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5.1. Cerrahi Endikasyonlar

Figura 2.1 - Mapa intitulado Afbeelding Der Stadt En Fortressen Van Parayba. Autor: Claes Jansz Visscher, 1634. À esquerda localização da cidade de Nossa Senhora das Neves (João Pessoa) e à direita os três fortes da Parahyba. (FONTE: Adonias, 1993)

A fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves, capitania da Parahyba, em 5 de Agosto de 1585, seguiu as recomendações da metrópole portuguesa para com suas colônias. Foi implantada a quarenta metros acima do nível do mar e a vinte quilômetros da foz do Rio Parahyba, sendo gradativamente erguidas algumas fortificações para proteção do território: a Fortaleza de Santa Catarina, ao sul; o Forte de Santo Antônio, ao norte; e o Fortim de São Bento, situado na Ilha da Restinga (ver figura 2.1). O local oferecia fatores importantes para a localização da cidade, como a existência de pedra calcária e a presença de fontes de água doce (PIZZOL, COUTINHO, LIMA, 2006).

Por muitos séculos, a malha urbana ficou restrita ao seu núcleo inicial, dividida entre cidade baixa e cidade alta; na primeira área, conhecida como varadouro, localizavam-se as atividades comerciais, com armazéns, lojas, o Porto do Capim e a alfândega; na segunda área se acomodaram as edificações administrativas, religiosas e residenciais. Contribuíram para essa estagnação, não só o processo de ocupação portuguesa nas colônias, explorando

a matéria-prima e instalando apenas pequenos núcleos urbanos para garantir a posse das terras, como a proximidade com as vilas de Recife e Olinda, na capitania de Pernambuco, onde a vida urbana era mais dinâmica.

Figura 2.2 - À esquerda, mapa de João Pessoa Imagens do Brasil Colonial, Frederica Civitas 1640 à 1647. Figura2.3 - A direita, planta da cidade da Parahyba por volta de 1640.

(FONTE: Nestor Goulart Filho, 2000 apud SOUSA e NOGUEIRA, 2008, adaptação da autora.)

As figuras 2.2 e 2.3 ilustram a cidade de João Pessoa no século XVII, ilhada entre o rio e a mata atlântica, com trilhas de caminho para leste, em direção às praias de Cabedelo e Tambaú; ao sul, Olinda, Pernambuco; e oeste, interior da capitania da Paraíba.

Na segunda metade do século XIX, o Estado da Paraíba passou por sérias crises econômicas, como a do açúcar, provocada pelas secas de 1877 e de 1898, o que causou a migração das pessoas do campo para a cidade. Com o crescimento populacional, a cidade alta se firmou como área residencial, administrativa e financeira e passou por melhorias na infraestrutura, com a instalação de equipamentos urbanos que atendessem às necessidades básicas da população, o que passou a atrair, também, a burguesia rural.

A „concentração‟ da zona residencial nas ruas Nova e Direita, e do comércio no Varadouro e nas Convertidas, levava a aristocracia emigrada não mais a procurar o sobrado como simples residência de inverno, [...], mas como único meio viável de estar presente nas zonas socialmente mais importantes da cidade. E morar em sobrado, distante de tudo o que se passasse na rua, resguardado das aventuras imprevisíveis de um contacto mais direto com o exterior [...] morar assim, encastelado, veio a se tornar sinônimo de importância, de prestígio e riqueza. Viver em sobrado queria dizer, portanto, segurança e posição e garantia status social. (AGUIAR e OCTÁVIO, 1989:107):

A descrição dos historiadores paraibanos encontra paralelo nos textos de Gilberto Freyre, indicando que o ambiente da Casa-Grande e Senzala (1933/2006) de um país colônial passou a dar espaço aos Sobrados e Mucambos (1936/1996), com a vinda do príncipe regente e a Primeira República. No habitar urbano, a casa se tornou a unidade basilar, embora os sobrados, residência da população abastada, negassem a rua, considerada o lugar do pobre, espaço apenas de circulação e residual.

Como argumenta Leitão, “a arquitetura, que começa a definir o espaço edificado nas cidades brasileiras vai refletir, naturalmente, o lugar social de cada morador, não apenas na forma, no emprego de materiais nobres, mas também no volume edificado.” (2005:236) Assim, as cidades brasileiras continuam a refletir as relações coloniais, com a exclusão social e a segregação dos espaços entre ricos e pobres, configurando-se como espaços de disputa.

As dimensões de João Pessoa se expandiam aos poucos, com ocupação dos vazios urbanos e de alguns espaços entre sítios e fazendas vizinhas. Silveira (2004) aponta uma diferenciação na concentração urbana em dois setores distintos: o crescimento sul, pelas avenidas das Trincheiras e Cruz das Armas; e o crescimento nordeste/leste, sentido Bica do Tambiá. Posteriormente, foi instalado o sistema de bondes, favorecendo a ampliação da malha urbana para esses dois sentidos, ver na figura 2.4. “Sobre os trilhos do bonde, ricos e pobres, brancos e negros se deslocavam pela cidade, fosse a trabalho, durante os dias úteis, fosse a passeio, nos finais de semana.” (COUTINHO, 2004:49).

Com a instauração da República, o Brasil passou por mudanças econômicas e estruturais, baseadas nos valores burgueses e positivistas dos países europeus, sob o trinômio sanear, circular e embelezar. A mudança na estrutura urbana colonial do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, tornou-se exemplo de reforma urbana para as outras cidades brasileiras, nas quais médicos, engenheiros sanitaristas e inspetores de saúde pública passaram a produzir relatórios que identificavam pontos preocupantes a serem melhorados, nesse período realizou-se a abertura de grandes avenidas, com a consequente eliminação dos cortiços insalubres; foram criados grandes eixos com belas perspectivas; padronizou-se a altura das edificações; construíram praças e parques urbanos.

Figura 2.4 - Planta da cidade da Parahyba, em 1855, levantada por Alfredo de Barros e Vasconcelos 1º Tenente do Corpo de Engenheiros.

(FONTE: Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, editado pela autora.)

No início do século XX, incentivado pelas recomendações higienistas dos ares litorâneos, o governador da cidade da Parahyba, o engenheiro sanitarista João Machado, promoveu alguns benefícios de infraestrutura. Em 1906, a partir dos trilhos da linha de bonde de Tambiá, ele criou a Ferrovia de Tambaú, que saía da Cruz do Peixe, e tinha como destino o atual bairro de Tambauzinho, impulsionando o crescimento da cidade na direção leste. No ano seguinte, com a construção da ponte sobre o Rio Jaguaribe, houve uma expansão dos trilhos até o distrito da Praia de Tambaú. A ocupação dessas novas áreas repercutiu igualmente sobre a construção diferenciada e setorizada do espaço, demarcando a expansão urbana da cidade, como aponta Silveira (2004).

Em 1918, seguindo os trilhos da linha férrea, foi aberta uma avenida de trinta metros de largura com cinco quilômetros de extensão, que partia da Usina Cruz do Peixe até a Enseada de Tambaú. No entanto, a construção da ponte sobre o Rio Jaguaribe permaneceu incompleta até a década de 1930, sendo finalizada apenas em 1936, ver figuras 2.5 e 2.6.

LEGENDA: Primeiros aglomerados urbanos: Cidade Alta Cidade Baixa Ocupação espontânea Expansões: Nordeste/Leste (Tambiá) Sul (Jaguaribe) N

Figura 2.5 - Linha férrea Cruz do Peixe, 1924, futura Avenida Epitácio Pessoa. (FOTO: Voltaire. FONTE:

http://paraibanos.com/joaopessoa/fotos-antigas.htm)

Figura 2.6 - Avenida Epitácio Pessoa de encontro com o mar, 1950 (FONTE: PEREIRA, 2008)

Com a conclusão da Avenida Epitácio Pessoa, no trajeto entre Cruz do Peixe e Tambaú, e a substituição do bonde a tração animal pelo bonde movido a energia elétrica, na década de 1940 houve uma frequência maior de pessoenses à orla marítima, não só para veraneio, mas para lazer nos fins de semana. O bonde foi desativado, em 1950, e o automóvel passou a exercer influência direta sobre a relação transporte - uso do solo (SILVEIRA, 2004). Os sítios e fazendas, situados à margem do percurso da Ferrovia Tambaú e posteriormente da Avenida Epitácio Pessoa, então valorizados, levaram à criação de vários bairros entre o centro e a praia, e ampliando a malha urbana em direção ao mar.

ANO POPULAÇÃO ÁREA (Km²) DENSIDADE HAB/HA

1634 - 0,46 - 1855 20.099 1,86 108,14 1889 18.645 2,14 87,08 1923 52.990 5,06 104,69 1930 73.661 10,72 68,70 1946 106.828 14,45 73,95 1954 136.200 18,23 74,70 1972 221.546 29,01 76,36 1978 308.303 38,05 81.03 1983 395.060 58,68 67,33 1994 549.363 80,32 68,40 2004 649.410 110,61 58,71 2010 723.514 211 34,28

Tabela 2.1 - Densidade Demográfica Urbana de João Pessoa.

(FONTE: OLIVEIRA, 2006; IBGE Cidades, 2010.)

Entre os anos de 1920 e 1950, tanto a população cresceu, quanto a área urbana de João Pessoa se expandiu, como se pode observar na tabela 2.1. Entre 1923 e 1954, o acréscimo populacional foi de 128,51% habitantes, e a área urbana da capital aumentou

mais de três vezes, de modo que uma diminuição da densidade urbana também evidencia a expansão da área urbana.

No final do ano de 1952, a Avenida Epitácio Pessoa estava pavimentada, algumas residências familiares começaram a se fixar nesta região, iniciando um novo processo de ocupação, com o deslocamento das famílias abastadas que viviam nos casarões do bairro Tambiá, nos arredores do Parque Solón de Lucena e do bairro Jaguaribe, para a nova avenida. Nesse período se iniciou um processo de seletividade urbana, a orla marítima passou a abrigar residências fixas, que se espalhavam no eixo dessa avenida, para regiões situadas ao sul e ao norte da cidade (figura 2.7).

Figura 2.7 - Planta geral da cidade de João Pessoa em 1953.

(FONTE: PEREIRA, 2008, legenda da autora.)

Entre os eixos de crescimento de João Pessoa, leste e sul, observa-se uma diferenciação de classes sociais: no primeiro, localizam-se as áreas mais bem servidas de infraestrutura, habitadas por uma população de maior poder aquisitivo; no segundo eixo situam-se as áreas deterioradas próximas ao centro e aos bairros periféricos, acomodando a

LEGENDA:

Parque Solón de Lucena Ponto de Cem Réis

Praça da Independência Jardim Miramar

população de menor poder aquisitivo. Silveira (2004) argumenta que a ocupação territorial de João Pessoa está associada ao processo de evolução das redes sociais de alta e média renda na cidade, criando qualidades espaciais características relacionadas à segregação.

Na década de 1960, o espaço urbano de João Pessoa passou por novas mudanças estruturais e de ocupação. Para suprir problemas relacionados à moradia popular, foram implementados conjuntos habitacionais, a princípio, financiados pela Fundação da Casa Popular e pelo Instituto de Previdência.

Em 1964, o Regime Militar passou a interferir diretamente na ocupação urbana das cidades brasileiras, criando o Sistema Financeiro de Habitação (SFH), tendo como frente o Banco Nacional de Habitação (BNH), que financiava a construção de conjuntos habitacionais para as classes média e baixa, os quais passaram a “ocupar a linha de frente como vetor de direcionamento dos rumos da expansão da cidade” (Lavieri e Lavieri, 1992:9)

O Sistema Financeiro de Habitação (SFH) contribuiu para o desenvolvimento urbano, com a ampliação dos serviços de água e luz da cidade e a valorização seletiva do solo, o que em João Pessoa aprofundou a segregação e a exclusão social.

Na década de 1970, o aumento nos financiamentos isolados para habitação pelo SFH contribuiu para a ocupação de bairros de melhor padrão, próximos à Avenida Epitácio Pessoa e à orla marítima, cujas necessidades de infraestrutura urbana foram enfrentadas pela implantação do projeto CURA13, que atuou nos bairros da orla marítima (Cabo Branco,

Tambaú e Manaíra) e do Cristo Redentor. As obras de pavimentação de vias, redimensionamento da rede de água, instalação da rede de esgoto e implantação de equipamentos urbanos para áreas de lazer incentivaram a procura por moradia pela classe média e alta nestas regiões, também, beneficiadas pelo SBPE14, que passou a financiar as

unidades individuais de domicílio (SCOCUGLIA, 2000).

O projeto CURA proporcionou melhorias urbanas para alguns bairros de João Pessoa, porém, devido às intenções de aumentar a receita fiscal, através do IPTU, tais melhorias se restringiram às áreas mais nobres da cidade. Esse contexto favoreceu um acelerado processo de expulsão de moradores com baixa renda desses espaços e o surgimento das primeiras nucleações de favelas, que passaram a ocupar áreas impróprias à exploração imobiliária, como cercanias de rodovia, vales, mangues, margens de rios, dentre outros.

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Comunidades Urbanas de Recuperação Acelerada

Ao longo dos anos, tais diferenciações sociais só vieram a se agravar, aumentando a segregação socioespacial da cidade. A evolução da ocupação urbana de João Pessoa está ilustrada pela figura 2.8; as cores mais quentes, vermelho e laranja, correspondem à região com ocupação mais antiga, onde se registram aglomerados urbanos a partir de 1634, sendo hoje o centro antigo da cidade, local de intensa atividade comercial e de serviços prestados. A partir de 1923, a cidade começou a se espalhar, para leste e sul. Na década de 1930, a cidade se desenvolveu até a praia, proporcionando as ocupações posteriores (OLIVEIRA, 2006), áreas assinaladas com as cores mais frias, azul claro e escuro, ainda estão em processo de ocupação.

Benzer Belgeler