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Conforme se pode ver, embora as instituições tradicionais que compõem o STB são muitas vezes desempenhadas por especialistas, quase todos os membros da comunidade, senão todos, exercem algum tipo de função (direta ou indireta). Nota-se que a partir do contato interétnico os barae foram interferindo, até influenciando, mas, na maioria das vezes, impondo os seus próprios costumes e práticas, dentre os quais, nas instituições de lida com a morte.

O atual modo dos Bororo lidar com a morte consiste em uma composição híbrida do modelo Bororo e do modelo não-índio de manejar a morte. Dentre as instituições que visam proteger da morte encontram-se os sistemas de proteção contra a morte violenta, exercidos predominantemente pela FUNAI e outros orgãos auxiliares (quando solicitados), sendo que também subsistem, ainda que fragilmente, os modos próprios de luta Bororo. Ainda na luta contra a morte há as instituições de saúde que visam prevenir, tratar e curar as enfermidades, a fim de livrar da morte; por um lado, há os tradicionais bári, benzedores e o erúbo; por outro, alternativamente, encontram-se os sistemas de saúde dos barae exercidos por médicos, enfermeiros, dentistas, agente sanitários etc. No STB também estão presentes as instituições que lidam com a morte propriamente dita, dentre elas, encontramos as práticas fúnebres compostas pelo Itága Bororo, mas também há entre os Bororo aqueles que realizam as cerimônias fúnebres dos barae; sendo que cada qual se baseia em instituições que visam dar um sentido à morte, às quais correspondem a escatologia e religiosidade Bororo (com seus

aróe maiwu aroetawaare, bári, líderes culturais etc.), e a outra fundamenta-se na

religiosidade e escatologia cristã dos civilizados (representado por padres, religiosos e cemitérios).

Nas aldeias Bororo, por vezes, os sistemas Bororo e baraedu se compõem e interagem; porém, às vezes, estes se tensionam e se conflitam. Hodiernamente, neste

contexto, os Bororo resistem e mantêm, ao menos em parte, os seus modos tradicionais de manejar as situações de morte, para que com o uso de tais estratégias possam enfrentar a vida cotidiana.

7 - VIDA VERSUS MORTE; VIDA E MORTE: DOIS JEITOS DE LIDAR COM A MORTE; DOIS JEITOS DE VIVER

“Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver” (Mario Quintana)

Verifica-se pelos relatos precedentes que as culturas linenses e Bororo, assim como seus respectivos Sistemas Tanatológicos (ST), embora sejam marcadas por diferenças grandiosas, possuem algumas semelhanças - desnecessário dizer que tais semelhanças estão fundadas no fato de que, como todo ser humano, tanto os linenses quanto os Bororo dependem dos cuidados e dos vínculos que estabelecem com os outros, que em algum momento morrem. Ou seja, ao que tudo indica, a semelhança nas condições biológicas e existenciais justificam algumas similaridades tanto nos impactos sofridos diante da morte como no modo de reagir a estes. Em ambos os grupos constata-se a existência de entendimentos coletivos sobre o modo próprio de enfrentamento da morte, expressos mediante modelos sociais institucionalizados que pautam as condutas individuais e coletivas diante da morte e, sobretudo, pautam a lida com os doentes graves, moribundos, mortos e enlutados.

Por outro lado, há também consideráveis diferenças nas manifestações do luto e nos arranjos estruturais e dinâmicos dos ST específicos. Estas distinções se dão devido às construções sócio-históricas que modelam as instituições integrantes dos referidos ST, o que esclarece as diferenças nos modos de reagir à morte em cada uma dessas culturas, causando, assim, distintas interveniências na vida dos vivos. Considerando-se que as instituições sociais constituem-se, conforme a posição assumida por Berger e Luckman (2001), por tipificações de ações realizadas por atores pré-definidos, que perduram no tempo e que são legitimadas, dir-se-ia que alguns aspectos verificados no Sistema Tanatológico Bororo (STB) e no Sistema Tanatológico Linense (STL) estão plenamente instituídos, porém, outros encontram-se em processo de instituição.

Mas, antes de tratarmos das rupturas e dos modos de superação de linenses e Bororo, parece-nos importante descrever as diferenças, ainda que gerais, nas interações sociais dos membros destes grupos. Os Bororo se vinculam uns com os outros a partir de um modelo de sociedade coletiva que marca a sua organização social (as obrigações mútuas das duas metades Ecerae e Tugarege); a arquitetura da aldeia (o privado representado pelas casas, na

periferia da aldeia, enquanto o baíto, espaço da coletividade, fica no centro da aldeia); os seus valores; o regime de trabalho de cooperação etc. Isso parece gerar vínculos mais intensos e extensos entre os seus membros. Já o vínculo estabelecido entre os linenses, ocorre dentro de uma sociedade cada vez mais individualista, com foco no privado e na supervalorização do indivíduo. Assim, para cada indivíduo, o estabelecimento de vínculos não se dá com todos os linenses, mas apenas com uma porção desta população, além do que os laços sociais entre eles, muitas vezes, se formam e desformam numa rapidez considerável. Os resultados de nossa pesquisa empírica confirmaram o que nossos referenciais teóricos já indicavam: que a qualidade de constituição dos vínculos influenciam nos modos de enfrentamento dos rompimentos de vínculos. Embora esse não seja o único fator que implica na intensidade de tais rupturas, é um dos elementos centrais que influenciarão no grau de sofrimento e na elaboração da consternação provocada.

O STB e o STL são marcados basicamente por ações, discursos, técnicas e símbolos relativos à morte e ao morrer, sendo que foram encontrados em ambos três tipos de instituições: as que visam prolongar a vida e, dentro do possível, evitar a morte (curando, salvando e protegendo); na impossibilidade disso, encontramos as instituições que vão intervir nas ocorrências de morte (cuidados para com os moribundos, mortos e enlutados) e as instituições dotadas de um discurso escatológico que propõem um sentido, no mínimo razoável, para as situações de morte. No entanto, há entre linenses e Bororo distintos aparatos sociais (estrutural e funcional), papéis sociais, status e grau de investimento social, político e econômico, mobilizados para cada uma dessas três frentes.

Com base nas investigações, é possível indicar que o STL e o STB se fundamentam em um modelo triádico, no qual concentram-se as mais relevantes ações e discursos de lida com a morte. Este modelo triádico é formado a partir da coalizão dessas três frentes, que interagem de modo interdependente e integrado. Assim, nas situações de morte, ao serem acionadas as instituições que compõem estas frentes, ora trabalham isoladamente, ora em conjunto, sendo que possuem tarefas semelhantes e outras muito particulares. Não obstante, oferecem modelos e normas que indicam os modos e, por meio da divisão de trabalhos, estabelecem papéis sociais incumbidos de atuarem contra a morte, na morte e ressignificando a morte. Deste modo, os STB e STL funcionam como norteadores, pois ofertam “soluções” e sistemas de referências comuns, capazes de sinalizar os modos de enfrentamento coletivo e individual nas situações de morte. Com isso, orientam e atenuam, cada qual ao seu modo e com diferentes graus de eficácia, o sofrimento de linenses e Bororo diante dos impactos provenientes dos diversos momentos do morrer.

7.1 - VIDA VERSUS MORTE: O JEITO LINENSE DE LIDA COM A MORTE E SUA