema, pintores, escultores, músicos, as artes em geral teriam que ser incluídas. Não se trata de um traço perverso, mas o resultado da sublimação (em maior ou menor grau) que é um mecanismo de defesa do eu altamente valorizado pela psicanálise.

O complexo de Édipo mantém sua função de um organizador inconsciente durante toda a vida e forma um elo indissolúvel entre o desejo e a lei.

No caso Charles, pode-se acompanhar o processo de dissolução do Édipo durante a análise. Sublinho alguns aspectos transferenciais: no início ele via no analista um empecilho a ser confrontado e, posteriormente, passei a representar para ele um papel facilitador, de liberação. Os aspectos persecutórios de seu supereu, identificado com um pai considerado castrador dos seus sonhos vão se diluindo e seu eu pôde paulatinamente transformar seus desejos em realidade - sua relação com a música, seu trabalho criativo, sua vida sexual mais satisfatória, a melhora na qualidade dos vínculos.

Dessa forma dois conceitos foram articulados simultaneamente. Além do complexo de Édipo a transferência, que é sempre pano de fundo para o surgimento dos mais variados aspectos conceituais que se deseja abordar.

Penso se o ato de tocar de Charles não significava, também simbolicamente, buscar um reconhecimento da própria masculinidade por parte do pai. Um pouco como se essa masculinidade vinda do avô tivesse se rompido na relação dele com o pai.

Charles parecia, no percurso da análise, realmente se esforçar para entender as configurações psíquicas que o guiavam. Contava com detalhes tudo o que se lembrava de sua infância tentando ele mesmo, às vezes um tanto eloquente, criar possibilidades de amarração entre sua vida pretérita e seu presente.

Certa vez disse adorar se lançar ao trítono,77 que era o mesmo que burlar

diabolicamente e com prazer o que estava organizado; fazer errado quando tocava

lhe provocava, era excitante. Mas a proibição sempre gritava mais alto (pelo menos até quando percebeu que seu trompete poderia ‗falar‘/gritar acima dos decibéis proibitivos). Ponderou: ―Sei que esse prazer precisa vir à tona, quebrar as regras

musicais é mais fácil que quebrar as regras da vida, mas será que existe regra? Afinal o jazz sem improviso não é jazz, logo, a música que eu faço não é jazz; se eu não improvisar não serei ouvido. E sabe? Eu sei, apenas não consigo ainda, mas estou lutando‖. Charles continuou: ―É como se eu fosse um viciado às avessas, não

faço nada de errado, ou seja, não faço nada contrário ao que se espera. Preso no que é certo. E o que é certo? As pessoas me ouvem e esperam se deparar com o que já é previsto, quero ser imprevisível. Eu toco os solos improvisados por outros jazzistas, mas preciso EU criar minha música em torno da esfera que eles criaram...‖ Precisava demonizar-se...

Que algum tipo de música seja capaz de corromper a moral ou subverter a ordem, não creio. Mas que o ‗perigo‘ tenha assombrado toda uma tradição de filósofos e teólogos, não há como duvidar. Platão, nas Leis, propôs a proibição de certas escalas e ritmos musicais devido a sua perturbadora sensualidade; Agostinho, nas Confissões, discorre sobre os ‗prazeres do ouvido‘ e se penitencia por sua irrefreável propensão ai ‗pecado da lascívia musical‘ (GIANNETTI In COHEN, 2003, pp. 70-71)

Uma coisa é tocar o que está escrito, preparado, outra coisa é criar na improvisação. Talvez não seja possível dizer que as sonoridades musicais escolhidas por um sujeito possam determinar sua constituição psíquica, mas não há dúvidas que seu contrário possa ser absolutamente plausível, ou seja, a constituição

77 Trata-se, na música, do ―intervalo de quarta aumentada, formado por notas distantes entre si três

tons inteiros. A dissonância [grupo de duas ou mais notas de uma acorde que criam forte tensão e se tornam instáveis ao ouvido humano] do intervalo provocou celeuma: na música religiosa, durante o renascimento, chegou a ser proibido pela Igreja, razão pela qual era chamado DIABOLUS IN MUSICA‖ (Dicionário de termos e expressões da música, 2004, p. 340).

psíquica determinando qual sonoridade fisgará o sujeito. Ainda é possível pensar que isso ocorra simultaneamente.

O jazz foi o que deu certo na vida de Charles. As configurações jazzísticas (que determinavam seu gosto) foram passíveis de serem usadas naquele momento. Isso não o isentou de gostar/admirar a sonoridade de outros estilos. Isso pode ser visto em outras pessoas que relatam, por exemplo, encontrar substratos emocionais na chamada música brega (ou cafona, como outros preferem), no tango, no funk carioca. Os estilos podem ser generosos com cada ouvinte, que por vezes veneram e relatam com paixão e apego suas escolhas sonoras, de tal maneira que diriam: ―tal gênero me salvou‖, assim como relatou o saxofonista paulistano Ivo Perelman, (em depoimento exclusivo para o livro de Muggiati) que, creio, guardada as óbvias diferenças reservadas às respectivas personalidades, certamente singulares, identifica um pouco do que Charles vivenciou no relato:

O jazz salvou minha vida tão profundamente que seria difícil para eu separar um do outro. Depois de 25 anos debruçado quase diariamente sobre a mesma questão básica – como tocar ludicamente uma música espontânea que também seja estruturada e intelectualmente instigante – minha vida acabou se tornando a própria improvisação, no sentido mais abrangente da palavra. A experiência do artista acabou vazando para o âmbito cotidiano do homem tão harmoniosamente que acredito que essa seja a melhor forma de se viver: improvisar também a partir das pequenas coisas mundanas para se atingir ao longo do tempo a tênue catarse de se contemplar o cotidiano liricamente. O jazz reorganizou vários departamentos aparentemente antagônicos do meu psiquismo. Improvisar como o resultado de uma longa e meticulosa planificação. Improvisar como resposta para o paradoxo de sermos ao mesmo tempo pensantes e intuitivos. Improvisar ocupando os espaços mais sãos do meu ego criador mais despedaçado, unificado somente pela imensa força terapêutica do espontâneo na arena mais segura que a sociedade nos permite: as artes. De fato, o jazz salvou minha vida há muitos anos. Validou minha existência e respondeu as questões mais dolorosas do âmago do meu ser. Enfim, me ofereceu um modelo perfeito de conduta em que somos simultaneamente criadores divinos e meros mortais, criaturas bestiais, mas também civilizadas e racionais. Egresso das mesmas forças caóticas, mas coerentes nas quais se agrupa na natureza, o jazz ao espelhar fielmente nossa admirável progressão evolucionária, me trouxe grande conforto espiritual. Permitiu-me uma existência que, embora caótica, tem sido ao mesmo tempo extremamente articulada em seus desdobramentos fractais. Essa tem sido a maior dádiva que recebi do processo artístico. Um sentimento quase religioso de fé nos mecanismos naturais que regem o cosmos. Improvisar é brincar de ser Deus e perpetuar assim o impulso criativo do universo. (MUGGIATI, 2008, p. 177)

O jazz deu a Charles a oportunidade de improvisar. Foi sua via possível dentre tantas outras para articular um modo equilibrado de estar no mundo. As frases sincopadas, as construções sonoras, os timbres, as melodias, as harmonias, sobretudo, a técnica de improvisar são todos fenômenos capazes de inscrevê-lo numa sonoridade única, qual seja, a própria. A que fora possível ser criada por ele para ele mesmo. ―A verdadeira essência do jazz é bem mais complexa: ele não é feito só de solos improvisados, mas de uma [sic] amálgama de timbres, ritmos, harmonias, configurações tonais‖ (MUGGIATI, 2008, p.233).

Poetas e filósofos costumam dizer que somos o que somos hoje em razão daquilo que se experienciou no passado. Tudo, absolutamente tudo o que vivemos em nossa pregressa história dá significado ao eu atualizado. Nada diferente do que prega a psicanálise: o psicanalista convida seu paciente o tempo todo a mergulhar em configurações pretéritas que possam conduzi-lo no momento atual, na direção (que favoreça o encontro) de elementos úteis, no entendimento de cada escolha realizada. Momento em que as experiências traumáticas são novamente vivenciadas, e percebemos que todas as marcas deixadas são/foram cruciais para constituir o sujeito do presente.

Na análise cria-se, pensa-se; transformar conteúdos, elaborá-los, torná-los compatíveis à organização psíquica é uma meta. Creio, como propôs Lichtenstein (2003), na intrínseca relação que pode ser pensada entre a improvisação musical no

jazz e a associação livre em psicanálise.78