1.5. Bütçe Açıklarının Finansman Yöntemleri
1.5.2. Borçlanma
Ao longo deste trabalho deparamo-nos com questões que falam de fenômenos não somente individuais, mas que também surgem no coletivo. A analogia entre individual e coletivo foi explorada por Freud em um belíssimo texto de 1921. Freud inicia Psicologia das Massas e Análise do Eu esclarecendo que o ser humano não pode prescindir do seu vínculo com os outros, pois esta alteridade entra na vida do indivíduo como modelo, como objeto, como aliado, como inimigo e, por isso mesmo, “a psicologia individual é simultaneamente
psicologia social” (FREUD, 1921, p. 67). A constituição da subjetividade dar-se-ia por meio das relações com os outros, fazendo com que os fenômenos sociais e os processos narcísicos entrassem em oposição. Ou seja, Freud destaca que quando se fala de psicologia das massas é necessário indagar a influência exercida sobre o indivíduo por um grande número de pessoas às quais está ligado por algo. Em outras palavras, a psicologia social pensa o indivíduo como membro de um povo, de uma casta ou como integrante de uma multidão organizada em forma de massa durante certo período e para um determinado fim. Ela pensa o indivíduo pertencente a um grupo e ligado a este por questões mais especificas, questões essas que veremos a seguir. Ao recordar as colocações de Le Bon, Freud destaca no texto as alterações psíquicas que a massa impõe ao indivíduo. Ao entrar na massa, o indivíduo ficaria submetido a condições que lhe permitem jogar abaixo as repressões de suas moções pulsionais inconscientes. Estas exteriorizações do inconsciente, de acordo com Freud, “sem dúvida contém, como disposição [constitucional], toda a maldade da alma humana” (1921, p. 71). O fato de ser um indivíduo no meio de tantos – em outras palavras, o anonimato da massa – facilita uma suspensão da repressão e um apagamento da consciência moral e do sentimento de responsabilidade. Colocado de outra forma, este primado do inconsciente fala do funcionamento de um processo primário no qual se dá o desaparecimento das inibições e a realização das pulsões. A massa, com sua paralisação da capacidade crítica individual, com sua restrição do narcisismo com a qual as diferenças e as singularidades dão espaço à homogeneização, com sua inibição do pensamento, é essencialmente crédula e sedenta de mentira e ilusão. Devido ao predomínio da fantasia e da ilusão e, de acordo com as palavras do autor, sujeita ao poder mágico das palavras: “o irreal sempre prevalece sobre o real” (FREUD, 1921, p. 76).
E que elemento poderoso é esse que tece a ligação entre os membros da massa? De acordo com Freud: “vínculos de amor (o expressado de maneira mais neutra, laços afetivos) constituem também a essência da alma das massas” (1921, p. 87). Deste modo, a libido, por meio de sua ação adesiva e aglutinadora, seria a única possibilidade de elo. O indivíduo abre mão de sua peculiaridade para não se opor aos outros, “por amor a eles” (p. 88). Essas ligações eróticas dar-se-iam não somente com os outros membros da massa, mas também com o líder. Aqui entra outra contribuição valiosa da visão psicanalítica, que reconhece as identificações como a primeira exteriorização de uma ligação afetiva com o objeto, como a forma mais originária de ligação com o outro.
Relembremos sucintamente, dentro deste tópico, as três fontes de identificação apresentadas por Freud. A mais originária, a da identificação com a mãe, seria a mais
totalizante. A segunda fonte seria uma situação de introjeção do objeto alvo da admiração e amor dentro do ego, como, por exemplo, o apaixonamento. A terceira forma de identificação, mais próxima ao tema do nosso estudo, seria a projeção de uma comunidade em um indivíduo, ou seja, em um líder. Surge, aqui, outro elemento importante a ser destacado: questão da idealização, na qual o objeto vai adquirindo mais e mais espaço dentro do ego, acarretando, desta forma, empobrecimento e enfraquecimento egóicos. Colocado de outra maneira, o objeto consome a libido do ego e termina por ocupar o lugar do ideal de ego. Ao apresentar o desenvolvimento desta instância, Freud esclarece que se “separa o resto do ego e pode entrar em conflito com ele e a esta atribuímos as funções da observação de si, da consciência moral, de censura onírica e o exercício da principal influência da repressão; é chamada de “ideal de ego” (1921, p. 103). À medida que o ambiente vai apresentando mais exigências ao ego, este nem sempre consegue responder a elas. Em contrapartida, ele poderá achar satisfação no ideal de ego, constituído por todos os “eu gostaria de ser” que o ego individual não alcança na realidade. Por conseguinte, toda idealização é uma construção libidinal e narcísica. Podemos concluir que na identificação o objeto fica no lugar do ego e na idealização o objeto fica no lugar do ideal de ego. Estas duas ligações são cruciais na formação da massa, cuja definição Freud sintetiza com as seguintes palavras: “Uma massa primária dessa índole é uma multidão de indivíduos que puseram um objeto, um e o mesmo, no lugar de seu ideal de ego, em conseqüência disso se identificaram entre si no seu ego” (1921, p. 109, grifo do autor).
Deste modo, para esclarecer a estrutura libidinal de uma massa é indispensável recorrer à diferenciação entre o ego e o ideal de ego e ao duplo tipo de ligação aqui possibilitado: identificação e idealização. Freud conclui: “Compreendemos esse assombroso fenômeno dizendo que o indivíduo abre mão de seu ideal de ego e o permuta pelo ideal da massa corporificado no líder” (1921, p. 122). Ou seja, a identificação descreve a estrutura global na qual os indivíduos identificaram seus egos através de um ideal comum encarnado por um líder.
Podemos retomar aqui alguns dos relatos apresentados anteriormente. A ponte para pensar a maldade de um indivíduo para um grupo de indivíduos parece ficar mais accessível graças a esse texto de Freud. A dominação implica dominador e dominado,, ou seja, é social per se. Esse sentimento de pertencer a um grupo, seja ele chamado “nazistas”, “jovens de classe média”, “hutus”, “americanos”, unido pelos mesmos valores, aglutinado pelos mesmos ideais, irmanado em sua forma de pensar, automaticamente faz com que os que não estejam
incluídos, os não-pertencentes a esses tecidos sociais, sejam vistos como passíveis de qualquer tipo de destruição.
São atos contra grupos específicos; trata-se, portanto, de motivações coletivas, encapsuladas e fundidas em um ideal – ou ideais – comum, em uma blindagem narcísica, guiados por um líder que representa seus mais profundos desejos de ser. A diferença entre pertencer ao grupo e não pertencer opera como um motor sem que haja espaço para a igualdade, ou tolerância, ou respeito. De acordo com José Moura Gonçalves Filho, os dominadores têm necessidade de aprofundar o estranhamento do dominado, há uma resistência narcísica que garante a não aproximação ao outro (informação oral)16. Retomaremos essas colocações mais adiante, no capítulo sobre mal banal.
A ligação entre o fenômeno individual e fenômeno coletivo aprofunda-se ainda mais, adquirindo mais importância para nossos relatos, com o acréscimo do sentimento de culpa e da consciência moral. Para isso, precisamos visitar o conceito de superego em Freud.