O ministro das Relações Exteriores Ramiro Saraiva Guerreiro, o qual permaneceu no cargo entre 1979 – 1985, destacou, em entrevista ao CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) em 1985, que as possibilidades de abertura política ao Brasil, naquele momento, trouxeram novas expectativas quanto à política externa levada adiante pelo presidente Tancredo Neves 114, evidenciada, ainda, pela própria quantidade de delegações estrangeiras quando de sua cerimônia de posse, em 1984.
Diante, porém, do choque do petróleo em 1979, aumento das taxas de juros internacionais, inflação e disparada da dívida externa, aumentaram as possibilidades de interferência dos EUA nas decisões da política externa brasileira.
Segundo Bandeira, o endividamento brasileiro colocava em risco o próprio sistema bancário dos Estados Unidos, o qual, até mesmo, passou, nos anos 1980, a favorecer a ampliação das possibilidades de mercado externo, inclusive com um relativo aumento das exportações brasileiras àquele país, quando comparado à década anterior. Contudo, havia sérias divergências quanto ao modo como eram conduzidas à política externa brasileira, o que colocava em xeque as relações entre os dois países115.
O regime militar brasileiro havia recorrido, desde 1967, aos empréstimos internacionais para expandir o processo de industrialização. Com a crise do petróleo e a elevação das taxas de juros nos EUA116, a arrecadação de divisas, por parte do Brasil, voltou- se, sobretudo, para o pagamento das altas taxas de juros, o que gerou um acúmulo da dívida e declaração da impossibilidade de efetivação do pagamento, por parte de José Sarney (1985 – 1990), em 1987.
114 GUERREIRO, Ramiro S. Ramiro Saraiva Guerreiro (depoimento, 1985). 19 mar. 1985 a 11 abr. 1985. Entrevistadores: Aspásia Alcântara de Camargo; Letícia Pinheiro; Mônica Elen Seabra Hirst. Rio de Janeiro, CPDOC, 2010.
115 BANDEIRA, 2011, p. 213. 116 Ibid., p. 211 – 212.
Sarney seguiu, de modo geral, as diretrizes da política externa de Ernesto Geisel, mas estava diante de reconfigurações no cenário internacional, a reeleição de Ronald Reagan, em 1984, à presidência dos Estados Unidos, as fortes retaliações ao governo brasileiro em decorrência do programa de investimento nuclear e sua atuação como um exportador de material bélico aos países como Irã, Líbia, Iraque. Houve acordo entre Estados Unidos e Brasil, na década de 1980, para transferência de tecnologia, desde que o Brasil não repassasse às nações consideradas “não amigas” dos EUA. Sarney, por sua vez, buscou aproximação em direção aos países da América Latina, condenou as sanções à Nicarágua, restabeleceu relações com Cuba e manteve a reserva de mercado para os setores de informática, o que irritava o governo dos EUA117.
Eric Hobsbawn, ao referir-se sobre os aspectos da crise econômica dos anos 1980, chamada por ele de “década de crise”, destacou de que foram a depressão econômica desse momento tinha como peculiaridade a forte internacionalização das relações econômicas, o enfraquecimento do poder de decisão dos países e a vulnerabilidade quanto às pressões externas, aumento do desemprego e, sobretudo, da desigualdade social, cada vez maior e mais evidente118 e que, no caso brasileiro e sul – africano tinham como principais elementos as desiguais redistribuições tendo em vista critérios puramente raciais.
A perspectiva de abertura dos mercados brasileiros ao exterior e a busca pela ascensão enquanto potência tinha o investimento em armas como principal mote, o que foi perseguido pelo governo, discutido por diversos setores da sociedade, marcado por divergências, orientações, discussões nos espaços da FSP e d’ OESP. Estes apontaram divergências quanto as prioridades lançadas pelo governo brasileiro, tais como as relações com Cuba, Nicarágua., África, América Latina e, sobretudo, EUA.
A estratégia do governo brasileiro de buscar a intermediação dos mercados entre as nações do Norte e Sul tinha o mercado africano com o que se mostrava um dos mais promissores. Chamada de “pragmatismo responsável” 119, tal noção estava assentada na perspectiva de “desenvolvimento autônomo”, “nacionalismo” e o Brasil enquanto um intermediário, dado que parecia não identificar-se com o Terceiro Mundo120, aspirante ao
117 Ibid., p. 235 – 239.
118 HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914 – 1991. 2ªed. Trad.: Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 396 – 401.
119 PENHA, 2011, p.168.
120 Conforme Eric Hobsbawn, este rótulo foi cunhado em 1952 e englobava um conjunto amplo de países, caracterizados como “pobres”, quando comparados ao mundo desenvolvido, dependentes economicamente, queriam manter-se fora dos conflitos entre capitalismo versus socialismo, chamados, assim, de “não alinhados”. Ver: HOSBAWN, op. cit., p.350 – 352.
Primeiro Mundo, e que poderia relacionar-se livremente com o Segundo Mundo, a partir da ênfase na perspectiva de que as relações econômicas deveriam estar acima de supostas “rivalidades ideológicas”.
O Brasil, segundo Bandeira:
Ademais de vender veículos Volkswagen a 22 países, tratores, equipamentos, armas e outras manufaturas, fazia vários investimentos, por meio de empresas privadas e estatais. Uma firma brasileira, por exemplo, construía o aeroporto e uma autoestrada na Mauritânia. Outra obteve todas as facilidades para edificar Abuja, a futura capital da Nigéria. E uma companhia de São Paulo - Pão de Açúcar S. A – mantinha uma cadeia de 25 supermercados abastecendo os residentes da Grande Luanda, onde as linhas de crédito do Brasil e os soldados de Cuba ajudavam a sustentar financeiramente o regime revolucionário do MPLA 121.
Com a diversificação das parcerias econômicas na região para além da África do Sul (parceira comercial principal do Brasil durante quase todo o século XX), era cobrada uma atitude mais contundente do governo brasileiro em relação ao apartheid, o que surtiu, ainda, reflexos quanto a forma pela qual o Brasil havia conduzido os assuntos relativos a sua população negra.
No caso dos líderes africanos, eram estes chefes políticos de países ricos em recursos minerais e, principalmente, petróleo, e com perspectivas de ampliação do mercado consumidor, sobretudo quanto ao material bélico, principal mola propulsora de arrecadação de divisas naquele momento, para o qual os interesses internacionais estavam com os olhares direcionados, tendo em vista a elevada dívida e taxas de juros.
Em 16 de junho de 1976 estudantes negros sul – africanos protestaram contra a obrigatoriedade do ensino do afrikaans (língua oficial dos africânderes) nas escolas. A polícia disparou contra os estudantes e dezenas de jovens perderam suas vidas, no subúrbio de Soweto, com a prisão de 21.534. Este evento ganhou repercussão internacional, inclusive com a votação de embargo econômico por parte dos países membros do Conselho de Segurança (EUA, China, URSS, Reino Unido e França, os quais eram, aliás, à exceção da China e URSS, os maiores parceiros comerciais da África do Sul).
Este evento serviu, também, para que o Brasil se lançasse internacionalmente enquanto um “opositor incontestável” das práticas racistas, rumo a uma maior aproximação com os países africanos. Segundo Pio Penna, naquele momento,
[...] o governo brasileiro patrocinou decreto-lei proibindo todas as atividades de intercâmbio cultural e esportivo com a África do Sul, além de reafirmar a proibição de venda ou trânsito de armas em território nacional que se destinassem aquele país. Tal atitude nada mais significou do que o coroamento da decisão anterior de esfriar ao máximo o relacionamento entre os dois países e de respeitar o embargo voluntário de venda de armamentos para a África do Sul, decidido ainda na década de 1960 pelas Nações Unidas e referendado pela decisão do Conselho de Segurança, em 1977, de impor o embargo compulsório de venda e fornecimento de armamentos e similares para a África do Sul122.
A complexidade desta questão pode ser evidenciada, porém, a luz dos discursos oficiais propalados na ONU e a ação dos governos, os quais, mesmo tendo assinado embargo à África do Sul em virtude de sua política segregacionista, eram ineficazes para a sua efetivação dentro das fronteiras nacionais, valendo-se de múltiplos argumentos, entre os quais a “livre iniciativa”, “não interferência nos assuntos internos”, “ameaça comunista” “leis do mercado”, e que corroboravam com a manutenção das estruturas racistas.
O governo sul – africano, em contrapartida, ao buscar aliados no cenário internacional não deixou de lado o país que, apesar dos inúmeros trabalhos que o desmistificava, apresentava-se internacionalmente como “exemplo harmônico de relações raciais”, e que, assim, poderia lhe oferecer uma imagem positiva frente, sobretudo, a ONU.
No Brasil, uma das medidas utilizadas pela embaixada sul – africana foi manter contatos diretos com governos estaduais e empresas privadas, obter cooperação técnica em setores nos quais os sul-africanos estavam adiantados ou, ainda, a prática rotineira de contatos com a imprensa brasileira, seja estimulando a propaganda oficial do seu país, seja convidando jornalistas brasileiros para visitas à África do Sul123.
Logo, então, o governo brasileiro lançou – se enquanto opositor ao racismo, mas, por meio da atuação das multinacionais continuou a apoiar e projetar o segregacionismo, lançando as “leis do mercado” como entidades supostamente acima de quaisquer pressupostos, mas que, ao prever a manutenção das estruturas, corroborava com a propagação do racismo.
A postura de não – contestação da atuação das multinacionais, o estabelecimento de relações diplomáticas com a África do sul eram contestadas por movimentos diversos no Brasil, os quais viam, que, na prática, a resolução dos conflitos era deixado nas mãos das potências coloniais.
122 PENNA Filho, Pio. África do Sul e Brasil: diplomacia e comércio (1918-2000). Revista Brasileira de Política
Internacional, Brasília, v.44, n.1, p. 69 – 93, jan./jun. 2001. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-73292001000100006&script=sci_arttext>. Acesso em 28 fev. 2013.
As críticas trazidas nos meios impressos eram que tais intercâmbios não deveriam ser afetados por questões de “ordem interna”, concepção contundente no jornal OESP, o qual primou, em seus posicionamentos, pela valorização das trocas comerciais com o governo branco da África do Sul e o conjunto de valores que tais trocas poderiam propiciar; já a FSP via no restante da África mais possibilidades abertas ao Brasil do que a África do Sul e, assim, era favorável à atuação mais contunde internacionalmente do Brasil contra o apartheid como possibilidade aproximação com a África. Apontar, nas páginas da FSP, como os países europeus e os Estados Unidos apoiavam Pretória poderia ser, ao Brasil, uma possibilidade de maior abertura dos mercados africanos.
2.2 “Que o apartheid se destrua”: mobilização negra e o apartheid no Brasil.
Valeu Zumbi!/O grito forte dos Palmares/ Que correu terras, céus e mares/ Influenciando a abolição/ Zumbi valeu!/Hoje a Vila é Kizomba/É batuque, canto e dança/ Jongo e maracatu/ Vem menininha pra dançar o caxambu (bis)/Ôô, ôô, Nega Mina/ Anastácia não se deixou escravizar/ Ôô, ôô Clementina/ O pagode é o partido popular/ sacerdote ergue a taça/ Convocando toda a massa/ Neste evento que congraça/ Gente de todas as raças/ Numa mesma emoção/ Esta Kizomba é nossa Constituição (bis)/Que magia/ Reza, ajeum e orixás Tem a força da cultura/ Tem a arte e a bravura/ E um bom jogo de cintura/ Faz valer seus ideais/ E a beleza pura dos seus rituais/ Vem a Lua de Luanda/ Para iluminar a rua (bis)/Nossa cede é nossa sede/ e que o "apartheid" se destrua/ Valeu!124.
A música que nos serve de epígrafe fez parte do samba–enredo da escola de samba Vila Isabel, vencedora do carnaval do Rio de Janeiro no ano de 1988, momento de intensos debates, no Brasil, em decorrência do Centenário da Abolição da Escravatura. Ela trouxe aspectos relacionados à ressignificação da história dos povos descendentes de africanos, com a retomada de símbolos, entre os quais “Zumbi”, “tia Anastácia”, como aquela que “não se deixou escravizar”.
Ao retomar o conceito “raça”, buscou os elementos da cultura negra, colocando-o não de forma subalternizada, mas em evidência e buscando retomar aspectos políticos, tais como a Constituição, mas por meio de um olhar que dialogava com a África e a luta antiapartheid, trazendo-a para o centro da referência de luta da mobilização negra.
124 VILA, Luiz Carlos da. Kizomba: a festa da raça. Rio de Janeiro: CA, 1988. Disco sonoro 1 disco sonoro. Lado B, faixa 7.
A ascensão de uma atuante classe média na segunda metade do século XX , seja no Brasil, África do Sul ou EUA, trouxe novas possibilidades de mobilizações sociais, de modo a propor múltiplas formas de identificação entre a população negra da diáspora125.
Questão premente no transcorrer dos anos 1980 era a frente antiapartheid e a luta pela independência da Namíbia, de modo que, a identificação com o continente africano se fez, sobretudo, pela inclusão, na pauta de debates do MNU, enquanto questão primordial da luta antirracista, as relações estabelecidas entre Brasil e África do Sul.
O ano de 1988 foi significativo para a militância negra brasileira tendo em vista as comemorações e os questionamentos quanto ao Centenário da Abolição da Escravatura. Em “A representação do negro em jornais no centenário da abolição da escravatura no Brasil” Ricardo Alexino Ferreira analisou 8 jornais de circulação nacional e regional e elencou uma série de notícias dadas pelos órgãos apontados por ele como “da grande mídia brasileira”, destacando que, neste ano, houve maior espaço para as ações da militância negra, sendo estes, agentes ativos nas denúncias de discriminação racial. Segundo ele, o debate sobre a questão racial ocupou vários espaços nas editoriais jornalísticas, porém, os aspectos noticiados se concentraram nos casos de discriminação racial e os aspectos culturais das festividades de 1988, com pouco destaque para o foco político da questão.
Para Alexino, o centenário da Abolição da escravatura no Brasil permitiu o debate quanto à questão racial por meio de um conjunto variado de agentes, tais escolas de samba, Igreja Católica, partidos políticos, além da promoção de passeatas, shows, manifestações, as quais colocavam o racismo no centro das discussões.
Este autor nos trouxe, a partir de uma visão descritiva das notícias, e por meio de uma análise pontual do ano de 1988, o acirramento das críticas internacionais ao apartheid, na esteira de tais mobilizações, o foco, sobretudo, ao pedido de libertação de Nelson Mandela e as possibilidades que tais discussões trouxeram para as organizações negras de nosso país.
Houve no Brasil passeatas, tais como a realizada pela chamada Frente Nacional Contra o Apartheid, na Praça da Sé em São Paulo, a exibição, pela Rede Globo de Televisão do show “Tribute to 70 th Nelson Mandela” realizado em Londres com um público de 72 mil pessoas.
Destacou o foco dado, particularmente, pelo jornal OESP, sua ênfase quanto aos aspectos relacionados às festividades e a permanência contundente, neste órgão, de visões
125 Diáspora enquanto experiência que articula o caráter cultural e as dimensões políticas da população negra localizada em várias partes do mundo, capaz, assim, de oferecer uma perspectiva mais complexa da construção da modernidade. Cf. GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Trad.: Cid Knipel Moreira. São Paulo: Ed. 34; Rio de janeiro: Universidade Candido Mendes, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.
estereotipadas e racializantes, com destaque para as supostas contradições do movimento, divergências internas existentes nas movimentações negras, de modo a perpassar a ideia de um movimento “mal organizado” e, aos negros, uma suposta “incapacidade de organização” 126.
Na década de 1980 ocorreu a criação de órgãos governamentais com o reconhecimento do Estado de que a democracia racial não era uma realidade no Brasil127. Tal situação era parte da onda de críticas ao regime militar e, uma das estratégias utilizadas para isolar a oposição foi a busca pelo apoio da população a partir da criação de órgãos representativos, e que trouxessem a participação de setores populares para a pauta das discussões da elaboração da nova constituição, a ser votada em 1988.
Em 1984 surgiu o Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra. Segundo Ivair Augusto Alves dos Santos, as discussões referentes ao apartheid se mostraram como demasiado estratégicas para que o órgão marcasse sua atuação no meio social e diante do governo federal, dado, sobretudo, a crítica de que não havia nenhum negro na Comissão Pré – Constituinte128.
A luta antiapartheid se apresentou enquanto questão que angariava toda a oposição negra, possibilitava o diálogo com setores sociais diversos. Foram realizadas, em São Paulo, passeatas para o rompimento das relações “diplomáticas, comerciais e culturais” com a África do Sul, bem como para a retirada das representações diplomáticas sul - africanas de São Paulo129.
Os membros do Conselho realizaram protesto no Palácio dos Bandeirantes onde levaram suas reivindicações ao governador de São Paulo, empossado em 1983, Franco Montoro, para que ele, além de interceder junto aos outros estados, conduzisse apelo ao presidente José Sarney. Estas mobilizações se tornavam oportunas ao governo dado que permitia as críticas ao regime militar, captava a população e dialogava com os posicionamentos no rol da política externa.
Estas e outras entidades pequenas, com parco espaço de atuação mostravam os questionamentos quanto ao caráter das relações raciais no Brasil e foram pequenas brechas
126 FERREIRA, Ricardo A. A representação do negro em jornais no centenário da abolição da escravatura no
Brasil. 1993. 185p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1993.
127 ANDREWS, 1998, p. 323. 128 Ibid., p. 146 – 149.
129 SANTOS, Ivair Augusto A. O movimento negro e o estado: o caso do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra no governo de São Paulo (1983 – 1987) 2001. 219 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Políticas) - Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2005, p. 145.
utilizadas por militantes, acadêmicos negros para levar as discussões para as esferas do estado130, não, contudo, sem divergências quanto à aceitação e formas de apropriação de tais questões pelo governo, partidos políticos, instituições de comunicações.
No Brasil, o movimento negro, atuante desde princípio do século XX, viu-se diante da incapacidade de arregimentar setores majoritários da sociedade perante a luta antirracista, e a alusão aos argumentos que apontavam para o “alto grau de miscigenação” da sociedade brasileira, como se fosse sinônimo de ausência de racismo. O apartheid, então, constituiu-se enquanto um tema demasiado eficaz para a militância negra aproximar-se do governo, população e buscar reafirmar-se no meio social, conforme apontou Ivair Augusto Alves dos Santos.
A evidência dos dados, os quais colocavam em xeque o “milagre brasileiro” e, também, a crença de que o desenvolvimento do capitalismo traria a superação das desigualdades racias, aliadas à deslegitimação das formas de governos militares, o processo de abertura política e a busca pelo fortalecimento de instituições que pudessem permitir a transição “segura, lenta e gradual”, permitiram que fossem ensejadas críticas a um conjunto de práticas levadas a cabo pelo regime militar, tal como ocorreu às instituições da repressão e, também, à valorização, por parte deste regime, dos princípios da “democracia racial brasileira”, seja pela propaganda oficial, repressão aos movimentos que traziam à tona a discussão racial, bem como o apoio à atuação colonial portuguesa na África.
Estudos realizados pelo IBGE trouxeram à tona índices de expectativa de vida, educação, renda que constatavam o distintivo da cor, principalmente, como marca característica discriminatória. Estes estudos lançaram luzes a respeito, por exemplo, dos “diferenciais de salário e emprego”, pois esses poderiam ser apenas parcialmente “explicados por diferenças nas qualificações, e as diferenças raciais no salário realmente” tendiam “a aumentar à medida que os trabalhadores adquirem níveis mais elevados de educação” 131.
Foi este o sentido dado pelo jornal FSP em notícia cujo foco era o mascaramento de dados do IBGE, os quais traziam à tona a discriminação racial, em ‘Trabalho ficou “engavetado” desde 1981’ 132.
Segundo esta reportagem, o trabalho de recolhimento e análise dos dados foi concluído em 1981 e teve como resultado dois projetos O lugar do Negro na Força de
Trabalho, que fazia uma análise dos dados recolhidos pelas pesquisadoras e Aspectos da
130 ANDREWS, 1998, p.323. 131 Ibid., p. 256.
Situação Sócio – Econômica de Negros e Brancos no Brasil, o qual “apresentava os
indicadores levantados com comentários objetivos”. O primeiro, apesar de impresso não teve a distribuição autorizada; já o “segundo nem chegou a ser impresso”.133 Se o primeiro expressava, explicitamente, que os dados apresentados eram da responsabilidade da autora, o segundo, conforme uma das pesquisadoras, trazia claramente a evidência do racismo no Brasil.
Esta notícia, publicada no domingo na editoria de cidades, trouxe a questão da discriminação no Brasil como prática cotidiana, mas, seu foco principal estava voltado para o