BÖLÜM 2: CENNET LAFZI
2.6. Cennete Girmeye Vesile Olan Bazı Ameller
No dia nove de outubro de 1825, conforme noticiou o jornal Diário Fluminense, a galera D. Domingos chegou ao porto do Rio de Janeiro. Depois de mais de dois meses viajando desde Lisboa, desembarcaram, além de outras sete pessoas, os seguintes “bacharéis formados”:
Gabriel Mendes dos Santos, João Joaquim da Silva, Aureliano de Sousa e Oliveira, Saturnino de Sousa e Oliveira, Manuel Antonio da Rocha Faria, Honório Hermeto Carneiro Leão, Francisco Pereira Dultra, Bernardo Belisário Soares de Souza, Manuel Machado Nunes, Martiniano da Rocha Bastos, Luis Álvares de Andrade, Antonio José Monteiro de Barros, Francisco de Paula Serqueira de Laet e Joaquim José Rodrigues Torres.13
Quando eles começaram a travessia do Atlântico, no início de agosto, Portugal ainda não reconhecera a independência do Brasil, o que só aconteceria com o tratado assinado no dia 29 desse mês. É bem provável, portanto, que essas pessoas só tenham recebido a notícia mais tarde, depois que aportaram na capital brasileira. Alguns, como Honório Hermeto Carneiro Leão, tinham deixado o Brasil rumo ao Velho Mundo por volta de 1820, quando talvez nem vislumbrassem o desmembramento do Império luso. Cinco anos e muitas incertezas depois, tudo se transformara e certos nomes não tardariam a estarem juntos na condução da nau do Estado independente.14
Por causa de interesses políticos, uns ficariam mais juntos do que outros, como, por exemplo, os irmãos Aureliano e Saturnino, que seriam conhecidos por sua influência no Paço Imperial e por se oporem ao Regresso, grupo de Honório e Joaquim José Rodrigues
13 Diário Fluminense, citado em Henrique Carneiro Leão Teixeira Filho. “Honório Hermeto Carneiro Leão,
Marquês de Paraná. Do berço de Jacuí ao fastígio do poder – 1801-1856”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 236, jul./set. 1957; p. 296.
14 Sobre o período de Honório em Coimbra, ver Aldo Janotti. O marquês de Paraná. Inícios de uma carreira
política num momento crítico da história da nacionalidade. São Paulo/ Belo Horizonte: EDUSP/ Itatiaia, 1990; p. 19-32.
Torres, também recém chegados.15 Apesar desse e outros desentendimentos, atribuiu-se, por vezes, maior importância às características da socialização e homogeneidade da elite política – formação universitária, ocupação e carreira política – do que às diferenças entre os dirigentes imperiais. De acordo com a perspectiva de José Murilo de Carvalho:
Havia sem dúvida certa homogeneidade social no sentido de que parte substancial da elite era recrutada entre os setores sociais dominantes. Mas quanto a isso não haveria muita diferença entre o Brasil e os outros países. As elites de todos eles vinham principalmente de setores dominantes da sociedade. Ocorre que nas circunstâncias da época, de baixa participação social, os conflitos entre esses setores emergiam com freqüência. [...] A homogeneidade ideológica e de treinamento é que iria reduzir os conflitos intraelite e fornecer a concepção e a capacidade de implementar um determinado modelo de dominação política. Essa homogeneidade era fornecida principalmente pela socialização da elite [...] 16 Vale lembrar que a argumentação de Carvalho embasou-se principalmente na sua constatação de que a elite que construiu o Império era composta majoritariamente por magistrados formados em Coimbra e com treinamento na burocracia estatal. Esses pontos são essenciais para a afirmação do autor de que houve uma continuidade entre a elite política portuguesa e a brasileira, o que explicaria, em grande parte, a manutenção da unidade da ex-colônia. Mais uma vez, nas palavras do autor:
A homogeneidade ideológica e o treinamento foram características marcantes da elite política portuguesa, criatura e criadora do Estado absolutista. Uma das políticas dessa elite seria reproduzir na colônia outra elite feita à sua imagem e semelhança. A elite brasileira, sobretudo na primeira metade do século XIX, teve treinamento em Coimbra, concentrado na formação jurídica, e tornou-se, em sua grande maioria, parte do funcionalismo público, sobretudo da magistratura e do Exército. Essa transposição de um grupo dirigente teve talvez maior
importância que a transposição da própria Corte portuguesa e foi fenômeno único na América.17
De fato, a trajetória de Honório Hermeto e de outros viajantes da embarcação D. Domingos podem ilustrar perfeitamente as asserções e tabelas de Carvalho, com proximidades ainda mais impressionantes. Na segunda legislatura imperial (1830-33), debutavam no Parlamento, juntamente com Carneiro Leão, os senhores Aureliano de Sousa e Oliveira e Bernardo Belisário Soares de Souza: todos bacharelados em Direito em
15 Sobre o papel dos irmãos no grupo dos áulicos e sua oposição aos regressistas, ver Paulo Pereira de Castro.
“Política e administração de 1840 a 1848”. In: S. B. de Holanda (org.) História Geral da Civilização Brasileira, v.2, t.2. São Paulo: DIFEL, 1985; p. 512-522.
16 José Murilo de Carvalho. A construção da ordem. Teatro de sombras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2006; p. 21.
Coimbra, magistrados no Brasil e, finalmente, políticos pela província de Minas Gerais. No mandato seguinte, os três foram reeleitos na bancada mineira, contando então com a companhia de Gabriel Mendes dos Santos, igualmente magistrado, diplomado em Coimbra e passageiro do D. Domingos.18
Os bacharéis formados pareciam seguir à risca o mesmo roteiro. Uma olhada na bancada fluminense dessa terceira legislatura e temos Joaquim José Rodrigues Torres ao lado de Saturnino Oliveira, dois nomes também pinçados daquele navio. Porém, esses não seguiram estritamente a trilha da “homogeneidade ideológica e treinamento”. Saturnino até formou-se com o irmão, mas não entrou na magistratura e foi atuar como advogado na Corte. Rodrigues Torres, por sua vez, estudou em Coimbra leis de uma natureza distinta daquelas de seus colegas, bacharelando-se em Matemática e lecionando na Academia Militar do Rio de Janeiro.19 A preferência pelos números não o impediu, contudo, de ocupar, já em 1832, o alto cargo de ministro de Estado, juntamente com Honório Hermeto e Aureliano de Sousa e Oliveira.20 Nesse começo de carreira, coube a Rodrigues Torres a pasta da Marinha, a qual ele ocuparia ainda em mais quatro ocasiões. Outrossim, seria ministro da Fazenda e presidente do Conselho de ministros por duas vezes, além de deputado, senador, conselheiro de Estado e primeiro presidente da província do Rio de Janeiro, cargo que Carneiro Leão e Aureliano também ocupariam.21 Como se vê, o futuro
18
Para a composição das bancadas, ver de Barão do Javari. Organizações e programas ministeriais. Regime Parlamentar no Império. 3ª ed. [1ª ed. 1889] Brasília: Departamento de Documentação e Divulgação, 1979; p. 284-291. Bernardo Belisário era tio de Paulino José Soares de Souza, futuro visconde do Uruguai. Os dois chegaram a conviver em Coimbra, estudando Direito; ver José Antonio Soares de Souza. A vida do visconde do Uruguai (1807-1866). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1944 , p. 21. Dados biográficos de Aureliano em S. A. Sisson [editor]. Galeria dos brasileiros ilustres. 2vol. [1ª ed. publicada entre 1859 e 1861] Brasília: Senado Federal, 1999; vol. 2, p. 465-476. Sobre Gabriel Mendes dos Santos, há algumas informações no site do Senado Federal, na seção Biografia de Senadores: www.senado.gov.br/sf/senadores/
19 Dados biográficos de Saturnino em Innocencio Francisco da Silva. Diccionario Bibliographico Portuguez.
Tomo VII. Lisboa: Imprensa Nacional, 1862; p. 199 (Disponível em: http://books.google.com/books). Sobre Rodrigues Torres, futuro visconde de Itaboraí, ver João Lyra Filho. Visconde de Itaboraí, a luneta do Império. Rio de Janeiro: Portinho Cavalcanti, 1985.
20 Os três fizeram parte do ministério de 13 de setembro de 1832 – que perdurou até janeiro de 1835 – , mas
só Carneiro Leão e Rodrigues Torres conviveram nele. Honório assumiu a pasta da Justiça no começo do ministério e saiu em 14/05/33. Rodrigues Torres ficou com a pasta da Marinha em 07/11/32 e saiu em 30/06/34. Aureliano passou por três pastas. Ficou de 23/05 a 7/10/33 como ministro do Império. Depois, assumiu efetivamente a pasta de Justiça a partir de 10/10/33 e, como interino, a pasta dos Estrangeiros em 21/02/34. Cf. Barão do Javari. Organizações e programas ministeriais; p. 45.
Itaboraí pode ser usado como um exemplo perfeito da porcentagem sem formação jurídica no todo da elite política que consolidou o Império.22
Todavia, mais do que uma estatística generalizadora, a trajetória de Rodrigues Torres servirá a este trabalho na medida em que introduz a rede de relações sociais e econômicas que acabou se consolidado na presidência de Honório Hermeto, em 1842, e que singularizou um grupo restrito de políticos no todo do Império. Por causa de suas ligações com a província do Rio de Janeiro, esse grupo viria a ser apodado de saquarema. Aliás, o primeiro presidente da província parece implicado diretamente com a origem do apelido. Conta-se que, na ocasião das eleições de 1844, o subdelegado da vila fluminense de Saquarema, pactuado com um dos ministérios do “qüinqüênio liberal” (1844-1848), teria incitado o assassinato dos eleitores que não votassem nas listas do governo. Acontece que, por ali, tinham parentes e influência os regressistas Rodrigues Torres e Paulino José Soares de Souza, dois dos mais importantes políticos da província e da Corte, e ambos não teriam medido esforços para livrar seus achegados de qualquer desmando. A intervenção dos grados políticos nas intrigas municipais inspirou os adversários a usarem o topônimo como adjetivo denotador de favorecimento descabido: saquaremas seriam todos os apaniguados da dupla. 23 Com uma intenção pejorativa, portanto, o termo logo se espalhou pelo Império, mas não demoraria a ser usado pelos correligionários para destacar a força dos regressistas fluminenses ainda que em uma conjuntura ministerial e provincial desfavorável – durante todo o “qüinqüênio liberal”, quem presidiu o Rio de Janeiro foi Aureliano, já tornado declaradamente um desafeto dos regressistas.
Mesmo que a veracidade da explicação acima seja incerta, a sua propagação na memória não deixa de ser um vestígio da atuação proeminente de Torres e Paulino na política imperial. No que tange à historiografia, o papel dos dois ficou mais do que consagrado na expressão trindade saquarema – o triunvirato de Joaquim Nabuco24 -, que os identificou como chefes máximos dos conservadores, ao lado de Eusébio de Queirós. Uma
22
Sobre a predominância da formação jurídica e de magistrados na elite imperial, ver J. M. de Carvalho. A construção da ordem. Teatro de sombras. A construção da ordem; p. 65-117. A tabela que mostra a formação dos ministros está na p. 84
23 Cf. Ilmar Rohloff de Mattos. O tempo saquarema. 5ª ed. São Paulo: Hucitec, 2004; p. 118-119. 24 Joaquim Nabuco. Um Estadista do Império. 2 vols. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997 ; vol.1, p. 75.
breve demonstração das ligações pessoais desses homens fará surgir uma trama na qual não tardará a tomar lugar Honório Hermeto, “o tradicional aliado da trindade”.25
Serve como ponto de partida a trajetória de Joaquim José Rodrigues Torres, o dedicado estudante das ciências matemáticas, que, depois de lecionar na Academia Militar em 1826, passou dois anos em Paris a fim de “valorizar ainda mais seus cabedais aplicáveis ao ensino”.26 Contudo, não seria seu zelo pela docência, que exerceu até 1833, o principal motivo da sua ascensão política. Em 1829, começou a inclinar-se para o jornalismo, ocupação que o aproximou do círculo de Evaristo da Veiga, o grande paladino do liberalismo moderado. Ao que parece, essa nova afinidade foi essencial, por exemplo, para que Rodrigues Torres alcançasse um ministério já em 1832. Nada, porém, lhe renderia mais altos dividendos políticos do que o casamento com Maria de Macedo Álvares de Azevedo.
Descendente de uma família de comerciantes e fazendeiros, Joaquim José Rodrigues Torres nasceu na freguesia de Porto das Caixas, importante escoadouro da produção agrícola da Baixada Fluminense. Os Álvares de Azevedo eram, sem dúvida, o clã com mais prestígio e ramificações em toda essa região, na qual tinham chegado ainda no século XVII, estabelecendo-se como produtores de açúcar. Por isso, o desposório com uma Álvares de Azevedo garantiu a Rodrigues Torres o reconhecimento, para além de sua localidade natal, em outros grandes centros agrícolas, como Araruama e Saquarema. A aliança das duas famílias foi ainda mais reforçada: dois dos irmãos de Maria de Macedo, também plantadores de renome, casaram-se com irmãs de Joaquim Rodrigues Torres. Com certeza, foi essa base de afinidades políticas e familiares que lhe garantiu a confiança de 63% dos eleitores fluminenses que, em 1833, escolheram-no para a legislatura imperial de 1834-37. Respaldo fundamental também para avalizar seu nome como primeiro presidente da província do Rio de Janeiro, a partir de outubro de 1834.
Antes de sucedê-lo na presidência fluminense, governando de 1836 a 1840, Paulino José Soares de Souza seguiu Rodrigues Torres no caminho do altar. Em abril de 1833,
25
A definição é de Ilmar Mattos. O tempo saquarema; p. 265.
26 Os dados biográficos deste parágrafo e do seguinte foram retirados do livro de J. Lyra Filho. Visconde de
Itaboraí; p. 17 e 37-44 (a citação é da p. 38) e de Jeffrey D. Needell. The party of order. The conservatives, the state and slavery in the Brazilian Monarchy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006, p. 24- 25 e 57.
casou-se com Ana Maria de Macedo Álvares de Azevedo. Sobre essa união, seu bisneto biógrafo escreveu:
Foi em grande parte devido ao seu casamento que Paulino, em breve, se tornará um dos chefes conservadores de maior prestígio na província do Rio de Janeiro. Sua mulher era cunhada de Rodrigues Torres e tinha parentesco e relações de família com os principais fazendeiros da baixada, que representavam então uma das mais consideráveis forças políticas da província.27
Portanto, mais do que correligionários, dois integrantes da trindade saquarema carregaram laços familiares e fizeram-se influentes por toda a Baixada Fluminense. Para selar a proximidade entre os novos concunhados, a cerimônia aconteceu com todas as pompas na capela da residência do então ministro da Marinha Rodrigues Torres e sua esposa.
Se acabou sendo o mais renomado na política imperial, Paulino não foi, entretanto, o primeiro Soares de Souza a se casar com uma Álvares de Azevedo. Seu tio Bernardo Belisário que, em 1825, era um dos bacharéis formados em Direito a bordo do D. Domingos, casou-se alguns anos depois com Mariana de Macedo Álvares. Companheiros de travessia na volta ao Brasil, Bernardo Belisário Soares de Souza e Joaquim José Rodrigues Torres tornaram-se concunhados, elegeram-se como políticos moderados na primeira metade da década de 1830 e, depois, continuaram juntos como regressistas. Destinos que teimavam em se cruzar.
Por sinal, um outro nome da lista de 1825, e que viria a ser um dos comandantes do Regresso, teve importância direta para que o futuro visconde do Uruguai pudesse logo entrar nesse círculo de relações. Honório Hermeto Carneiro Leão conheceu Paulino na Faculdade de Direito de Coimbra, onde ambos conviveram com Bernardo Belisário. Sendo mais novo e tendo começado os estudos depois, Paulino permaneceu em Portugal após a partida do tio e do colega. No final de 1828, ainda não se formara, mas resolveu voltar ao Brasil porque as aulas haviam ficado suspensas o ano todo por causa de agitações políticas na cidade do Porto. Entre 1830 e 31, terminou seus estudos e formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Como tantos outros políticos imperiais, de bacharel pulou direto para a magistratura: exerceu os cargos de juiz e, depois, de ouvidor da comarca na capital
27 José Antonio Soares de Souza. A vida do Visconde do Uruguai; p. 44. Sobre a trajetória de Paulino, cf. a
pesquisa de Pedro Aubert. Entre as idéias e a ação: o visconde do Uruguai, o Direito e a política na consolidação do Estado nacional (1853-1866). Relatório parcial de mestrado, FAPESP, 2009.
paulista até que, em 1832, o novo ministro da Justiça, Honório Hermeto Carneiro Leão, o companheiro de Coimbra, nomeou-o para um cargo na Corte. Daí por diante, assim como seu concunhado Rodrigues Torres, Paulino valeu-se do casamento para fortalecer seu nome na província e ingressar na política, sendo deputado provincial em 1835, presidente do Rio em 1836 e deputado geral em 1837.28
Além da nomeação de Paulino, Honório Hermeto foi responsável por encaminhar o outro integrante da trindade na política fluminense. Por indicações suas entre 1832 e 1833, Eusébio de Queirós Coutinho Matoso da Câmara foi nomeado juiz na Corte e, sem muita demora, tornou-se o primeiro chefe de Polícia do Rio de Janeiro, cargo que ocupou por 11 anos, com apenas um breve intervalo de cinco meses em 1840. Nascido em Angola, descendente de luso-africanos estabelecidos na magistratura e no comércio de escravos, Eusébio mudou-se com a família para o Rio ainda pequeno. Formou-se em Direito na Faculdade de Olinda, em 1832, e logo se empregou na Corte. Nessa época, seu pai integrava o Supremo Tribunal de Justiça do Império, o que muito deve ter concorrido para a rápida nomeação do filho na magistratura. Três anos depois, Eusébio casou-se com Maria Custódia Ribeiro de Oliveira, filha órfã de um proeminente comerciante carioca. Em segundo matrimônio, sua sogra uniu-se a José Clemente Pereira, português de nascimento e um dos principais articuladores do movimento de independência do Brasil. José Clemente foi um magistrado que se elegeu deputado provincial, geral e senador pelo Rio de Janeiro, foi ministro nos dois reinados, além de conselheiro de Estado. Como não tinha filhos, fez de Maria Custódia e do genro os seus herdeiros.29 Ademais, José Clemente acabou sendo, de certa forma, mentor político de Eusébio. No fim da década de 1830, ambos estavam juntos na Assembléia fluminense, engrossando as fileiras regressistas.
28 Paulino nasceu em Paris, em 1807. Seu pai era natural de Paracatu, Minas Gerais, e foi estudar Medicina na
capital francesa, onde acabou casando-se com Antoinette Gabrielle Madeleine Gibert. Em 1814, mudaram-se para Lisboa e, quatro anos depois, para São Luis do Maranhão, cidade em que Paulino viveu até ir estudar em Coimbra. Para os dados biográficos, ver J. Antonio Soares de Souza. A vida do Visconde do Uruguai; p. 9-11 e p. 21-46.
29 Para os dados biográficos de Eusébio de Queirós, ver Sisson. Galeria dos brasileiros ilustres; vol. 1, p. 27-
31, e Jeffrey Needell. The party of order; p. 28-29 e 67-68. Sua atuação como chefe de Polícia é analisada em Thomas H. Holloway. Policing Rio de Janeiro. Repression and resistance in a 19th- Century city. Stanford: Stanford University Press, 1993; principalmente p. 103-165. Sobre o movimento de independência e o papel de José Clemente Pereira, ver Andréa Slemian. Vida política em tempo de crise: Rio de Janeiro (1808-1824). São Paulo: Hucitec, 2006; p. 113-137.
Feito esse entrecruzar de trajetórias, nota-se que Rodrigues Torres, Paulino e Eusébio tinham sua rede de influência espalhada principalmente pela Baixada e pela Corte, regiões tradicionalmente associadas com a produção e exportação de açúcar e com o grande comércio – inclusive o tráfico negreiro – controlado pela elite mercantil estabelecida na praça do Rio de Janeiro.30 O que tornava essas áreas ainda mais importantes para os novos políticos é que a maioria dos eleitores fluminenses concentravam-se ali.31 Entretanto, esses homens não deixariam de notar também – e de aproveitar – a crescente importância de uma outra região da província e do grupo social que lá surgia: o vale do Paraíba e os fazendeiros cafeicultores. Talvez não seja exagero afirmar que Honório Hermeto cumpriu, em grande parte, o papel fundamental de juntar esses novos interesses aos futuros saquaremas.
Durante os dois primeiros séculos de colonização, a ocupação da antiga capitania do Rio de Janeiro restringiu-se à Baixada. Nesse espaço, a empresa colonial não se afastou dos moldes estabelecidos no Nordeste, sobretudo no Recôncavo Baiano, e desdobrou-se na produção açucareira e na atividade pecuária. Parece certo que o ponto de inflexão mais importante na tomada do espaço fluminense deu-se no contexto da intensiva exploração aurífera em Minas Gerais. A abertura do Caminho Novo, nos primeiros anos do século XVIII, incetivou a transposição da serra e o início do povoamento das partes altas do centro da capitania do Rio.32 À beira do novo trajeto, iam surgindo fazendas produtoras de gêneros de subsistência ou da importante cana-de-açúcar, propriedades que se destinavam a abastecer as vilas e as tropas que rasgavam o percurso em cada vez maior número e constância.
Não obstante, ao mesmo tempo em que impelia os homens a devassarem o interior, a nova estrada reforçou o papel destacado das baixas altitudes fluminenses. A cidade do