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4. UYGULAMA

4.5 Bulgular

O homem no resplendor de seu magnífico intelecto, essencial a sua diferenciação com outras espécies que habitam o planeta Terra, ainda não encontrou um modo de desvencilhar-se da ação do tempo. A medicina, cada vez mais avançada e incrementada por estudos químicos, físicos e fármacos, logra êxito em prolongar a beleza e vida humana. Não obstante às benesses das ciências médicas e suas correlatas sobre a vida, não há até o momento presente uma fórmula para impedir o transcorrer do tempo. O único fato irrefutável é que tudo que existe será atingido por suas forças.

A ação do tempo a priori não se reveste de qualidade positiva ou negativa, porquanto nem a morte, “angústia de quem vive”,1 pode ser considerada um malefício para todas as hipóteses. O tempo ajuda na temperança e no conhecimento, possibilitando experiências contínuas ao ser humano no mesmo passo que vai distanciando o homem de sua juventude e encurtando o espaço até seu fim corpóreo. É, pois, elemento protagonista da existência.

Considerando seu papel preponderante, apesar da abstração e do contraste entre sua influência e intangibilidade conceitual, o tempo é tema que propicia fascínio desde o início das civilizações, ensejador de mitos e verdades e, objeto da vontade humana em subjugá-lo. Na mitologia, a figura do tempo é personificada em Kronos, o mais tirânico dos Titãs que, com o auxílio de sua mãe Gaia ou Gea (terra), revolta-se contra seu pai Urano (céu), tomando-lhe o posto de chefe. Contudo, por força da maldição lançada por seu genitor ultrajado, um dia Kronos viria a ser vencido por Zeus, seu filho com Réia, que se torna o grande Deus do Olimpo e aprisiona os Titãs no Tártaro.2

1 MORAES, Vinicius de. Livro de sonetos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (Soneto da fidelidade). 2 NOGUEIRA, Salvador; HORTA, Maurício; BOTELHO, José Francisco. Mitologia: deuses, lendas, heróis.

Segundo a crença, Kronos era temido por seus irmãos e teria engolido seus filhos para afastar de si a maldição proferida por seu genitor. Este mito conforma-se com a ideia que o próprio tempo faz refém as pessoas e indica que na época pré-helênica considerava-se o tempo como algo distante da bondade e mais próximo do aprisionamento do homem. Há de se ter presente que o tempo relembra a natureza finita do homem. Todavia, ao final, o tempo (Kronos) acaba por derrotado e preso longe dos homens e dos Deuses, afastando sua atuação de todos. Assim, tomado como símbolo, Kronos é o tempo, traiçoeiro e que engole seus filhos ou os seres humanos, limitando-lhes a vida, mas que é vencido, representando a satisfação humana da vontade de dominá-lo.

Se não é passível ao homem sufocar o tempo em detrimento da realização de todos seus desejos, ao menos na esfera mítica, Kronos foi subjugado por um ser mais forte e que ele próprio deu origem, pois é em um espaço-tempo que se principiam e se findam todas as coisas e seres.

Da palavra cronos procedem diversos vocábulos atrelados ao tempo, como cronômetro e cronograma. O tempo considerado como mensuração é único, atingindo a totalidade dos seres em qualquer período. Os minutos se divididos por sessenta segundos serão sempre uma medida quantificável equivalente em qualquer data, embora nem sempre tenha sido esta a medida cronológica de tempo. Contudo, é insofismável que cada indivíduo considera o tempo de forma diferente, inclusive, sentido o mesmo espaço temporal de maneira diversa para cada ato ou fato da vida. O tempo, desta maneira, radica suas raízes no subjetivismo de cada qual e, sob este aspecto, tem-se o tempo subjetivo ou intrapessoal. Não se afigura admissível hodiernamente reduzir todos os conceitos à cronologia, enquanto ciência que quantifica objetivamente o tempo.

É assente que atualmente o tempo transcorre de maneira mais veloz que em épocas mais remotas. Não é outra a sensação que hoje o tempo corre.3 De certo que o tempo enquanto divisões ou marcos temporais não sofreu alterações. O que mudou foi o modo de viver da sociedade, que exige rapidez das ações, pensamentos e até emoções. A interligação mundial através da evolução das comunicações e transportes, a transmutação do homem do

3 No mesmo sentir, Clóvis Fedrizzi Rodrigues afirma, contundentemente, que: “Hoje, sem dúvida, o tempo é

menor, em termos subjetivos. E também, o demorado é muito mais demorado. Desse modo, o tempo razoável de algumas décadas atrás deixa de ser razoável e passa a ser excessivo.” RODRIGUES, Clóvis Fedrizzi. Direito fundamental à duração razoável do processo. Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil, Porto Alegre, v.11, n. 63, p. 84, jan./fev. 2010.

campo para a vida urbana, o desenvolvimento da indústria e do comércio e, principalmente, o excesso de informações impõem ao indivíduo moderno uma supressão de seu tempo interno, antes destinado ao ócio e reflexão. Muda-se a cultura, a forma de viver, alteram-se os padrões e o tempo se torna objeto raro e almejado por todos.

Explorando a separação entre tempo do relógio ou do calendário e tempo interior, tem-se o tempo objetivo ou quantitativo e o tempo subjetivo ou qualitativo. Esta constatação das duas faces do tempo já foi diagnosticada desde o período da Grécia Antiga. Os gregos referiam-se ao tempo por meio de duas palavras chronos ou cronos (xpóvoc) e kairos (kaipóc). Sublinha-se que chronos estava ligado a acepção do tempo medido pelo relógio ou calendário, isto é, por meio de dias, anos, meses, como quando se afirma que uma pessoa possui determinada idade e, portanto, tempo quantitativo, enquanto que kairos concebe o tempo qualitativo, exprimindo um momento decisivo ou uma decisão oportuna, como o momento adequado para se colher uma oportunidade.4

Como paradigma para explicar os fenômenos naturais, os gregos possuíam outras personificações. Kairos, deus da oportunidade, era filho de Zeus com Tykhé, jovem, que vivia correndo muito e somente era apanhado se alguém o segurasse pelo único ramo de cabelo cacheado que possuía. Tinha uma natureza forte e gênio difícil e não concedia uma segunda chance. Daí advém que há um momento oportuno para tudo e que, se deixado passar, raramente poderá alcançar uma segunda oportunidade. Ao lado de Kairos, existia o deus Chronos, que alguns confundem com o Titã, pai de Zeus, e outros dizem ser um novo deus mitológico. Neste último sentido, o deus Chronos é tido como velho e senhor do tempo e das estações, representa o tempo quantitativo, que oprime e aprisiona os homens.

A vida e relações humanas são formadas por eternas contradições. Chronos estendeu-se em razão do homem ter ganhado um prolongamento da existência em função das condições médicas, sanitárias e até educacionais, enquanto que kairos apresenta-se cada vez mais feroz, comprimindo os lapsos temporais e acrescentando a rapidez como elemento indispensável às ações humanas. Desta feita, deve-se relacionar o tempo físico ao tempo sociológico, no qual o tempo assume “[...] uma função de coordenação e integração”.5 Neste ângulo, torna-se necessário conciliar a necessidade de cada ser humano com as possibilidades

4 ROQUE, Andre Vasconcelos; DUARTE, Francisco Carlos. As dimensões do tempo no processo civil: tempo

quantitativo, qualitativo e a duração razoável do processo. Revista de Processo, São Paulo, ano 38, v. 218, p. 331, abr. 2013.

sociais, estabelecendo-se “padrões de duração”,6 sobre os quais devem incidir revisões periódicas com vistas a proporcionar o equilíbrio exigido para a manutenção e desenvolvimento da coletividade.

Não se deve perder de vista que há um momento certo ou adequado para todas as ações humanas e que transcorrida a oportunidade, muito provavelmente, não haverá possibilidade de retorno, tal como determina kairos. Como esta máxima aplica-se para os diversos atos e fatos, é plausível que atinja também o âmbito do processo, dado que é proveniente do agir consciente humano.

O Direito assim como o processo dirige-se aos homens, pressupondo, pois, uma atuação humana.7 Após esta constatação, Adolfo Gelsi Bidart acentua que o tempo, enquanto atividade pensada e efetivada por homens pode ser vista em cada processo através de três formas, a saber: a) o tempo exterior que atinge todo o processo, uma vez que há influência da história humana e do desenvolvimento de um país e de uma determinada época; b) a duração, que é o tempo enquanto início e fim; e c) o tempo e o modo de ser processual, que é a duração no interior do processo, na qual se analisa o seu desenvolvimento interior, considerando as etapas e momentos diversos.8

É de se observar que fatores externos atingem o processo e não somente os atos ocorridos dentro dele. Voltando-se estritamente para o processo, o tempo é essencial para o deslinde da demanda.

O conhecimento humano não se forma de uma vez, ele é fruto da soma saberes parciais. Logo, é impossível que exista uma decisão que prime pela justiça e que seja expedida de maneira imediatamente após a petição inicial, isto é, de forma instantânea. As partes necessitam de tempo para realizar suas alegações, bem como para apresentar suas provas. Do mesmo modo, o juiz terá que possuir tempo para analisar, refletir e decidir a

6 ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 54.

7 BIDART, Adolfo Gelsi. El tiempo y el proceso. Revista de Processo, São Paulo, ano 6, n. 23, p. 100, jul./set.

1981. (tradução nossa).

demanda, haja vista que as decisões decorrem do pensar humano e não de mera mecânica.9 Sob este ponto de vista, o tempo age em benefício do processo e, principalmente, das partes que possuem espaço lógico-temporal para se manifestar e carrear provas que subsidiam o magistrado.

Contudo, o tempo pode ocorrer de forma diversa, ou seja, pode prejudicar o processo caso seja demasiadamente exíguo ao ponto que comprometa o contraditório, ampla defesa e até o próprio direito de ação e acesso à justiça ou absurdamente alargado. Há muito os estudiosos do direito, mormente os processualistas, vêm criando mecanismos e instrumentos para que as partes possam se valer para debelar o mal do tempo no processo. Consciente que a demora processual é fator que atinge o direito das partes, os legisladores previram as medidas cautelares para assegurar que o processo não pereça em virtude do passar do tempo. Mais adiante, verificando a insuficiência das ações cautelares para proteger o direito material envolvido no litígio, inseriu-se no ordenamento jurídico processual a denominada antecipação dos efeitos da tutela. Todavia, somente estes mecanismos não são suficientes para afastar os prejuízos que o prolongamento excessivo do tempo impõe ao processo.

Ao retirar do ser humano a possibilidade de resolver por si só seus conflitos, fazendo uso da sua força, seja ela física, intelectual ou retórica, o Estado assumiu a responsabilidade de responder as lides. Convém mencionar que esta resposta, ou mais tecnicamente, a decisão judicial não comporta conteúdo e forma qualquer. A conclusão que encerra a demanda se traduz na tutela jurisdicional, sendo certo que não pode se alongar no tempo de modo a tornar sem serventia para o jurisdicionado, o que fatalmente vem ocorrendo de maneira corriqueira no interior do Poder Judiciário, em todas as instâncias e graus de jurisdição. É imperativo que a decisão seja tempestiva e justa.

Como exposto, não há processo que não sofra os efeitos do tempo. Muitos autores acreditam que, por vezes, o tempo é um amigo e, em outras situações ele age como um

9 Esta não parece ser a ideia do legislador contemporâneo que admite a chamada decisão antecipadíssima do processo antes mesmo que ele adquira a formação triangular, conforme o disposto no art. 285-A, do Código de

Processo Civil, o qual dispõe em seu caput que: “Quando a matéria controvertida for unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em outros casos idênticos, poderá ser dispensada a citação e proferida sentença, reproduzindo-se o teor da anteriormente prolatada.” BRASIL. Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Diário Oficial, Poder Executivo, Brasília, DF, 17 jan. 1973. p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5869.htm>. Acesso em: 11 out. 2013.

inimigo do processo.10 É evidente que não se deve evitá-lo no processo e nem o promover. A solução seria chegar a um meio termo no qual as partes pudessem desincumbir-se dos seus ônus processuais e explorar uma participação dialógica e fosse conferido ao juiz um lapso temporal para extrair ou elaborar a decisão mais adequada ao caso concreto, mas, ao mesmo tempo, deveria impedir a extensão em demasia, pois neste caso, além de descrédito na justiça e prolongamento dos conflitos, haveria ainda a possibilidade de perda da eficácia da medida requerida e deferida pelo magistrado, resultando no comprometimento da efetividade do próprio direito substancial.

Para evitar a perda da efetividade do direito material decorrente da extensão da duração processual, é possível salientar que:

Ainda que o homem verifique, em sua experiência existencial diária, sua impossibilidade de dominar o tempo, procure, ao menos: a) prever seu desenvolvimento, b) ampliar ou reduzir – modificar – o lapso necessário, c) programá-lo, distribuindo para sua melhor utilização, d) obter algum resultado que escape a pura fugacidade, que tenha certa perduração, através do transcurso inevitável [...].11

Diante do exarado, faz oportuno questionar como se chegaria ao meio termo ou medida certa se até o conceito do tempo é polissêmico, desafiando diversos ramos do saber humano?

Para uma análise mais acurada da pergunta lançada, é necessário primeiro trilhar o próprio conceito do princípio da duração razoável do processo, o que se passa a fazer.

10 Adaptação da expressão de Carnelutti, que compara o tempo como inimigo, contra o qual o juiz luta

incessantemente. (tradução nossa). No original e integral: “Non sarebbe azzardato paragonare il tempo a un

nemico, contro il quale il giudice lotta senza posa.” CARNELUTTI, Francesco. Diritto e processo. Napoli:

Morano, 1958. p. 354.

11 BIDART, Adolfo Gelsi. El tiempo y el proceso. Revista de Processo, São Paulo, ano 6, n. 23, p. 102, jul./set.

Benzer Belgeler