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A lentidão judiciária era reconhecida como um problema a ser solucionado desde tempos muito anteriores ao descobrimento ou localização do Brasil. O devido processo legal já despontava desde a Carta Magna como uma diretriz a ser perseguida para que houvesse uma boa aplicação da lei e, por via de consequência, da realização da justiça. No Estado português não era diferente. Desde a consolidação do Estado com o estabelecimento de suas fronteiras manifestava-se o problema da morosidade da prestação da tutela jurisdicional e já
111 “Articulo 86. Toda persona tendrá acción de tutela para reclamar ante los jueces, en todo momento y lugar, mediante un procedimiento preferente y sumario, por sí misma opor quien actúe a su nombre, la protección inmediata de sus derechos constitucionales fundamentales, cuando quiera que éstos resulten vulnerados o amenazados por la acción o la omisión de cualquier autoridad pública.
La protección consistirá en una orden para que aquel respecto de quien se solicita la tutela, actúe o se abstenga de hacerlo. El fallo, que será de inmediato cumplimiento, podrá impugnarse ante el juez competente y, en todo caso, éste lo remitirá a la Corte Constitucional para su eventual revisión.
Esta acción solo procederá cuando el afectado no disponga de otro medio de defensa judicial, salvo que aquella se utilice como mecanismo transitorio para evitar un perjuicio irremediable.
En ningún caso podrán transcurrir más de diez días entre la solicitud de tutela y su resolución.
La ley establecerá los casos en los que la acción de tutela procede contra particulares encargados de la
prestación de un servicio público o cuya conducta afecte grave y directamente el interes colectivo, o respecto de quienes el solicitante se halle en estado de subordinación o indefensión.” COLÔMBIA. Constituición
Política de Colombia, de 6 de julio de 1991. Gaceta Constitucional, Bogotá, n. 116, 20 jul. 1991. Disponível em: <http://wsp.presidencia.gov.co/Normativa/Documents/Constitucion-Politica-Colombia.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2013.
112 José Carlos Barbosa Moreira afirma que a ideia que a morosidade é existente somente no Brasil é fruto de
crença. MOREIRA, José Carlos Barbosa. O futuro da justiça: alguns mitos. Revista Forense, Rio de Janeiro, ano 96, v. 352, p. 116, out./dez. 2000.
naquela época foram formuladas propostas para que não houvesse mais atrasos nos julgamentos.113
Mauro Cappelletti chega a indicar a morosidade do processo como uma das características do processo de origem romano-canônica.114 Marcello Caetano registra que, em 1314, D. Dinis efetivou uma reforma processual para disciplinar o processo e, assim, “abreviar o julgamento das demandas”.115 Consta, ainda, que Afonso IV teria decretado novas ordenações no ano de 1330, pois, segundo este autor:
[...] as anteriores providências de D. Dinis tinham sido ineficazes para abreviar a duração dos processos na corte, os quais se arrastavam por tempos infinitos com prejuízo das partes e da justiça. Essa demora era atribuída aos procuradores residentes na corte que, no seu interesse, complicavam as questões. Por isso o rei proíbe a intervenção de procuradores ou advogados residentes na corte, devendo nos pleitos litigar as próprias partes ou procuradores vindos de fora.116
Percebendo o grande dano gerado pela procrastinação dos feitos, bem como que sua determinação anterior ainda estava sendo descumprida, D. Afonso IV reforçou a ordem para que nenhum advogado atuasse no processo, isto é, expandia a Ordenação com o fim de que não houvesse um quadro de profissionais. Em 1379, D. Fernando para combater a longa duração dos feitos também propôs reforma.117 Destarte, desde a própria formação de Portugal a morosidade do processo já era um problema a ser resolvido.118
As Ordenações Afonsinas vigentes em Portugal no momento do descobrimento do Brasil, também apresentavam certa inquietação com postergações da prestação da tutela jurisdicional. Propunha-se desprezar o formalismo para aproveitar todos os atos processuais,
113 ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília, DF: Brasília
Jurídica, 2006. p. 40.
114 Mauro Cappelletti apud PAULA, Jônatas Luiz Moreira de Paula. História do direito processual brasileiro:
das origens lusas à Escola Crítica do Processo. Barueri: Manole, 2002. p. 135.
115 CAETANO, Marcello. História do direito português: (sécs. XII – XVI) seguida de subsídios para a história
das fontes do direito em Portugal no séc. XVI. 4. ed. Lisboa; São Paulo: Verbo, 2000. p. 379.
116 Ibid., p. 380. 117 Ibid., p. 381-382.
118 Ibid., p. 382. O autor arremata afirmando que: “As preocupações incidiam sobretudo na brevidade dos
julgamentos e no apuramento da verdade real. A adopção do Direito justinianeu permitiu o aparecimento de advogados chicaneiros que, utilizando os meios processuais nele consagrados, enredavam os processos, conseguindo por artifícios dificultar o conhecimento do fundo da questão e a captação da realidade dos factos.”
evitando a procrastinação.119As Ordenações eram aplicadas ao Brasil colônia e, portanto, a lentidão da justiça circundava a aplicação da justiça.
A Constituição Política do Império do Brazil outorgada em 25 de março de 1824 no interior de seu título 8º, denominado de “Das disposições geraes e garantias dos direitos civis, e políticos dos Cidadãos Brazileiros”, ordenava que o acusado fosse informado sobre o motivo de sua prisão, assim como o nome de seu acusador e das testemunhas no prazo de vinte e quatro horas a iniciar da prisão ou, se em lugares mais longínquos dentro de um prazo razoável.120A primeira Constituição Brasileira dispôs sobre alguns direitos aos cidadãos, merecendo menção neste texto a rapidez que deveria ser conferida ao preso em lhe informar os motivos do encarceramento. Trata-se de uma previsão destinada ao campo penal como medida necessária para que o réu, conhecendo as razões de sua prisão, pudesse apresentar sua defesa. Restringia-se a traçar uma delimitação temporal somente sobre a informação de prisão, deixando de prever qualquer disposição sobre a duração do processo ou mesmo do julgamento, mas não se pode desconsiderar a relevância da disposição para a construção da duração razoável no processo brasileiro.
Mesmo após a primeira Constituição Brasileira, Dom Pedro I demonstrava preocupação com a morosidade da justiça tanto que exarou um aviso em 15 de novembro de 1828, expedido pelo Chanceler da Relação do Rio de Janeiro. Este aviso dispunha somente
119 “A grande preocupação do legislador é a de aproveitar o processado, tanto quanto possível, considerando
<<as grandes prolongas, gastos, e fadigas já sofridas no feito pelas partes: <<porque nossa tenção é que todos os feitos sejam desembargados pela verdade sabida assim de uma parte como da outra, sem embargo de qualquer solenidade, ordem ou substancia do juizo e tolhermos todos os modos e maneiras por que os feitos e processos possam ser prolongados, e trazê-los, com a graça de Deus e todo nosso poder, a breve e final terminação com a guarda de Direito e Justiça de ambas as partes>> (§ 5º).” CAETANO, Marcello. História do
direito português: (sécs. XII – XVI) seguida de subsídios para a história das fontes do direito em Portugal no
séc. XVI. 4. ed. Lisboa; São Paulo: Verbo, 2000. p. 584-585.
120 “Art. 179. [...] VIII. Ninguem poderá ser preso sem culpa formada, excepto nos casos declarados na Lei; e
nestes dentro de vinte e quatro horas contadas da entrada na prisão, sendo em Cidades, Villas, ou outras Povoações proximas aos logares da residencia do Juiz; e nos logares remotos dentro de um prazo razoavel, que a Lei marcará, attenta a extensão do territorio, o Juiz por uma Nota, por elle assignada, fará constar ao Réo o motivo da prisão, os nomes do seu accusador, e os das testermunhas, havendo-as.”
sobre o processo penal e as prisões, contudo, demonstra a morosidade do processo naquele tempo.121
A segunda Constituição Brasileira (primeira Carta Republicana), não renovou a redação contida na Lei Maior anterior e sobre a prisão. Limitou-se a fixar o prazo de vinte e quatro horas para que se informasse ao réu os motivos de sua prisão, não trazendo a duração razoável, não obstante mantivesse a preocupação com o tempo na informação da acusação do réu.122
A Constituição da República de 1934 apresentou notável descrição de direitos e garantias considerando-se a época em que foi concebida e, embora de duração breve, consagrou inúmeros direitos. Cabe ressaltar que esta Constituição não inseriu o direito à duração razoável do processo em seu bojo, mas trouxe uma redação aproximada ao prescrever que “A lei assegurará o rápido andamento dos processos nas repartições públicas [...].”123
A Constituição de 1946, por sua vez, renova, dentro do capítulo “Dos Direitos e das Garantias Individuais” em seu inciso I, § 36, do artigo 141, o preceito de que a lei assegurará “o rápido andamento dos processos nas repartições públicas”.124
121 O Aviso que se traduzia como ordem inicia: “Constando à Sua Majestade o Imperador a falta do cumprimento que sofrem as mais previdentes determinações, não só enquanto ao modo de efetuarem-se as prisões, como também pelo que toca à marcha dos processos e execução das sentenças; e querendo o mesmo Augusto Senhor acudir, quanto a si cabe, à sorte infeliz daqueles dos seus súditos que, postergando a lei, se acham detidos em prisões, há por bem que V.Exa. faça executar estrita e rigorosamente: [...]”. Chanceler da
Relação do Rio de Janeiro em 1828 apud MATHIAS, Carlos Fernando. Notas para a história do Judiciário
no Brasil. Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009. p. 157. Disponível em:
<http://www.funag.gov.br/biblioteca/dmdocuments/0535.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2014. (grifo do autor).
122 BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891. Diário Oficial, Poder Legislativo, Rio de Janeiro, 24 fev. 1891. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/Constituicao/Constituicao91.htm>. Acesso em: 2 jan. de 2014.
123 Redação completa do 113; 35: “ 35) A lei assegurará o rápido andamento dos processos nas repartições
públicas, a comunicação aos interessados dos despachos proferidos, assim como das informações a que estes se refiram, e a expedição das certidões requeridas para a defesa de direitos individuais, ou para esclarecimento dos cidadãos acerca dos negócios públicos, ressalvados, quanto às últimas, os casos em que o interesse público imponha segredo, ou reserva.”
124 BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946. Diário Oficial, Poder
Legislativo, Rio de Janeiro, 19 set. 1946. p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/Constituicao/Constituicao46.htm>. Acesso em: 2 jan. 2014.
A Constituição de 1967125 e sua Emenda de 1969126 não desenvolveram o conceito da duração razoável do processo como componente necessário para a efetivação da justiça.
A Constituição da República Federativa do Brasil ao tempo de sua promulgação não trazia o inciso LXXVIII ao artigo 5º.127 Vale dizer, assim, que não havia um dispositivo constitucional que determinava a observação do princípio da duração razoável do processo de forma expressa. Todavia, há de se constatar que a Constituição Federal já carregava outros direitos que incorporam a prestação jurisdicional em tempo adequado.
Estava presente na concepção da nova Carta Constitucional o princípio do devido processo legal.128 É bastante simples o caminho: se todo processo deve seguir a base legal e nela há a previsão de prazos para cada ato processual, resta evidente que para cumprir com o devido processo legal também é necessário obedecer aos prazos processuais e, desta forma, consolidar uma duração razoável no processo.
Logo, é plausível a compreensão que a resolução do processo em prazo útil decorre do conceito do devido processo legal.129
Apesar de estar implícito no devido processo legal, o princípio da duração razoável do processo foi incorporado no ordenamento brasileiro com a ratificação da
125 BRASIL.Constituição da República Federativa do Brasil, de 24 de janeiro de 1967. Diário Oficial, Poder
Legislativo, Brasília, DF, 24 jan. 1967. p. 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ Constituicao/Constituicao67.htm>. Acesso em: 2 jan. 2014.
126 Id. Emenda Constitucional n. 1, de 17 de outubro de 1969. Edita o novo texto da Constituição Federal de 24
de janeiro de 1967. Diário Oficial, Poder Legislativo, Brasília, DF, 20 out. 1969. p. 8865. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Emendas/Emc_anterior1988/emc01-69.htm>. Acesso em: 2 jan. 2014.
127 Para Nagib Slaib Filho a duração razoável do processo já é tutelada nos seguintes dispositivos constitucionais:
“-No art. 5º, LIV, ao estabelecer a garantia do devido processo legal; -No art. 5º, XXXIV, “a”, inerente ao direito de petição aos Poderes Públicos (o que adianta o direito de requerer sem que se receba resposta ao requerido?); - No art. 5º, XXXV, do qual se extrai o denominado direito de acesso à jurisdição; - No art. 37, caput, por inclusão da Emenda Constitucional nº 19/98, da eficiência como princípio geral da Administração Pública, em todos os Poderes e esferas governamentais; - No art. 70, quanto à fiscalização dos Poderes Públicos, ao se referir ao princípio da economicidade, ou seja, da relação custo-benefício, como objeto do controle.” SLAIB FILHO, Nagib. Reforma da justiça: (notas à emenda constitucional n. 45, de 8 de dezembro de 2004). Niterói, RJ: Impetrus, 2005. p. 16-17.
128 Inciso LIV da Constituição Federal.
129 André Ramos Tavares observa que a “repetição e especificação desnecessárias” referente à duração razoável
do processo, uma vez que já existia o princípio mais genérico do devido processo legal é “admissível numa cultura de massificação”. TAVARES, André Ramos. Manual do Poder Judiciário brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 74-75.
Convenção Americana de Direito Humanos.130 A partir deste momento, a legislação brasileira passou a conter de forma irrefutável a previsão da análise e julgamento do processo em tempo razoável.
2.5 A Emenda Constitucional n. 45 de 2004 e a inserção do inciso LXXVIII ao artigo 5º