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3.1. CEZAYI DÜŞÜRÜCÜ SEBEP OLARAK AKRABALIK

3.1.1. HADD CEZALARINI DÜŞÜREN AKRABALIK

O governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) é emblemático nos aspectos econômicos, ideológicos, mas, sobretudo quando pensamos a questão política que envolveu o momento anterior, durante e posterior ao seu governo, podendo ser considerado um dos períodos mais ricos da nossa história recente. No intervalo temporal de 1945 a 1964, dos quatro Presidentes da República (Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros), dois não completariam seus mandatos e ainda dos dois vice-presidentes que assumiriam o governo (Café Filho e João Goulart) não terminariam a gestão. Com exceção da administração de Dutra (1945- 1951), que mais parece um entreato de Vargas, o governo JK surge nesse período envidando esforços para o desenvolvimento econômico e crescimento do país, e ao mesmo tempo, primando em manter a ordem democrática no Brasil (MARANHÃO, 1981).

Conforme Juscelino assinalou em entrevista a Maria Vitória Benevides, os diversos obstáculos que se impuseram a sua candidatura e posteriormente ao seu governo, como afirmou:

Para compreender o sentido político do meu governo é preciso remontar a fatos anteriores, por que aconteceram tantas coisas e eu pude superá-las? Deve ser lembrado que, quando Getúlio Vargas foi eleito, já houve um grande movimento contra ele, mas ainda predominou o sentimento civilista e o próprio Exército garantiu sua posse. Mas o movimento de 45, que determinara a deposição de Vargas, continuava latente [...] De modo que quando Getúlio foi eleito, o mesmo movimento de 45 que o depôs manifestou-se no sentido de impedir sua posse. Mas predominou o espírito legalista dentro das Forças Armadas e Getúlio tomou posse. No entanto, o movimento continuou. Naquela época havia políticos que foram agitadores extraordinários, como Carlos Lacerda que conseguia empolgar a opinião pública, agitar e reunir em torno de si a atenção de civis e militares. [...] Getúlio não pode contornar essas dificuldades. Seu suicídio foi um ato político, pois com ele pode manter a Constituição. Porque Getúlio já estava praticamente deposto; à frente do governo já estava um vice-presidente inteiramente solidário com a oposição [...] Mas com o suicídio, o trauma, o choque que a nação levou foi tão grande, que a Constituição sobrepairou e o regime constitucional continuou. Nesta altura começou, verdadeiramente, minha entrada na cena política nacional (BENEVIDES, 1976, p. 290-291). Ricardo Maranhão em seu livro O governo Juscelino Kubitschek aponta que numa das reuniões sobre a sucessão de Vargas, pouco antes da crise de agosto de 1954, e após diversos nomes de candidatos haverem sido citados, o próprio Getúlio declarou:

“Já que estão discutindo nomes, será bom não esquecer o do governador de Minas”

Benevides (2002) acentua que estava claro para JK que era preciso associar-se à bandeira trabalhista-getulista a fim de conseguir apoio popular a sua candidatura, daí porque a ligação e a identificação de Juscelino a um predecessor de Getúlio.

A autora também sublinha que Juscelino foi o único presidente civil, depois de 30, a assumir a presidência da República e a transferi-la ao sucessor no dia marcado. Lembremos que JK tinha assumido o mandato em circunstâncias delicadas e com o apoio fundamental militar do General Lott, destacando que seu governo se situa num período extremamente crítico, entre o suicídio de Getúlio Vargas (1954) e a renúncia de Jânio Quadros (1961).

Gomes (2002) acentua que a memória coletiva vem consagrando a identificação

do momento histórico dos anos 1950 com a expressão “os anos dourados” e nesse

período há, sem dúvida, uma figura central que é a do Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira. Sendo, portanto os chamados “anos dourados” os anos de seu governo em virtude da força da imagem de desenvolvimento econômico e estabilidade política tão poderosa e marcante.

Cardoso (1978) pontua que Kubitschek encontrou uma conjuntura bastante complexa ao assumir o cargo, no terreno econômico a reversão de uma tendência de crescimento que se manifestara positivamente desde 1954, enquanto no campo ideológico a nação se envolvia em debates políticos travados sobre temas como nacionalismo, progresso entre outros e ainda no campo social havia uma profunda inquietação, advinda quer dos problemas econômicos, especialmente através das consequências inflacionárias, quer por razões de ordem político-ideológicas.

Vale dizer que JK conseguiria reverter essas tendências, mesmo que temporariamente, proporcionando através da sua política econômica e enorme habilidade política transformar sua gestão em um dos períodos de maior crescimento e expansão econômica que o país já tinha vivido, propalada por meio do seu slogan de

campanha “cinquenta anos em cinco”, consagrando o ideário de desenvolvimento. Se

antes de JK falava-se em “fomentar o desenvolvimento”, na gestão Juscelino esse termo foi posto em prática.

Segundo Ricardo Maranhão (1981) a trajetória política de Juscelino Kubitschek se impulsionou quando se aproximou do interventor de Vargas em Minas, Benedito Valadares, tornando-se secretário de seu governo em 1933. Sob a tutela de Valadares, se elegeu deputado constituinte em 1939 e no mesmo ano tornou-se prefeito nomeado de Belo Horizonte. A partir de 1945, Valadares seria um dos mentores para a formação do

Partido Social Democrático (PSD), o que facilitaria a ascensão política de Juscelino. O pessedismo mineiro garantiria a JK o governo do estado de Minas, no entanto, no plano nacional era necessária a articulação política com o outro grande partido representante da herança varguista, que era o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Político da elite com grande repercussão nas massas, com uma capacidade incrível de transformar a eficiência governamental em votos, e uma oratória capaz de entusiasmar as multidões, JK parecia talhado para expressar pessoalmente a aliança partidária entre PSD-PTB.

Benevides (1976) indica que para se entender a eleição de Kubitschek é necessário visualizar o quadro histórico do regime vigente no período, ou seja, não é possível pensar os mecanismos de funcionamento de interesses sem compreender a articulação PSD-PTB como ponto central, tanto no tocante ao poder Executivo quanto no Legislativo, haja vista que o governo representaria, objetivamente, os interesses da maioria parlamentar e esses interesses estariam representados na aliança PSD-PTB. Assim, a elite rural, por intermédio do PSD, manteria seus interesses preservados, uma vez que o sistema de poder e propriedade no campo permaneceriam intocáveis, bem como os interesses do empresariado (não apenas os vinculados ao capital estrangeiro, mas também os que dependiam de créditos, pois a política financeira permaneceria nas mãos do PSD) e ainda interesses das camadas urbanas que buscariam os ganhos provenientes do êxito do desenvolvimento econômico, por meio do PTB.

Moreira (2010) sublinha que como o PSD tinha uma característica conservadora e ruralista, enquanto o PTB advogava os interesses trabalhistas, com inserção, sobretudo no meio urbano, a aliança PSD-PTB configurava a administração Kubitschek um

aspecto de governo de “centro”, haja vista que aglutinava setores políticos com agendas

muito diversas.

Ressalta-se ainda a importância deste pacto PSD-PTB no Legislativo, pois a força desta aliança garantiria no Congresso Nacional a continuidade do poder político, assegurando a legitimação das políticas do governo no âmbito parlamentar, e também faria o Congresso funcionar como canal de circulação de demandas setoriais dos diversos grupos sociais de apoio ao governo. Assim, essa base aliada no Congresso seria obtida em troca da ocupação de inúmeros cargos nos órgãos administrativos do Estado, um tipo de política da reciprocidade entre o Legislativo e o Executivo.

Desse modo, a aliança PSD-PTB se mostraria imbatível, já que esses partidos tinham suas bases eleitorais em setores diferenciados da população, como já mencionado, podendo assim, maximizar a conquista de eleitores em suas respectivas

zonas de influência sem entrar em concorrência entre eles mesmos. O próprio Juscelino tinha clara noção da importância e do provável sucesso dessa aliança, como declarou em entrevista a Maria Vitória Benevides:

[...] A aliança com o PTB foi articulada graças à liderança de Oswaldo Aranha. João Goulart,apesar de todo o prestígio pela herança do testamento político de Getúlio Vargas, fora derrotado para senador no Rio Grande do Sul e abandonara tudo. [...] Oswaldo Aranha assume a liderança do partido, através de Tancredo Neves, propõe minha candidatura para a presidência. Eu sabia que uma aliança com o PTB era imprescindível, somente uma aliança muito forte poderia enfrentar a oposição e sair vitoriosa; e somente com um candidato que conseguisse a reconciliação entre o voto rural do PSD e o voto urbano do PTB. Foi por isso que insisti no nome do Jango para a vice- presidência; como candidato tinha que pensar em termos de cálculo político e isto me obrigava a uma aliança com o PTB. No PTB, o nome de Goulart era o que reunia maiores possibilidades (BENEVIDES, 1976, p. 289-290).

É possível verificar pela posição de Juscelino que ele procuraria não trabalhar distante dos partidos, pois percebia a relevância de se criar uma aliança partidária forte que o levasse ao poder. Mesmo enfrentando dissidências dentro do seu partido, JK mostrou a importância de ter Jango em sua chapa e conseguiu formá-la. No Pleito de 3 de outubro de 1955, o vice de JK, João Goulart, conseguiu 3.591.409 votos, enquanto JK recebeu 3.077.411 votos, o que mostrava a força do PTB e a sua importância para a eleição de Kubitschek, ou seja, seu cálculo político estava correto. Ainda com relação a esta eleição de 1955, Juscelino obteve, em termos porcentuais, 36% dos votos, contra 30% de Juarez Távora, 26% de Adhemar de Barros e 8% dados a Plínio Salgado (CARDOSO, 1978).

JK soube de maneira primorosa contornar os obstáculos políticos ao seu governo e mesmo tendo dificuldades em certas situações, numa análise mais ampliada de sua gestão pode-se verificar o seu êxito. Este sucesso foi possível em função da característica política de JK, que habilmente procurava convergir os interesses do seu eleitorado que estavam vinculados aos interesses da maioria do Congresso, representada pela aliança PSD-PTB, e também ligados ao seu projeto econômico, que última análise não desagradava a maioria dos grupos politicamente significativos. Juscelino contava, então, com uma maioria no Congresso que impedia, de maneira eficaz, a oposição de obstruir as pautas relevantes para a implementação de seu programa de governo, destacando que as diversas oposições políticas ao governo como a da União Democrática Nacional (UDN), a de alguns setores militares e de parte imprensa estavam

desorganizadas e desarticuladas para agir de um modo mais eficiente contra o governo (MARANHÃO, 1981).

Vale dizer que aliança partidária alguma pode se limitar apenas à eleição presidencial, haja vista que a vitória para a presidência não garante a plena governabilidade, ainda mais para um presidente que teve sua vitória contestada por seus adversários políticos, como foi o caso de JK, que para tomar posse precisou de apoio do Exército através do chamado golpe preventivo24 de 11 de novembro liderado pelo então Ministro da Guerra General Lott, ponto que será detalhado mais a frente. Portanto, nessa conjuntura, se Juscelino não pudesse contar com uma maioria confortável no Congresso Nacional dificilmente teria condições de governar o país e, consequentemente, teria dificuldades para implementar o núcleo duro de sua campanha, que era o Plano de Metas. Desse modo então, a aliança que o elegeu deveria se repetir no Congresso, tornando o bloco de apoio ao governo imbatível politicamente a fim de permitir a governabilidade do presidente e possibilitar a implantação de sua política desenvolvimentista.

Benevides (1976) aponta que o sucesso da aliança PSD-PTB não era um sucesso pleno, pois esta não representava um apoio incondicional ao governo e para conseguir mais apoio JK teria de cumprir os compromissos assumidos em campanha com os partidos da sua base aliada, como, por exemplo, o PTB ficando com o ministério do Trabalho, controlando todos os institutos e sindicatos e também com o ministério da agricultura, enquanto o PSD ficaria com as pastas da Fazenda, das Relações Exteriores, da Justiça e o Ministério de Viação e Obras Públicas, este último de grande peso em virtude da possibilidade de muitos empregos, o controle e distribuição de elevadas verbas.

Além das injunções políticas dentro dos aliados políticos, Kubitschek teria de enfrentar, como já assinalamos, a constante e perturbadora oposição udenista advinda do principal partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN), sobretudo pela

chamada “Banda de Música”, assim conhecida pelo barulho que provocava em plenário

com seus discursos inflamados e orquestrados, especializando-se nas denúncias dos escândalos da administração e na obstrução aos projetos do Executivo. JK se referia à

24

Quando pressionado por diversos generais, o Ministro da Guerra, o General Teixeira Lott, mesmo exonerado, comanda a ocupação da capital do país por tropas do Exército, derrotando a tentativa de golpe que visava impedir a posse do Presidente eleito Juscelino Kubitschek e do Vice Presidente João Goulart (FILHO, 2010, p.120).

UDN do seguinte modo: “A UDN sempre me trouxe de canto chorado é expressão lá de Minas, quer dizer sempre na mira para atacar, sempre perseguindo, uma perseguição

medonha” (BENEVIDES, 2002, p. 24). E esta ferrenha oposição de alguns setores a

Juscelino era consequência se sua identificação como “herdeiro” de Vargas.

Ainda com relação a JK e os partidos políticos de sua base é importante salientar a atuação do seu vice-presidente, João Goulart, para resolver os problemas da área de atuação do PTB, a área trabalhista. Como líder nacional do partido Jango procurava blindar o presidente nas divergências causadas dentro do PTB em relação às questões trabalhistas, evidenciando, assim, que o cálculo político de Juscelino em relação à aliança PSD-PTB estava certo, e demonstra, por conseguinte, que as ações do presidente não eram baseadas apenas no voluntarismo de sua personalidade, mas também em análises conjunturais políticas.

Vale destacar ainda que Juscelino Kubitschek sabia que não seria possível manter a estabilidade política apenas com o apoio da aliança PSD-PTB e que era fundamental para seu governo a defesa da ordem, da lei, da constituição, do regime e isso equivaleria para JK à defesa da sua candidatura, da sua posse e de sua manutenção no poder no período previsto. Assim, Juscelino montaria um mecanismo político com o PSD-PTB e para assegurar a defesa da ordem democrática precisava do apoio das Forças Armadas e para isso chamou para si os principais líderes militares a ele ligados desde o golpe preventivo de 11 de novembro de 1955.

Benzer Belgeler