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David Coulter193 em seu artigo Creating common and uncommon worlds apresenta uma interessante e concreta aplicação da Ética do Discurso, que consiste em utilizá- la para decidir sobre o público e o privado na prática educacional. Ele afirma que existe uma grande dicotomia que é central para a prática do ensino: público e privado.194 As crianças necessitam de proteção e de privacidade para formar suas próprias identidades. Experimentando novos papéis precisam estar protegidas de algumas conseqüências destas tentativas até que se sintam confiantes para continuar experimentando. Formar identidades, argumenta ele, é também uma preocupação pública, na medida em que os mesmos papéis que as crianças experimentam foram definidos pelas comunidades. Aos professores é confiada a especial responsabilidade de determinar para as crianças a esfera do público e do privado. Seguindo Habermas o autor do referido artigo, afirma que esta decisão sobre o público e o privado é especialmente difícil para os professores, em função da burocratização da sociedade em geral, e da escola em particular, o que acarretou a erosão das distinções entre o público e o privado. Coulter sugere que a Ética do Discurso com sua tipologia dos discursos pragmáticos, éticos e morais, cada qual apontando para diferentes objetivos, e exigindo diferentes

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HERMANN, Nadja. Validade em educação: intuição e problemas na recepção de Habermas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. p. 118.

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COULTER, David. Creating common and uncommon worlds: using discourse ethics to decide public and private in classrooms. Journal of Curriculum Studies, s.l. v. 34, n. 1, p. 25-42, 2002. Available from, <http://www.tandf.co.uk/journals>. Cited: 18 Dec. 2002.

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Sobre a interação aluno-professor em sala de aula ver: SIMAO, Lívia Mathias. Desequilíbrio e co-regulação em situação de ensino-aprendizagem: análise segundo o conceito de ação comunicativa (Habermas). Psicol.

Reflex. Crit. [online]. 2000, vol.13, no.1 [citado 08 Dezembro 2002], p.33-38. Disponível na World Wide Web:

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722000000100005&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0102-7972.

condições de comunicação, podem ajudar ao professorado a criar mundos em comum e especiais para seus alunos.

“Just as the socialization process in the family exists prior to and conditions legal norms, so too does the pedagogical process of teaching. These formative processes in family and school, which take place via communicative action, must be able to function independent of legal regulation. If, however, the structure of juridification requires administrative and judicial controls that do not merely supplement socially integrated contexts with legal institutions, but convert them over the médium of law, then functional disturbances arise.”195

Os distúrbios funcionais nas escolas resultam das experiências comprometidas ou mesmo fracassadas, nas quais os alunos enfrentam graves problemas no desenvolvimento de sua personalidade ao longo do processo de socialização. A burocratização que pode estar na causa das dificuldades de inúmeras crianças no processo educacional configura-se assimilação da família pelo Estado do bem estar social, e da escola pelo sistema estatal jurídico- administrativo, resultando numa perda de autonomia e de escopo, privado e público, segundo Habermas. O desaparecimento das esferas do público e do privado é afinal, tão aflitivo para o aluno, como para a família e para a escola.

Abordar o público e o privado de forma inovadora, ao lado de certas características da Ética do Discurso de Habermas pode auxiliar aos professores a tomar melhores decisões para seus alunos. O novo entendimento do conceito de público é explicado da seguinte forma:

“A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. Do mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente, a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o

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HABERMAS, Jürgen. The theory of communicative action: lifeworld and system: a critique of functionalist reason. 3. ed. Boston: Beacon Press, 1985. v.2. p. 369. “Da mesma forma como no processo familiar de socialização, nos processos pedagógicos de ensino é de certa maneira previamente dadas suas condições legais e sua normatividade. Estes processos de formação escolar e familiar, que se desenvolvem através do agir comunicativo, devem ser capazes de funcionar independentemente da regulação jurídica. Se, no entanto, a estrutura de jurisdição exige controles administrativos e judiciais que não apenas complementem com instituições jurídicas o contexto de ação socialmente integrada, mas que o assente sobre o médium do direito, então distúrbios funcionais aparecerão.”

domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática cotidiana.”196

Ou seja, a esfera pública não é uma entidade ou um espaço numa determinada localização, mas o somatório dos diálogos travados na formação da opinião.

“O limiar entre a esfera privada e esfera pública não é definido através de temas ou relações fixas, porém através de condições de comunicação modificadas. Estas modificam certamente o acesso, assegurando, de um lado, a intimidade e, de outro, a publicidade, porém, elas não isolam simplesmente a esfera privada da esfera pública, pois canalizam o fluxo de temas de uma esfera para a outra.”197

Duas relevantes condições de comunicação são especificadas por Habermas, esclarecendo a dicotomia aqui em questão. Público e privado são condições de possibilidade necessárias para sustentar diferentes tipos de diálogos ou discursos, a saber: pragmático, ético e moral. Estes apesar de possuírem diferentes objetivos, são de importância crítica para o ensino.

“Não podemos confundir os assuntos públicos com os privados, pois é necessário levar em conta dois aspectos: o do acesso e da subseqüente tematização das competências e responsabilidades, e o da sua regulação. Por isso, falar sobre algo não significa intrometer-se nos assuntos de alguém.”

Os discursos pragmáticos são julgados por sua efetividade no auxílio à consecução de fins pré-determinados. E pode ser público ou privado, apenas como regras ou normas convencionais. Estes discursos presumem um pano de fundo não problematizado de valores e fins compartilhados, os quais em boa medida mobilizam diálogos debatendo as melhores formas, as mais efetivas para alcançar estes fins. Segundo Coulter a instituição escolar com ênfase em eficiência e na obtenção de metas, freqüentemente emprega os discursos pragmáticos. A educação centrada na preocupação com uma vida mais auto- realizadora e gratificante, usualmente demandará outros tipos de discurso. O uso impróprio do discurso pragmático e da racionalidade meios/fins, no trato de assuntos morais, é um problema familiar na sociedade moderna, que se torna crítico na educação de crianças onde os professores possuem um enorme poder sobre um outro especialmente vulnerável. Ao mesmo

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HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. v.2. p. 92.

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HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. v.2. p. 98.

tempo, o bom ensino requer a capacidade de se organizar aulas para classes numerosas e barulhentas. Como os objetivos do ensino envolvem ajudar aos alunos a aprender a como lidar com vidas mais recompensadoras, os professores precisam suplementar os discursos pragmáticos com outros tipos de diálogos.

Um alternativa oferecida por Habermas é o discurso ético. Quando os fins ou a própria idéia de fins, torna-se problemática, os participantes podem escolher se engajar em discussões centradas em preocupações com o autoconhecimento e com a identidade numa comunidade ou num mundo da vida particular. Tais discursos requerem uma especial privacidade. Como as pessoas não gostam de se tornar vulneráveis em assuntos tão importantes como identidade, os discursos éticos precisam ser protegidos ou escondidos da publicidade, pois é necessário espaço e liberdade para o desenvolvimento da identidade individual e para a decisão sobre quem se tornarão e a quais comunidades pertencerão. É claro que privacidade excessiva pode ser problemática. A inabilidade em lidar com outras pessoas, no limite pode resultar em isolamento e na formação de uma identidade marcada pelo autismo. Para os professores a privacidade é um tema crucial, pois eles tem o poder e a responsabilidade por tornar as salas de aula um santuário nos quais as crianças tenham espaço para formar suas próprias identidades.

Construindo o conceito de comunidade ideal de comunicação para o discurso moral, Habermas apela para o critério kantiano de universalidade. Para contornar as objeções que este procedimento levantaria, defende o diálogo contra o individualismo, e sustenta os discursos de aplicação para conter as críticas de formalismo e abstração.

“Os problemas mais difíceis não são, em linha, os da fundamentação de normas. Pois o que se questiona normalmente não são os princípios que transformam em dever o igual respeito por cada um, a saber, a justiça distributiva, a benevolência com os necessitados de ajuda, a lealdade, a sinceridade, etc. No entanto, o caráter abstrato dessas normas universalizadas levanta problemas de aplicação, tão logo um

conflito ultrapassa os limites de interações exercitadas e embutidas em contextos consuetudinários.”198

Os discursos morais para obterem impacto no mundo da vida dos envolvidos, precisa ser suplementado com discursos éticos e pragmáticos. A práxis educacional exige dos agentes envolvidos, os professores por exemplo, que ajudem aos seus alunos a se tornarem pessoas educadas. Para tanto o professorado precisa participar de discursos morais para determinar o que representa ser educado; precisa participar de discursos éticos para decidir as normas adequadas para se posicionar sobre o alunado; e, precisa participar de discursos pragmáticos para cuidar da implementação das decisões tomadas. Na realidade esta aplicação da Ética do

Discurso sobre as relações pedagógicas na sala de aula, ou no interior do estabelecimento de

ensino, é uma perspectiva com um potencial ainda maior e que desperta questionamentos profundos. Baseados no que estão atuando nossos professores? O recursos teóricos habermasianos podem tornar-se explícitos, conscientes e utilizáveis por todos os educadores? Em que medida os professores estão preparados para uma exigente práxis discursiva a ser empregada em seus encontros diários de trabalho em suas salas de aula junto às suas turmas?

Benzer Belgeler