• Sonuç bulunamadı

5. KENT BİLGİ SİSTEMLERİNİN ÜÇ BOYUTLU GÖRSELLEŞTİRİLMESİ

5.2. Algının Özellikleri

O papel do Estado na gestação desta crise não é recente. Remonta pelo menos ao surgimento das sociedades por ações e do sistema financeiro de John Law. No final do século XVI e raiar do século XVII, as grandes navegações se consolidam e o espaço econômico ganha uma dimensão planetária. Para aproveitar a onda de progresso e de acúmulo de riquezas, os burgueses começam a pensar meios de explorar as crescentes relações comerciais, no que ficou marcado como o início do que denominamos por globalização.

A primeira lição que essa época nos oferece está na genealogia das sociedades por ações. Tal como outros institutos do direito comercial, também essa forma societária não surge pela pena dos grandes jurisconsultos. Com as necessidades que a prática e o tempo naturalmente demandam, as mutações e invenções foram acontecendo.75 Pode-se mesmo dizer que havia uma desconfiança nas soluções engessadas oferecidas pelos juristas. A preocupação era tanta que nem mesmo se admitiam arrazoados preparados por letrados, tudo em favor da celeridade e da simplicidade da justiça em causas mercantis.76

Chegou um momento em que a concorrência interna entre as pequenas companhias de um mesmo país estavam prejudicando os interesses nacionais. Nesse instante, governos como o holandês resolveram atuar e fundir os pequenos negociantes em uma única companhia detentora de um monopólio.77 Acontece que, como o tesouro público não tinha todo o dinheiro necessário à expansão dos negócios, toda e qualquer pessoa poderia se entusiasmar e comprar ações, tornando-se sócio do empreendimento.

Em Portugal, por exemplo, Sebastião José (futuro Marquês de Pombal) lembrava que para que uma Companhia obtivesse sucesso, ela precisaria gastar dinheiro com fortalezas bem guarnecidas, navios bem armados e tudo que livrasse o comércio da ameaça dos piratas e dos príncipes infiéis. Naturalmente, isso tudo exigia uma grande quantidade de capital, que não estava disponível no erário régio. Com isso, restou inevitável ter que chamar as pessoas comuns do reino e do estrangeiro para participarem dessa associação de meios e privilégios que eram as Companhias de Comércio. Qualquer um que tivesse recursos à disposição seria

75 MARCOS, Rui Manuel de Figueiredo. As companhias pombalinas. Contributo para a história das sociedades

por acções em Portugal. Coimbra: Almedina, 1997, p. 14.

76 Ibidem, p. 147. 77 Ibidem, p. 61.

30

bem vindo, independente de religião, cor ou classe social.78

Já nessa época se sabia que os mercadores não olham para o bem da pátria, estando interessados apenas em obter o maior lucro possível, satisfazendo as suas ambições pessoais.79 O economista inglês Adam Smith80 afirma textualmente, em sua famosa obra “Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, que: “O interesse dos comerciantes, em qualquer ramo de atividade, é, todavia, sob muitos aspectos, sempre diferente e mesmo oposto, ao do público. O interesse dos comerciantes está sempre em alargar o mercado e estreitar a concorrência”.

Esse tipo de esperteza de alguns comerciantes é de longa data. Comprovando mais uma vez a atualidade da análise feita por Adam Smith81, ele salientava os problemas enfrentados pelo instituto da “restituição de direitos” na Inglaterra (que podem ser comparadas às atuais deduções no imposto de renda, por exemplo) concedidos para bens exportados. A fraude surgia no momento em que o bem era exportado e depois reimportado clandestinamente, gerando um prejuízo tanto para as receitas do Estado quanto para os comerciantes honestos.

A prática do planejamento tributário agressivo é a continuação avançada e complexa desse egoísmo dos comerciantes. O problema é que qualquer solução jurídica a ser tomada pelo Estado precisa levar em consideração a facilidade com que os capitais são movidos de um local para o outro, somente levando em consideração as vantagens e o lucro. Por isso a proposta da OECD é tão importante historicamente, pois se configura em uma larga tentativa de cooperação global para combater o problema comum do BEPS. Na ausência da efetivação dessa resposta conjunta dos países, qualquer outra deve ser precedida de um amplo estudo que contemple todos as matizes: jurídico, moral, religioso, econômico etc., sempre objetivando alcançar a máxima eficiência possível.

O capital (não-humano) é cada dia mais indispensável para propiciar o progresso. Assim o foi nos séculos XVI a XX, dando mostras que ainda o será por um bom tempo.82 Foi precisamente na busca pela expansão do capital que aconteceu a primeira grande crise econômica, com o sistema financeiro de Law.

78 MARCOS, Rui Manuel de Figueiredo. As companhias pombalinas. Contributo para a história das sociedades

por acções em Portugal. Coimbra: Almedina, 1997, p. 249.

79 Ibidem, p. 210.

80 SMITH, Adam. Riqueza das nações. Vol. I. 7 ed. Tradução de Teodora Cardoso e Luís Cristóvão de Aguiar.

Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2014, pp. 477 e 478.

81 SMITH, Adam. Riqueza das nações. Vol. II. 5 ed. Tradução de Luís Cristóvão de Aguiar. Lisboa: Calouste

Gulbenkian, 2010, p. 10.

82 PIKETTY, Thomas. O Capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro:

31

Antes de explicar esse desastre econômico e as suas lições na construção de um novo cânone compreensivo para o direito tributário, é mister saber como os bancos criam dinheiro.

A concepção teórica é extremamente simples. Para fins meramente exemplificativos, tomar-se-á o Banco de Amsterdã ao tempo da existência da poderosa Companhia Holandesa das Índias Orientais. Os precursores privados dos bancos públicos operavam de maneira que os depósitos de uma determinada pessoa estavam sujeitos a serem transferidos a outras pessoas como pagamento de despesas realizadas pela primeira. O que os administradores municipais de Amsterdã descobriram foi que, com uma simples ‘canetada’, eles poderiam emprestar o dinheiro que estava ociosamente parado nos cofres do banco. Sendo assim, o depósito original permanecia em nome do seu proprietário inicial, mas com o empréstimo abria-se uma nova conta com o valor correspondente. Dessa maneira, ambas as contas poderiam ser movimentadas e criava-se dinheiro.83 Esse esquema dependia apenas da confiança dos clientes de que poderiam sacar o dinheiro no momento que quisessem.

Porém, o melhor exemplo do que um banco pode fazer com a moeda pertence ao escocês John Law, que montou um sistema financeiro na França governada pelo Regente Felipe, Duque de Orléans, que governava em nome do infante Luís XV. Após a morte do rei sol, Luís XIV, a França estava com o erário público completamente arruinado e as despesas eram duas vezes superiores às receitas.84

Diante dessa situação, o regente autorizou a criação de um banco de terras, que tinha autorização para emitir papel-moeda. A partir daí o Estado passou a ser o principal cliente deste banco público, aproveitando-se da estabilização da economia propiciada pela promessa de resgate em moeda corrente de peso metálico. O sistema inteiro repousava na ideia que Law vendeu aos franceses: alcançar e explorar as gigantescas minas de ouro da Louisiana. Dessas minas nunca foi extraída a quantidade de ouro necessária ao pagamento das notas emitidas. Com o tempo, um clima de desconfiança se generalizou, desencadeando uma corrida ao banco para sacar o que fosse possível, o que levou o país novamente à bancarrota.85

Uma variação desse tipo de utilização de bancos públicos para financiar as despesas governamentais é hoje conhecida como “pedalada fiscal”. Isso acaba ocorrendo quando as despesas do país atingem um nível superior à arrecadação. Uma das causas desse problema nos dias de hoje é justamente o planejamento tributário agressivo. Não é à toa que John

83 GALBRAITH, John Kenneth. Moeda: de onde veio, para onde foi. Tradução de Antonio Zoratto Sanvicente.

São Paulo: Pioneira, 1997, pp. 16.

84 Ibidem, p. 19.

85 MARCOS, Rui Manuel de Figueiredo. As companhias pombalinas. Contributo para a história das sociedades

32

Kenneth Galbraith86 afirma que: “Na Era da Incerteza, a empresa multinacional é uma grande fonte de incerteza. Ela faz os homens pensarem como, por quem e para que finalidade são governados. Uma reação a essa incerteza é evidente. Basta olhar através do mito para a realidade da moderna empresa”.

Essa é a importância da experiência histórica: ser a principal fonte de conhecimento prático que se pode obter.87 A partir de suas lições, será possível construir um novo cânone compreensivo para o direito tributário, que leve em consideração tanto a importância de não espantar os capitais quanto a necessidade de dar combate ao planejamento tributário agressivo.