1 NAZAR NAZARLIK
3- CANLI VARLIKLARLA İLGİLİ İNANIŞLAR
Partindo da idéia de que a política econômica é sempre e, decisivamente, política de classe e de que ela se configura como uma expressão dos interesses que ela representa, não há que se surpreender com as prioridades da atual política econômica e os caminhos seguidos em tempos de capitalismo contemporâneo.
O choque monetário da internacionalização da economia nos anos 1970 procedeu, nos termos de Chesnais (1998), uma espécie de “reciclagem dos petrodólares” que permitiu aos países da OCDE superarem a recessão de 1974- 1975. Tal processo deu-se através viabilização de créditos concedidos aos países em desenvolvimento, permitindo transferência de riquezas em grande escala.
Entretanto, “essa reciclagem deu origem a essa dívida externa que tantos países do terceiro mundo carregam, há mais de vinte anos, como uma bola de ferro à qual vivem acorrentados” (p. 15). Esse processo transformou crises localizadas das dívidas nacionais em crises sistêmicas.
De acordo com Chesnais (1998), embora tal processo tenha implicado enfraquecimento de algumas instituições financeiras, a sistemática de transferência de riquezas não se interrompeu com a eclosão da crise da dívida, em 1982. “Pelo contrário, assistiu-se à inversão dos fluxos de capital entre o Sul e o Norte” (p. 16). É nesse contexto que o capital internacional volta sua atenção para os países periféricos do Terceiro Mundo, cobrando dos mesmos o retorno de capitais outrora investidos. A esse respeito vale retomar o breve panorama na análise de Carneiro (2007,p. 144).
A história nos mostra que as políticas de endividamento têm sido determinadas pela necessidade dos credores de emprestar, e não pela conveniência de empréstimos aos países em desenvolvimento. Em momentos de abundância de capitais nos mercados financeiros internacionais, como na década de 1970, quando se encontravam abarrotados de petrodólares, houve grande incentivo ao endividamento; uma verdadeira sedução com oferta de empréstimos a taxas de juros baixíssimas, porém flutuantes. Naquela década, o endividamento dos países de Terceiro Mundo foi a válvula de escape encontrada pelos bancos internacionais para destinarem o acúmulo de moeda decorrente da elevação dos preços do petróleo.
A destinação de capitais – via empréstimo – para os países periféricos, nada mais foi do que a própria necessidade do capital de “auto reproduzir-se”. E o capital só se reproduz a partir da extração da mais-valia, o que em determinado momento histórico, requer a imprescindível busca de novos mercados e novos investimentos. A crise da dívida, em 1982, promoveu o FMI em tutor das políticas econômicas dos países periféricos, condicionando suas possibilidades de desenvolvimento e impondo restrições de toda ordem.
A crise econômica crônica daqueles anos foram os determinantes da reorientação da política econômica norte-americana (BEHRING; BOSCHETTI, 2006), e do processo de endividamento e fragilização das economias latino-
americanas, bem como deu início às pressões por reformas nos países devedores. Nesses períodos de escassez de recursos nos mercados internacionais, procedeu- se uma verdadeira sangria nos países do Terceiro Mundo, os quais tornaram-se exportadores de capitais51.
O resgate do capital internacional provocou um verdadeiro estrangulamento da economia no conjunto dos países da América Latina – entre 1980 e 1985 os resultados foram catastróficos, “investimento interno bruto em queda de 26,9%; PIB per capita em queda de 8,9%; fluxo de importações em queda de 41,0%; e um crescimento médio do PIB de 2,3% entre 1981 e 1985” (BEHRING; BOSCHETTI, 2006, p. 139).
Para a “perdida década de 1980”, os impactos desse processo resultaram na queda da taxa de investimento do setor público, diminuindo a capacidade de ação de um Estado estruturante e, ainda, o ingresso do país na terceira revolução industrial. Segundo Behring e Boschetti (2006), muito embora a maior parte da dívida pública tenha sido contraída pelo setor privado, pressionado pelo FMI, procedeu-se uma impressionante socialização desta dívida. O Brasil acabou assumindo 70% da dívida externa como dívida estatal. Diante disso, “criou-se uma contradição entre a intensa geração de receitas de exportação pelo setor privado e o intenso endividamento do setor público” (KUCINSKI; BRANFORD apud BEHRING; BOSCHETTI, 2006, p. 139).
Destarte os efeitos numericamente apontados na América Latina e, especialmente, no seu país mais rico, o Brasil, eles responderam pelo empobrecimento generalizado da população; agenda negativa das políticas sócias, num cenário em que o aumento da demanda chocava-se com a não expansão dos direitos; além das outras tantas expressões da questão social, desemprego,
51“Mas, nessa mesma época, sem que se interrompessem os fluxos de transferência do Sul para o Norte, o centro de gravidade dos mecanismos de captação de rendimentos, em benefício da esfera financeira, deslocou-se para os países da OCDE. A formação dos mercados de bônus, a ‘securitização’ da dívida pública e o crescimento, cada vez mais rápido, da parcela dos orçamentos dos países da OCDE, consagrada ao serviço da dívida, significa que, atualmente, o mecanismo mais importante de captação e transferência é, de longe, aquele que transita pelos impostos diretos e indiretos nesses países. Uma parte do crescimento deve-se aos fluxos de riquezas inicialmente formadas como salários e benefícios sociais, ou como rendas de camponeses ou artesãos, antes de serem sugados pelo Estado através dos impostos, e depois transferidos, pelo Estado, à esfera financeira, a título de pagamento de juros ou de reembolso do principal da dívida pública” (CHESNAIS, F. 1998, p. 16).
exacerbação da informalização da economia e favorecimento da produção para exportação em prejuízo das necessidades internas. Para Behring e Boschetti (2006) estes fatores, que já se configuravam como características regionais preexistentes à crise da dívida, foram somente aprofundados no período pós-crise da década de 1980, quando a estagnação alcança a periferia.
Naquele momento, o que não é novidade, prevaleceu os interesses do capital financeiro. O mundo desenvolvido deu as costas para a América Latina; a reversão da onda especulativa fez os capitais retraírem-se de volta aos países do Norte, o que significou uma brusca queda dos fluxos de investimento externo de 12% para 6% (no Brasil, de 4,2% para 1%) (BEHRING; BOSCHETTI, 2006). Este “caminho de volta” feito pelos capitais, em função da elevação das taxas de juros internacionais (de cerca de 4% ao ano, essas taxas saltaram para mais de 20%) provocada pelos Estados Unidos, provocou as grandes crises: do México em 1995, do Sudeste Asiático em 1997, da Rússia em 1998, do Brasil no fim de 1998 e da Argentina no fim de 2001. O fator agravante é que os países em desenvolvimento foram os únicos responsabilizados pelo ocaso de suas crises; “os países ricos jamais assumiram sua co-responsabilidade nesse processo que acarretou enorme impacto sobre as economias de todos os países que caíram na armadilha dos juros flutuantes, elevando brutalmente o serviço da dívida e ainda gerando recessão, inflação, desemprego e violência” (CARNEIRO, 2007, p. 145).
Desse modo, diante do mais provável colapso financeiro tratou-se de reordenar os desajustados e impôs-se para toda a região latino-americana o discurso da necessidade dos ajustes e dos planos de estabilização (BEHRING; BOSCHETTI, 2006 e CARVALHO, 2007). A ideologia neoliberal se impôs em todas as decisões e deliberações dos governos daqueles países: políticas, econômicas, sociais, invadiu a vida cotidiana e se colocou como única possível. Essa reorientação produtiva tida como parte de um ajuste global produziu-se de cima para baixo, já que os custos foram dura e inteiramente pagos pela periferia. As economias centrais foram extremamente beneficiadas pela reestruturação produtiva, nos anos 1980, aos demais – economias não centrais – o ônus desse processo, em outras palavras, os custos foram pagos pela crise financeira do Estado com fortes e
graves impactos para a política social, pelos sindicatos e pelos países periféricos (BEHRING; BOSCHETTI, 2006).
É inegável, portanto, a co-responsabilidade de credores e devedores na “produção” da crise da dívida externa do Terceiro Mundo. No Brasil, a dívida externa saltou extraordinariamente de US$ 8,28 bilhões em 1971 para US$ 55,8 bilhões em 1979, fruto da deliberada política de endividamento estimulada pelos emprestadores e pelo FMI52. Os efeitos da crise implicaram intensa transferência líquida de capitais. Para se ter uma idéia, de 1978 a 2005 o Brasil pagou de juros e amortizações da dívida externa US$ 241,7 bilhões a mais do que tinha recebido de empréstimos, e ainda assim, a dívida saltou de US$ 52 bilhões para US$ 188 bilhões no período. É evidente, portanto, o fato de que a administração da dívida pública no Brasil não serviu (nem tem servido) aos interesses do país, mas aos bancos e especuladores co-participes desse processo (CARNEIRO, 2007).
E não para por aí, a década de 1990 surge como uma nova etapa do processo de endividamento das periferias mundiais, com nova oferta de capitais e novo incentivo aos empréstimos. De acordo com Sicsú e Vidotto (2007), destaca-se nesse período crescente influxo de capitais em virtude das altas taxas de juros domésticas, que promoviam a redução da dívida externa líquida ao mesmo tempo em que o Banco Central (BCB) formava reservas. “Essa operação, contudo, aumentava a dívida interna em virtude dos juros pagos pelos tributos lançados para promover a esterilização da oferta adicional de moeda nacional utilizada na compra de moeda estrangeira pelo BCB” (p. 114).
Outras reformas estruturais durante os anos de 1990, ainda contribuem para explicar a trajetória ascendente da dívida pública brasileira. Dentre as quais a renegociação das dívidas dos Estados, com o objetivo de conter o endividamento destes entes. O mecanismo que envolveu a troca das dívidas estaduais e municipais por títulos do governo central, respondeu por um impacto adicional da ordem de R$ 100 bilhões no montante da dívida pública. Outro fator foi o reconhecimento dos
52 Figurava entre as exigências dos contratos de crédito desse período, a prevalência de taxas de juros flutuantes, acompanhadas de cláusulas absurdas de renuncia da soberania; a obrigatoriedade de adoção de programas do FMI ou do Banco Mundial; os quais vinculavam os empréstimos à adoção de políticas econômicas anti-sociais; aquisição de produtos específicos e/ou de fornecedores predeterminados; fixação de foro estrangeiro em caso de litígio e ainda cobrança de juros anuais sobre a parcela não desembolsada dos empréstimos (CARNEIRO, 2007, p. 144-145).
chamados “esqueletos”, isto é, de passivos do setor público que juridicamente já eram certos, porém não estavam lançados nas contas públicas, e que significou um impacto na elevação da dívida de R$ 63 bilhões, entre 1994 a 2001. A agenda de privatizações, nos anos 1990, é um evento a parte: período que essa programática aconteceu em cascata, com a venda (concessão) das estatais a “preço de banana” e que contabilizou prejuízos extraordinários, entretanto, nesse caso, contribuiu em R$ 59 bilhões para conter a expansão da dívida (SICSÚ; VIDOTTO, 2007).
A vulnerabilidade externa da economia brasileira frente às crises financeiras internacionais era expressa em desastrosas medidas econômicas para o seu enfrentamento, dois instrumentos são recorrentes: “o alargamento do diferencial entre taxa de juros doméstica e a internacional e a oferta de proteção cambial aos investimentos financeiros”. As alternativas utilizadas sempre objetivavam conter a saída de capitais, como por exemplo, a oferta de títulos indexados à variação da taxa de câmbio, fatores que, necessariamente, resultariam, em períodos de crises cambiais, na expansão da dívida pública (SICSÚ; VIDOTTO, 2007).
O fato é que a subordinação político-econômica do Brasil aos imperativos desse modelo de desenvolvimento e suas condicionalidades econômicas, tem-se expressado, decisivamente, no contingenciamento dos gastos sociais e de outros gastos, em função do enorme serviço da dívida pública e outros encargos financeiros. Em síntese, do ponto de vista econômico, tem-se a entrada na década de 1990, um país totalmente submisso e derruído pela inflação e, no campo social, a exacerbação das mazelas sociais.
Dentro disso, como destaca Behring (2008), a política real foi a do redirecionamento (e veja, não a diminuição) do fundo público como imprescindível para a realização da produção e reprodução do capital. Muito embora, tais medidas, fruto da reação burguesa, implicassem em desproteção e barbarização da vida social, procedeu-se a diminuição da alocação e, para tanto, a diminuição do impacto junto às demandas do trabalho, “considerando que esse é um mundo onde não há emprego para todos, donde decorre a perversa associação entre perda de direitos e criminalização da pobreza” (p. 46).
É nesse ínterim, que a política social vem sendo reconfigurada sob a batuta e de acordo com a ordem hegemônica do capital, donde a mesma tem sido tratada
como necessária para a estruturação e até manutenção da segurança pública de políticas sociais. Desse modo, para Behring (2008), tem-se construído “uma política social para este mundo: longe do sentido de solidariedade, pacto social e reforma democrática e redistributiva, embutidos na idéia beveridgeana e social-democrata de seguridade social. Temos agora a conjugação de políticas seletivas e focalizadas para a “horda” (p. 47).