Guerreiro Ramos (191 5-1982) foi aluno da primeira turma do curso de ciências ociais da Universidade do Brasil em 1 939, juntamente com Luís da Costa Pinto e José
Athur Ramos Pertenceu ao Dasp e depois ao Iseb, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, onde se formulou um projeto nacionalista de desenvolvimento para o Brasil, Envolveu-se com a polltica partidária e foi perseguido após
1 964 pelo regime militar. Mudou se para a Califórnia, onde passou a
dar aulas Suas obras enfocam temas do pensamento brasileiro,
da sociologia e da administração publica
Sua formação acadêmica foi pioneira pois, ao lado do curso de direito, o
senhor começou a estudar ciências sociais. Por que esse interesse, incomum à época?
Meu interesse pelas ciências sociais surgiu durante o curso complementar de direito - o correspondente ao curso clássico -, quando comecei a ensinar história universal e história do Brasil no Instituto de Educação, em Niterói E comecei logo a ler
Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre. Mas, como todos da minha geração, precisei encaminhar·me para uma carreira; a mais próxima era direito, devido a tradições fami· liares e a uma ceta vocação pessoal
Quando Já cursava o primeiro ano, decidi fazer vestibular para a recém-fundada Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade do Brasil, destinada a formar professores para o ensino secundário, onde havia um curso de Ciências sociais. O ministro da Educa· ção Gustavo Capanema tinha contratado na França alguns professores para liderar essa faculdade. Por isso, tive a sorte de ser aluno, entre outros do sociólogo Jacques Lambert que, por ter passado pela Universidade de Chicago, trazia grandes novidades: uma socio logia empírica, baseada em pesquisa; enfim, uma visão inédita para mim.
Cursei os dois primeiros anos, mas aí aconteceu uma dessas coisas brasileiras: o reitor, num momento de "inspiração", resolveu proibir que se cursassem duas faculda des simultaneamente, ainda que fossem complementares e o horário das aulas fosse compatível - eu fazia filosofia de manhã e direito à noite Resultado: tranquei matrícula na filosofia Mas a faculdade me deixou marcas profundas; por exemplo, foi lá que co· nheci Alberto Guerreiro Ramos, com quem iniciei uma grande amizade, que durou toda a sua vida, apesar de não o acompanhar nas posições políticas que assumiu. Devo· lhe muito, em termos de aventura intelectual, de busca de horizontes mais largos. Foi em sua mão, por exemplo, que vi pela primeira vez obras do grupo de Chicago, que ele já conhecia. Nossas conversas eram interessantíssimas, pois ele era um homem de grande inteligênCia, com um certo sentido sarcástico da vida, que guardou até o fim.
o senhor terminou o curso de direito?
Sim, prossegui naquela rotina, muito descontente, mas me formei. Aí entra em minha vida outra figura providencial do professor Hilgard O'Reilly Sternberg. Geógrafo, transferiu-se do Brasil para os Estados Unidos, primeiro como bolsista, depois chegou a professor e chefe do Departamento de Geografia em Berkeley. Hilgard era também meu contemporâneo e teve a idéia de me aproximar de um sociólogo americano que esteve aqui fazendo estudos de sociologia rural, o prol. Thomas Lynn Smith.
Ainda não se usava a qualificação de "brasilianista", mas o Lynn Smith era um especialista em Brasil e em países latino-americanos; falava muito bem português e espanhol. Pois ele achou que eu poderia receber uma bolsa de estudo e fazer um curso de mestrado na Louisianna State University, onde ele ensinava.
• o que fazer com a popula�o pobre? A favela nos anos 60
Em 1947 não era comum um brasileiro ir cursar o mestrado nos EUA.
Exatamente. Foi graças à atuação do Lynn Smith que recebi uma bolsa de 75
dólares mensais da Interamerican Foundation - eu já estava casado e tinha um filho pequeno, mas com esse dinheiro não poderia levar a família. Como não pude tirar uma licença com vencimentos do Instituto de Educação, meti-me numa aventura: fechei meu apartamento em Niterói e fui para os Estados Unidos - minha mulher e meu filho foram morar com meus pais.
Inicialmente, eu não tinha qualquer afinidade com o sul dos Estados Unidos, mas depois comecei a me interessar sociologicamente pela região, devido às grandes semelhanças com o Brasil. Eu me via, às vezes, numa paisagem nordestina, de plantation,
com numerosa mão-de-obra de cor e severa segregação racial.
o senhor falava inglês fluentemente?
Eu tinha aprendido com uma professora inglesa, de Cambridge, Mrs. Hull, que formou a maioria dos diplomatas brasileiros da época. Graças a ela, já cheguei nos Esta dos Unidos falando inglês. Não tive nenhum problema para entender o Lynn Smith, mas quando entrei na primeira aula, pouco entendi do professor, que era sulista. Mas aos poucos fui me adaptando
Depois de seis meses, consegui que me fossem enviados os meus vencimentos do Instituto de Educação. Além disso, para compensar a magreza da minha bolsa, o Lynn Smith me deu uma função no Instituto de Demografia, que ele dirigia - além do conhe cimento sociológico, ele era também demógrafo e me botou analisando dados do censo demográfico americano, coisa misteriosa para mim, no início.
Com a soma desses rendimentos todos, consegui levar minha família para a louisianna, e alugamos um apartamento na casa de uma sen
h
ora que pertencia àquela associaÇão das Daughters of the Revolution, do sul. Graças a um grupo de colegas, apro veitei umas férias e viajei bastante pelos Estados Unidos. Eu não tinha condição de comprar um carro, mas tive a sorte de ter uns colegas filhos de usineiros pernambucanos. Com eles viajei bastante: fomos a Detroit, a Chicago e J Califórnia, visitar um amigo nosso; curiosamente, só vim conhecer Nova Iorque muitos anos depois. E assim, comple tei o mestrado e voltei para o Brasil, tendo passado dois anos nos Estados Unidos. Aovoltar, criou-se uma dolorosa interrogação: eu não queria mais voltar para o Instituto de
Educação, queria fazer pesquisa.
o senhor já tinha sido mordido pelo apreço americano pela pesquisa?
Certamente, sociólogo é aquele que faz pesquisa. Mas ao chegar fiquei meio perdido; quando dizia que era sociólogo, pessoas razoavelmente alfabetizadas e insta ladas em cargos importantes me perguntavam e eu era scialis
t
a. Bati em várias portas e fiquei marcando passo por algum tempo. liguei-me a um grupo de geógrafos do Conselho Nacional de Geografia: Nilo e Lysia Bernardes, Miguel Alves de Lima, Orlando Valverde. com quem fiz grande amizade - Nilo e lysia Bernardes foram depois colaboradores meus.Lysia e ilo Benardes no o Nacional de Gogaa, 18
Nilo Bemardes (1922·1991), geografo
IBGE, especializado em geografia agrári .
em processos de colonização Publicou
inúmeros livros, artigos em coletâneas, revista
. s
, especializadas, assim como atlas livros didáticos Foi professor titular do ColégiO Pedro 11 e da PUC·RJ
Era casado com a também geógrafa
Lysia Bernardes, O casal morreu em desastre de automóvel em 1991 Orlando Valverde (191 7), espe:ialista � geografia agrária e na regiao amazOni,� foi, junto (om Fábio de Macedo Soares Guimar�es e Jorge Zarur, um dos fundadores do Conselho Nacional de Ggraia do IBGE
Miguel Alves de lima (1921), e.Clali em geomofolg�a, foi �os Quadros da Seção de EstatlstlCa lerrltonal do Alnbtel'Q
da AgrICultura, área que compOs o ,J�
original do IBGE, onde dirigiu por 111.1.15 anos a area de cartografia e geodésia
F:
estudos na Universidade de Paris e lecionou na UERJ Ver, a respeito,Sílvio Romero (1851.1914), crítico literério, leta, folclorista, filósofo, soci61ogo e antropólogo, participou do grupo fundador da Academia BrasiJ-lTa
de letras Temido pela virulência das
pol@mlcas nas quais se envolveu, foi os primeirs inteletuais a desenvolver uma
crítCa ao rdClsmo dominante no
pensamento brasileiro Entre seus livros, encontra-se Cantos populares do Brasil, Contos populares do BraSil, Dourrina contra doutrina e a monumental Históia da literatura brasileira
José Arthur Rios •
Havia um grupo ligado ao Ministério da Agricultura, que saía pelo interior num furgão, levando filmes, material didático, remédios; compunham o grupo um médico, um agrônomo e uma assistente social. Alguém perguntou se eu não queria fazer uma viagem com eles, e os acompanhei Foi quando conheci o vale do Rio Doce, no Espírito Santo, certas regiões de Minas, e fiquei deslumbrado com as possibilidades, não só de pesquisa, mas de ação pedagógica, E me lembrei então de coisas que tinha visto e vivido nos Estados Unidos, como O sentido de comunidade; lembrei de colegas mexicanos, que falavam das missões rurais mexicanas
Essas coisas ficaram em ebulição na minha cabeça, até que um dia fui chamado pelo diretor do Departamento Nacional de Educação, o professor Nelson Romero, filho do grande Sílvio Romero, O Nelson era um homem de grande bondade e profunda inexperiência: não entendia nada de educação, menos ainda de educação rural. Só sabia latim, que ensinava no Colégio Pedro 11. Eu lhe disse que muita coisa podia ser feita no meio rural, e ele ficou entusiasmado, mas era homem tímido, e o Departamento não
tinha muitos recursos,
A época era de campanhas: Campanha Nacional de Alfabetização, de Educação de Adultos, do Folclore Brasileiro etc Eram iniciativas fantásticas, de grande arrojo, mas que praticamente não saíam do papel. Para ficar no estilo, propus organizar a Campanha Nacional de Educação Rural, e ele achou uma grande idéia,